São paulo
fotógrafos, cineastas e atores transformaram os 13 andares do edifício
em um efervescente centro cultural, onde ocorrem oficinas de arte e
debates políticos
ao prédio pode imaginar que seja mais uma das ocupações lideradas por
movimentos de moradia no centro de São Paulo, cidade com um dos maiores
déficits habitacionais do país. Engana-se. Com o olhar e os ouvidos
atentos é possível perceber a música que vem do edifício e a
movimentação animada de quem circula pelos apartamentos. Trata-se de uma
ocupação de artistas que se propõe a preencher com arte o espaço, até
então à mercê da especulação imobiliária, e a oferecer oficinas para
moradores de ocupações vizinhas.
Circular pelo prédio já é por si só uma experiência interessante:
paredes, escadas, corredores e janelas dos 13 andares se transformaram
em verdadeiras obras de arte com o trabalho dos moradores. O porão é o
ponto de encontro desse efervescente centro cultural, onde ocorrem
oficinas, sessões de filmes e assembleias, que reúnem os pelo menos 50
artistas que vivem no local, entre circenses, músicos, pintores,
grafiteiros, fotógrafos, cineastas e atores. Em geral, são artistas
vindos, como eles definem, das “quebradas” da cidade, além de viajantes
da Argentina e do Uruguai, que também encontraram refúgio no local.
“É também uma luta ideológica. Este prédio estava ocioso, e os
aluguéis em São Paulo são muito caros. Isso te força a trabalhar muito
mais. Se não houvesse esse gasto extra, da especulação imobiliária,
teríamos todos mais tempo para estudar, produzir arte e nos engajar na
militância. As pessoas precisam colocar na sua organização de vida a
demanda por aprender e se realizar pessoalmente”, diz o artista circense
que se identificou como Furlan. “Entrar no sistema é muito mais fácil,
você pode fazer isso a qualquer momento. Nós aqui estamos resistindo e
isso nos exige muito mais.”
O próximo passo, e principal objetivo dos moradores da chamada
Ocupa 63, é trazer os moradores das ocupações vizinhas, especialmente as
crianças e adolescentes, para participar das atividades culturais e das
oficinas de arte. Para isso, eles já iniciaram diálogo com as
lideranças das ocupações e dos movimentos de moradia e pretendem
estruturar um calendário de atividades, a ser divulgado entre eles. Já
estão previstas aulas de esperanto, de ioga, malabares e artes marciais,
sessões de filmes de temática social e oficinas de serigrafia.
“Queremos que aqui seja um ponto de encontro para as ocupações do
centro. Um local onde as pessoas possam trazer seus filhos para aprender
arte e discutir sobre a luta social por moradia”, afirma o músico e
artista circense Pastor, morador da Ouvidor 63. “Os artistas têm
realizado trabalhos que as famílias daqui podem se interessar. Nas
primeiras conversas já percebemos que eles têm sede muito grande de
aprender e acreditamos que pode ser uma troca muito rica.”
No dia 1º maio, a ocupação da Ouvidor 63 completará seu primeiro ano.
No último Dia do Trabalho, um grupo de então 80 artistas ocupou o
prédio, que inicialmente pertencia à Companhia de Desenvolvimento
Habitacional e Urbano (CDHU) e depois foi entregue ao INSS, como
pagamento de dívida.
O edifício já foi ocupado por um movimento de moradia, que sofreu uma
reintegração de posse em 2003. Desde então, o local permaneceu vazio,
até a chegada dos artistas no ano passado. Já estabelecidos e produzindo
arte, o desafio agora é vencer as barreiras técnicas e financeiras e
conseguir realizar reparos na elétrica e hidráulica do prédio.
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- Ocupação de artistas se propõe a preencher com arte o espaço
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- Artistas, em geral, são da cidade e vindos da Argentina e Uruguai
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- Dizem que também é uma luta ideológica, uma resistência
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- Estão previstas oficinas de esperanto e serigrafia, aulas de ioga e artes marciais
- Fotos – Pri Villariño/RBA
- No próximo 1º maio a ocupação da Ouvidor 63 completará seu primeiro ano
