FALA GAROTO! O RAP COMO LUGAR DE ENCONTRO, DIÁLOGO, APRENDIZAGEM E DIVERSÃO.


O último encontro da oficina de
Rap Identidade Cultural no Conjunto Jardim, periferia do município de Socorro
(SE),  realizado no dia 01 de Outubro do
corrente ano,  foi mais uma vez bastante
positivo  e,  o que aconteceu nesse dia  merece ser relatado e compartilhado, principalmente
por causa destes tempos de incertezas, traições/golpes  e de perspectivas sombrias para quem é pobre,
preto e periférico. Tempos em que precisamos aprender  novos formatos de conversas  com  as
pessoas, em especial  a juventude,  ou reaprendermos  algumas formas esquecidas ou em desuso. 

Nesse encontro  foi exibido slides e conversamos sobre Chico
Mendes e a luta em favor da Amazônia. Prosseguimos refletindo sobre a juventude
que temos e a que queremos, a partir da continuidade da produção de uma letra
de rap, em seguida  discutimos questões de
gênero, a partir do programa “ Melhor e Mais Justo”,    produzido pela TVT, emissora de televisão que
nasceu de uma parceria do sindicato dos metalúrgicos do ABC-SP e do sindicato
dos bancários de SP. O que  foi
apresentado neste dia,  tratou do tema   “Minasdo Rap”. A TVT também  colabora com os
nossos encontros de oficina, através da série de reportagens “Art e Arte”,  sobre os saraus nas periferias de SP.

 Para concluir, como de costume, ouvimos uma
canção de rap, gravada por um compositor  cadeirante e  cujo tema principal de suas  composições,   são as
dificuldades da vida dos   portadores de
necessidades especiais.

Em termos de quantidade de
participação   o numero médio fica em torno de 5 adolescentes
e jovens, podendo em alguns casos chegar ao total de oito pessoas.  A faixa de escolaridade se situa entre o que estão no  6º
ano e os que concluíram o ensino médio. Há quem 
estude e trabalhe ao mesmo tempo, de carteira assinada ou fazendo  bico para colaborar com a renda  famíliar, às vezes trabalhando com o pai. Há
quem somente só estude ou só trabalhe.

Um dado interessante é que a
oficina atrai alguns alunos que não levam muito a sério o estudo nas aulas
regulares,  e para reforçar a necessidade
da participação deles na oficina e vice e versa, já dizemos  mais de  uma vez,  que muito daquilo que eles aprendem
na oficina será importante para o estudo regular e para a vida de uma maneira
em geral. Ate porque ,  tem acontecido
discussões  importantes  sobre conceitos no campo da  História como o fato de servo ser o mesmo que
escravo, por exemplo, e sobre questões ligadas ao mundo da gramática, como o
uso de verbos e etc..

A pesquisa e a produção de slides
é realizada pelo educador/oficineiro e MC David dos Santos, morador da
comunidade e  principal articulador
da  oficina, juntamente com seus
companheiros Van Brown e Wilian Collectors. Todos os três são educadores/oficineiros.

A nossa participação na oficina acontece como assessor pedagógico, orientando o processo de planejamento pedagógico e em alguns momentos, mediando/facilitando a discussão de alguns temas e conteúdos.

A proposta de seleção de slides com o tema “lutadores e lutadores do povo”, é fruto das discussões de avaliação
do primeiro ciclo anual da oficina realizado em 2015. Essa escolha foi
feita,  com base na necessidade em
aprofundar um pouco mais  o
conhecimento  sobre  alguns ícones das lutas dos povos oprimidos e
 populações marginalizadas, como
Mandela,  Martin Luther King, Malcom X, Bob
Marley, Ghandi e etc., assim como trazer  outros nomes  menos conhecidos, como Carlos Mariguella,  apresentado a comunidade nacional dos amantesdo Rap pelos  Racionais MCs.  E dito e certo, Chico Mendes era desconhecido
para  uns e quem o conhecia,  tinha pouquíssima  ou quase nenhuma informação sobre ele.

O vídeo “Minas do Rap” foi
escolhido para prosseguir a discussão sobre a participação das mulheres no Rap,
espaço de presença majoritária formado  por homens. Assim como na primeira
discussão,  tivemos o retorno de uma 
questão que merece  a  presença de algumas meninas e mulheres para
que possa ser mais e melhor  discutida.
“Afinal, qual a necessidade das mulheres utilizarem o Rap para falar dos seus
problemas “particulares” com os homens, já que faz mais sentido o Rap se
preocupar com as questões gerais da opressão que se abate sobre todos os
pobres, pretos e periféricos, independente da condição de ser homem ou mulher?

Sobre a presença de algumas
meninas e mulheres, isso aconteceu mais no inicio do projeto, no ano de 2015, inclusive
com a presença de uma educadora/oficineira, a qual infelizmente precisou se
afastar por motivos particulares, agravado pelo fato de morar em um outro
bairro distante. Com o tempo, o número diminuiu e este ano só contamos com a
presença de meninas  apenas em dois
momentos. 

A oficina de rap  também  conta com a apresentação de slides ou vídeos
sobre a história das linguagens/elementos do hip-hop (rap, dança urbana,
grafite e DJ), assim como  sobre nomes de
pessoas de destaque  ligadas a este
universo, como é o caso de Nelson Triunfo, um dos mais conhecidos dançarinos
(bboy ou bman) brasileiros e sobre os Racionais MCs. Neste particular merece
destaque, uma série produzida pela TV Gazeta intitulada História do Rap. 

Em cada encontro de oficina
também apresentamos um clip ou áudio  de
uma canção de rap, acompanhado da leitura e interpretação da letra da
composição, isso é muito legal porque alguns nomes como Gog, Rapadura e Criolo,
por exemplo,  muitas vezes  não são tão presentes na seleção musical
cotidiana  de alguns manos ligados ao projeto. Dessa
maneira,  se torna um bom momento para a  diversidade do  rap nacional  poder se expressar.  

Em termos de produção musical,  temos uma canção  produzida como resultado  da oficina 2015 e já gravada. Um dos autores
intérprete, César Levines,  segue
atualmente carreira independente com algumas produções próprias, com uma pegada
mais ligada ao funk e ao tema dos relacionamentos do afeto e da amizade.  Para o ano de 2016, também está
prevista a gravação de uma ou duas canções coletivas e canções individuais de
Paulo Junior, o qual  começou a compor
este ano,  integrando a turma 2016 da
oficina de rap.

Além de encontros semanais como o
que foi  descrito acima, é realizado uma
vez por mês o Cineclube Realidade, cujos filmes escolhidos tem como temática  preferencial, 
 a realidade  da vida da 
maioria do público que produz e que gosta da cultura hip-hop. Os filmes
colaboram para fortalecer o quinto elemento do hip-hop, a informação. 

 Zezito de Oliveira  – educador e produtor cultural de iniciativas culturais de base comunitária.

 

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