entender as chamadas “jornadas de junho”. Pautas democráticas de
esquerda em convívio com o avanço da extrema-direita em um momento de
rupturas de velhas instituições.
por Gabriel Valery, da RBA
publicado
12/06/2018 18h45,
última modificação
12/06/2018 19h58

Brasil como um momento de ebulição da insatisfação popular que eclodiu
em uma série de manifestações. Milhões de pessoas tomaram as ruas de
todo o país, não apenas nas capitais, em protestos com pautas difusas,
sem ordem clara ou comando definido. Os resultados dessas mobilizações
são os mais diferentes possíveis. Da ampliação do uso do espaço público e
dos pedidos por maior efetividade da democracia, até a ascensão de
movimentos fascistas que chegaram a derrubar uma presidente eleita sem o
cumprimento dos critérios legais.
As contradições das chamadas “jornadas de junho” foram tema de um
debate nesta segunda-feira (11) na livraria Tapera Taperá, região
central de São Paulo. A ONG Artigo 19 divulgou estudo sobre um dos
resultados mais cruéis das mobilizações: a ampliação da repressão do
Estado contra a liberdade de protestos. Também na roda de conversas, o
cientista político Rudá Ricci, autor de obras sobre o tema, e Daniela
Haj Mussi, doutora em Ciência Política pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp).
“Junho de 2013 fissurou a normalidade institucional, ele sincronizou
insatisfações. Isso não significa que o processo confluiu para um
programa concreto. Vivemos neste ano um processo similar com a greve dos
caminhoneiros. Foram explosões de insatisfações sociais. Não podemos
negar as contradições das ruas. Tudo que vem da rua é movimento político
e, se é político, é campo de disputa”, resumiu Daniela.
Ricci apresentou um panorama histórico que construiu o caldo
necessário para a ebulição social de junho de 2013. “Vimos neste século,
em todo o mundo, uma cultura anti-sistema. Um ideário que acabou
possibilitando a argumentação de que junho pode ter aberto as portas
para a extrema-direita que ai está. Mas, mais do que isso, o que junho
faz é romper com todas as estruturas modernas dos séculos 19 e 20”,
disse.
“Tínhamos estruturas verticalizadas, em que todos os membros de
organizações tinham seus espaços preenchidos e, de forma unificada,
seguiam decisões. O que temos agora, são organizações lacunares, com
buracos. As pessoas não se identificam mais com organizações, mas com os
impactos delas. s organizações são mais afetivas e as pessoas são
movidas por situações espetaculares que atingem não pela organização em
si, mas em função do impacto que causou o chamamento. Quase sempre não
vão as mobilizações em função a um chamamento. Ao contrário, vou porque
alguém que conheço chamou. É mais afetivo, emocional do que racional”,
completou.
Para o pensador, essas rupturas influenciam negativamente nas antigas organizações de luta de classes. “Partidos,
sindicatos. O Brasil tem um dos maiores índices de sindicalização do
mundo. Mas agora há uma corrosão da legitimidade. As lideranças, desse
sistema, não conseguem sobreviver por mais de dois anos. Talvez a última
figura nacional estável com autoridade pública seja o Lula. De alguma maneira, junho inaugura essa fase de corrosão das instituições.”
Em vídeo de sua série 20 Minutos,
no YouTube, jornalista, fundador do site Opera Mundi comenta o início
da revolta e seus motivos. A reação da esquerda e da direita. A disputa
pelo comando das ruas. O predomínio da narrativa antipetista.
Conspiração reacionária ou rebelião legítima? Como o conservadorismo
saiu-se vitorioso?
Junho de 2013 será tema de debate no Centro Universitário Maria Antonia da USP
Direita e esquerda
Mesmo com o recrudescimento de uma extrema-direita
barulhenta em âmbito nacional, seguindo passos de diferentes lugares do
mundo, como a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, ou do partido
de extrema-direita na Áustria, Ricci considera que a natureza das
jornadas de junho no Brasil seja de esquerda. “2013 não foi um
movimento de centro nem de direita. Foi uma mobilização social que
colocou mais de 4 milhões de pessoas nas ruas. Um fenômeno fantástico
que abalou completamente todos partidos e dirigentes. Foi surpreendente.
Entrevistei muitas lideranças que organizavam, decidiam. Eram
mobilizações bem estruturadas. Havia uma situação de comoção, um
substrato emocional grande.”
“O ethos era de esquerda. Em
São Paulo, temos uma zona sul e uma zona leste que não é de
extrema-direita. Pode ter traços conservadores em sua base, mas não.
Mas, no centro da cidade e em regiões mais ricas, houve uma disputa com a
extrema-direita. Mas isso foi concentrado em Brasília e São Paulo”,
acrescentou. “No restante, tivemos uma ideia de fortalecimento da
democracia direta e da ocupação do espaço público. Ocupar o espaço para
realizar o projeto de nação atomizado. São discursos importantes
da esquerda no século 20. Havia uma pauta de democratização de políticas
públicas, de atendimento mais universal. Lembremos que a direita
defende que o Estado tem que diminuir sua ação na área social para que o
mercado fique responsável. Mas os manifestantes sempre falavam de
políticas públicas. Queriam saúde e educação.”
Uma das questões, entretanto, foi a forte presença jovem como característica, que buscava uma luta contra o establishment
político do país. E, na época, o Brasil estava há mais de uma década
sob comando de um governo progressista, com maior pegada social, com o
PT, o que acabou por dar força às correntes ultraconservadoras. “O PT
era o governo da ordem. Quem tem 23, 25 anos, na sua adolescência, só
foi governado pelo PT. Evidentemente que a juventude, na medida que
tenta construir uma abertura na sociedade dos adultos, tendo um governo
de mais de uma década, ele era o responsável pela minha não realização.
Ainda mais um partido que fez alianças com todos os lados, com o
interesse dado de manutenção do poder. 2013 foi a provisoriedade e a
utopia no presente”, concluiu.
Repressão
A advogada Camila Marques,
da Artigo 19, fez uma breve exposição sobre um estudo da ONG lançado
ontem, que contempla a escalada da repressão estatal no Brasil depois
daquele momento histórico. “Lançamos este infográfico que trás um
pouco da nossa análise do que foi junho de 2013. Tivemos a missão de
monitorar quais foram as respostas do Estado a junho de 2013. Temos em
mente que a violência do Estado é elemento histórico do Brasil. Mas
tivemos, de lá para cá, a consolidação de um aparato repressivo no
sentido de sofisticar e aprimorar a criminalização”, disse.
Para a especialista,
houve “uma estratégia coordenada das três esferas de poder para criar um
ambiente de criminalização” dos movimentos sociais. “Quando
olhamos para o Legislativo, vemos cerca de 70 projetos de lei que visam
restringir o direito e protesto. Além disso, vimos a Lei Antiterrorismo
ser aprovada em apenas oito meses. Vimos as leis da Copa e das
Olimpíadas. No Executivo, vimos um investimento muito maior no
aparato repressivo. Passaram a introduzir outro tipos de armamentos como
blindados israelenses, canhões sônicos. Vimos uma polícia cada vez mais
aprimorada em seus instrumentos de vigilância. Dizemos que é impossível
se manifestar sem ter um registro feito pela polícia, registro esse que
não sabemos o que eles fazem depois”, disse.
“Temos
também uma Justiça que consolida todo esse processo. Tivemos o caso,
por exemplo, do Rafael Braga, condenado sem sequer ser manifestante.
Condenado por portar um pinho sol. Vimos a Roberta Pereira, manifestante
com os seios à mostra condenada por ato obsceno que aguarda julgamento
no STF. Igor Mendes, no Rio, ficou 26 meses detido. Vimos proibições de
ocupações, interditos proibitórios. Vimos o Sérgio Silva, que teve uma
decisão em que disse que o culpado por ter levado um tiro no olho foi
culpa dele.”
Veja íntegra estudo que organiza os métodos adotados pelo Estado para aprimorar a repressão contra o direito de manifestação no Brasil