Zezito de Oliveira – educador e produtor cultural de iniciativas de base comunitária.
com um certo nível de tensionamento, causado por uma questão ligada aos
trâmites do rito de encaminhamento para
a escolha do novo representante dos
professores no conselho escolar,
participei de uma outra reunião pedagógica, cujo objetivo foi iniciar a discussão do projeto da semana da
consciência negra .
Quase ao final da
reunião disse a colega que organiza ou
sistematiza as diretrizes e as ações do
projeto, que aquela é o tipo de reunião
pedagógica que eu gosto de participar. E,
reuniões “felizes” como tal, às vezes é muito raro, parafraseando uma
música do Jota Quest.
marcada por alguma tensão, o que às vezes é salutar e necessário desde que vá
se dissipando para não obstruir o trabalho criativo e as relações interpessoais. A tensão se deu por conta da escolha do método
de discussão acerca dos fundamentos do projeto. O que defendo está baseado nos princípios paulofreiriano e por isso
requer a escolha problematizada dos marcos fundantes ou dos termos conceituais,
os quais embasarão ou fundamentarão os
argumentos lógicos do projeto. Detalhe: Para facilitar uma
participação mais ampla em termos de público e de uma maneira mais objetiva neste
momento inicial, podemos discutir os
marcos a partir de problemas , utilizando para isso a técnica conhecida como árvore de problemas
trouxemos da prática com educação popular, e que foi
relativamente utilizada na reunião acima citada, podemos citar a técnica da
tempestade de idéias. A qual lança um
tema e uma pergunta para que as pessoas falem sem censura. Esta técnica implica
no principio de que sendo o projeto coletivo e horizontal, todos tem direito a
colocar suas idéias sem discussão
inicial e depois com argumentos contra e
favor, algumas propostas sugeridas ficam e outras saem.
“Consciência Negra” sugeri que os marcos conceituais fossem definidos, pois é com base nestes que um projeto coletivo
precisa ser pensado. O marco conceitual funciona como colunas ou alicerces de fundação.
Havendo um bom acordo neste momento, toda a construção argumentativa pode ser realizada contemplando a média dos desejos , necessidades e vontades
de cada individuo. Os marcos conceituais escolhidos inicialmente foram
etnocentrismo, racismo, auto estima das pessoas negras e território. No
decorrer das discussões, o primeiro e o
último marco foram retirados , embora permaneçam inclusos ou
incluídos nos dois marcos restantes, o racismo e auto estima da pessoa negra.
percebeu-se ser necessário discutir os marcos metodológicos. Como por exemplo:
Fazer atividades com competição, ao estilo gincana ou fazer atividades que não
tenham a competição como um dos
componentes principais? A questão da folclorização do tema consciência negra,
destacando apenas questões ligadas ao aspecto cultural, estético ou lúdico ou
considerar outros aspectos também relevantes
e importantes, como a questão dos
pensadores e cientistas afro-descendentes. A questão da redução da quantidade
de tema e/ou objetos, para não favorecer a dispersão
ou a desconecção, fazendo recortes
temporal e espacial, ou seja, focar em um determinado ou poucos períodos de tempo e em um ou poucos territórios. Outro marco metodológico discutido esta ligado a
despersonalização do projeto, o que significa, projeto
não dever ser nominado, mesmo que culturalmente seja dificil a mudança deste hábito, o que quer dizer,
não pode ser o projeto do professor Fulano ou do professor Beltrano, tanto por
razões éticas, como por razões pedagógicas, lamentavelmente isso acontece com
frequência.
Em outro momento podemos abordar com mais detalhes as consequências
negativas da folclorização, da fragmentação e da personalização em projetos
escolares, bem como acerca das estratégias necessárias para a superação disso.
participei de dois projetos este ano na
escola, os saraus multiculturais, arte contra a ditadura e Gonzaga vida e obra, cujo aprendizagem e grau de qualidade estética dos produtos apresentados, alcançaram um nível de qualidade surpreendente, a despeito das questões de disputa
de egos que precisam ser melhor trabalhada
no campo da educação socioemocional e de outros limites e desafios que podem ser superados.
ser melhor no próximo ano, caso insistamos
em utilizar os princípios e as técnicas de construção coletiva e colaborativa
de projeto, inclusive de forma mais abrangente, incluindo alunos funcionários e até pais, porque não?
Mas para isso, algumas questões precisam ser motivos de reflexão, isso considerando as escolas públicas de uma maneira em geral. Será que
temos a coragem e a firmeza necessária para avançar a democracia em ação e em atitudes, mais do que em palavras? Falo isso
no lugar de professor. Será que a crise da educação e do ensino médio em particular
não parte de uma tradição pedagógica e de gestão que se preocupa muito mais em
convencer e/ou induzir os outros (as), do que propriamente ouvir primeiro os anseios
e as expectativas de todos (as) para depois traçar as diretrizes dos programas
e dos projetos? Como criar uma escola detradição democrática com um grau de solidez/coesão necessária, que possa fazer valer os ideais deautonomia e de criatividade que constam na LDB e em outros tipos de legislação?
E como realizar aulas mais dinâmicas, interativas e criativas sem laboratórios, sem auditório e/ou sala multiuso para artes, sem espaços para práticas de esportes, recreação e lazer?
Com o tanto de questões para responder como essas, será que faz sentido debater o projeto escola sem partido, dentro dos limites rasteiros e equivocados de quem propôs?
Como diz
a letra da canção:
novo dia
De um novo tempo que começou
Nesses novos dias, as alegrias
Serão de todos, é só querer
Todos os nossos sonhos serão verdade
O futuro já começou
festa é sua
Hoje a festa é nossa
É de quem quiser
Quem vier
A festa é sua
Hoje a festa é nossa
É de quem quiser
Quem vier…
A experiência da Escola Amorim Lima-SP foi citada “an passant” durante a reunião. Aqui segue um vídeo para apresentar a Amorim Lima.
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terça-feira, 27 de setembro de 2016