O BRASIL QUE QUEREMOS

 
Textos sobre a mãe de todas as reformas. A reforma politica.

*Plebiscito Popular pela Reforma da Constituição*

*Plínio Arruda Sampaio*

O processo de elaboração da Constituição de 1988 teve dois momentos

distintos. O primeiro vai da abertura dos trabalhos até a entrada da


proposta aprovada na Comissão de Sistematização e a segunda, da Entrada na


Comissão de Sistematização até a promulgação do texto aprovado em Plenário.


Na primeira etapa, a esquerda levou a melhor sobre a direita; na segunda,


deu-se o inverso e a direita conseguiu alterar bastante o texto aprovado na


Sistematização.




O texto aprovado na Sistematização organizava o sistema político na forma


parlamentarista. No Plenário, a maioria mudou o sistema político de


parlamentarista a presidencialista.




Esta mudança criou uma limitação da qual se ressente até hoje o texto


constitucional. Isto por uma razão bem simples: Os artigos de uma


Constituição não são isolados, mas relacionados entre si pela lógica


interna do sistema. O sistema parlamentarista tem uma lógica, o sistema


presidencialista, outra. Desse modo, um artigo parlamentarista em um texto


cujos outros artigos respondem à lógica parlamentarista gera uma série de


dificuldades na hora de aplicação do texto constitucional aos casos


concretos.


A mudança do texto deu-se em decorrência da criação de um agrupamento


parlamentar denominado Centrão. Este “Centrão”, que de Centrão não tinha


nada, pois estava integrado por deputados e senadores reacionários, foi


criado por iniciativa de um grupo de banqueiros e grandes empresários,


assustados com o caráter progressista que o texto estava adquirindo na


Comissão de Sistematização. Em certo dia, eles convidaram esses


parlamentares para uma reunião no Hotel Carlton em Brasília e os fizeram


comprometer-se a duas coisas: a comparecer a todas as votações e a votar de


acordo com os interesses do grande capitalismo.




A razão pela qual a esquerda, embora sendo minoria, ganhava todas as


votações da Comissão de Sistematização era a ausência dos parlamentares da


direita. O ano de 1988 era uma ano eleitoral e os parlamentares da direita


preferiam estar percorrendo seus distritos eleitorais em busca de votos a


comparecer ao Congresso. Contribuía também para isso, o desejo de se


furtarem à pressão que sobre eles exerciam os representantes dos sindicatos


e organizações progressistas da sociedade civil. Esses representantes não


faltavam a uma reunião da Comissão e se manifestavam ruidosamente todas as


vezes que um parlamentar da direita votava contra as propostas


progressistas.




Mas o grande responsável mesmo pela mudança no teor do texto aprovado na


Comissão de Sistematização foi o deputado Ulysses Guimarães, Presidente da


Assembléia Nacional Constituinte, porque foi ele que, contrariando o


dispositivo regimental referente à matéria, pôs em votação proposta do


“Centrão” modificando a forma de votação das emendas. Era esse modo que


possibilitava à minoria progressista vencer a maioria reacionária. A razão


disso é a seguinte: os representantes da direita na Comissão, pelas razões


já expostas, não compareciam nas sessões, o que retirava o quorum requerido


para o funcionamento das mesmas. Elas só podiam realizar-se porque o


Presidente fazia uma verificação virtual de presença. Cada líder de bancada


anuía e a sessão era aberta. Porém, caso algum deputado pedisse a


verificação individual das presenças a sessão seria derrubada. Os líderes


das bancadas dos partidos de esquerda, então ameaçavam: ou votam de acordo


conosco ou derrubamos a sessão,coisa que, se acontecesse impediria a


elaboração do texto constitucional. Ora, o procedimento para aprovação de


emendas prescrevia que se considerar aprovada aquela que recebesse a


maioria dos votos dos parlamentares presentes na sessão e, para derrotá-la


era necessário obter mais de dois terços dos votos dos presentes – número


este que a direita não dispunha. Pois bem, ao chegar o texto aprovado na


Sistematização em Plenário, o “Centrão” apresentou uma proposta de


modificação do Regimento Interno na Constituinte invertendo o processo de


aprovação. De acordo com esta proposta, o número de votos necessário para


aprovação de uma emenda é que passaria a ser de dois terços. Isto


evaporaria a vantagem da esquerda, porque ela não contava com esse número


de votos.


O Dr. Ulysses pôs da proposta em votação e a mesma foi aprovada. Dai por


diante, ela foi anulando um por um os avanços obtidos na etapa anterior. Um


dos capítulos mais atingidos foi o referente ao sistema político. Urge


corrigir essas distorções, a fim de possibilitar eleições verdadeiramente


democráticas.




Por isso, 71 entidades da sociedade civil, decidiram lançar uma campanha


para a realização de um plebiscito popular com a finalidade de corrigir as


distorções do texto atual. Trata-se da convocação de uma Assembléia


Constituinte formada por parlamentares eleitos exclusivamente para o fim de


reformar o Capitulo do Sistema Político da Constituição de 1988. As


correções desejadas visam estabelecer a igualdade de todos nas disputas


eleitorais, pois sem tal igualdade não se pode falar em verdadeira


democracia. São elas: financiamento publico das campanhas eleitorais,


estabelecimento de porcentagens de número obrigatório de vagas para


mulheres e para negros nas chapas de todos os partidos políticos,


fortalecimento dos mecanismos de democracia direta.




O financiamento público das campanhas proibirá o financiamento privado.


Todos os candidatos terão direito a uma determinada importância para


sufragar os gastos das suas campanhas. Essas quantias serão iguais para


todos os candidatos. O Juiz Eleitoral enviará a cada candidato uma lista


com os gastos que ele poderá fazer para serem pagos com dinheiro público.


De posse dessa lista, o candidato fará o gasto e a firma que vendeu-lhe o


bem ou o serviço comprado apresentará a fatura ao Juiz Eleitoral, que fará


o pagamento caso a compra faça parte da lista dos gastos permitidos.O


parágrafo único dessa Lei prescreverá que o candidato que burlar a lei terá


seu registro automaticamente cancelado e deverá pagar multa pela infração.


O mesmo acontecerá com a empresa ou a pessoa que tiver feito a doação.


Ambos, candidato e doador serão processados criminalmente por qualquer


manobra que tiverem feito no intuito de burlar a lei.




As entidades patrocinadoras do plebiscito popular apelam para todos os


cidadãos para que venham participar da campanha, a fim de que a mesma seja


vitoriosa.


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Antônio David: O tempo corre contra Dilma

publicado em 15 de setembro de 2013 às 1:38

O impasse do lulismo, ou a inexorável necessidade de encontrar a justa medida
por Antônio David, especial para o Viomundo
I – Manifestações e manifestantes
“O gigante acordou”. Mais do que um bordão repetido durante os
protestos de junho pelo Brasil, a expressão parece corresponder à
representação que os manifestantes fizeram de si mesmos, como se naquele
momento tivéssemos testemunhado não a expressão de um conflito no
interior da sociedade, mas um grito da sociedade contra algo ou alguém.
Penso que essa estranha autorepresentação coloca-nos diante de um
traço nefasto da cultura política brasileira: a imagem da indivisão
social.
A violência que marca as relações sociais no Brasil é
sistematicamente ocultada, para em seu lugar impor-se a imagem de uma
sociedade harmônica e coesa. Talvez Gilberto Freyre seja quem tenha
levado mais longe essa imagem, quando propõe que no Brasil subsista um
“equilíbrio de antagonismos”: apesar dos antagonismos, haveria entre nós
equilíbrio. O interessante é que a fórmula pode ser invertida: apesar
do equilíbrio, a sociedade brasileira é recortada de cima a baixo por
antagonismos.
Guardamos hoje os traços de nosso passado escravocrata. Herdamos dele
a abissal desigualdade entre ricos e pobres. Como todas as sociedades
complexas, também a nossa é dividida. Ocorre que a sociedade brasileira
não é apenas dividida; é muito dividida.
Quando Lula foi eleito em 2002, o Brasil era o país mais desigual do
mundo; ainda hoje figura entre os mais desiguais. E talvez justamente
por ser tão desigual, é que se imponha com tanta força a imagem de uma
sociedade harmônica e coesa, simbolizada pelo verde-amarelo.
Afinal, quem foi às ruas? Acompanhando os debates públicos, parece
haver dúvidas sobre o perfil dos manifestantes. Uma coisa é certa: não
foi o “povo”, em abstrato, o protagonista dos protestos. E aqui não
pretendo fazer reparações àqueles que vocalizam essa percepção.
Não se pode exigir daqueles que intervêm no debate público e exercem
influência sobre a opinião pública que abram mão de “disputar o
significado” de junho. No entanto, a atitude da disputa só é válida se
puder conviver com outra atitude: o esforço de apreender as contradições
da realidade.
Se o coro em uníssono contra a corrupção associado ao
verde-amarelismo  criou a impressão do despertar do “gigante”, por trás
da aparente celebração há um fato inexorável: em junho, saíram às ruas
frações de classe. E, como sabemos, frações de classe distintas em geral
possuem motivações e interesses distintos, não raro antagônicos.
Seja pelo método empírico do olhar, seja considerando o que apontaram
uma série de pesquisas feitas junto aos manifestantes a fim de traçar
seu perfil, parece factível a hipótese de que, no interior do gigante,
havia preponderantemente duas frações de classe.
De um lado, uma parcela do proletariado, que o sociólogo Ruy Braga
chama de “precariado” – jovens que estudam e ao mesmo tempo trabalham,
concentrados no setor de serviços, vulneráveis à altíssima rotatividade
desse setor, submetidos a um ritmo de trabalho frenético, mas que
experimentaram conquistas nos últimos anos via ensino superior privado,
carteira assinada, renda e crédito.
De outro, a classe média tradicional – um setor da sociedade que, a
despeito de usufruir a palavra “média” no nome, situa-se no topo da
pirâmide social, e que, a despeito de também ter sido beneficiada nos
últimos dez anos, sente-se profundamente ameaçada pela ascensão dos de
baixo.
Enquanto os primeiros almejam melhores condições de vida e de
trabalho, compatíveis com sua qualificação profissional, os segundos
querem os “mensaleiros” na cadeia.
Para além das demandas, o mais importante talvez seja procurar saber
quais afetos dominam cada uma dessas frações. Arriscaria dizer que,
entre os primeiros, fortes expectativas criadas pela ascensão social
convivem com sentimentos de inquietude e frustração face às dificuldades
de realizar as expectativas que nutrem; entre os segundos, o medo da
perda de privilégios aliada ao ódio de classe, fruto da perda de posição
de sua ideologia na sociedade – afinal, a classe média ampara-se na
ideologia do mérito, ou seja, na naturalização da desigualdade.
O curioso é que, apesar do aparente uníssono nas ruas, no que
realmente importa uma e outra frações de classe almejam o exato oposto
–enquanto os primeiros reivindicam mais e melhores serviços públicos, os
segundos reivindicam menos impostos. E, no entanto, o que observamos em
junho foi uma estranha aparência de comunhão de interesses e de
engajamento.
Claro está que os desejos antagônicos de um e de outro se cruzam num ponto: no repúdio à corrupção.
Mas não devemos nos enganar quanto a esse ponto comum. É certo que o
tom antipartido das manifestações fez parecer haver uma repulsa geral à
política institucional, talvez mesmo uma demanda por democracia direta.
Porém, se a tônica das manifestações era “contra os partidos e os
políticos”, pesquisa feita em São Paulo mostrou que mais de 50% dos
manifestantes têm candidato para 2014: Joaquim Barbosa e Marina Silva.
Contra os partidos, pessoas. Claro que a eleição é só um aspecto, e
talvez não seja o mais importante; mas é sintomático.
Para tornar o quadro ainda mais complexo, uma parcela majoritária da
classe trabalhadora não saiu às ruas. A fração que o cientista político
André Singer chama de subproletariado assistiu as manifestações à
distância. Possivelmente com alguma desconfiança, pois essa fração teme a
radicalização política, na medida em que vê nela a possibilidade do
desemprego e da perda de conquistas obtidas nos últimos dez anos.
Igualmente, a classe trabalhadora tradicional, do “colarinho azul”,
organizada em sindicatos, com maior experiência política e melhor
remunerada, parece não ter se engajado nas manifestações.
É obvio que saíram às ruas em junho indivíduos dessas duas frações, e
de todas as demais frações. Até burgueses havia em meio às
manifestações – e se as coisas participam da vida política tanto quanto
as pessoas, o prédio da Fiesp na Av. Paulista foi um protagonista dos
protestos de junho em São Paulo. A preocupação aqui é saber quais
frações de classe eram predominantes em junho.
II – A ponta do iceberg
Dito isso, cabe analisar a resposta do governo aos protestos.
Para chegarmos ao ponto que aqui interessa – o impasse na estratégia
lulista –, penso ser útil começarmos pela seguinte constatação:
aparentemente, ao invés de sair pela tangente, o governo abraçou a
demanda vinda das ruas quando propôs a Constituinte Exclusiva.
Por que o governo recuou, se pesquisa do Datafolha mostrou que 73%
dos brasileiros apoiavam a proposta? Por que a mídia faria campanha
contra? Por que, ao cabo, o Congresso e o STF a derrubariam? Isso tudo é
verdade, mas é apenas parte da verdade. Arriscaria dizer que o governo
recuou justamente porque está olhando para as classes sociais e a
política.
Talvez o governo tenha percebido que estes 73% que declararam apoiar a
proposta não se converteriam em mobilização de massa, pois o que
motivou os manifestantes a tomar as ruas não foi a corrupção.
O repúdio geral à corrupção é um dado incontestável, mas não devemos
nos enganar quanto às reais motivações dos manifestantes. O que está em
jogo para o precariado é obter melhores condições de vida e de trabalho;
para a classe média tradicional, bloquear o processo de ascensão social
aberto em 2003, e trocar o PT pelo PSDB.
O governo certamente fez o cálculo: de um lado, apostar na Constituinte, e, exceto se houvesse radicalização política,
correr o alto risco de perder a batalha; de outro lado, apostar no
plebiscito, cujo risco parece ser menor. A opção, à maneira do lulismo,
foi pelo menor risco e sem radicalização. Mesmo assim, o plebiscito
segue de molho. Tudo indica que não ocorrerá.
Ao cabo, para avaliar se o governo errou ou acertou em retirar a
proposta, só há um critério: que classes e frações de classe dariam
sustentação para a proposta, e que classes e frações de classe
combateriam a proposta?
É impossível responder com certeza  tais perguntas, mas é possível e
necessário fazer cálculos, ou, nas palavras de Vladimir Safatle,
“detalhar ao máximo [as] ações e os cenários possíveis que essas
engendrariam” (A esquerda que não teme dizer seu nome,
Três Estrelas, 2012). Há quem sustente que o governo errou ao recuar.
Pode ser. Mas, se errou, não é por que procura seguir à risca este
princípio?
No entanto, tal constatação não esgota o problema, pois parte de um pressuposto:
evitar a radicalização política. Essa parece ser a questão central. Se
assim for, o dilema Constituinte Exclusiva vs. Plebiscito – e por isso
retomo essas propostas – apenas evidencia a ponta do iceberg. É o mero sintoma.
Naquele momento, Dilma fez uma opção. Recuou. Diante dessa conduta,
alguém poderia objetar: “O governo deveria ter mantido a proposta!”. Há
quem vá mais longe: “O governo deveria romper com a governabilidade e
fazer enfrentamentos!”. Não são essas percepções correntes na esquerda?
Aqui, mais do que uma decisão pontual do governo, é o pressuposto
(evitar a radicalização) que é questionado.
Justo. O governo poderia apostar nesse caminho: a via da
radicalização política, da ruptura com a base de apoio no Congresso, do
enfrentamento aberto. Por que não aposta? Penso ser necessário esmiuçar
as razões dessa opção.
III – Classes e frações de classe
A classe trabalhadora brasileira não é um todo homogêneo. Possui
frações. Além do proletariado fabril, cujo paradigma é o metalúrgico, há
uma nova classe trabalhadora, predominantemente jovem, que ascendeu via
ensino superior privado, tem maiores expectativas, seja de padrão de
vida, seja de trabalho, mas não enxerga perspectivas de futuro no
mercado de trabalho – pois não há perspectivas. Por isso, vive sob
tensão.
Por outro lado, há outra fração da classe trabalhadora, muito
superior em tamanho, que ainda vive em condições de pobreza e miséria, e
que constitui a principal base social e eleitoral do lulismo: o
subproletariado. Essa fração quer mudanças, mas possui um traço
conservador: rejeita a radicalização política, na medida em que associa
(não sem razão) a instabilidade política ao desemprego e à carestia.
Para mantê-los ao seu lado e favorecê-los, a estratégia dos governos
Lula e Dilma consiste em evitar a radicalização. De fato, este setor tem
sido beneficiado: a pobreza e a desigualdade estão caindo, ainda que
muito lentamente – o traço conservador está na lentidão do processo.
O fato é que o governo tem razões para evitar a radicalização
política: a radicalização suscitaria crises, instabilidade, fuga de
capitais etc., o que tenderia a elevar o nível de desemprego e a afetar
diretamente o subproletariado.
Nessa situação, além do risco de ver bloqueado o processo (lento) de
redução da pobreza – o qual supostamente depende de haver estabilidade
econômica, bem como de uma ampla base de apoio no Congresso Nacional –,
essa fração de classe poderia enxergar na direita uma alternativa
política, como fez em 1989, 1994 e 1998, quando deu a vitória para
Collor e FHC.
Some-se a isso o fato de que hoje a classe média tradicional
é, dentre todas as classes, aquela que está se sentindo mais
prejudicada e parece ter maior força de ânimo para ir às ruas manifestar
seu descontentamento, com pitadas de protofascismo, como já ocorreu
outrora na história do Brasil. Assim, é de se supor que a radicalização
por parte do governo teria repercussões diferentes na sociedade,
alimentando, sobretudo, a radicalização da classe média.
Porém, na medida em que viabiliza a ascensão social dos de baixo, a
estratégia lulista cria cada vez mais a necessidade de empreender
reformas estruturais, a começar pela abertura e dinamização do mercado
de trabalho e pela melhora radical dos serviços públicos, a fim de
viabilizar a continuidade da ascensão dos que já ascenderam, caso
contrário estes ficarão estagnados economicamente.
Além disso, precisa envolver a organização e a mobilização da nova
classe trabalhadora, para que esta lute por seus direitos, caso
contrário essa fração de classe poderá optar por alternativas
conservadoras – a história é recheada de exemplos nesse sentido. Se a
nova classe trabalhadora pender para a direita, não se trata de perder
apenas o governo nas urnas. É o processo em curso de combate à pobreza e
à desigualdade que será bloqueado.
IV – Impasse e paradoxo
Dito isso, o impasse da estratégia do lulismo pode ser colocado nestes termos: de um lado, o governo precisa evitar a radicalização,
não só por razões eleitorais, mas também por razões econômicas: a
radicalização provavelmente paralisaria o governo, enquadrado que está
pelo mercado, Congresso e Judiciário, e por conseguinte provavelmente
elevaria o desemprego – o que, para além das repercussões eleitorais,
faria a desigualdade voltar a aumentar; de outro, o governo precisa investir na radicalização,
pois, na medida em que os trabalhadores ascendem, a continuidade de sua
ascensão exige enfrentamentos, necessários para haver mudanças
estruturais na economia brasileira e no serviço público.
Prensado entre duas frações de classe, o governo vê-se então diante da necessidade de evitar a radicalização e, ao mesmo tempo,
de investir na radicalização. Desnecessário dizer que rifar uma das
frações de classe não é alternativa. Daí ser duvidoso que a saída para o
impasse reduza-se à mera opção entre evitar ou investir.
Não surpreende que essa formulação, pela qual se impõem
simultaneamente duas tarefas antagônicas, soe estranha. A dificuldade em
ver o impasse deriva não apenas da dificuldade em observar uma
contradição no seio da própria classe trabalhadora, mas também, e
talvez, sobretudo, em depreender o paradoxo do lulismo: parecendo ser
uma coisa, o lulismo é o exato oposto. Vejamos.
É lugar comum a constatação de que o governo possui uma estratégia da
acomodação dos conflitos e de amortecimento das lutas. Muitos falam em
cooptação dos movimentos sociais e sindicatos. Contudo, ao examinar a
realidade, o que se pode observar é que, na medida em que o tempo passa,
a estratégia do lulismo produz o exato oposto, ou seja, cada vez mais
alimenta o conflito.
Prova disso é o ascenso de greves operárias em curso atualmente,
relacionado não à piora no mercado de trabalho, mas justamente ao
oposto, ou seja, à melhora (do nível de emprego e renda), permitindo
inclusive que mais de 95% dos reajustes salariais situem-se acima da
inflação.
Em parte, as manifestações de junho enquadram-se nessa formulação,
pois, dentre as causas que levaram o precariado a tomar as ruas, foi
determinante o fato de essa fração de classe nutrir expectativas,
abertas exatamente pelas opções tomadas pelos Governos Lula e Dilma.
V – Mantendo as condições de sua própria perpetuação
Aqui é preciso fazer um parêntese. Há quem diga que o lulismo
esgotou-se. Não só discordo dessa tese, como penso ser o exato oposto. O
grande problema do lulismo parece estar exatamente no fato de não ter
se esgotado – ou seja, em ter mantido as condições para sua perpetuação. Pois,
se o objetivo da estratégia inaugurada pelo governo Lula e levada
adiante pelo atual governo é o combate à pobreza e à desigualdade, de
modo a incorporar o subproletariado ao proletariado, então como explicar que, passados dez anos, o subproletariado ainda exista e em tão elevado número? (Se
levarmos em conta as amostras do Datafolha e Ibope em suas pesquisas de
opinião, observaremos que a parte da população que recebe até 2
salários mínimos de renda familiar mensal caiu de aproximadamente 50% em
2002 para 40% em 2013).
O próprio André Singer chama a atenção para isso em seu livro Os sentidos do lulismo
(Companhia das Letras, 2010): “o reformismo fraco, por ser fraco,
implica ritmo tão lento que, por vezes, parece apenas eternizar a
desigualdade”.
De fato, enorme quantidade de pesquisas confirma que a pobreza e a
desigualdade estão caindo, mas muito lentamente – e talvez mais
lentamente ainda com Dilma. Se o lulismo tem um pecado, esse pecado sem
dúvida está na sua longa duração.
Mas é possível ir além na crítica. Passados dez anos, o lulismo não
apenas não cumpriu sua missão – incorporar o subproletariado ao
proletariado – como tem dificuldade de criar as condições para que, uma
vez incorporado, o novo proletariado adquira feições do velho
proletariado.
Senão, como explicar que parte substancial dos
trabalhadores outrora situados nessa fração (subproletariado) e que se
elevaram à condição proletária, estejam hoje submetidos a condições tão
precárias de trabalho –
como no telemarketing ou na hidrelétrica de Jiraú, só para citar dois exemplos?
Finalmente, e voltando ao ponto inicial desse artigo: Como
explicar que, passados dez anos, a percepção social continue sendo
marcada pela imagem da indivisão social, bem expressa na figura do
despertar do “gigante”
?
Essa pergunta, em particular, é tão mais intrigante quando se
constata que, paradoxal que é, parecendo jogar contra o conflito, na
realidade o lulismo só tem alimentado a polarização social no interior
da sociedade. A polarização não só subsistiu sob o lulismo, como
aumentou, fruto exatamente das políticas do governo (não há nada melhor
representativo da polarização do que a opinião generalizada na classe
média sobre o Bolsa Família).
Mesmo assim, não deixou de soar estranho o recado do ex-presidente
Lula ao cabo dos protestos: “façam política”. Isso porque a polarização
alimentada pelo lulismo nos últimos dez anos, apesar de crescente,
parece ter sido despolitizante, ao menos até junho. Assim, o resultado
não poderia ser outro: expressão de uma polarização latente na
sociedade, fruto da agudização do conflito de classes, os protestos
eclodiram escondendo, mascarando e ocultando essa raíz. Em seu lugar,
apareceram como expressão do seu exato oposto, ou seja, de uma sociedade
homogênea, coesa, harmônica, com motivações e interesses convergentes:
contra “tudo o que está aí”.
V – Alerta
Por fim, um alerta: as conseqüências do impasse na estratégia lulista
já se fazem notar eleitoralmente. Comparando as intenções de voto no
segundo turno da eleição presidencial em 2006 e em 2010, a diferença
entre PT e PSDB caiu de 21% (2006) para apenas 6% (2010) na faixa de renda de 2 a 5 salários mínimos de renda familiar mensal,
exatamente onde o precariado está inserido. Uma hipótese é que essa
diferença esteje associada a um processo subterrâneo, lento e invisível
de distanciamento do precariado em relação ao PT.
Reforçam essa hipótese as pesquisas de intenção de voto mais
recentes, as quais não mostram um quadro mais favorável. Ao contrário.
Segundo o Datafolha (Pesquisa feita entre 7 a 9/8/13), se houvesse
segundo turno hoje, nessa faixa de renda (2 a 5 SM de renda familiar mensal) Dilma
figura com larga vantagem perante Aécio Neves (50% x 32%), mas já teria
sido ultrapassada por Marina Silva (43% x 45%). Além disso, mesmo em
relação a Aécio, a vantagem de Dilma é relativa, pois o tucano é ainda
pouco conhecido na faixa de renda aqui considerada: 20%
declararam não conhecê-lo, 33% conhecem-no “só de ouvir falar”, 29%
conhecem-no “um pouco” e apenas 18% conhecem-no “muito bem”.
A considerar estes dados, parece que a inquietude do precariado está
levando-o a buscar alternativas eleitorais e, por extensão, políticas – o
que não quer necessariamente dizer, alternativas de esquerda.
VI – Justa medida
Contraditório, o lulismo envolve um pacto conservador ao mesmo tempo
em que guarda em si uma vocação igualitarista. Mas suas promessas de
igualdade só poderão ser realizadas se o lulismo tiver força para
superar-se, ultrapassar o impasse inscrito nele mesmo – ou seja,
encontrar a justa medida da radicalização. Terá? O tempo corre contra Dilma.
Antônio David é pós-graduando em filosofia na USP e mantém uma página no Facebook para divulgação de pesquisas e análises sobre o Brasil.
País mudo não muda!-  Dep. Chico Alencar- PSOL-RJ


País mudo não muda

As
manifestações que tomaram as ruas das cidades brasileiras mexem com as
categorias tradicionais de análise. Tudo o que se elabore a respeito
será insuficiente, pré-texto que é também pretexto para justificar o não
entendimento completo desse contexto singular. A régua usada para medir
movimentos anteriores não é adequada para avaliar os atuais, que “não
têm CNPJ”. Uma boa embocadura é fazer considerações a partir do que
diziam alguns cartazes que os milhares de manifestantes, na sua maioria
jovens, portavam:
“O gigante acordou”?
A história brasileira registra manifestações massivas e explosivas de
caráter urbano. Em 1890, ainda no II Reinado, o Rio de Janeiro agitou-se
por dias seguidos, em reação da população contra o aumento de 20 réis
na passagem dos bondes. Portanto, tanto o ‘gigante’ já acordou antes quanto é possível que volte, agora, a adormecer
– sedado pela inorganicidade dos protestos e pela sua extrema
diversidade, reflexo de uma sociedade que, historicamente, tem mais estadania do que cidadania. Que os conservadores não se sintam aliviados, porém: seu sono será leve, assombrando com a possibilidade de acordar a qualquer momento.
Há setores sociais novos, apelidados de ‘classe C’, que parecem ter
chegado ao limite de sua estimulada capacidade de consumo. Agora,
engarrafados nas ‘carrocracias’ urbanas, no sufoco da especulação que
aumentou violentamente os preços dos aluguéis e dos imóveis, sem planos
privados de saúde e possibilidades de pagar escolas particulares, clamam
por serviços públicos de qualidade.
“Não é por centavos, é por direitos”. A questão das tarifas foi a faísca que
incendiou uma planície de insatisfações até então conformadas. A
repressão policial adicionou combustível e demandas reprimidas de
diversos setores provocaram o incandescente protesto “contra tudo o que
aí está”. A irritação cotidiana com a péssima mobilidade urbana do país –
segundo o IBGE, apenas 3,8% dos nossos 5.567 municípios têm Plano
Diretor de Transportes, embora 74% deles possuam estrutura
administrativa/burocrática para o setor – criou caldo de cultura que
engrossou os protestos. Mais que em busca de negociação, os atos eram de
rebeldia: não demandavam das autoridades que as recebessem nem
constituíam comissão representativa para este ‘diálogo’. É como se a
multidão clamasse: ‘quem quiser nos ouvir, que ouça!’. As manifestações
multitudinárias de junho estão tendo um efeito-demonstração: de lá para
cá, milhares de pequenos movimentos reivindicatórios eclodiram ou se
reanimaram.
“Queremos escolas e hospitais padrão Fifa”. Estádios suntuosos foram reformados ou
construídos pelo consórcio negocista Fifa-Governo Brasileiro-Parlamento
– que aprovou a Lei Geral da Copa e o Regime Diferenciado de
Contratações de Obras Públicas, dando arcabouço jurídico ao
empreendimento. As arenas faraônicas cumpriram papel pedagógico, ao
demonstrar que recursos existem, que prazos podem ser cumpridos… e a
falta de critérios no uso do dinheiro público, que não chega para
escolas e hospitais. O “padrão Fifa” que se reclama, por óbvio, não é o
da gestão da entidade, com tantas denúncias de corrupção.
“Fora todos os governos”. A tônica personalista da política vigente levou a uma
contradição: há 3 meses, a aprovação ao desempenho dos governantes – no
plano federal e estadual – já contrastava com a avaliação das políticas
públicas de saúde, educação, segurança, moradia e trânsito, de tendência
claramente negativa. Nas ruas, o repúdio era contra os partidos, pois,
no senso comum, nenhum presta. Pesquisa recente revela que 81% dos
consultados os consideram corruptos, sem exceção. E também contra a
péssima qualidade dos serviços públicos e contra os meios de comunicação
de massa, com seu noticiário interessado. Tudo foi posto em questão por
uma geração que não conheceu o PT contestador e sim o do poder. Que não
viveu qualquer polarização política, mas sim o avassalador processo de
‘peemedebização’ e despolitização da política, com sua devassidão ética,
azeitada máquina de captar votos e voracidade de ocupação de espaços.
“Não adianta rugir como um leão e votar como um jumento!”. Aqui há uma mediação com a
democracia representativa tradicional, chamando a atenção do próprio
cidadão eleitor: ele também é responsável pela degradação do sistema
político, ao não dar um voto consciente nem acompanhar a vida pública.
Os muito interessados na política de negócios prevalecente são
alimentados pelos muitos “analfabetos políticos”, pouco interessados
nessa dimensão essencial da existência. O sistema partidário-eleitoral
em vigor, fulanizador, excludente, marqueteiro e fisiológico, favorece a
captação de sufrágio e a eleição de pessoas sem o menor espírito
público, a despeito das leis que criminalizam a captação de sufrágio e
tornam inelegíveis os ‘fichas-sujas’.
Saí do Facebook!”
A maior novidade é a articulação em rede saindo da telinha para a vida
real: ‘o post nos libertará!’. Nunca na história desse país houve
tamanho “enxameamento viral”, de uma certa forma mais ‘social’ que
‘político’, e que tende a ser não contínuo e crescente, mas
intermitente, como um ‘foco guerrilheiro pós-moderno’ que surpreende o
poder com ações ousadas, exemplares, e depois recua – sem sequer saber
da existência do manual do velho Che e das estratégias do general
Giap… As manifestações revelavam um desejo difuso de participação, de
cada um ser ator de sua história – de certa forma, cada um sendo sua
própria manifestação. No contexto ideológico do hiperindividualismo
capitalista em que vivemos, muitos, inteiramente à margem de partidos,
sindicatos, grêmios e associações, levaram demandas a partir de sua
percepção pessoal, coletivizando-as em sua debutância militante,
colocando-as na cena pública.
“Penso, logo não assisto”. As redes sociais confrontaram as redes empresariais e
seus grupos restritos, monopolistas. A mídia direta polarizou com a
mídia tradicional, embora venham desta – especializada, por dever de
ofício – a maioria das intensas e diversas informações que circulam nas
redes. Inegável que a internet promove uma democratização dos meios de
comunicação, abalando a força indutora da mídia grande, questionadíssima
em todas as manifestações. Não por acaso está montada uma rede de
espionagem, a partir dos EUA, para o controle destas informações, além
de, em alguns países, a internet ser rigorosamente controlada e
restrita. Nas passeatas, a cobertura das TVs foi hostilizada a ponto de
seus repórteres terem que ir sem a canopla dos microfones com as
logomarcas de suas empresas. Tão questionada como os partidos, a mídia
grande comercial, por óbvio, pouco destacou esse aspecto dos protestos.
Mesmo os jornais impressos, muitos pertencentes à mesma rede de
comunicação, não noticiaram essa forte contestação. Fundamentalismos
religiosos também foram fustigados.
“Quem luta, conquista”. Revelando a força da pressão direta da praça sobre os
palácios – antiga proclamação das esquerdas -, as manifestações já
produziram resultados concretos, tanto em ações do Poder Executivo
(redução de tarifa para 70% da população de cidades grandes e médias e
anúncio de projetos para melhorar a mobilidade urbana), do Legislativo
(acelerando-se a aprovação de matérias que tramitavam em passo lento) e
mesmo do Judiciário (prisão de um deputado ladrão). As diferentes tribos
sem tribunos, ocupando os espaços centrais das cidades, constituíram
uma original e multifacetada tribuna popular. Disse, sem dizer, que
democracia é mais que votar. A antiga cultura participativa da qual
emergiu o PT negou o ‘mestre’ hoje acomodado. Quem tem a obrigação de
decodificar e formular políticas públicas a partir das demandas
necessariamente difusas – e, aqui e ali, confusas – são os agentes
políticos que se assumem como tais ou estão mandatados para tanto. A
cidadania aponta os problemas, com a autenticidade de quem os sofre na
carne e na alma. Resolvê-los é tarefa dos que são pagos por ela para
esse serviço, que é político e técnico. Desafio grande para quem andava
tão blindado contra as massas, só consideradas como de manobra nos anos
eleitorais.
“País mudo não muda”.
Só o prosseguimento das manifestações tirará da inércia os
paquidérmicos Poderes da República. Ao contrário de alguns outros
movimentos, no Brasil e no mundo, não há aqui, até o momento, formulação
de tomada de Poder, e sim seu questionamento radical. Semelhante ao
‘Ocupa Wall Street’, aqui se enfatiza mais o que não se quer do
que o que se quer. A ocupação dos espaços públicos por multidões
manifestantes – multiclassistas, destaque-se – questiona a lógica do
poder que passa pelo controle do território, proclamado como ‘dever de
manutenção da ordem’. Reivindicantes/protestantes presentes e visíveis
alteram a natureza da tradicional ‘impotência’ das massas frente ao
poder estabelecido. Esse autoempoderamento abre a possibilidade
estimulante de se estar fazendo história. Para Manuel Castells,
sociólogo estudioso da sociedade em redes, “é o caos criativo. Anormal
seriam legiões em ordem, organizadas por uma única bandeira e lideradas
por burocratas partidários. O espaço público reúne a sociedade em sua
diversidade: a direita, a esquerda, os malucos, os sonhadores, os
realistas, os ativistas, os piadistas, os revoltados…”
“Sem partido!” A
este reiterado brado, a reação foi a afirmação, correta, de que sem
partidos não há democracia. É imprescindível entender, porém, que os
partidos não são mais a única forma de representação da sociedade, e
andam cada vez mais dissociados de suas vontades, seja por seu controle
caciquista (prática dos da direita), seja por suas autofagias e
baluartismos (costumeiros nos de esquerda). Aliás, os grandes partidos
brasileiros – que sofrem de ‘nanismo moral’ – e os ditos ‘nanicos’,
legendas de aluguel, também não querem aprofundar a democracia, com mais
mecanismos de transparência e participação direta da população. Não
seria exagero dizer que com esses partidos não há democracia! É
verdade, por outro lado, que o vazio ideológico e a progressão, nos
tempos atuais, da distopia, produzem ‘rebeliões do efêmero’, com uma
espécie de solidariedade pós-moderna eventual, com o compartilhamento de
reivindicações particularistas. Jovens representantes da Federação
Anarquista, por outro lado, costumam lembrar a bela consigna “povo forte
não precisa de líderes”. Frase de Emiliano Zapata, principal líder da
Revolução Mexicana do início do século passado… “Podemos ser qualquer
pessoa, as pessoas se apropriam das suas próprias lutas, não precisam
ficar esperando alguém dizer o que fazer”, disse Mayara Vivian, que é da
coordenação do organizado Movimento Passe Livre de São Paulo. Alguma
forma de organização e liderança, ainda que mutante e rotativa, é
necessária.
“Vândalo é o Estado”.
A sociedade de massas e as grandes metrópoles estimulam mentalidades
competitivas e comportamentos de forte tom agressivo, como se vê
diariamente nas discussões de trânsito. A tensão urbana explode com
frequência, sem controle racional possível. É fato que as manifestações,
quase sem exceção, possuíam uma ‘cauda envenenada’ que reunia desde
jovens no limiar da marginalização – no Brasil, cerca de 24 milhões
entre 15 e 25 anos estão fora da escola e do mundo do trabalho – até os
ditos mais politizados, defensores da ‘ação direta e violenta contra os
símbolos do estado’, entre eles anarcopunks e ‘blacks blocs’. Chegavam
encapuzados e com artefatos explosivos de fabricação caseira em
manifestações pacíficas que clamavam por transparência. Sua disposição
era de brigar com a polícia. Esta, despreparada e militarizada, vendo em
todos o arcaico “inimigo interno” dos tempos da Guerra Fria, vinha
disposta a, sendo fustigada, atacar tudo e todos, sem critério e
economia de bombas, gases, cassetetes. A repressão inaudita das PMs foi,
sem dúvida, um fator de crescimento das mobilizações, como protesto
contra a violência estatal. E o vandalismo do abandono de equipamentos
públicos, sobretudo nas periferias, e da subtração de recursos, que a
corrupção estrutural realiza, foram constante e corretamente
denunciados.
“Se vocês não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”. A propósito, Slavoj Zizek, em visita ao Occupy Wall Street (Liberty Plaza, Nova York), em 2011, alertava: “Não
se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos
tendo aqui. (…) O verdadeiro teste do seu valor é o que permanece no
dia seguinte, ou a maneira como nossa vida cotidiana será modificada.
Apaixonem-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim.
(…) Há um caminho longo pela frente, e em pouco tempo teremos de
enfrentar questões realmente difíceis, questões não sobre aquilo que não
queremos, mas sobre aquilo que queremos.(…) Qual organização pode
substituir o capitalismo vigente? Que tipos de líderes nós precisamos?
As alternativas do século XX obviamente não servem. (…) O problema
maior não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a
ser corruptos. (…) Da mesma maneira que compramos café sem cafeína,
cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, tentarão transformar isso aqui
em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o
fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de
Coca-Cola, dar alguns dólares para entidades caritativas ou comprar
cappuccino da Starbucks, que reverte 1% da renda para os pobres do
Terceiro Mundo, seria suficiente para nos sentirmos bem. Depois de
terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as
agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros é que
percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nosso engajamento
político seja terceirizado – mas agora nós o queremos de volta! (…)
Quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os EUA são uma
nação cristã, lembremo-nos do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a
comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos! Dirão
que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à
ocupação. Sim, somos violentos no sentido em que Mahatma Gandhi o foi.
Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas
andam. Mas o que significa essa violência simbólica quando comparada à
violência necessária para sustentar o funcionamento do sistema
capitalista global?
Em breve seremos chamados de perdedores. Mas os
verdadeiros perdedores não são os que se safaram com a ajuda de centenas
de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas
nos EUA já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não
respeitam a propriedade privada, mas as especulações financeiras e
imobiliárias que levaram à queda de 2008 extinguiram mais propriedades
privadas obtidas a duras penas – pense nas moradias hipotecadas – do que
se estivéssemos as destruindo agora, dia e noite.”
Não tenho hospitais, não tenho escolas, não tenho transporte… E não tenho mais paciência também!”.
No Brasil, a degradação da qualidade de vida das pessoas, sobretudo nos
grandes centros, tem raízes estruturais. O chamado “inferno urbano” não
se explica simplesmente por razões demográficas e imediatas, setoriais.
Segundo o economista Reinaldo Gonçalves, o modelo liberal periférico,
que a década do lulopetismo não reverteu, implicou “um país
‘invertebrado’, com a perda de legitimidade do Estado (Executivo,
Legislativo e Judiciário) e das instituições representativas da
sociedade civil (partidos políticos, centrais sindicais e estudantis,
organizações não governamentais…) Trata-se de um social-liberalismo
corrompido por patrimonialismo, clientelismo e corrupção e garantido
pelo ‘invertebramento’ e pela fragilidade da sociedade civil”. Gonçalves
lembra o crescente endividamento das famílias pobres e de classe média
como fator de inquietação social, no contexto econômico de
liberalização, privatização, desregulação, dominância do capital
financeiro, subordinação e vulnerabilidade externa estrutural: “a
distribuição limita-se à redistribuição incipente da renda entre os
grupos da classe trabalhadora de tal forma que os interesses do grande
capital são preservados; não há mudanças na estrutura primária de
distribuição de riqueza e renda no que se refere aos rendimentos da
classe trabalhadora versus renda do capital”.
“Desculpe o transtorno, estamos mudando o país”.


A multidão produz uma sensação de força que pode se tornar tão generosa
quanto… pretensiosa. Não se muda o país sem o enfrentamento, por
exemplo, da questão da dívida pública. Ela comeu 44% do Orçamento da
União em 2012 (R$ 753 bi), enquanto a Saúde recebeu 4% (R$ 71 bi) e a
Educação 3,3% (R$ 57 bi). Transportes ficaram em 0,7%, Segurança 0,39% e
Habitação 0,01%. Para este ano de 2013, o valor a ser pago em juros e
amortizações da dívida subirá 20%, para gáudio dos grandes rentistas do
capitalismo financeirizado. As mudanças só serão estruturais e não
cosméticas com um novo paradigma de modelo econômico, e as consequentes
Reformas Tributária, Administrativa e Política. A questão ambiental, tão
crucial, não estava significativamente representada nas ruas. Sem isso,
o transtorno não transforma. E o que alguns proclamam como revolução
será apenas pontual irrupção.

Fonte: Le Monde Diplomatique

MOBILIZAÇÕES PELO BRASIL
O junho de 2013
A
luta pela revogação do aumento das tarifas de transporte gerou uma
revolta nacional que passou a ditar os rumos da agenda pública. A partir
da vitória na questão do preço da passagem, o movimento ganhou novas e
difusas pautas, disputadas pela esquerda e a direita. Os governos tentam
acalmar os movimentos
por Luís Brasilino, Renato Godoy, Cristiano Navarro
(Milhares de manifestantes se reúnem em volta da Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro)

A maior mobilização no Brasil desde 1992 permanece em curso e em
disputa. A primeira reivindicação, pontual e popular, a revogação do
aumento das tarifas do transporte, obteve êxito. E, a partir dessa
conquista, o movimento explodiu, apresentando diversas bandeiras. Com
pautas difusas, por vezes contraditórias, e sem organização
centralizada, as demandas aclamadas nas ruas impuseram uma nova agenda
ao poder público. Acuado e ainda tentando compreender a dinâmica dos
protestos, este acenou com mais verbas para a educação, saúde,
mobilidade urbana e até a possibilidade de uma reforma política.
O Junho de 2013 já é histórico. Milhões de brasileiros foram às ruas
das principais cidades do país após décadas de apatia social. Isso sem a
convocação de figuras públicas ou entidades tradicionais dos movimentos
sociais – e contra as orientações da grande imprensa, que insistia em
rotular todos os manifestantes de vândalos e baderneiros no início da
revolta, clamando por uma repressão mais dura da polícia. A onda
despertou tanto interesse quanto confusão entre a academia e as
organizações sociais, em todo o espectro político.
O Movimento Passe Livre (MPL), que chamou as primeiras manifestações
contra o aumento da passagem, sobretudo pelas redes sociais,
fortaleceu-se durante o processo e obteve amplas vitórias políticas.
Porém, não é plausível dizer que a organização liderou sozinha as
manifestações. Situado no campo da esquerda, o MPL chegou a divulgar
notas condenando a aparição de pautas conservadoras nos atos por ele
convocados. Ao passo que os maiores veículos de comunicação começaram a
apoiar os protestos, foram surgindo manifestações contra a presidente
Dilma Rousseff, contra o aborto e pela redução da maioridade penal, e
cresceu a hostilidade contra organizações de esquerda nos atos.
Mas, afinal, qual é o sentido dessa irrupção das ruas na agenda nacional?
Origem da revolta
Interpretar os motivos e quais estratos sociais estão envolvidos na
onda de manifestações tem sido o maior desafio. A tarefa torna-se mais
difícil pela rapidez dos acontecimentos e pelo caráter difuso das
reivindicações.
A análise de membros do MPL dá conta de que a quantidade de pessoas
mobilizadas é, de fato, surpreendente, mas não ocorreu por acaso. Paíque
Duques, do MPL de Brasília, lembra que o movimento já tem oito anos de
história e, desde então, tem levado o tema da mobilidade urbana e a luta
pela tarifa zero às ruas. “Os protestos são fruto de um processo longo e
bem anterior de mobilizações de rua, nas quais o transporte público foi
a reivindicação principal. Essa luta tem um lastro social que é a
mobilidade urbana nas cidades. Não é uma luta contra todas as opressões
genéricas. Os protestos obtiveram vitórias imediatas com a redução da
tarifa e vitórias de longo prazo com o debate público sobre a tarifa
zero”, atesta.
O dirigente do MST João Pedro Stedile concorda que a origem da revolta
pode ter sido o modelo urbano vigente no Brasil. “É muito positivo o que
está acontecendo no Brasil. Contudo, isso está sendo mobilizado por uma
juventude de classe média baixa que nasceu no neoliberalismo e não tem
experiência política. Trata-se de um substrato urbano social que convive
com uma crise urbana gravíssima, em todas as cidades brasileiras,
provocada por esse estágio do capitalismo internacional, que trouxe a
especulação imobiliária, o aumento das rendas, que financiou automóveis e
encheu nossas ruas de carros”, observa.
Já Rui Falcão, presidente do PT, prefere destacar o clima democrático
que o país vive, sobretudo nos últimos dez anos, como fator que
impulsiona as grandes mobilizações. “Hoje as pessoas sabem que podem ir
às ruas com suas bandeiras, com suas reivindicações, sem nenhum risco de
repressão. Ao contrário do que ocorria anteriormente, como na greve dos
petroleiros [em 1995], reprimida duramente pelo Exército, numa maneira
de o governo da ocasião [FHC] intimidar o movimento sindical”, diz.
No entanto, para o deputado federal e presidente do Psol Ivan Valente,
as mobilizações marcam o fim de um ciclo. O descontentamento com o
modelo de representatividade política é tão grande que a crise resvala
até mesmo nos partidos situados à esquerda do PT, segundo o parlamentar,
ainda que o caráter geral do movimento seja progressista. “Há uma
insatisfação com a ideia de que o povo permanece quieto sem mudanças
estruturais, apenas com estímulo ao consumo, crédito e as bolsas. Há uma
indignação acumulada que teve na alta das tarifas de transporte um
detonador, que transbordou para uma movimentação muito grande que
chacoalha as estruturas de poder”, observa.
O historiador Lincoln Secco, da Universidade de São Paulo (USP),
ressalta a violência policial ocorrida em São Paulo como um elemento
importante para entender a disseminação da revolta pelo país. “Os
protestos começaram com uma pauta única, embora de enorme abrangência
social: as tarifas de transporte público. Depois da repressão policial
em São Paulo, o movimento atingiu o ápice entre 17 e 20 de junho. Foram
esses os dias cruciais, pois o motivo inicial das mobilizações foi
ultrapassado por uma agenda ampla ditada pela grande imprensa. Como isso
se deu? Não foi somente a ação de pequenos grupos nas redes sociais. O
fato é que nos últimos dez anos a grande imprensa martela diariamente
parte dos slogans que agora aparecem nas ruas: condenação seletiva da
corrupção, contra gastos públicos e impostos etc.”, aponta.
Mobilidade, crise urbana, clima democrático, fim de um ciclo, violência
policial… Mais do que divergentes, esses elementos na realidade se
somam para explicar as motivações de uma revolta em grande medida
espontânea e multifacetada. Pablo Ortellado, professor de Gestão em
Políticas Públicas da USP e que acompanha o MPL desde sua fundação,
aponta que o perfil dos manifestantes na capital paulista durante os
dias de protesto foi se alterando. “Primeiro, houve uma mobilização
contra o aumento da passagem, que levava muita gente com foco na tarifa e
tinha um perfil de juventude com diversidade de classe social. Depois,
com a entrada da mídia, pode-se observar um perfil de uma classe média
alta despolitizada”, constata.

Investida da direita
Inicialmente, os grandes veículos de comunicação deram às manifestações
sua cobertura habitual: enfoque nos transtornos para as cidades,
especialmente o trânsito, e nos confrontos com a polícia. Após a forte
repressão a manifestantes em São Paulo, no dia 13 de junho, e a reação
indignada da população, o tom da cobertura mudou. A mídia corporativa
assumiu seu papel de centralizador das forças conservadoras, passou a
ressaltar o caráter pacífico dos atos e a disputar a pauta do movimento.
Reivindicações normalmente encampadas pela direita começaram a surgir
nas manifestações. Até mesmo pequenos grupos de extrema direita marcaram
presença em atos na cidade de São Paulo e provocaram e agrediram
militantes de esquerda.
Para Paíque Duques, os setores da direita tentam criar um bloco
conservador com disposição para ir às ruas. Mas até o momento não está
claro se esse plano obteve êxito. “A direita sempre vai tentar dar um
golpe nas mobilizações. Eles apostaram que o fariam deixando de
criminalizar o movimento, tentando tomar o rumo das manifestações e
alterando suas pautas. Mas, como anteriormente a direita já havia
criminalizado o movimento, o apoio deles não teve a repercussão esperada
e isso acordou as organizações sociais de esquerda. Se eles não tiveram
uma vitória plena, também não saíram derrotados”, conclui.
Lincoln Secco acredita que a imprensa corporativa e o pensamento de
direita conseguiram, sim, mudar o caráter das manifestações. “Tanto a
extrema direita, que é minoritária, quanto a esquerda não seriam capazes
de dar ao movimento a abrangência nacional que ele teve. As redes
sociais foram importantes, mas quem fornece o conteúdo do ‘pensamento
político’ é o capital monopolista investido nos meios de comunicação”,
explica.
O sociólogo Ruy Braga, da USP, também considera bem-sucedida a
investida da mídia sobre os protestos. “A mídia é um partido político e,
portanto, age conforme sua própria análise tática. Por um lado, os
grandes veículos de comunicação de massa, em especial a Rede Globo,
sabem que devem pautar o movimento, isto é, direcioná-lo para demandas
anódinas ou claramente conservadoras. Até o momento, o tema preferido
foi a luta contra a ‘corrupção’. Por outro lado, os veículos de massa
temem que o atual estado de agitação social se transforme em um levante
popular incontrolável. Daí toda a agitação antipartido feita pela mídia
até o momento. Ou seja, eles buscam estimular e ao mesmo tempo moderar a
autoatividade das massas. Funcionou até agora. Mas trata-se de um jogo
muito perigoso”, analisa.

“Sem partido”
Até o momento, a manobra mais bem-sucedida da grande mídia foi
conseguir, por meio da pregação antipartido, jogar boa parte dos
manifestantes contra as organizações de esquerda, especialmente em São
Paulo. Segundo o professor Valério Arcary, do Instituto Federal de São
Paulo e membro do PSTU, a rejeição aos partidos é uma confusão gerada
pela explosão da insatisfação contra o modelo político. “É uma geração
que conhece um único governo nacional: o do PT. Para a grande maioria
dessa geração, essa é aprimeira luta de sua vida. A esquerda é associada
ao PT, e o PT, à corrupção. O repúdio ao sistema político, às
instituições que mantêm a ordem capitalista, é indiferenciado. Muitos
não distinguem, dentro da esquerda, as forças que apoiam o governo, como
o PCdoB e o PT, e aqueles que são oposição de esquerda, como o Psol e o
PSTU”, avalia.
Para Gilberto Cervinski, do Movimento dos Atingidos por Barragens
(MAB), o repúdio às organizações partidárias é perigoso e serve aos
interesses de uma direita autoritária. “A última vez que se levantou a
bandeira do ‘sem partido’ foi em 1964, às vésperas do golpe militar. E
essa bandeira está sendo levantada pela direita, pelos grandes meios de
comunicação e pelos setores empresariais”, pontua.
Nos atos das maiores cidades do país, a repulsa aos partidos políticos
se deu em contraposição aos símbolos nacionais, como a bandeira e o
hino. Dizeres como “Meu partido é o Brasil” e menções ao orgulho de ser
brasileiro deram o tom das manifestações. Na visão de Pablo Ortellado,
essa exaltação, no entanto, representa mais uma despolitização do que um
ufanismo autoritário semelhante ao promovido pela ditadura
civil-militar. “A bandeira é resultado de uma mobilização despolitizada
que manifesta certo civismo e amor à coisa pública. Eu vi exatamente o
mesmo fenômeno na Argentina, em 2001. Os grupos nacionalistas estão se
aproveitando para se enfiar no movimento, mas não acho que seja o
nacionalismo que mova as pessoas”, opina.

Blindagem rompida
De seu lado as organizações de esquerda, demoraram dez dias após a
intensificação das manifestações para começar a costurar uma plataforma
unitária, que pautasse os movimentos nas ruas com suas bandeiras. Uma
reunião preparatória no dia 21 de junho mobilizou praticamente todos os
partidos, sindicatos e movimentos sociais da esquerda brasileira, do PSB
ao PSTU. No dia 25, as 77 organizações reunidas definiram 11 de julho
como dia nacional de lutas, com paralisações em todo o país, e aprovaram
uma plataforma unitária de reivindicações.
As propostas que serão levadas às ruas são: 10% do PIB para educação,
investimentos em saúde, redução da jornada de trabalho para quarenta
horas, transporte público de qualidade, reforma agrária, fim do fator
previdenciário, reforma política, reforma urbana, democratização dos
meios de comunicação, contra a PEC 4.330/04 (que amplia a terceirização)
e contra os leilões do petróleo.
João Pedro Stedile compara os prováveis desfechos desse movimento
maciço com experiências de outros países. “O problema é que essa
juventude não tem projeto. É tão somente uma revolta, uma indignação.
Eles não têm vínculos partidários nenhum e não sabem aonde isso vai
chegar. Isso pode dar em Espanha, onde a direita capitaliza. Pode dar em
Argentina, como na revolta de 2001, ou pode dar em Grécia, que é um
impasse permanente. Podemos também encontrar uma saída à brasileira”,
sugere.
Nos próximos meses, talvez anos, o movimento iniciado neste junho de
2013 ainda vai passar por muitas idas e vindas, avanços e recuos, mas
esses dias de luta já têm um resultado simbólico: o resgate da força das
ruas. Segundo Marcos Nobre, filósofo da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp), o sistema político brasileiro criou, desde a
redemocratização, mecanismos de blindagem contra a pressão das forças
sociais. Esse processo, chamado por ele de “peemedebismo”, tem como eixo
central o acordo entre as diferentes forças políticas no Congresso para
se fechar diante de demandas da sociedade.
Esse sistema político se tornou mais hermético, para Nobre, quando a
principal força historicamente contrária ao peemedebismo, o PT, promoveu
uma aliança com o PMDB, após o escândalo do mensalão em 2005. Tal
composição veio “corrigir” falhas do sistema que permitiram a
interferência de pressões populares, como na queda de Fernando Collor,
em 1992. E é esse arranjo político que vigora no país que está sendo
questionado nas ruas. “A blindagem, que parecia tão inexpugnável, foi
rompida com os protestos. Seu rompimento dependia de o povo ir às ruas”,
acredita.
A postura do Congresso e de governos de diversas esferas nas últimas
semanas de junho corrobora a tese de Nobre. Em uma só noite o
Legislativo Federal derrubou a PEC 37, aprovou a destinação de royalties
do petróleo para a educação e a saúde e a tipificação do crime de
corrupção como hediondo. Em um efeito dominó, governos estaduais e
municipais promoveram quedas de tarifas no transporte público, direito
de passe livre para estudantes, congelamento de preços de pedágio e
energia.
As mobilizações pela redução das tarifas reintroduziram estratégias de
luta nas ruas até então abandonadas no país. Com a força de um tsunami, o
povo trocou abaixo-assinados, lobbiese petições on-line por marchas, cartazes, pedras e pichações em disputa física pelos rumos da sociedade.

Luís Brasilino

Jornalista. Editor do Le Monde Diplomatique Brasil.

Renato Godoy
Jornalista

Cristiano Navarro
Jornalista, é diretor do documentário “Á sombra de um delírio verde”.

Ilustração: Reuters / Sergio Moraes

Conjuntura da Semana. Junho 2013. Significados, inflexões e perspectivas do Outono Brasileiro

A análise da Conjuntura da Semana é uma (re) leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, parceiro estratégico do IHU, com sede em Curitiba-PR, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, parceiro do IHU na elaboração das Notícias do Dia.

Sumário:
A potência das ruas
Tudo mudou nas últimas semanas
A recusa e o reconhecimento
Ruas pedem outro modelo
O precariado está nas ruas
Ética. Uma bandeira da direita?
Redes Sociais. Novo sujeito político?
O despreparo da vanguarda institucional
As reações de Dilma e do Congresso
Da Assembleia Nacional Constituinte ao Plebiscito
Junho 2013 em frases

Eis a análise.
A potência das ruas
Tudo mudou nas últimas semanas
Os acontecimentos de junho de 2013 – as grandes manifestações serpenteando as ruas das principais cidades brasileiras – colocaram o país no cenário mundial das multidões que tomaram as ruas e praças nesse início de século. Tahrir, Puerta do Sol e Taksim
também acontece aqui. Por que o Brasil? Por que agora? Qual o
significado dessas manifestações? Qual é a sua potência e o seu devir?

AQUI

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Assembleias e Conselhos Populares, Já! – referências e metodologias

26/06/2013 | Publicado por celioturino em Sem categoria
12
Como reflexo das Manifestações que tomaram
conta do país, as Assembleias Populares começam a se espalhar pelo
Brasil. Com isso, se avançarmos coletivamente com as Assembleias, o povo
brasileiro poderá dar mais um salto (ainda mais surpreendente para
aqueles que “não entenderam nada” do que está acontecendo), saindo do
estágio da manifestação e revolta “em si” para transformarmos o
movimento em “para si”. No primeiro momento as pessoas foram às ruas
para dizer “o que não queremos”, agora é a hora de dizermos “o que
queremos”, e mais adiante “como queremos”, e ainda mais adiante “com
quem queremos”. Enfim, há todo um caminho a percorrer e que só poderá
ser completado se soubermos aproveitar cada experiência construída, seja
no Brasil ou fora. Acabo de receber uma proposta que compila de
experiências muito relevantes a serem levadas em conta, como as
Assembleias Populares no estado de Oaxaca (México), o 15M (indignados e
acampados na Espanha), o Occupy Wall Street e as Assembleias Populares
no período da República Espanhola (1936/39) e apresenta uma proposta de
plataforma colaborativa e em software livre para a facilitação de
Assembleias Populares:
http://net.coolmeia.org/pages/view/4979/forum-das-1000-mesas-permanentes
Assim, quem se interessar, entre em contato direto com o Coletivo
Coolmeia, que disponibilizará as ferramentas necessárias para a
construção de pautas e sistematização de decisões, sejam em assembleias
por local de moradia, estudo, trabalho ou temáticas (como a ocorrida em
São Paulo, com o tema Comunicação, ou a Assembleia Popular do Rio de
Janeiro, que divulguei no último artigo). Como preocupação principal,
precisamos levar em conta mecanismos de consulta que privilegiem
manifestações de pessoas não acostumadas a falar em assembleias, seja
dividindo a assembleia em rodas menores de escuta, coleta de opiniões em
cartões (mil mesas), abertura de plataforma na internet (como
apresentada pelo coolmeia) para recolhimento de opiniões, entre outras
formas de expressão. Também será bom se tod@s pudermos utilizar a mesma
ferramenta de modo a estabelecer uma comunicação entre as Assembleias,
até a realização de Assembleias municipais, regionais, estaduais e
Nacional. Notem, se assumirmos a construção das Assembleias Populares
estaremos dando uma nova consequência às manifestações do povo
brasileiro, efetivando novas formas de poder, construído “de baixo para
cima”, de forma horizontal e autônoma.
E assim seguimos, semeando um Brasil como nunca se viu!

————————————————–

   Você vai ficar parado assistindo o golpe prosperar?



Ao fim da noite de quinta-feira, recebo uma ligação surpreendente
tanto pelo autor quanto pelo que disse. E quem disse – e o que disse –
importa menos do que aquilo que a chamada me fez concluir: não dá mais
para ficar só analisando e comentando o quadro político. Quem luta há
uma década para ajudar a sustentar um projeto político-administrativo
que melhorou tanto o Brasil não tem o direito de ficar só reclamando do
golpe que busca interrompê-lo.
Este Blog se converteu em uma trincheira dos que discordam de uma
Onda que engolfou o país e que tem produzido muito mais calor do que
luz, se não apenas calor. E o signatário desta página, assim como outros
poucos, aceitou, de bom grado, pagar o preço que as catarses impõem a
quem se recusa a integrá-las. Tudo em prol do país.
Seria muito fácil todos os que divergimos cedermos, integrarmo-nos à
Onda que pretende “mudar o Brasil” marchando pelas ruas “pacificamente”
no começo e selvagemente ao fim sob o argumento de que os selvagens são
“um pequeno grupo”, o qual, porém, pequeno ou não, é tolerado em
praticamente todas essas manifestações, nas quais o desfecho violento já
se tornou previsível, sendo poucas aquelas manifestações em que não
irrompe.

 AQUI

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Aton Fon Filho: A direita sai de casa pela porta da esquerda


DIREITA SAI DE CASA PELA PORTA DA ESQUERDA [1]

por Aton Fon Filho, sugestão de Milton Coelho


Introdução
Esse trabalho busca
estabelecer uma visão de classe das manifestações desencadeadas após as
elevações de tarifas de transportes e da conjuntura que delas resultou.
Embora considere principalmente a experiência de São Paulo, corresponde
linha geral ao que o noticiário também sobre outras partes do Brasil.

Na Mídia em geral, e
mesmo em manifestações da esquerda, vemos referências indiscriminadas a
povo, jovens, pessoas, trabalhadores. Mas que “povo” é esse? Quais as
determinações de classe desses “jovens” e dessas “pessoas”? De que
“trabalhadores” estamos falando? [2]

A Base da Pirâmide e a Classe Média
Partamos de alguns
pontos sobre a situação da classe média e dos trabalhadores da base da
pirâmide, com o respaldo da análise de SINGER (2012) sobre o lulismo
[3]. Referida análise, no que aqui interessa, aponta que as diversas
políticas econômicas e sociais do governo Lula geraram um realinhamento
eleitoral que consiste, em termos os mais resumidos possíveis, em que a
população de mais baixa renda [4] –
ali chamada de subproletariado – a partir de 2005/2006 se incorpora no
apoio a Lula. Essa faixa do proletariado teria interesse na mudança,
mas, contraditoriamente, rejeitaria o conflito. Quer a mudança dentro da
ordem.

Ao mesmo tempo,
também no período 2005/2006, a classe média consuma sua passagem à
oposição, fundamentalmente através do apoio ao PSDB, mas também, uma
pequena parte, à oposição de esquerda.

POCHMANN aponta que
os empregos gerados na década de 2000 ficaram concentrados na base da
pirâmide social – com renda até 1,5 salários mínimos [5]. E que na faixa
de renda acima de 3 salários mínimos chegou a haver importante redução
das vagas:

“Na década de 1990,
estabeleceu-se no Brasil um novo padrão de trabalho, composto por um
menor ritmo de geração de postos de trabalhos e um perfil de remuneração distinto. Isso porque foram abertos somente 11 milhões de novos postos de trabalho, dos quais 53,6% não previam remuneração.
Na faixa de renda
de até 1,5 salário mínimo, houve a redução líquida de quase 300 mil
postos de trabalho, e esse segundo padrão de emprego diferenciou-se significativamente daquele verificado entre os anos 1970 e 1980.
Por fim, a década
de 2000 apresentou uma alteração importante no padrão de trabalho da mão
de obra brasileira, marcada por forte dinamismo nas ocupações geradas e
no perfil remuneratório. Do total líquido de 21 milhões de postos de
trabalho criados na primeira década do século XXI, 94,8% foram com
rendimento de até 1,5 salário mínimo mensal. Nas ocupações sem
remuneração, houve a redução líquida de 1,1 milhão de postos de
trabalho, enquanto na faixa de cinco salários mínimos mensais a queda
total atingiu 4,3 milhões de ocupações. Em síntese, ocorreu o avanço das
ocupações na base da pirâmide social brasileira.

SINGER aponta, daí, uma “polarização entre ricos e pobres”. Lembra JESSÉ SOUZA, para quem

“A classe média
brasileira, por comparação com suas similares europeias, por exemplo,
teria o singular privilégio de poder poupar o tempo das repetitivas e
cansativas tarefas domésticas, que pode ser reinvestido em trabalho
produtivo e reconhecido fora de casa”. [6] [7]

E conclui, ele próprio,

“Daí a resistência
da classe média ao programa do lulismo de erradicação da miséria,
produzindo-se reação muito distante da indiferença política. O lulismo
mexe com um conflito nuclear no Brasil, aquele que opõe “incluídos” e
“excluídos”.

Essa classe média, vê-se, não obteve ganhos, e teve perdas econômicas.
Se piora mais grave
não houve na situação dessa classe média, foi ela muito mais
perceptível dada sua posição relativa, na medida em que viu os mais
ricos passarem a ganhar ainda mais, decolarem e se afastarem, de modo
que os de cima se perderam nas alturas, ao mesmo tempo em que os de
baixo, os da base da pirâmide ou de baixíssima renda, tiveram uma certa
ascensão, aproximando-se de seus calcanhares.

Essa queda relativa
da baixa classe média foi o elemento material que a conduziu a, somada à
questão ideológica da luta contra a corrupção, abandonar desde 2005 o
PT e Lula e aderir definitivamente à oposição de direita (PSDB e
aliados) e à oposição de esquerda (PSTU, PSOL, etc. [8]

É certo que essa
classe média não foi capaz de elaborar demandas econômicas, de
aperceber-se concretamente de quais os motivos de sua insatisfação. Vê
que está sendo lançada para o grupo de baixo, mas não é capaz de
determinar onde lhe foram impostas as perdas que a rebaixaram (porque
tais perdas, em geral, não existiram). E não encontra também resposta
nos partidos da oposição, quer os de direita, quer os da esquerda.

Daqueles, obteve
bandeiras vagas – “luta contra a corrupção”, “gerenciamento” – e destes
bandeiras que não respondem a seu próprio interesse, mas ao interesse
dos “de baixo”. Uns e outros, porém, encontram-se em torno de valores
éticos que parecem permear suas plataformas políticas nas ações
concretas, o que faz essa classe média ir-se posicionando em torno de
palavras de ordem e questões de valores, genéricas.

Assim como foi se
articulando – na sua vertente de esquerda, longe das demandas de classe,
em torno de demandas ditas de direitos humanos, sob orientação
multiculturalista. São os excluídos, não mais os proletários, os
explorados, o foco de seus esforços organizativos. Assim é que questões
de enfrentamento de classes, opondo, por exemplo, latifundiários e
agrocapitalismo com trabalhadores canavieiros, sem-terra, pequenos
proprietários foram apresentadas sem o conteúdo de classe, como
expressão de defesa de uma identidade cultural, como questões indígena,
quilombola, ambiental, etc.

A exploração
capitalista foi seccionada e setorizada, passando a valer não pelo que é
– pelas relações de produção – mas pelo que parece ser: mineração,
agronegócio, construção de barragens, produção de transgênicos,
destruidora do meio ambiente, destruidora da identidade cultural, etc.

Capturada pelo
lulismo, a relação com os mais pobres passou a ser feita pela luta
contra os efeitos da exploração, em lugar de ser feita contra a
exploração, mas com as medidas governamentais atacando aqueles efeitos e
amortecendo seus impactos, seja através de programas de complementação
de renda, como Bolsa Família, seja através de programas sociais como Luz
para Todos, PROUNI, Minha Casa, Minha Vida, etc.

De outro lado,
opondo-se à perspectiva governamental, os mesmos óculos nublaram a visão
da extrema-esquerda que, em busca de se opor ao lulismo, chamou aquelas
medidas de “cooptação” e passou a exigir, pela via da
organização de movimentos sociais, medidas de efeito semelhante
(fornecimento de cestas básicas, assentamento e programas de moradia
para integrantes de movimentos de sem-teto, etc) [9].

Revelou assim essa
extrema-esquerda um mesmo vício de substituir a causa pelo resultado,
incapaz de fugir dos limites impostos pelo lulismo, mesmo se opondo a
ele.

Ainda há que
investigar e desenvolver melhor o impacto que pode ter tido sobre isso
uma visão que sobrepõe a ética às determinações da luta de classes,
resquício das lutas que levaram à superação da ditadura militar e do
papel da igreja católica no processo.

Das lutas que
resultaram na derrota da ditadura militar, primeiro, e das dificuldades
advindas da prolongada crise econômica e descenso das lutas operárias – e
urbanas, de modo geral –, decorreu a apresentação de inúmeras demandas
como demandas de valores, éticas, e fundamentadas como direitos humanos.

Reivindicações que o
desemprego profundo e prolongado tornavam impossíveis de serem
formuladas em face do patronato, passaram a ser formuladas em face do
Estado, apresentadas como direitos, e Direitos Humanos: direito à
moradia, direito ao trabalho, direito à saúde, direito ao transporte.
Também daquelas lutas contra a ditadura, permaneceram as reivindicações
de valores referentes a direitos identitários, vinculados à luta pela
liberdade, como os valores anti-discriminatórios em geral, de raça,
gênero, condição física, identidade e orientação sexual.

Isso promoveu a
influência do multiculturalismo e da cultura de direitos humanos,
sobrepondo-se, mesmo no interior das organizações marxistas, à visão dos
processos de um ponto de vista de classes.

Daí, possivelmente, a evidência de um liame de defesa de elementos reduzidos a éticos, ou postos no âmbito de direitos humanos,
unificando um bloco de organizações partidárias marxistas, organizações
religiosas, movimentos sociais e identitários [10] e mesmo indivíduos
dispersos na atualidade. Tais movimentos e indivíduos buscam unidade e
até logram estabelecê-la em algumas circunstâncias, em torno de questões
de proteção da identidade, mas raramente em torno de questões sociais.
Assim, por exemplo, se é verdade que o MST pôde apoiar as causas
indígena ou LGBTT, não se tem notícia de indígenas ou o movimento LGBTT
apoiando ocupações do MST ou do MTST.

Se a classe média
que adotou a oposição ao lulismo pela esquerda pôde se refugiar nas
bandeiras éticas e identitárias, ou em sucedâneos dos mesmo programas
lulistas, aquela que adotou a oposição pela direita se viu privada de
demandas materiais, ou que pudessem ser expressas materialmente.

Esses setores
adotaram a linguagem da extrema direita e hasteiam bandeiras como a da
“meritocracia” contra as políticas de cotas e de inserção de faixas de
renda mais baixa nas universidades; contra as políticas de
complementação de rendas [11], etc, o que expressava muito mais o susto
de ver uma ascensão dos de baixo do que, concretamente, uma redução de
sua própria condição material.

Nesse sentido, as
análises de POCHMANN e SINGER contêm dados semelhantes, não apenas no
que toca à faixa de mais baixa renda – subproletariado, para SINGER;
base da pirâmide, para  POCHMANN –, pois ainda que este não analise
repercussões políticas e sociais dessa incidência econômica, elas ficam
subjacentes, mas também com relação à classe média.

As manifestações em curso – O Início – Hegemonia da Oposição de Esquerda
As manifestações de
agora foram iniciadas por um movimento social de classe média, com uma
demanda de interesse da população de mais baixa renda. O MPL é um
movimento de classe média daquela oposição de esquerda, o que explica
também a sua relação privilegiada com partidos como PSOL e PSTU,
presentes nas manifestações desde o início.

Suas manifestações
tinham um conteúdo e uma tendência à radicalização contra o governo
municipal petista e as correntes que o apoiam. Mas o MPL é, também, um
movimento que se reivindica na faixa do autonomismo e do anarquismo, da
ação direta e da organização horizontal.

Esse fato, se
autoriza a participação da juventude de classe média de esquerda,
estabelece limitação à participação dessa juventude , representada por
suas organizações. Isso introduz, já desde o início, um valor
desorganizativo ao processo. Os estudantes estavam na manifestação, mas
não os diretórios e centros acadêmicos [12].

No interior do
movimento, a predominância da oposição de esquerda permitiu às vezes
vislumbrar ações contra algumas correntes adversas, antes mesmo que o
anti-partidismo e a ação coordenada da direita contra toda a esquerda se
fizessem patentes. A verdade é que a vitória da direita aconteceu nas
condiçõespropiciadas por algumas, estimuladas por outras e combatidas por poucas forças de esquerda.

Como houve aqui em
SP aumento também das tarifas do metrô, de responsabilidade do governo
do PSDB, Alckmin lançou a repressão contra as manifestações, acompanhado
pelos cães de guarda da mídia. Rapidamente, toda a oposição de
esquerda, e mesmo algumas forças de esquerda que não desfilam na
oposição, foram se somando.

As escaramuças
perduraram até a quinta-feira sangrenta, dia 13 de junho, quando os
cachorros-loucos da PM, sob ordens do secretário Fernando Grella (que
justificou suas atitudes, num primeiro momento, após a manifestação),
não selecionaram alvos numa repressão extremamente horizontalizada e
extremamente violenta que alcançou parte da imprensa.

Essa repressão foi
denunciada pela mídia mercê de terem sido vitimados alguns de seus
funcionários, mas foi principalmente divulgada nos meios cibernéticos,
incidindo o fato de que a tecnologia disponível põe hoje ao alcance de
95% das pessoas uma câmara fotográfica e de vídeo no bojo do obrigatório
telefone celular. Resultado: o massacre foi amplamente documentado.

Feita a
documentação, outro fator tecnológico – a existência das redes sociais –
permitiu a divulgação da captura de uma realidade que se desconstrói
por suas próprias imagens, o que resultou na massificação da informação
sobre as manifestações pela internet, assim como pela própria grande
mídia que não podia seguir escondendo o que a web escancarava, sob pena de se ver desmoralizada.

As manifestações em curso – O Salto para a Individualidade – Hegemonia da Direita.
E se deu, na
manifestação seguinte, uma incorporação massiva da juventude de classe
média, uma incorporação massiva anti-lulista, mesmo porque diminuiu o
risco da repressão, com o recuo de Alckmin e a retirada da PM.

De qualquer forma,
temos como evidente que essa incorporação foi, concretamente, expressão
da juventude de classe média tradicional, sendo raras as participações
tanto de pessoas na faixa de mais de 40 anos, como de provenientes das
camadas de mais baixa renda [13]. Isso não desmerece, é sempre
importante ressaltar, o fato de que a demanda inicial atendia interesses
desta última faixa social, localizada na base da pirâmide. Mas, não
pode haver dúvida de que a ampla massa que se incorpora depois da
quinta-feira sangrenta foi o outro setor – majoritário – da classe média
anti-lulista.

O que levou à sua
incorporação? A leitura de reportagens e entrevistas não conduz a mais
do que generalidades e “impressões”: “temos que nos manifestar”, “não dá
mais para ficar calado”. E a uma pletora de análises que partem sempre
da dificuldade de apreender as motivações quando não são, elas próprias
tentativas de vender novas motivações.

Podemos também adiantar aqui algumas “impressões”, ainda sem suficientes elementos concretos para embasá-las.
A ausência de motivação consciente para a incorporação
De início, a
ausência de motivação clara, somada ao fato de se tratar da classe média
já é um indicativo importante. A classe média, tendo abandonado o PT e
se passado para a oposição – seja de esquerda, seja de direita –, como
mostra SINGER, demonstrou uma incapacidade de determinar suas próprias
demandas, limitando-se a expressar “valores” genéricos que defende ou
foi levada a defender.

De uma classe média
desorganizada, mas sob a influência/hegemonia de linhas políticas da
direita que, em muitos casos, incorporou palavras de ordem da oposição
de esquerda, o que se tem nas ruas é um amálgama mal construído de boas
intenções e generalidades: defesa do meio ambientecontra as obras da copa e repúdio à corrupção,
feitas aquelas nos moldes do que preconiza a igreja católica e os
movimentos culturalistas e de direitos humanos, e feita esta nos moldes
do que defende o PSDB, uma visão da corrupção em que não aparecem os
empresários corruptores [14].

Essa dificuldade de
expressar demandas se somou (ou surgiu) do fato de que a oposição
partidária ao lulismo se viu sem plataforma para apresentar à sociedade
que não fosse a da “luta contra a corrupção”, uma possível motivadora,
aliás, do rompimento da classe média com o PT em 2005 [15].

Solidariedade como motivadora da incorporação
Por outro lado,
parece evidente que as cenas de combate e cerco, de tentativas de
aniquilamento e de retiradas da quinta-feira sangrenta, motivaram
solidariedade mas mesmo essa solidariedade não ultrapassou, no
fundamental, o âmbito da classe média.

A expressão “no
fundamental” resulta aí de dúvidas sobre se a participação na pesquisa
realizada pelo jornalista Datena em seu programa de televisão pode ter
sido expressão da base da pirâmide. A dúvida vem da impressão – sem
qualquer suporte em dados – de que seja esse seu público.

Por outro lado,
dado o momento em que vai ao ar o programa, certamente boa parte, senão a
maioria dos trabalhadores dessa faixa não estaria em casa nem, menos
ainda, frente à TV ou pensaria em gastar uma ligação telefônica para dar
essa opinião. De qualquer modo, ainda que se possa ter aquela
participação nas pesquisas como manifestação da base da pirâmide, não
foi além do possível clique nos botões de um telefone, já que a
participação concreta dos mais pobres nas manifestações não foi
percebida [16].

É importante
verificar que essa solidariedade foi desencadeada diante da repressão.
Mas também vale a pena indagar por que uma repressão tão violenta foi
capaz de fazer surgir um espírito de solidariedade em lugar do temor de
participação que a polícia e o governo esperavam [17] [18].

As imagens constroem a realidade – Perda de identidade da manifestação – O Espetáculo
Põe-se em
consideração a possibilidade de que essa solidariedade tenha decorrido
de uma identificação de classe; não com a classe cuja demanda motivava
as manifestações, mas com a classe que estava, concretamente, sendo
agredida.

Mas, sendo fruto de uma identidade de classe, foi também fruto de uma perda de identidade política da manifestação.
As redes sociais e a
mídia trouxeram as imagens da repressão na quinta-feira sangrenta. Mas
as exibições de filmes e fotografias, em lugar de desvendar uma
realidade, mascararam-na. Mais do que isso. As imagens não apenas mascararraam a realidade, como criam uma nova realidade.

As imagens mostravam pessoas fardadas atacando pessoas. Os atacantes eram reduzidos a PMs, força do Estado. Os atacados eram reduzidos a manifestantes.
Mas as imagens não mostravam as condicionantes políticas do Estado que
atacava as pessoas, nem das pessoas que eram atacadas. Aqueles podiam
ser o governo federal, estadual ou municipal, podiam ser expressão do
PT, do PSDB ou qualquer outro; do neoliberalismo, do
neodesenvolvimentismo, da luta pelo socialismo. Estes não eram
militantes de esquerda, de tal ou qual partido, ou movimento social.
Eram apenas pessoas que estavam na manifestação.

O desaparecimento
da condição militante de esquerda dos manifestantes constituiu um
convite maior à incorporação de qualquer jovem de classe média. A
participação já não tinha outros limites que a própria disposição de
estar lá. Não era mais uma manifestação de esquerda, que se limitava
pela concordância com uma palavra de ordem. Era uma manifestação para
qualquer pessoa, com qualquer palavra de ordem [19]. Não era mais pelos
20 centavos! Era por “direitos’!

E era pelo espetáculo!
Não sendo uma força
organizada cada um ficava responsável por definir o que o levava à
manifestação. E cada um sabia que iria possivelmente ser filmado por um
dentre os milhares de celulares e câmaras nas ruas. E iria para a
internet, no facebook ou num blog, ou num site ou no instagram. E
poderia ir para os jornais ou para os sites dos jornais. E para a
televisão. Cada um que cuidasse, portanto, do modo como iria aparecer,
como iria ser seu espetáculo.

As participações se
tornam, portanto, cada vez mais individuais, mesmo quando as pessoas
agem sob a hegemonia da extrema direita. Essa hegemonia estabelece um
padrão de temas: corrupçãonão é por 20 centavos, é por direitoscontra a PEC 37contra as obras da copapela redução da maioridade penalo gigante acordou.
Mas é a criatividade individual que fará a diferença e mobilizará
outros, porque abre a disputa para que cada qual demonstre suas próprias
qualidades de redator publicitário. Se não era mais pelos 20 centavos,
se era por direitos, era pelos direitos que cada um julgava importantes.

E que não viesse, o
MPL ou quem quer que fosse dizer que a manifestação era contra a
tarifa. Afinal, se não se aceitava que o Estado pudesse pôr limites à
manifestação, por que se havia de permitir que outros manifestantes
pusessem?

E, mais, por que se
havia de permitir que fossem postos limites por pessoas que eram de
esquerda e tinham bandeiras vermelhas, como vermelhas eram as bandeiras
do PT, o mesmo partido de que era o Prefeito que decretara o aumento? E a
Presidente, que fora eleita indicada pelo PT e por Lula, que indicara
esse prefeito? E que era corrupto e mensaleiro, como o diziam a mídia e a
oposição de esquerda e a internet e os blogueiros e todo mundo sabia?

E como somente
esses partidos de esquerda é que estavam presentes na manifestação, eram
estes que tinham que ser postos para fora. Donde a palavra de ordem de
“sem partidos” assume o significado de “sem partidos de esquerda”, já
que o maior partido da oposição, a mídia, estava ali presente.

O Antipartidarismo
Nas manifestações
convocadas pelo MPL conviveram o apartidarismo e autonomismo desse
movimento e a presença e atuação dos partidos da oposição de esquerda.

A desconsideração
do caráter de classe dos manifestantes iniciais e mesmo avaliação
equivocada das tendências de classes e setores de classes na atual
conjuntura, levaram o esquerdismo a acreditar que seu inimigo principal
naquele momento inicial seriam os partidos e forças que de algum modo
apoiavam ou se relacionavam com o governo.

Conduzidos por uma
visão primária e reducionista da política, que rejeita e não consegue
conviver com a contradição, a oposição de esquerda próxima ao MPL
dedicou-se, inicialmente, a promover a expulsão de dentre os
manifestantes, das correntes vinculadas ao governo, incapazes de uma
lógica da luta de classes que os fizesse entender que atrair setores dos
partidos governistas para a luta contra a tarifa adquiria
primordialidade porque não apenas acrescia a força dos manifestantes,
como gerava desentendimentos na base governista [20].

Viam, os partidos
da oposição de esquerda, com isso, a possibilidade de se tornarem os
condutores de um processo que, sem que entendessem bem o porquê, crescia
exponencialmente, sem a presença das organizações políticas.
Vangloriavam-se de suas atitudes divisionistas e plantavam, com isso, a
semente do antipartidarismo num terreno que já era fertilizado pelo
caráter individualista da classe média, pelo caráter autonomista do MPL e
pela desconstrução do caráter de esquerda pela imagética das
manifestações e da repressão a elas.

A primeira
manifestação após a quinta-feira sangrenta (a quinta da série atual de
protestos) viu, no Largo da Batata, um início de choques entre os
Partidos e a individualidade que acorreu às ruas. Mas foi na sexta
manifestação que se consumaram os ataques contra os Partidos presentes,
com queimas de bandeiras de ataques ao PCR, PSTU e PSOL.

O pensamento
hegemônico de direita já conduzia nesse sentido. Jabores e marcelos
rezendes, depois de combaterem as manifestações e terem corrigido a
rota, passaram a centrar fogo na necessidade de rejeição aos partidos,
chamados de oportunistas e acusados de somente terem se somado os
protestos após o seu crescimento.

Mas, se esse
antipartidarismo partia do individualismo, o pensamento hegemônico foi
fortalecido pela ação da própria oposição de esquerda. E, finalmente,
veio a contar com a direção organizada de grupos de extrema-direita,
skinheads e quetais.

Participação da base da pirâmide
Não obtivemos
elementos para mensurar possível participação de trabalhadores da base
da pirâmide social nessas manifestações. Certo é que houve esforços
descoordenados de convocação de protestos na periferia, pelo MTST,
Periferia Ativa e alguns outros inindentificáveis. Os números
apresentados pela mídia foram, em geral, extremamente reduzidos. Mas
houve algumas exceções. De qualquer modo, a constatação visual indicou
que as manifestações reuniam jovens brancos, de classe-média, sendo a
presença de pessoas de mais idade ou negros uma absoluta exceção [21].

Já se estudou e
apresentou que os grupos de skinheads são de extração de entre os de
mais baixa renda, expressão de uma conflitiva oposição ao conflito que a
esquerda organiza. Sua presença no meio da manifestação de classe média
perde identidade quanto à origem social, mas a ganha quanto à ideologia
subjacente em ambos, variando naquilo que uns privilegiam a
individualidade e outros propõem ação organizada em defesa das propostas
radicais fascistas.

Violência
Não temos como
excluir a possibilidade de que a violência tenha sido empregada como
arma de convencimento pelo exemplo, ou como atividades de provocação
para autorizar a repressão policial. Mas não temos, também, como excluir
a possibilidade da atitude individual desorganizada, motivada pela
vontade vista como necessidade de ocupar um lugar na história, e carente
de orientações e limites que a organização proporciona.

Mesmo no caso da
mais completa identificação de um indivíduo participante do ataque à
Prefeitura, filho de um pequeno empresário, embora suas características
físicas pudessem sugerir, não houve outros que permitissem comprovar se
seria ele integrante de organizações para-militares fascistas.

Pelo menos num
caso, exatamente esse ocorrido no dia da sexta manifestação, em 18 de
junho, a violência esteve vinculada aos saques, com aspectos também
demonstrativos de desorganização, quando moradores de rua levaram para
suas barracas de cobertores TVs de plasma que não apenas não poderiam
utilizar, como nem poderiam carregar ou exibir para a venda.

O fim das convocações do MPL e possíveis tendências em SP
O fim das
convocações do MPL em SP correspondeu não apenas ao reconhecimento da
vitória alcançada em termos específicos da demanda inicial, mas da
necessidade de repensar os passos seguintes, diante da nova conjuntura
criada.

Esse fato não impedirá, como não impediu, novas concentrações. Mas a desorganização das convocações pela web tende
a fazê-las perder massificação. Diversas manifestações aconteceram na
noite de sexta-feira, 21, e no sábado, 22 de junho. Na Avenida Paulista,
sexta-feira à noite, três manifestações perambularam com propostas
distintas e, sem elemento aglutinador, não conversavam entre si: a do
ato médico, da cura gay e uma da Zona Leste Somos Nós. Outras em
rodovias e no interior também aconteceram, mas a tendência é de que,
salvo se se afirmar uma outra organização com legitimidade para
convoca-las, as manifestações tendem a diminuir e refluir.

Se o mesmo passará em outras cidades e Estados, parece cedo para afirmar.
Não é possível ainda saber o impacto de novas intervenções.
O fascismo interessa ao capital?
A proposição de
petição pública no AVAAZ, capitaneada por Pedro Abramovay, pedindo o
impeachment de Dilma, pode ou não contribuir para formar um quadro
golpista [22].

Quanto à avaliação
das possibilidades de desenvolvimentos golpistas, ademais do que já se
disse, acrescentamos que é possível perceber também um certo desarranjo
entre as forças organizadas da direita. Se alguns editoriais do Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo sugeriram
convocações golpistas, pode-se perceber, também sinais de medo da
violência e de perda de se controle. O acréscimo de noticiário sobre os
conflitos e vandalismo se vê também nos meios televisivos.

Por outro lado, não
parece que para o Capital a derrubada do governo fosse uma alternativa
desejável, uma vez que sairia de um modelo que lhe permite a garantia de
todos os lucros e seu crescimento, em troca do ingresso numa situação
de grande instabilidade.

Donde podemos
resumir afirmando que as manifestações mostraram que a disposição
oposicionista da classe média aprofunda-se para a direita, mas que essa
mesma classe média se expressa desorganizadamente. Havendo, assim, um
caldo de cultura para forças golpistas, esse mesmo caldo de cultura traz
em si elementos que dificultam uma ação organizada nesse sentido.

Conclusão
Na década de 50 e
ainda antes de 1964, a esquerda brasileira reconstituiu um sebastianismo
próprio em torno da imagem do conflito entre pobres e ricos,
vislumbrando o dia em que os de baixo da ordem social, localizados nas
alturas geográficas do Rio de Janeiro, fariam o assalto ao poder: “Mas, olhem bem, vocês: quando derem vez ao morro, toda cidade vai cantar!”.

Ainda que as
análises mais consistentes apontem a inapetência do subproletariado para
o conflito social, a possibilidade de vê-lo convertido em proletariado,
após 10 anos de lulismo pode, é verdade, permitir enxergá-lo na Avenida
Paulista. Trata-se, porém, de saber se naquele espaço ele estaria se
vendo ao lado ou contra essa classe média que por ora dali se adonou.

Para a esquerda como para a direita, a visão do subproletariado como um novo proletariado pode povoar sonhos e pesadelos.
BIBLIOGRAFIA
DATAFOLHA. Maioria
dos manifestantes em SP usa transporte público, diz Datafolha.
Disponível em
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1299800-onibus-e-metro-sao-os-transportes-mais-utilizados-por-manifestantes-em-sp.shtml,
acesso em 23 de junho de 2013.

POCHMANN, Márcio. Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2012.
SINGER, André Vitor. Os sentidos do Lulismo. Reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
SINGER, André
Vitor. Esquerda ou Direita? Disponível em
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/andresinger/2013/06/1299454-esquerda-ou-direita.shtml,
acesso em 23 de junho de 2013.

[1] A definição de
esquerda e direita é sempre assunto merecedor de exames aprofundados.
Dadas as condições deste trabalho – limite de espaço, de tempo, e o fato
de estar redigindo “no meio da floresta” -, optamos por seguir a lição
de BOBBIO e valer-nos da adesão à busca da realização da igualdade como
parâmetro definidor da diferença entre esquerda e direita, aquela com
sinal positivo, esta com sinal negativo.

[2] Nota da CNBB
fala: “declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde
que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades,
sobretudo os jovens. Trata-se de um fenômeno que envolve o povo
brasileiro e o desperta para uma nova consciência”; Nota do PCB: Por
todo o país, centenas de milhares de pessoas, em sua maioria jovens, vêm
ocupando as ruas…”; Nota da Refundação Comunista: “Todavia, a
juventude, os trabalhadores e todo o povo brasileiro se mostram
indignados e demonstram extraordinária capacidade combativa.”; Carta
Aberta dos Movimentos Sociais: “As recentes mobilizações são
protagonizadas por um amplo leque da juventude que participa pela
primeira vez de mobilizações”.

[3] O trabalho de
SINGER está voltado primordialmente para análise do comportamento
eleitoral. Desse modo, valer-nos dele para análise de manifestações de
massas em situações não eleitorais pode, evidentemente, ser inadequado.
Julgamos, porém, que seu aporte sobre o conhecimento e posicionamentos
do subproletariado e da classe média ajudam a entender como participam
(ou não) do atual processo.

[4] Até 5 sm. de renda familiar, grosso modo, SINGER (2012, P. 42)
[5] Uma dificuldade
para o trabalho com dados de SINGER e POCHMANN reside no fato de aquele
valer-se de renda familiar, e este de renda individual. Partindo de uma
abordagem que considere a renda familiar constituída, em princípio,
pela contribuição de dois trabalhadores, teríamos de

[6] SOUZA, Jessé. Os batalhadores brasileiros, p. 23, apud SINGER 2012
[7] Anote-se, para o
exame da atual insurreição da classe média, uma medida mais de
interesse da base da pirâmide, a extensão às empregadas domésticas dos
direitos trabalhistas reconhecidos aos demais trabalhadores.

[8] Esses partidos
embora adotando ou se dispondo a adotar uma teoria que os põe na defesa
dos interesses do proletariado, estão fudamentalmente compostos de
militantes de classe média. Têm, assim, a cabeça nas estrelas enquanto
os pés afundam na lama. Essa circunstância gera seduções e descaminhos
que no mor das vezes não são percebidos e são, pelo contrário,
justificados como a mais pura aplicação da teoria. O afastamento da
análise da situação concreta, da formação político-econômica-social em
proveito do modo de produção parte disso, como as tendências ao
esquerdismo.

[9] Possivelmente
tenha sido o MST o único movimento social a se diferenciar , aqui, por
não assumir uma condição de movimento identitário, nem reduzir suas
demandas a similares de programas lulistas. Talvez tenha sido ele, por
isso, o movimento social mais golpeado pelo lulismo com a rejeição de
suas demandas.

[10] Procuro aqui
diferenciar movimentos sociais, aqueles cujas demandas têm, de algum
modo, relação com a situação social das pessoas, como movimentos de
sem-terra e sem-teto, daqueles movimentos que se destinam a afirmar ou
proteger a identidade das pessoas, como movimentos feministas, pelo
reconhecimento e proteção da diversidade sexual, de indígenas e
quilombolas.

[11] Como outros
exemplos, podemos lembrar as bandeiras por redução da maioridade penal,
exigência de maior atividade policial, por exemplo.

[12] Um fato que não restou mensurado é o da participação dos estudantes universitários prounistas.
[13] Indicativo disso se tem em pesquisa do Datafolha publica na Folha de S. Paulo do
dia 23 de junho de 2012 em que, ao indagar-se sobre a continuidade das
manifestações na sexta-feira, dia 21, 66% se pronunciaram pela
continuidade dos protestos e 34% contra: “O apoio está entre os mais
escolarizados, aqueles com renda mensal de cinco a dez salários mínimos e
entre os mais ricos. Contra estão principalmente os mais velhos e os
que têm renda até dois salários mínimos”. Folha de S. Paulo, 23 de junho de 2013, Cotidiano 1, p.1.

Esses resultados
constituem também uma confirmação mais da conclusão de SINGER sobre a
rejeição do conflito pelo setor de mais baixa renda da sociedade. Quanto
a essas manifestações especificamente, porém, SINGER vê nelas a
presença do novo proletariado, ex-integrantes do sub-proletariado
favorecidos com uma ascensão social: “Se o estopim foi aceso pela classe
média, o novo proletariado, forjado na década do lulismo, entrou nas
avenidas, dando um colorido inédito às marchas reivindicatórias.”
(SINGER (2013-A).

Mas pesquisa
realizada tão somente entre participantes da maior das manifestações
havidas em São Paulo, a do dia 20 de junho, após a redução da tarifa do
transporte público não permite localizar esse novo proletariado. Ouvidos
pelo Datafolha 551 entrevistados, a pesquisa com margem de erro de 4%
indicou que a maioria dos manifestantes tinha entre 21 e 35 anos (63%), e
ensino superior (78%).

[14] Perceba-se que
no caso tornado pela mídia emblemático da corrupção no Brasil – o do
mensalão -, não há a figura do corruptor que provê o dinheiro.
Tratar-se-ia de caso de corrupção em que membros de um partido, com
dinheiro do partido, corromperiam membros do próprio partido e de outros
para votar matérias de interesse de seus partidos.

[15] Lembremos que a luta contra a corrupção já era bandeira da classe média ao tempo da UDN.
[16] Com a possível exceção dos saques que teriam envolvido moradores de rua, durante a manifestação da terça-feira, 18/06.
[17] Considero a
hipótese, dado o fato da incorporação do setor jovem dessa classe média
que também tenha ocorrido a identificação da abertura de uma janela
histórica para a participação, para mudar o Brasil. Esses jovens lêem e
ouvem falar das lutas de seus avós contra a ditadura, de seus pais,
entre os caras-pintadas. Podem ter visto agora a oportunidade e ouvido o
chamado para ocupar seu lugar nas ruas. Que essa participação fosse
desorganizada e individual, pode resultar do fato de que a janela que se
abre se abre na tela do computador, que o chamado que se ouve não
permite a organização.

[18] Um elemento
episódico: Em 1968, milhares de pessoas foram às ruas em manifestações
contra a ditadura. Quando, em 1992, desatou-se o processo do impeachment
de Collor, a TV Globo levava ao ar, com grande sucesso, a série “Anos
Rebeldes”, que glamourizava a luta contra a ditadura, inclusive a
Passeata dos Cem Mil. Agora, coincidentemente, o canal Viva, dedicado a
reapresentações de programas de sucesso da Globo, exibia (segue
exibindo) a mesma série Anos Rebeldes. Teria esse fato ajudado a motivar
os jovens de classe média a buscar “um lugar na história”?

[19] Diferente
disso pensa SINGER (2013-A), para quem uma ausência de direção unificada
permitiu a diversidade de ideologias opostas nas manifestações: “O
saudável ímpeto antivertical tem como contrapartida a falta de direção
unificada. Ao não se delimitar com clareza o que cabia e o que não cabia
nas manifestações, elas começaram a agregar um pouco de tudo, até mesmo
ideologias opostas, como ficou claro na briga entre direita e esquerda
que marcou a comemoração da vitória na av. Paulista anteontem.”

[20] Somente na
convocatória para a 7ª manifestação, a última proposta pelo MPL, José
Maria de Almeida, do PSTU, marcou posição nesse sentido: “Ainda ontem
participei de uma reunião onde ouvi críticas à possibilidade de a
juventude do PT participar das manifestações com suas bandeiras. Penso o
contrário. Que bom que a juventude do PT quer somar-se a luta pela
redução da tarifa, agora, da redução do preço da passagem e pelas demais
demandas do povo que está nas ruas. Alguns podem dizer que trata-se de
uma contradição, pois o governo é do PT. Eu diria que é uma boa
contradição. Quanto mais gente do PT estiver nas ruas lutando, menos
força terão os governo do PT para fazer o que estão fazendo contra o
povo, e isso, de alguma forma vai levar a uma superação desta
contradição. Que venham então as bandeiras do PT para somar-se à luta
pelas reivindicações dos trabalhadores e da juventude brasileira.”

[21] Retomem-se
aqui os dados fornecidos pelas pesquisas do Datafolha, apontando a
participação amplamente majoritária – quase exclusiva – da classe média
tradicional.

[22] Há tempos
vimos sendo advertidos sobre denúncias que apontam o AVAAZ como uma
organização a serviço da CIA, que já promoveu o apoio à intervenção na
Líbia e atualmente na Síria, e agora no Brasil.

Fonte: http://www.viomundo.com.br/


Movimentos Sociais| 26/06/2013 | Copyleft

Limites e contradições dos movimentos que estão nas ruas

Em entrevista à Carta Maior, Paolo Gerbaudo, pesquisador
do Kings College e especialista em movimentos sociais, fala sobre as
semelhanças e diferenças entre os protestos de rua que sacudiram países
como Egito, Turquia, Espanha e Brasil. Gerbaudo aponta a força desses
movimentos, mas também indica seus limites. “Há uma contradição entre o
que se defende como parte de um movimento autônomo que rechaça o Estado,
mas que, ao mesmo tempo, depende do Estado para a satisfação de suas
demandas. Os movimentos podem ter um efeito autodestrutivo. É o que
ocorreu em certa medida no Egito”, adverte. Por Marcelo Justo, de
Londres.

Londres – Os protestos que sacudiram
os sistemas políticos de nações tão díspares como Egito e Brasil nos
últimos três anos não provem da estrutura política tradicional, mas sim
da rua, de uma tradição movimentista. Na Europa da austeridade, no
Brasil de Dilma Rousseff, na Primavera Árabe e na Turquia pró-islâmica
de Recep Tayyip Erdogan estes movimentos – chamem-se indignados,
Movimento Passe Livre ou Occupy – têm traços organizativos similares,
uma mescla de espontaneidade, demandas específicas e escassas consignas
programáticas. Em entrevista à Carta Maior, Paolo
Gerbaudo, pesquisador do Kings College, especialista em novos movimentos
sociais, analisou as expectativas e os limites destes movimentos
políticos e seu significado no caso particular do Brasil.

Você
vê alguma semelhança entre o que ocorreu no Brasil e na Turquia e os
movimentos sociais europeus como os indignados ou o movimento occupy?

Paolo Gerbaudo:
Esses movimentos são, ao mesmo tempo, similares e diferentes. A
diferença diz respeito ao meio social no qual ocorrem. Os movimentos no
Brasil e na Turquia expressam diferentes realidades daquelas da Espanha e
dos Estados Unidos. Não se pode postular uma tendência unilinear. Mas
há semelhanças que podem ser vistas na maneira pela qual os
manifestantes expressam seu protesto, nos símbolos que usam. A máscara
do V de Vingança, como símbolo de certo anarquismo antiautoritário, é um
exemplo. Ela pode ser vista nos protestos de Dubai, do Egito e em
muitos outros lugares. Na capa de um jornal turco apareceu uma foto
muito interessante durante as manifestações do Brasil. Na metade da
capa, aparecia um manifestante com a máscara do V e a bandeira do
Brasil. Na outra metade, havia um manifestante na Turquia com a mesma
máscara e a bandeira turca.

Isso mostra outro elemento
importante. Ao contrário dos movimentos antiglobalização estes
movimentos são nacionais como se vê pela presença das bandeiras. Nos
movimentos antiglobalização, há um forte elemento contracultural e de
presença de minorias. Um postulado básico era a diversidade de táticas e
pertencimentos: anarquistas, feministas, ecologistas eram parte de um
movimento que se baseava na ideia de resistência em um momento no qual a
maioria sentia que o sistema estava oferecendo coisas suficientes para
se manter em conformidade com ele. Não é a situação agora, quando há um
forte rechaço do neoliberalismo. Se alguém pergunta a alguém o que pensa
dos bancos ou do sistema econômico, a resposta intuitiva, sem usar uma
linguagem técnica, é quase unânime de indignação sobre a
disfuncionalidade do sistema.

Mas, se na Europa dos anos 60 ou
70 tivesse ocorrido uma austeridade como a que ocorre agora, a resposta
teria sido muito mais forte, quase uma situação pré-revolucionária. Uma
coisa que surpreende no que está acontecendo é que tenha levado tanto
tempo para ocorrer uma resposta. O que é que está faltando?

Paolo Gerbaudo:
Estes movimentos não começam com uma identidade centrada em uma
ideologia. São lugares de convergência que compartilham a sensação de
ser vítima do sistema. Não é um movimento de minorias. Estive na Espanha
e uma coisa que me impressionou muito foi que nas assembleias aparecia
um especialista em computação dizendo “eu também estou indignado” e, ao
seu lado, havia uma aposentada que tinha sofria uma forte redução em sua
aposentadoria e que dizia o mesmo, ou seja, que ela também estava
indignada. Este “também” é fundamental. Esses movimentos ainda estão
lutando para ter uma visão coerente, que não se resuma à oposição de
modo geral a tudo que está aí. As Assembleias Populares são uma
tentativa de construir esta visão. Em um certo sentido são um passo
fundamental, mas é preciso não se iludir, não é o caso de idolatrá-las.
As assembleias não são uma solução, nem produzirão resultados. Na
Assembleia, reúne-se gente que compartilha as mesmas demandas, mas que
têm identidades políticas distintas. Os indignados estão se dividindo
agora entre os que têm um perfil liberal-conservador, onde há até um
membro da Opus Dei, e os que são autonomistas.

Na Argentina,
hoje, pode-se ver um ciclo completo das Assembleias. No início da crise,
em 2001-2002, foram muito importantes, mas depois, à medida que a
economia se recuperou, foram se diluindo. Hoje são politicamente
irrelevantes. Esse não é um problema de todos estes movimentos que
dependem totalmente de uma crise?

Paolo Gerbaudo:
Totalmente. As Assembleias são uma espécie de sonho anarquista de que é
possível funcionar com um sistema de assembleias. Isso se viu na
Argentina, na Grécia e na Espanha. Há um extraordinário entusiasmo
quando o movimento começa com a ideia de que vão substituir os governos,
mas isso não ocorre, em parte porque as assembleias requerem um gasto
de energia extraordinariamente grande. Atribuem a Oscar Wilde uma frase
que reflete isso: “o socialismo requer demasiadas reuniões nas noites de
quarta”. As pessoas se encantam com as reuniões, mas elas acabam se
tornando cansativas. As Assembleias são um meio, parte das ferramentas
disponíveis para uma mudança. O perigo é acreditarmos que os meios são o
importante. É o que diz um dos ideólogos do movimento Occupy Wall
Street, David Graeber, o “importante são os meios corretos”. Isso é como
dizer: não importa a ideologia, a visão de mundo, importa a democracia.

No
entanto, há sinais de ideologia em todos estes movimentos. Em uma carta
do movimento passe livre a Dilma Rousseff é dito que “o transporte deve
ser público de verdade, acessível a todos, ou seja, um direito
universal. Questionar a tarifa é questionar a própria lógica da política
tarifária que submete o transporte ao lucro dos empresários e não à
necessidade da população”. Essa carta também sustenta que este critério
deveria ser aplicado não só ao transporte, mas sim à saúde, à educação,
etc. Isso parece uma semente de ideologia.

Paolo Gerbaudo:
Exatamente. Mas tem uma limitação. Não apontam um caminho. Por que?
Porque recusam que o Estado é o caminho para a resolução do problema. A
quem estamos fazendo esta demanda? Ao Estado. No caso do Brasil, isso é
claro. Há uma contradição entre o que se defende como parte de um
movimento autônomo que rechaça o Estado, mas que, ao mesmo tempo,
depende do Estado para a satisfação de suas demandas. Mas, sim, há uma
semente de uma ideologia baseada nos direitos sociais, baseada em visões
de gente do povo, uma ideologia que põe a ênfase no direito ao espaço
cidadão. É uma série de demandas que refletem a estrutura social no
movimento, a precária classe média que quer hospitais, espaços públicos,
parques, educação, transporte.

No Brasil os cincos pactos
propostos por Dilma a governadores e prefeitos se centram nesses pontos:
saúde, educação, transporte, reforma fiscal e reforma política. Você
acredita que isso pode colocar um fim à crise?

Paolo Gerbaudo:
Não sei. Esses movimentos estão criticando o sistema de partidos
políticos. Não sei se a cooptação seletiva será suficiente para desarmar
estes movimentos. Pode ser. Estas concessões podem pacificar certos
setores do movimento. Mas ao mesmo tempo é provável que criem novos
partidos que tentem integrar estes elementos.

No Brasil há um
paradoxo. Os protestos ocorrem com um governo popular que aumentou as
políticas sociais em um país com pleno emprego. Não se dá a crise
europeia da austeridade.

Paolo Gerbaudo: Há uma
maneira de entender esses protestos que é pensar que se alimentam da
privação. Neste caso a lógica seria quanto mais fome mais protestos. Mas
pode ocorrer também a lógica inversa. Quanto mais direitos alguém
consegue, mais quer. No Brasil, a situação hoje é muito melhor. Mas como
diz Rodrigo Nunes, em um artigo na Al Jazeera, há que diferenciar entre
crescimento quantitativo e qualitativo. Ganha-se mais, mas os serviços
são piores. Não estive no Brasil, mas muita gente me falou que a
infraestrutura de transporte e o sistema de saúde são terríveis. Tudo
isso afeta a qualidade de vida em um momento no qual o país parecia ir
muito bem. Isso ocorre também na Turquia. Pode haver muito
desenvolvimento, mas a resposta da população é que não se trata
simplesmente de aumentar um critério abstrato de medição como é o PIB,
mas sim de viver melhor.

Nestes episódios a reação dos
governos e da polícia parece cumprir um papel disparador e aglutinador.
Isso é uma parte essencial na aparição de movimentos como estes que, da
noite para o dia, passam a dominar toda a agenda política?

Paolo Gerbaudo:
Em princípio o que os une é o Estado. No Egito, o que uniu todo o mundo
foi a polícia. Todo mundo odeia a polícia. A reação da polícia
representa que só há a vara: não há a cenoura. E o Estado está
representado na polícia. Não é a polícia usada para manter uma ordem
social justa, mas sim a polícia que serve para a injustiça social, um
imã que unifica todo mundo.

Uma coisa que estes movimentos
trazem à superfície é o problema da representação política. Estes
movimentos sociais são uma crítica implícita ou explícita aos partidos
políticos tradicionais.

Paolo Gerbaudo: Os partidos
sempre existiram. Nos tempos de Roma, existia o partido popular e o dos
patrícios. Hoje se critica os partidos políticos, mas a realidade é que
eles têm uma base massiva. Mesmo em um país tão apolítico como o Reino
Unido, os conservadores têm cerca de três milhões de membros. Isso
significa que esses partidos têm certa legitimidade. Inclino-me pela
tese de Gramsci, que defende a convivência de movimentos e partidos.

Os
movimentos podem ter um efeito autodestrutivo. É o que ocorreu em certa
medida no Egito, onde os movimentos rejeitaram toda organização e
estrutura e o resultado foi que abriram a porta para a vitória da
Irmandade Muçulmana que hoje governa o país com resultados desastrosos.
Quanto ao modelo de partido leninista, creio que o desafio é ver como
nos movermos para novas formas de representatividade política que
consigam ir além do centralismo democrático.

Não se trata
simplesmente de uma discussão intelectual. Vê-se isso claramente no
movimento na Itália, onde se coloca a criação de novas formas de
participação democrática por meio da internet. Tudo isso é bastante
problemático porque o movimento tem um terrível paradoxo entre ser
participativo e ter um líder paternalista como Beppe Grillo que decide
quem está no movimento. É algo que o Partido do Futuro, nascido do
movimento dos indignados, está tentando responder na Espanha. Como vamos
usar a internet e os meios de comunicação para reconstruir formas de
participação que não são possíveis hoje com os partidos?

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

21/Jun
2013

Leonardo Sakamoto: E, em São Paulo, o Facebook e o Twitter foram às ruas. Literalmente

Postado por
Marina Selerges

Os
atos contra o aumento nas tarifas dos ônibus trouxeram centenas de
milhares às ruas. Que defendiam a ideia e discordavam da violência com a
qual manifestantes e jornalistas haviam sido espancados e presos pela
Polícia Militar. Uma massa heterogênea, descontente, sob um guarda-chuva
de uma pauta bastante concreta e objetiva. Que  foi atendida.
A
manifestação de segunda, gigantesca, acabou por mudar o perfil dos que
estavam protestando em favor da tarifa. O chamado feito pela redes
sociais trouxe as próprias redes sociais para a rua. Quem não percebeu
que boa parte dos cartazes eram comentários de Facebook e Twitter?
Portanto,
nem todos os que foram às ruas são exatamente progressistas. Aliás, o
Brasil é bem conservador – da “elite branca” paulistana à chamada “nova
classe média” que ascendeu socialmente tendo como referências símbolos
de consumo (e a ausência deles como depressão). É uma população com 93% a
favor da redução da maioridade penal. Que acha que a mulher não é dona
de seu corpo. Que é contra o casamento gay. Que tem nojo dos imigrantes
pobres da América do Sul. Que apoia o genocídio de jovens negros e
pobres nas periferias das grandes cidades. Ou seja, não é porque
centenas de milhares foram às ruas por uma pauta justa que a realidade
mudou e vivemos agora em uma comunidade de Ursinhos Carinhosos.
E dentre os conservadores, temos os que radicalizam. Seja por ignorância, seja por opção.
Desde
que o quinto ato contra as passagens foi anunciado, grupos
conservadores se organizaram na internet para pegar carona no ato. Lá
chegando, foram colocando as mangas de fora com suas pautas paralelas.
Na convocação do sétimo ato, isso ficou bem evidente. Estavam aos
milhares na Paulista e arredores, mas ainda minoria em comparação ao
total de participantes. Mas uma ruidosa, chata e violenta minoria. Com
um discurso superficial, que cola fácil, traz adeptos. Parte deles usava
o verde-amarelo, lembrando os divertidos e emocionantes dias com os
amigos em que se pode ver os jogos da Copa do Mundo.
Nesta
quinta (20), esse grupo sentiu-se à vontade para agir em público
exatamente da mesma forma que já fazia nas áreas de comentários de blogs
e nas redes sociais, mas sob o anonimato. Com isso, parte desse pessoal
começou um ataque verbal e físico a militantes de partidos e
sindicalistas presentes no ato.
Engana-se,
porém, quem diz que essa era uma massa fascista uniforme. Havia, sim,
um pessoal dodói da ultradireita, que enxerga comunismo em ovo e estava
babando de raiva e louco para derrubar um governo. Que tem saudades de
1964 e fotos de velhos generais de cueca na parede do quarto. Essa
ultradireita se utiliza da violência física e da intimidação como
instrumentos de pressão e que, por menos numerosos que sejam, causam
estrago. Estão entre os mais pobres (neonazistas, supremacia branca e
outras bobagens), mas também os mais ricos – com acesso a recursos
midiáticos e dinheiro. A saída deles do armário e o seu ataque a
manifestantes ligados a partidos foi bastante consciente
Mas
um grupo, principalmente de jovens, precariamente informado, desaguou
subitamente nas manifestações de rua, sem nenhuma formação política, mas
com muita raiva e indignação, abraçando a bandeira das manifestações. A
revolta destes contra quem portava uma bandeira não foi necessariamente
contra partidos, mas a instituições tradicionais que representam
autoridade como um todo. Os repórteres da TV Globo, por exemplo, não
estão conseguindo nem usar o prisma com a marca da emissora na cobertura
– e não é só por conta de militantes da esquerda. Alckmin e Haddad, que
demoraram demais para tomar a decisão de revogar e frear o caldo que
entornava, ajudaram a agravar a situação de descontentamento com a
classe política. “Que se vão todos”, pensam esses jovens. “Não
precisamos de partidos para resolver nossos problemas”, dizem outros,
que não conhecem a história recente do Brasil. “Políticos são um
câncer”, que colocam todo mundo no mesmo balaio de gatos.
Elas
não entendem que a livre associação em partidos e a livre expressão são
direitos humanos e que negá-los é equivalente a um policial militar dar
um golpe de cassetete em um manifestante pacífico. Dito isso, creio que
foi um erro de análise de militantes de partidos estarem presentes no
ato empunhando bandeiras. Direito eles tinham, mas não era a hora.
Conversei
com muitos deles que pediam “abaixo os partidos políticos”, pauta que
comecei a ouvir na segunda (17), quando aquele perfil diferente de
manifestante engrossou os atos (lembrem-se, eu sou o #chatodepasseata,
adoro cutucar). Perguntei o porquê dessa agressividade. Depois de cinco
minutos, eles mesmos percebiam que não sabiam me responder a razão.
Compravam um discurso fácil guiado pela indignação.
Dentre
esses indignados que foram preparados, ao longo do tempo, pela família,
pela escola, pela igreja e pela mídia para tratarem o mundo de forma
conservadora, sem muita reflexão, tem gente simplesmente com muita raiva
de tudo e botando isso para fora. O PSDB tem culpa nisso. O PT tem
culpa nisso. Pois, a questão não é só garantir emprego e objetos de
consumo. Sinto que eles querem sentir que poderão ser protagonistas de
seu país e de suas vidas. E vêm as classe política e as instituições que
aí estão como os problemas disso.

reside um problema. Porque não se joga a criança fora porque a água do
banho está suja. E não se expulsa políticos ou partidos do processo
democrático por vias autoritárias – por mais que o sangue suba à cabeça.
Muitos
entre os mais jovens desconhecem o valor das lutas que trouxeram a
sociedade até aqui – e não fizemos questão de mostrar isso a eles. Muito
menos como os mais velhos foram protagonistas dessas lutas. Eles não
precisam ser mitificados (não gosto de heróis), mas também não podem ser
desprezados. Pois, se daqui em diante, novos caminhos podem ser
trilhados é porque alguém abriu uma estrada que nos trouxe até aqui.
É
claro que os grupos conservadores mais radicais estão se aproveitando
desse momento e botando lenha nesse descontentamento, apontando como
culpados a classe política que está no poder e suas instituições.
Flertam com ações autoritárias e, é claro, adorariam desestabilizar as
instituições.
Não
temos uma prática de debate político público como em outros lugares.
Se, de um lado, vamos ter que aprender a conviver com passeatas
conservadoras sem achar que vai rolar uma nova Macha da Família com Deus
pela Liberdade nos moldes daquela que nos levou à Grande Noite, de
outro, os reacionários extremistas vão ter que aprender a ser portar com
decência – coisa que, nas redes sociais, já provaram que são incapazes
de fazer.
O
desafio é que, diante de comportamentos questionáveis e pouco
democráticos desses jovens conservadores, externamos o nosso desprezo e
nossa raiva. Podemos ignorá-los, enquanto crescem em número. Ou podemos
conquistá-los para o diálogo e não o confronto.
Até
porque, precisam compreender, por exemplo, que “o povo não acordou”
agora. Quem acordou foi uma parte. Outra parte nunca dormiu, afinal não
tinha cama para tanto. No campo, marchas reúnem milhares de pobres entre
os mais pobres, que pedem terra plantar e seus territórios ancestrais
de volta – grupos que são vítimas de massacres e chacinas desde sempre.
Ao mesmo tempo, feministas, negros, gays, lésbicas, sem-teto sempre
denunciaram a violação de seus direitos pelos mesmos fascistas que,
agora, tentam puxar a multidão para o seu lado.
Enfim,
o grosso do povo mesmo vai acordar no momento em que a maioria pobre
deste país perceber que é explorada sistematicamente. Quando isso
acontecer, vai ser lindo.
Uma
vez, posto em marcha, um movimento horizontal, sem lideranças claras,
tem suas delícias – como o fato de ser um rio difícil de controlar. E
sua dores – como o fato de ser um rio difícil de controlar. Temos que
aprender a não se assustar com isso.
Muitos
desses jovens estão descontentes, mas não sabem o que querem. Sabem o
que não querem. Neste momento, por mais agressivos que sejam, boa parte
deles está em êxtase, alucinada com a rua e com o poder que acreditam
ter nas mãos. Mas ao mesmo tempo com medo. Pois cobrados de uma resposta
sobre sua insatisfação, no fundo, no fundo, conseguem perceber apenas
um grande vazio.
O
fato é que há um déficit de democracia participativa que vai ter que
ser resolvido. Só votar e esperar quatro anos não adianta mais. Uma
reforma política, que inclua ferramentas de participação popular, pode
ser a saída. Lembrando que aumentar a democracia participativa não é
governar por plebiscito – num país como o nosso, isso significaria que
os direitos das minorias seriam esmagados feito biscoito. Como deu para
ver em alguns momentos, nesta quinta, na avenida Paulista.
O momento é de respirar, ter calma, dialogar. Mas não abandonar o bom debate.

27/06/2013

A esquerda não pode piscar

O Brasil ingressa num ciclo de turbulência do
qual a democracia participativa poderá emergir como parteira de uma
sociedade mais equilibrada e justa.

Mas a esquerda não pode piscar.

A disputa fratricida, hoje, é o coveiro das esperanças nacionais.

Nos
anos 50, um pedaço das forças progressistas só foi perceber o seu lado
no jogo quando o povo já incendiava os carros do jornal ‘O Globo’, em
resposta ao tiro com o qual Getúlio encerrou a sua resistência e
convocou a das massas.

Ontem, como agora, o enclausuramento
ideológico, o acanhamento organizativo e a dispersão programática
pavimentam o caminho da ameaça regressiva.

É a hora da verdade de toda uma geração.

Cabe-lhe sustentar um novo desenho progressista para o desenvolvimento do país.

Um
notável volume de investimentos é requerido para adequar a logística
social e a infraestrutura às dimensões de uma nação que incorporou
milhões de pobres ao mercado de consumo nos últimos anos.

Agora lhes deve a cidadania.

O novo giro da engrenagem terá que ocorrer num momento paradoxal.

A
recuperação norte-americana encoraja as apostas no fim da crise, mas
complica a mecânica do crescimento na periferia do mundo, encarecendo
o custo do capital.

Asfixiada antes pela valorização do Real, a
indústria brasileira agora é o canal de transmissão da alta do dólar
nos índices de preços, por conta das importações.

Dotado de uma base fabril atrofiada pelo irrealismo cambial, o país importa quase 25% das manufaturas que consome.

A sangria destrói empregos e desperdiça receitas que faltam ao gasto público, ademais de fragilizar as contas externas.

O déficit comercial da indústria este ano alcançará o equivalente a 20% das reservas cambiais.

É
só um vagalhão da tempestade perfeita que cobra respostas em várias
frentes: prover a infraestrutura, combater a inflação, resgatar a
industrialização, dar progressividade ao sistema tributário, ajustar o
câmbio, modular o consumo.

Tudo junto e com a mesma prioridade.

A
urgência das ruas sacudiu essa equação que há menos de um mês tornava a
economia cada vez mais permeável a uma transição preconizada pelo
conservadorismo.

Com o título sugestivo de, ‘Um Plano para
Dilma’, coube ao editorial da Folha de 02/06, como já comentou Carta
Maior, enunciá-la em detalhes.

O ‘plano’ consistia em impor ao
país o projeto derrotado em 2002, 2006 e 2010. A saber: arrocho fiscal
e monetário; entrega do pré-sal às petroleiras internacionais; redução
dos gastos sociais e dos ganhos reais de salários; renúncia ao Mercosul
e adesão aos tratados de livre comércio.

Essa plataforma envelheceu miseravelmente nas últimas horas.

Mas não foi arquivada.

O
interesse conservador que antes pretendia usar o governo para
escalpelar as ruas, subtraindo-lhe conquistas e recursos na ordenação
de um novo ciclo econômico, agora quer usar as ruas para desidratar o
governo.

Mas oscila.

A bipolaridade reflete a ansiedade típica de quem sabe que joga a carta do tudo ou nada.

Não por acaso, o jornalismo a serviço do dinheiro já constata receoso: ‘o que a rua pede colide com o que o mercado pretende’.

Curto e grosso: o espaço para um ajuste estritamente convencional se esgotou.

Quem dará coerência ao desenvolvimento brasileiro a partir de agora? — perguntava Carta Maior há menos de um mês.

Antes turva, a resposta desta vez emerge mais limpa.

A
nova coerência macroeconômica terá que ser buscada na correlação de
forças redesenhada pelas grandes multidões que invadiram as ruas nas
últimas semanas.

Emparedado pela lógica conservadora o governo
Dilma passou a ter escolhas (leia a advertência de Paulo Kliass, na
coluna nesta pág).

E o PT a chance de se reinventar, explicitando uma agenda clara para o passo seguinte da história.

Sua e a do país.

O bônus não autoriza o conjunto das forças progressistas a adotar a agenda da fragmentação suicida.

O focalismo cego às interações estruturais é confortável.

O descompromisso com partidos e organização dá leveza e audiência na mídia conservadora.

Mas
levam ao impasse autodestrutivo e à inconsequência histórica (leia a
entrevista do pesquisador Paolo Gerbaldo, do Kings College, de Londres, a
Marcelo Justo; nesta pág).

Não se faz política sem poder; não se conquista poder sem disputar o Estado.

A
responsabilidade de interferir num processo histórico pressupõe a
adoção de balizas e estruturas que impeçam o retrocesso e assegurem
coerência às mudanças.

Sem alianças aglutinadoras, nada acontecerá.

O jogo é pesado.

Limites estritos à ação convergente do Estado (mínimo) foram erguidos em todo o mundo nos últimos 30 anos.

A liberdade dos capitais manteve nações, projetos, partidos e governos sob chantagem impiedosa.

Domínios insulares foram instalados no interior do aparato público.

O
conjunto elevou a tensão política que explode periodicamente quando os
mercados blindados enfrentam a democracia insatisfeita nas urnas.

Teoricamente, essa é a hora em que o bancário e o banqueiro tem o mesmo peso no escrutínio do futuro.

Na prática, porém, é a locomotiva dos grandes levantes populares que delimita a fronteira da democracia social em cada época.

A
alavanca brasileira, neste caso, foram os levantes operários do ABC
paulista dos anos 70/80 e a luta cívica contra a ditadura militar.

Daí nasceria o PT.

E
o subsequente ciclo de governos do partido, caracterizado pela
negociação permanente do divisor entre os dois domínios, o do dinheiro e
o dos interesses gerais da sociedade.

Negociou-se ‘sem romper contratos’ nos últimos 12 anos.

Com acertos, equívocos e hesitações fartamente listados.

Ainda assim, o saldo configura ‘um custo Brasil’ intolerável aos interesses acantonados no polo oposto do braço de ferro.

Avançar à bordo da composição de forças que delimitou a ação progressista até aqui tornou-se cada dia mais penoso.

Faltava
a locomotiva da história apitar outra vez para esticar os limites do
possível na discussão do novo ciclo de crescimento que o país requer.

Foi o que fizeram as ruas.

A
presidenta Dilma viu o bonde passar e não hesitou: ao redesenhar os
perímetros da democracia com a reforma plebiscitária, tornou implícito
–queira ou não– que a soberania popular é também o único impulso capaz
de harmonizar as balizas do novo ciclo de desenvolvimento.

Vive-se um meio fio.

De um lado, há a chance de uma ruptura efetiva do desenvolvimento com a camisa de força do neoliberalismo.

De outro, a espiral descendente dos impasses pode jogar o país no abismo de uma recaída ortodoxa devastadora.

O tempo urge.

Se a esquerda piscar, a vaca vai para o brejo.

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