Veículos comerciais pavimentaram a estrada para o candidato do PSL crescer. E agora não sabem como lidar com ele

por Glauco Faria, da RBA


publicado
31/07/2018 17h12,


última modificação
31/07/2018 17h54

Pixabay

corvos bolsonaro

“Cría cuervos que te sacarán los ojos”: o ditado espanhol pode se aplicar à mídia tradicional?
São Paulo – Já foram feitas diversas análises da participação do presidenciável do PSL, o deputado Jair Bolsonaro, no programa Roda Viva,
da TV Cultura, na segunda-feira (30). O programa alcançou recordes de
audiência em sua série com presidenciáveis, tanto na televisão aberta
quanto no YouTube. Parte disso é fruto do engajamento do seu séquito,
outra parte vem da chamada “torcida contrária” que queria ver o
candidato sangrar (ou passar vergonha) em rede nacional.

Pode-se dizer que Bolsonaro não decepcionou nenhum dos dois
segmentos. Seu discurso habitual carregado de ódio à esquerda e
desrespeito a minorias estava lá, em seu habitual lugar de lugares
comuns hoje banais em grupos de Whatsapp e comentários de portais e
redes sociais. O presidenciável é o amálgama disso e não desagradou seu
eleitorado. Por outro lado, ao falar de Vladimir Herzog, desancar José
Gregori, negar ou relativizar a tortura na ditadura civil-militar,
defender “licença para matar” para as polícias, causa ojeriza e repulsa
de outra parcela da sociedade.

Em julho de 2015, Bolsonaro já aparecia em uma pesquisa CNT/MDA
com índices que variavam entre 4,6% e 5,5%. Pouca gente se preocupou,
mas era a primeira vez que o candidato saía da margem de erro. Ocupava
um espaço aberto graças, em parte, à agressiva campanha do tucano Aécio
Neves no ano anterior, onde apelou para o mais raso antipetismo (que na
prática tinha como alvo todo campo da esquerda ou similar) para,
primeiro, chegar ao segundo turno superando Marina Silva, e depois
tentar bater Dilma Rousseff. O presidenciável do PSDB, em sua
empreitada, contou com a generosa ajuda da mídia que se pretende
hegemônica. E também não recusou – ou até cortejou – o auxílio de
páginas proto fascistas e grupos vindos dos subterrâneos das redes
sociais.

Foi essa mesma mídia que ajudou a inflar os protestos contra a
presidenta Dilma Rousseff. Ali, outros veículos não alinhados já
denunciavam todo o caldo que incluía extremismos perigosos, saudações à
ditadura e toda a agressividade que era sublimada na cobertura
jornalística tradicional em nome de uma “causa maior”: alijar o grupo
político que estava no governo.

O que saiu do previsto naquela altura era que o sentimento
antipetista extrapolasse seus limites e se tornasse antipolítico.
Alckmin e Aécio foram hostilizados em uma das manifestações pelo
impeachment na Avenida Paulista. Um estudo feito em meio ao protesto anti-Dilma
de 12 de abril de 2015, 73,2% dos entrevistados diziam não confiar em
partidos. Mesmo a legenda com maior apoio, o PSDB, tinha a confiança de
apenas 11% dos manifestantes.

Estava aberto o caminho para Bolsonaro, que desde então cresceu,
assegurando a vice-liderança nas sondagens. Ontem, os entrevistadores do
Roda Viva fizeram algum esforço para desconstruí-lo. Mas é bom
lembrar que o deputado não é alguém que surgiu agora. Há anos destila
ódio e preconceito na Câmara dos Deputados. Em 2009, por exemplo, dizia
que “quem busca osso é cachorro”,
se referindo às buscas pelos restos mortais dos guerrilheiros do
Araguaia, pendurando na porta de seu gabinete uma camiseta com a
mensagem: “Direitos Humanos: esterco da vagabundagem”.

Isso não causou espanto na mídia tradicional, e quase ninguém repercutiu. Em uma das perguntas feitas a ele no Roda Viva, Bolsonaro devolveu dizendo que o jornal O Globo,
em editorial, havia saudado a derrubada de João Goulart, demonstrando o
apoio da mídia ao golpe de 1964. Em resposta, um dos membros da bancada
disse que diversos veículos fizeram mea culpa em relação a seus posicionamentos à época. Mas não há registro de nenhuma retratação, por exemplo, da Folha de S.Paulo por denominar o período da ditadura civil-militar de “ditabranda”. Isso foi dito há alguns anos, em editorial de fevereiro de 2009, e não na década de 1960…

O fato é que toda a mídia tradicional se importa muito pouco com os
direitos humanos. Com direitos sociais. Com direitos, enfim. Nada mais
natural que tenha problemas em afrontar Bolsonaro em um debate desses.
Tome-se outro exemplo da entrevista com o candidato do PSL. Por meio de
uma pergunta gravada por Frei David, da ONG Educafro, Bolsonaro é
questionado a respeito do sistema de cotas. Desfila um festival de
bobagens históricas e lugares-comuns sobre meritocracia.

Até observam o que disse a respeito da colonização portuguesa, mas
entre os membros da bancada, onde não há nenhum negro, não se dá uma
palavra sequer a respeito dos evidentes resultados do sistema de cotas
no Brasil. Simplesmente porque cotas ou desigualdade racial são pautas
que não interessam aos veículos comerciais que, ou se calam a respeito
ou, assim como Bolsonaro, evidenciam seu posicionamento contrário ao
sistema em editoriais e na sua cobertura.

Quando questionado sobre programa de governo ou iniciativas concretas
que poderia tomar como presidente, o presidenciável do PSL se confunde,
como aconteceu quando se aventurou a falar de saúde pública. Poderia
ter sido confrontado, por exemplo, sobre seu posicionamento favorável à
“reforma” trabalhista, aquela que iria criar empregos, mas que não só
precarizou a mão de obra no país como foi incapaz de deter o aumento do desemprego. Mas aí havia um problema: os veículos representados na bancada do Roda Viva também são favoráveis à dita reforma.

A falta de diversidade da composição da bancada reflete, na prática, a
concentração da mídia brasileira. Essencialmente comercial, anabolizada
pela falta de regulação e oligopolizada, caminha em marcha unida e em
diversos pontos pensa igual a Bolsonaro. Talvez aí resida o porquê de
ser tão difícil para essa mesma mídia desconstruí-lo, tarefa necessária
para que o candidato do establishment, Geraldo Alckmin (PSDB),
chegue ao segundo turno. Além disso, pode ser que esse mesmos veículos
precisem ainda do candidato do PSL. No vale-tudo midiático, a diferença
entre civilização e barbárie é mais tênue do que se enxerga.
 

Barbaridades de Bolsonaro em entrevista pouco importam a muitos eleitores


Leonardo Sakamoto

Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress

Jair
Bolsonaro falou uma montanha de barbaridades em sua entrevista no
programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite desta segunda (30). Mesmo
assim, Jair Bolsonaro provou que sua competitividade pode ser maior do
que a certeza dos que dizem que ele murchará assim que a campanha
começar por conta de seus míseros sete segundos nos blocos de propaganda
na TV.

Não importa que demonstre não dominar nenhuma proposta
para as áreas de economia, educação, saúde, ciência e tecnologia… Aliás,
as soluções que dá aos problemas do país não sobreviveriam a uma sessão
de interrogatório do coronel Brilhante Ustra, o finado
torturador-açougueiro da ditadura, autor do livro que repousa, segundo
Bolsonaro, em sua cabeceira. Ele se esquiva de perguntas e inventa
números. Mas sabe se comunicar. Fala para uma parte dos extremistas o
que eles querem ouvir. E conversa da maneira que uma parte menos radical
dos eleitores entende, mesmo que discorde. Com isso, vai preenchendo
medos, ansiedades e sensação de vazio com essa conexão. O conteúdo,
nesse caso, é menos importante que a forma.

É triste, mas venho
escrevendo a mesma coisa neste espaço há mais de dois anos. Parte das
elites intelectual, social e política segue tratando-o como morbidade
passageira e não entende esse tipo de conexão que ele estabelece. Essas
elites chamam os eleitores de Bolsonaro de ignorantes e acham que a
inércia democrática e o recall das eleições passadas irão mudar o
cenário na hora certa. Com isso, não se preocupam se trabalhadores e o
restante da classe média estão entendendo o velho discurso que eles
próprios seguem usando. Apenas se preocupam com as alianças para ganhar
tempo de TV e em dizer aquilo que consideram racional. O problema é que
apenas a razão, neste caso, não nos libertará.

Pois a racionalidade abandonou o debate político brasileiro há tempos. E o que ficou foi o fígado da ultrapolarização.
(Já
a elite econômica recebeu o recado e entendeu: Bolsonaro entregará a
economia para o mercado se vencer. E, com isso, parte dela abandonou
Geraldo Alckmin. Essa parte da elite se esqueceu que somos craques em
estelionato eleitoral e em mudanças de posição no dayafter.)

Mais
uma vez, é irresistível comparar a situação com a de Donald Trump. Uma
parcela da imprensa e da classe política tinha grande dificuldade de
imaginá-lo despachando no Salão Oval. Quando percebeu que o negócio era
sério e tentou mostrar quem ele era e o que significava o seu discurso,
já era tarde. Hoje, parcela considerável da imprensa e da classe
política brasileira tem dificuldade de imaginar Bolsonaro sentado na
cadeira do Palácio do Planalto. Dizem que ele não conta com tempo de TV,
palanques em locais importantes e que isso é balão que se esvazia.

Bolsonaro
não é Trump e o PSL não é um Partido Republicano na democracia
bipartidária norte-americana. Mas Trump não foi eleito por ser misógino e
preconceituoso, mas por conseguir tocar eleitores de Estados-chave da
federação norte-americana ressentidos por serem órfãos econômicos da
globalização. Tocar os eleitores, essa é a chave.

No Brasil, os
temas comportamentais e morais, apesar de fazerem sucesso nas redes
sociais com a extrema-direita, não serão o fiel da balança do voto. São
insuficientes para levar o centro do espectro político e eleger alguém.
Para a massa, os dois principais temas da campanha serão os mais de 13
milhões de desempregados e os mais de 62 mil homicídios anuais.

Bolsonaro
tem uma resposta para a segurança pública que passa por armar a
população e apoiar a letalidade policial. Na geração de empregos,
contudo, vai mostrando que a qualidade de vida do trabalhador é menos
importante que o desenvolvimento econômico. Na entrevista, afirmou que a
fiscalização do trabalho atrapalha a geração de emprego no campo.
Fiscalização que libertou mais de 52 mil escravos desde 1995. Pelo
visto, bom mesmo era antes da Lei Áurea, quando havia pleno emprego.

Mas
ao falar de suas propostas, mesmo que de maneira vazia, de forma que o
cidadão comum sinta que estabelece com um candidato um canal de
comunicação sobre suas frustrações e dificuldades, conquista
votos. Afinal, as pessoas querem alguém que fale para elas. Mesmo que
não fale nada.

A falta de resposta decente dos atuais governantes à
necessidade de empregos e à garantia de segurança pública pode jogar o
Brasil na mão de qualquer um no ano que vem. Um ”salvador da pátria”
que demonstra orgulho por não ter apreço pelas instituições, por
exemplo.

Bolsonaro sabe conversar com um público que quer saídas
rápidas e fáceis para seus problemas e que precisa de alguém que lhe
entregue uma narrativa – mesmo que inconsistente – para poder tocar sua
vida. Narrativa que os partidos tradicionais solaparam em oferecer.

O
melhor para Bolsonaro é que, agindo como azarão e não representando
nada além dele mesmo, não precisa ganhar nada. Por isso está livre para
fazer o que for preciso para ganhar. Inclusive passar por cima da
democracia ao afirmar que as eleições deste ano estão sob suspeição por
falta do voto impresso. Mas a lisura do processo será questionada apenas
se ele não ganhar, claro.


Foto: Luis Moura/Estadão
 Se não tivessem deixado Paulo Freire tão somente como objeto de estudo ou peça de museu….
Temos aqui uma questão dos temas e das metodologias prioritárias de
ensino, não apenas nas escolas e universidade, mas até mesmo nos
processos formativos desenvolvidos por muitas organizações
progressistas, incluindo os sindicatos e partidos. Sem discutir essas
questões, penso que pouco pode ser feito para mudar essa quadro, que
tende a piorar ainda mais.

Zezito de Oliveira
Leia também no Le Monde Diplomatique em português.
Bolsonaro para os pobres, Paulo Freire para os ricos 
 Leia em Carta Capital
 Pesquisa mostra como pensam os eleitores de Bolsonaro

Parte dos jovens ataca direitos humanos sem ter ideia do que isso seja



Leonardo Sakamoto


A
vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram
assassinados há 136 dias e o caso segue sem conclusão.Foto: Márcia
Foletto/Agência o Globo

A proporção de jovens eleitores de 16 e 17 anos aumentou de 23,9% para 29,5% da
última eleição para cá, segundo análise da Folha de S.Paulo sobre dados
do IBGE e do Tribunal Superior Eleitoral. Isso representa um aumento de
250 mil pessoas entre os alistados para votar nessa faixa etária. O
que, segundo a reportagem, é a primeira alta desde 2006.

Essa
geração foi influenciada pelas Jornadas de Junho de 2013 e pelo
processo de impeachment de Dilma Rousseff. Mas sua trajetória vem sendo
construída na vivência diária, na percepção de diferentes identidades,
no entendimento dos processos de opressão e exclusão.

É
inegável, nesse sentido, o impacto da ação dos coletivos feministas,
LGBTT, negros, indígenas em escolas e comunidades. Apesar de ainda
estarem longe de garantirem a dignidade prevista na Constituição, já
mudaram não apenas a forma como o conteúdo de debates da esfera pública.
Fazendo com que nós, homens, héteros, que não fazemos parte de minorias
étnicas oprimidas, tivéssemos que escutar e mudar. Ou seja, reside
neles a esperança de um mundo menos viciado em preconceito que o nosso.

Mas
a safra de novos eleitores inclui grupos que pensam de forma oposta.
Discursos misóginos, homofóbicos, fundamentalistas e violentos têm
atraído rapazes que, acreditando serem revolucionários e contestadores,
na verdade agem de forma a manter as coisas como sempre foram.
Creem
que estão sendo subversivos lutando contra a ”ditadura do
politicamente correto” – que, na prática, se tornou uma forma
pejorativa de se referir aos direitos básicos que temos por termos
nascido humanos.

Tratei desse tema no ano passado mas, diante da análise publicada pela Folha, achei por bem resgatar a reflexão.
Essa
ditadura, claro, é uma ficção. Se direitos fundamentais fossem
respeitados não haveria fome, crianças trabalhando, idosos deixados para
morrer à própria sorte, pessoas vivendo sem um teto. Não teríamos uma
taxa pornográfica de mais de 60 mil homicídios por ano, nem exploração
sexual de crianças e adolescentes, muito menos trabalho escravo. Aos
migrantes pobres seria garantida a mesma dignidade conferida a migrantes
ricos. Todas as crenças seriam respeitadas. A liberdade de expressão
seria defendida, mas os incitadores de crimes contra a dignidade seriam
responsabilizados. Se direitos humanos fossem efetivados, não teríamos
mulheres sendo estupradas, negros ganhando menos do que brancos e
pessoas morrendo por amar alguém do mesmo sexo. Marielle Franco não
teria sido morta duas vezes – na primeira, seu corpo com alvo, em uma
emboscada, e a segunda, sua reputação, na internet. O que temos, em
verdade, é um status quo sendo contestado, o que provoca pânico em muita
gente.

Parte dos jovens também abraça esses discursos como reação
às tentativas de inclusão de grupos historicamente excluídos, como
mulheres, negros, população LGBTT.

Há rapazes que veem na luta por
direitos iguais por parte de suas colegas de classe ou de coletivos
feministas uma perda de privilégios que hoje nós, os homens, temos.
Nesse contexto, influenciadores digitais, formadores de opinião e guias
religiosos ajudam a fomentar, com seus discursos violentos e
irresponsáveis, uma resposta violenta dos rapazes à luta das jovens
mulheres pelo direito básico a não sofrerem violência.

Qual o
contexto de tudo isso? Há um público jovem insatisfeito que vê seus pais
reclamarem de que as coisas estão mudando para pior, desrespeitando as
”tradições”. Que ouve seus ídolos na internet reclamarem que
antigamente é que era bom, quando podíamos contar piadas sobre outras
pessoas sem sermos criticados. Que assiste a vídeos que bradam que a
exigência por igualdade cria discórdia onde antes havia paz e gera
divisões onde tudo funcionava bem. Funcionava bem para quem?


quem repita mantras de terceiros e não tente pensar por conta própria a
partir de informações que absorveu somadas à sua vivência pessoal. Não
pula o muro de casa e vai para o mundo entender o que está acontecendo, o
que temos de bom, o que temos de ruim, o que mudar e para onde ir. Está
feliz com o mundo que o algoritmo da rede social criou para ele, com o
conforto de ver os amigos em consonância com o seu pensamento. Pois, a
ignorância é realmente um lugar quentinho.

E ao terceirizar sua
interpretação da realidade, torna-se massa de manobra. Ou seja, no
desejo de mudarem o mundo para melhor, devolvem-no para onde ele estava
antes, fazendo o jogo de quem sempre esteve no poder.

Enquanto
isso, os principais partidos políticos não apenas não se esforçaram em
garantir mais participação popular como perderam a confiança da
população ao se apropriar do patrimônio público e utilizarem o poder que
lhes foi emprestado a serviço próprio. Ao mesmo tempo, a política
tradicional derrapou em dar respostas não apenas para o combate ao
desemprego, à violência urbana e rural e à corrupção, como também a
outros desafios da vida cotidiana. Jovens moradores morrem na periferia
aos milhares.

Pode-se continuar dando às costas a eles,
chamando-os de comunistas ou fascistas. Ou abrir o diálogo – muitas
vezes difícil, mas necessário.

Jovens de todos os lados do
espectro ideológicos têm a consciência de que a internet e as redes
sociais trouxeram a eles um poder de interferência nos rumos da
sociedade que a geração de seus pais, quando jovens, não tiveram. Muitos
reivindicam participar ativamente da política, pois só votar e esperar
quatro anos não adianta mais para esse grupo. Querem mais formas de
interferir diretamente nos rumos da ação política de sua cidade, estado
ou país.

Precisamos, urgentemente, ouvir esses jovens e construir
com eles um projeto coletivo para a sociedade em que vivemos. Falo dos
jovens que atuam de boa fé, claro, não os que formam milícias digitais
visando à destruição do outro.

Negar isso e buscar, novamente,
saídas de cima para baixo, seja através da esquerda democrática ou da
direita liberal, não dará certo. Pelo contrário, apenas os jogará na mão
de grupos intolerantes. Não admira que quem sugere adotar as
soluções de sempre são as mesmas pessoas que não entenderam o
significado das manifestações de junho de 2013.

Por fim, como já
disse aqui, vale uma reflexão também aos mais jovens que se engajam na
política, partidária ou não. Dê uma olhada nos livros de História. E
veja se o comportamento que você adota diante do seu semelhante e dos
direitos dele é algo novo ou o mesmo que os donos do poder político,
econômico e religioso faziam nas últimas centenas de anos. Se for, fica a
dica: talvez seja a hora de você dar aquela refletida solitária se você
é realmente dono da sua cabeça ou estão conduzindo ela por você.

——————————————
 Renato Janine Ribeiro


O
que impressiona em Bolsonaro é a completa blindagem dele. Nem ele nem
seus apoiadores levam em conta qualquer argumento ou fato.
Essa é,
na verdade, a tendência de muita gente – de direitistas, esquerdistas,
muitos mesmo. Mas no caso de B, chega ao paroxismo.
O candidato
assim consegue um sucesso danado. Nao há argumento que cole nele. Pode
dizer que apresentou 500 projetos (“não, foram 170”) ou qualquer outra
coisa, que passa. Seus apoiadores dirão que é um detalhe.
Pode errar à vontade, pode faltar à verdade, seus eleitores não dão a mínima.

A pergunta é:
Como falar com seus eleitores, se são impermeáveis ao diálogo? Que
meios utilizar, para desmontar essa bomba que ameaça frontalmente os
direitos humanos?

Marcelo Ennes·

Bolsonaro
parece ter vencido o primeiro embate contra jornalistas e formadores de
opinião durante sua entrevista no programa Roda Vida. Isto aumenta o
risco que sua eleição representa ao presente e ao futuro do país. Sua
candidatura se sustenta em um mix de sentimentos profundamente
retrógrados e isto tem sido sua força até o momento. Acho que Bolsonaro
conta com uma grande vantagem e ele sabe disso. Ele sabe que o problema
não é ele propriamente dito. Ele representa os ressentidos,
os que se sentem injustiçados por políticas promotoras de justiça
social, os que desacreditam na política, os que não desejam participar
da vida pública e política, os que anseiam por soluções rápidas e os que
vivem o desespero por uma vida segura. Na realidade estes são os alvos
que devem ser atacados de frente. O melhor dizendo, a simplificação e a
mentira que tudo isto representa. Mas Bolsonaro sabe que tudo está muito
bem protegido nas crenças e no íntimo de seus eleitores, dimensões até
agora não atingidas pela artilharia errática e descalibrada de seus
opositores (inclusive eu). No momento este é um front no qual a batalha
está vencida por ele. Uma nova batalha se avizinha em outro campo, o
campo dos indecisos. Mas vamos ser derrotado novamente se usarmos a
velha e pesada artilharia dos rótulos, da preguiça e, de sua irmã, a
arrogância intelectual. Uma possível vitória poderia ser obtida se
buscássemos o diálogo e o esclarecimento e se nos valêssemos da escuta e
da autocrítica. A questão é se temos tempo e, principalmente, se temos
coragem e disposição para esta empreitada.





























 

No Roda Viva, Bolsonaro mostrou qual é a senha para derrotá-lo

O Roda Viva serviu para mostrar entre
outras coisas que é mais fácil desmontar Bolsonaro com perguntas mais
simples, do que buscando um embate sério sobre história do Brasil. Ou
mesmo sobre economia.

Há certos momentos em que para se fazer análise
política é preciso se despir dos parâmetros que usamos para compreender o
mundo. Em que é preciso pensar com a cabeça do outro, do cidadão médio,
do tão propalado senso comum.



Em 2014, num debate de segundo turno entre Dilma e Aécio
realizado num dia à tarde pelo SBT/UOL o candidato tucano foi para cima
da sua adversária. As pesquisas internas dos partidos o mostravam já à
frente de Dilma. Ele poderia ter administrado o jogo, mas preferiu
mostrar quem mandava naquela ‘bagaça’.

Quando Dilma, o provocou sobre ter sido flagrado dirigindo alcoolizado, ele teve um surto e a chamou de leviana.
 
Se tivesse soltado a palavra apenas uma vez, neste momento, talvez o
impacto seria menor. Mas como a palavra ecoou fundo no estúdio, o
mineirinho achou que estava arrasando. E resolveu repeti-la por inúmeras
vezes no evento. Cada uma delas com a cara mais brava.



Nesta tarde eu assistia ao debate com várias pessoas mais próximas à
candidatura de Dilma num espaço na rua Consolação em São Paulo. Ao final
do encontro, muita gente achou que a presidenta havia ido mal e Aécio
tinha ganhado a eleição ali.

O fato de Dilma não ter rebatido o leviana com a mesma força
incomodara a militância petista, mas o dia seguinte mostrou que isso foi
a sua força. Dilma havia lutado Aikido com Aécio.



A maior parte das pessoas que assistiam ao debate naquela
tarde eram aposentados, gente simples, mulheres que trabalham em casa,
etc. O clássico público das tardes do SBT. Ou então o grupo mais
militante, que acompanhava pelo UOL. No segundo grupo, ficou tudo igual.
No primeiro, o leviana bateu fundo.

As pesquisas de trackings do dia seguinte já apontavam diminuição de
vantagem de Aécio para Dilma. E ele perdia votos exatamente entre as
mulheres. João Santana percebeu isso e acelerou o discurso de que Aécio
tratava de forma violenta as mulheres. Na rede, o caso de uma agressão à
sua atual esposa denunciada por Juca Kfouri voltou à tona. E dali pra
diante o tucano só despencou entre o eleitorado feminino.



Ao final, as denúncias da Lava Jato ainda o fizeram recuperar uma
parte dos votos, mas nem isso foi suficiente. Aécio se torrou com uma
palavra, leviana.
Bolsonaro falou uma enormidade de absurdos durante o Roda Viva desta
segunda (30) sobre escravidão, cotas, tortura, ditadura etc. É muito
provável que o seu eleitor médio tenha dado de ombros para isso tudo.
Ele acha que o cabra é sincero e fala o que pensa. E que mesmo
discordando dele aqui e ali gosta de sua honestidade.



Mas em dois momentos ele pode ter perdido a mão. O primeiro na
história de como combater a mortalidade infantil. Ali ele mostrou que
não tem a menor compreensão do que é defender a vida nem de um bebê.
Disse sem expressão de carinho que o problema é cuidar dos prematuros e
que as mães precisam tratar da saúde bucal e fazer exames de urina para
melhorar a saúde das crianças. Isso é uma bomba se bem explorada. Toda
mulher adulta sabe quais são os desafios da gestação, por mais simples
que seja. E se ele já estava mal entre o eleitorado feminino isso tende a
piorar a sua situação se bem explorado.
 Também em relação ao cidadão do campo, quando defendeu que ele
trabalhe mais do que o que vive na cidade. “Acho que no campo a CLT
tinha que ser diferente. O homem do campo não pode parar no carnaval,
sábado domingo e feriado. A planta vai estragar, ele tem que colher. E
fica oneroso demais o homem do campo observar essas folgas nessas datas,
como existe na área urbana.”

O PSDB deve começar a fazer isso o quanto antes, porque a estratégia
tucana para este começo de campanha é a de demolir Bolsonaro.

Isso no mínimo vai segurar seu crescimento. Ele pode perder votos e
ganhar ao mesmo tempo, o que deve lhe deixar no mesmo patamar. Porque,
por incrível que pareça, na classe média alta e média muita gente vai
concordar com ele. Hoje em algumas salas de executivos o papo deve ser
de que pelo menos ele falou umas verdades, mandando que os negros
comecem a estudar desde cedo ao invés de querer vaga de cotas depois na
universidade. E algumas madames também devem estar dizendo que ele está
certo. Que ela tinha uma empregada que não tinha um dente na boca e
quando foi ter filho ele nasceu doente.

O Roda Viva serviu para mostrar entre outras coisas que é mais fácil
desmontar Bolsonaro com perguntas mais simples, do que buscando um
embate sério sobre história do Brasil. Ou mesmo sobre economia. Coisas
simples, como qual a proposta dele para a jornada de trabalho, o
trabalho infantil etc, podem complicá-lo mais. Quem é de São Paulo deve
se recordar que Celso Russomanno perdeu a eleição de 2012 por conta de
uma proposta estapafúrdia para cobrar preços diferentes de passagem para
quem morasse mais longe. Sua base, morava mais longe e era mais pobre. E
se revoltou com aquilo e o abandonou. Toda a campanha moralista
anterior havia sido inócua. Esse ataque, no entanto, não, foi certeiro.

Por isso não é exagero falar que a bancada de jornalistas de ontem em
geral ensinou como não se deve lidar com Bolsonaro, porque preferiu
ficar nos pontos mais polêmicos de sua trajetória.

É até compreensível que tenha sido assim, mas isso não lhe tira
votos. Ao contrário, reforça sua imagem de homem sincero e corajoso. Até
porque se era para confrontá-lo em relação ao debate da ditadura, por
exemplo, havia que se fazer isso com um pouco mais de energia. Tendo se
preparado a partir de leituras de falas dele com dados para desmontá-lo.
Coisa que não se viu. A não ser em raros momentos, como, por exemplo, o
em que Bernardo Mello Franco deu uma aula sobre José Gregori para o
candidato que o chamou de torturador.

Bolsonaro tortura a verdade, mas será derrotado por ela. Pelas
verdades escondidas que irá revelar em novos encontros. E não pelas
mentiras que profere e que são escrotas, mas que têm muitos seguidores.