O meme abaixo foi adicionado em 24 de Setembro de 2023
“Assim, hoje as bruxas são legião no século XX. E são bruxas
que não
podem ser queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela
primeira vez na história do patriarcado, para o mundo masculino, os
valores femininos. Esta reinserção do feminino na história, resgatando o
prazer, a solidariedade, a não-competição, a união com a natureza,
talvez seja a única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva.”
———————————-
Dedicamos o texto abaixo de Rose Marie Muraro a outras mulheres como ela e em especial, as meninas que precisam
aprender como as conquistas atuais, são fruto das lutas e das perseguições
sofridas por tantas outras mulheres em tempos de outrora, tornando possível a liberdade e as alegrias dos tempos de agora.
podem ser queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela
primeira vez na história do patriarcado, para o mundo masculino, os
valores femininos. Esta reinserção do feminino na história, resgatando o
prazer, a solidariedade, a não-competição, a união com a natureza,
talvez seja a única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva.”
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Dedicamos o texto abaixo de Rose Marie Muraro a outras mulheres como ela e em especial, as meninas que precisam
aprender como as conquistas atuais, são fruto das lutas e das perseguições
sofridas por tantas outras mulheres em tempos de outrora, tornando possível a liberdade e as alegrias dos tempos de agora.
Importante para entender que o patriarcado e o capitalismo em seguida e concomitante,
que tiraram e tiram proveito da opressão sobre as mulheres,
também quer tirar proveito das conquistas no campo da liberdades dos
corpos.
O antidoto para isso, é caminhar no sentido de libertar
corpos e mentes ao mesmo tempo, de mulheres e homens. Pois quando um é liberado sem o outro,
acaba mais na frente recorrendo a um poder religioso opressor e
castrador que aprisione a mente sem rumo, para que o corpo não se
dilacere ainda mais.
A leitura dos escritos deixados por Rose Marie Muraro pode ajudar a evitar que isto aconteça.
——————————–
Para dizer, em parte, o que está escrito acima em forma de canção, fiquem com a composição Mônica, de Angêla Ro Ro, inspirada em acontecimentos reais..
Para saber detalhes sobre a fonte de inspiração para a composição, clique aqui
(Zezito de Oliveira)
O Martelo das Feiticeiras
Malleus Maleficarum
Escrito em 1484 pelos inquisidores
Heinrich Kramer e James Sprenger
Breve Introdução Histórica
ROSE MARIE MURARO
Para
compreendermos a importância do Malleus é preciso termos uma visão ao
menos mínima da história da mulher no interior da história humana em
geral.
Segundo a maioria dos antropólogos, o ser humano habita
este planeta há mais de dois milhões de anos. Mais de três quartos deste
tempo a nossa espécie passou nas culturas de coleta e caça aos
pequenos animais. Nessas sociedades não havia necessidade de força
física para a sobrevivência, e nelas as mulheres possuíam um lugar
central.
Em nosso tempo ainda existem remanescentes dessas
culturas, tais como os grupos mahoris (Indonésia), pigmeus e bosquímanos
(África Central). Estes são os grupos mais primitivos que existem e
ainda sobrevivem da coleta dos frutos da terra e da pequena caça ou
pesca. Nesses grupos, a mulher ainda é considerada um ser sagrado,
porque pode dar a vida e, portanto, ajudar a fertilidade da terra e dos
animais. Nesses grupos, o princípio masculino e o feminino governam o
mundo juntos. Havia divisão de trabalho entre os sexos, mas não havia
desigualdade. A vida corria mansa e paradisíaca.
Nas sociedades
de caça aos grandes animais, que sucedem a essas mais primitivas, em que
a força física é essencial, é que se inicia a supremacia masculina. Mas
nem nas sociedades de coleta nem nas de caça se conhecia função
masculina na procriação. Também nas sociedades de caça a mulher era
considerada um ser sagrado, que possuía o privilégio dado pelos deuses
de reproduzir a espécie. Os homens se sentiam marginalizados nesse
processo e invejavam as mulheres. Essa primitiva inveja do útero” dos
homens é a antepassada da moderna “inveja do pênis” que sentem as
mulheres nas culturas patriarcais mais recentes.
A inveja do
útero dava origem a dois ritos universalmente encontrados nas sociedades
de caça pelos antropólogos e observados em partes opostas do mundo,
como Brasil e Oceania. O primeiro é o fenômeno da couvade, em que a
mulher começa a trabalhar dois dias depois de parir e o homem fica de
resguardo com o recém-nascido, recebendo visitas e presentes… O
segundo é a iniciação dos homens. Na adolescência, a mulher tem sinais
exteriores que marcam o limiar da sua entrada no mundo adulto. A
menstruação a torna apta à maternidade e representa um novo patamar em
sua vida. Mas os adolescentes homens não possuem esse sinal tão óbvio.
Por isso, na puberdade eles são arrancados pelos homens às suas mães,
para serem iniciados na “casa dos homens”. Em quase todas essas
iniciações, o ritual é semelhante: é a imitação cerimonial do parto com
objetos de madeira e instrumentos musicais. E nenhuma mulher ou criança
pode se aproximar da casa dos homens, sob pena de morte. Desse dia em
diante o homem pode “parir” ritualmente e, portanto, tomar seu lugar na
cadeia das gerações…
Ao contrário da mulher, que possuía o
“poder biológico”, o homem foi desenvolvendo o “poder cultural” à medida
que a tecnologia foi avançando. Enquanto as sociedades eram de coleta,
as mulheres mantinham uma espécie de poder, mas diferente das culturas
patriarcais. Essas culturas primitivas tinham de ser cooperativas, para
poder sobreviver em condições hostis, e portanto não havia coerção ou
centralização, mas rodízio de lideranças, e as relações entre homens e
mulheres eram mais fluidas do que viriam a ser nas futuras sociedades
patriarcais.
Nos grupos matricêntricos, as formas de associação
entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder nem a da
herança, por isso a liberdade em termos sexuais era maior. Por outro
lado, quase não existia guerra, pois não havia pressão populacional pela
conquista de novos territórios.
E só nas regiões em que a coleta
é escassa, ou onde vão se esgotando os recursos naturais vegetais e os
pequenos animais, que se inicia a caça sistemática aos grandes animais. E
aí começam a se instalar a supremacia masculina e a competitividade
entre os grupos na busca de novos territórios. Agora, para sobreviver,
as sociedades têm de competir entre si por um alimento escasso. As
guerras se tornam constantes e passam a ser mitificadas. Os homens mais
valorizados são os heróis guerreiros. Começa a se romper a harmonia que
ligava a espécie humana à natureza. Mas ainda não se instala
definitivamente a lei do mais forte. O homem ainda não conhece com
precisão a sua função reprodutora e crê que a mulher fica grávida dos
deuses. Por isso ela ainda conserva poder de decisão. Nas culturas que
vivem da caça, já existe estratificação social e sexual, mas não é
completa como nas sociedades que se lhes seguem.
E no decorrer do
neolítico que, em algum momento, o homem começa a dominar a sua função
biológica reprodutora, e, podendo controlá-la, pode também controlar a
sexualidade feminina. Aparece então o casamento como o conhecemos hoje,
em que a mulher é propriedade do homem e a herança se transmite através
da descendência masculina. Já acontece assim, por exemplo, nas
sociedades pastoris descritas na Bíblia. Nessa época, o homem já tinha
aprendido a fundir metais. Essa descoberta acontece por volta de 10000
ou 8000 a.C. E, à medida que essa tecnologia se aperfeiçoa, começam a
ser fabricadas não só armas mais sofisticadas como também instrumentos
que permitem cultivar melhor a terra (o arado, por ex.).
Hoje há
consenso entre os antropólogos de que os primeiros humanos a descobrir
os ciclos da natureza foram as mulheres, porque podiam compará-los com o
ciclo do próprio corpo. Mulheres também devem ter sido as primeiras
plantadoras e as primeiras ceramistas, mas foram os homens que, a partir
da invenção do arado, sistematizaram as atividades agrícolas, iniciando
uma nova era, a era agrária, e com ela a história em que vivemos hoje.
Para
poder arar a terra, os grupamentos humanos deixam de ser nômades. São
obrigados a se tornar sedentários. Dividem a terra e formam as
primeiras plantações. Começam a se estabelecer as primeiras aldeias,
depois as cidades, as cidades-estado, os primeiros Estados e os
impérios, no sentido antigo do termo. As sociedades, então, se tornam
patriarcais, isto é, os portadores dos valores e da sua transmissão são
os homens. Já não são mais os princípios feminino e masculino que
governam juntos o mundo, mas, sim, a lei do mais forte. A comida era
primeiro para o dono da terra, sua família, seus escravos e seus
soldados. Até ser escravo era privilégio. Só os párias nômades, os
sem-terra, é que pereciam no primeiro inverno ou na primeira escassez.
Nesse
contexto, quanto mais filhos, mais soldados e mais mão-de-obra barata
para arar a terra. As mulheres tinham a sua sexualidade rigidamente
controlada pelos homens. O casamento era monogâmico e a mulher era
obrigada a sair virgem das mãos do pai para as mãos do marido. Qualquer
ruptura desta norma podia significar a morte. Assim também o adultério:
um filho de outro homem viria ameaçar a transmissão da herança que se
fazia através da descendência da mulher. A mulher fica, então, reduzida
ao âmbito doméstico. Perde qualquer capacidade de decisão no domínio
público, que fica inteiramente reservado ao homem. A dicotomia entre o
privado e o público torna-se, então, a origem da dependência econômica
da mulher, e esta dependência, por sua vez, gera, no decorrer das
gerações, uma submissão psicológica que dura até hoje.
E nesse
contexto que transcorre todo o período histórico até os dias de hoje. De
matricêntrica, a cultura humana passa a patriarcal.
E o Verbo Veio Depois
“No
principio era a Mãe, o Verbo veio depois.” l~ assim que Marilyn French,
uma das maiores pensadoras feministas americanas, começa o seu livro
Beyond Power (Summit Books, Nova York, 1985). E não é sem razão, pois
podemos retraçar os caminhos da espécie através da sucessão dos seus
mitos. Um mitólogo americano, em seu livro The Masks of God: Occidental
Mythology (Nova York, 1970), citado por French, divide em quatro grupos
todos os mitos conhecidos da criação. E, surpreendentemente, esses
grupos correspondem às etapas cronológicas da história humana.
Na
primeira etapa, o mundo é criado por uma deusa mãe sem auxílio de
ninguém. Na segunda, ele é criado por um deus andrógino ou um casal
criador. Na terceira, um deus macho ou toma o poder da deusa ou cria o
mundo sobre o corpo da deusa primordial. Finalmente, na quarta etapa, um
deus macho cria o mundo sozinho.
Essas quatro etapas que se
sucedem também cronologicamente são testemunhas eternas da transição da
etapa matricêntrica da humanidade para sua fase patriarcal, e é esta
sucessão que dá veracidade à frase já citada de Marilyn French.
Alguns
exemplos nos farão entender as diversas etapas e a frase de French. O
primeiro e mais importante exemplo da primeira etapa em que a Grande Mãe
cria o universo sozinha é o próprio mito grego. Nele a criadora
primária é Géia, a Mãe Terra. Dela nascem todos as protodeuses: Urano,
osTitãs e as protodeusas, entre as quais Réia, que virá a ser a mãe do
futuro dominador do Olimpo, Zeus. Há também o caso do mito Nagô, que vem
dar origem ao candomblé. Neste mito africano, é Nanã Buruquê que dá à
luz todos os orixás, sem auxílio de ninguém.
Exemplos do segundo
caso são o deus andrógino que gera todos os deuses, no hinduísmo, e o
yin e o yang, o principio feminino e o masculino que governam juntos na
mitologia chinesa.
Exemplos do terceiro caso são as mitologias
nas quais reinam em primeiro lugar deusas mulheres, que são, depois,
destronadas por deuses masculinos. Entre essas mitologias está a
sumeriana, em que primitivamente a deusa Siduri reinava num jardim de
delícias e cujo poder foi usurpado por um deus solar. Mais tarde, na
epopéia de Gilgamesh, ela é descrita como simples serva. Ainda, os mitos
primitivos dos astecas falam de um mundo perdido, de um jardim
paradisíaco governado por Xoxiquetzl, a Mãe Terra. Dela nasceram os
Huitzuhuahua, que são os Titâs e os Quatrocentos Habitantes do Sul (as
estrelas). Mais tarde, seus filhos se revoltam contra ela e ela dá à luz
o deus que iria governar a todos, Huitzilopochtli.
A partir do
segundo milênio a.C., contudo, raramente se registram mitos em que a
divindade primária seja mulher. Em muitos deles, estas são substituídas
por um deus macho que cria o mundo a partir de si mesmo, tais como os
mitos persa, meda e, principalmente e acima de todos, o nosso mito
cristão, que é o que será enfocado aqui.
Javé é deus único
todo-poderoso, onipresente, e controla todos os seres humanos em todos
os momentos da sua vida. Cria sozinho o mundo em sete dias e, no final,
cria o homem. E só depois cria a mulher, assim mesmo a partir do homem. E
coloca ambos no Jardim das Delícias onde o alimento é abundante e
colhido sem trabalho. Mas, graças à sedução da mulher, o homem cede à
tentação da serpente e o casal é expulso do paraíso.
Antes de
prosseguir, procuremos analisar o que já se tem até aqui em relação à
mulher. Em primeiro lugar, ao contrário das culturas primitivas, Javé é
deus único, centralizador, dita rígidas regras de comportamento cuja
transgressão é sempre punida. Nas primitivas mitologias, ao contrário, a
Grande Mãe é permissiva, amorosa e não coercitiva. E como todos os
mitos fundantes das grandes culturas tendem a sacralizar os seus
principais valores, Javé representa bem a transformação do
matricentrismo em patriarcado.
O Jardim das Delícias é a
lembrança arquetípica da antiga harmonia entre o ser humano e a
natureza. Nas culturas de coleta não se trabalhava sistematicamente. Por
isso os controles eram frouxos e podia se viver mais prazerosamente.
Quando o homem começa a dominar a natureza, ele começa a se separar
dessa mesma natureza em que até então vivia imerso.
Como o
trabalho é penoso, necessita agora de poder central que imponha
controles mais rígidos e punição para a transgressão. É preciso usar a
coerção e a violência para que os homens sejam obrigados a trabalhar, e
essa coerção é localizada no corpo, na repressão da sexualidade e do
prazer. Por isso o pecado original, a culpa máxima, na Bíblia, é
colocado no ato sexual (é assim que, desde milênios, popularmente se
interpreta a transgressão dos primeiros humanos).
E por isso que a
árvore do conhecimento é também a árvore do bem e do mal. O progresso
do conhecimento gera o trabalho e por isso o corpo tem de ser
amaldiçoado, porque o trabalho é bom. Mas é interessante notar que o
homem só consegue conhecimento do bem e do mal transgredindo a lei do
Pai. O sexo (o prazer) doravante é mau e, portanto, proibido. Praticá-lo
é transgredir a lei. Ele é, portanto, limitado apenas às funções
procriativas, e mesmo assim é uma culpa.
Daí a divisão entre sexo
e afeto, entre corpo e alma, apanágio das civilizações agrárias e fonte
de todas as divisões e fragmentações do homem e da mulher, da razão e
da emoção, das classes…
Tomam ai sentido as punições de Javé.
Uma vez adquirido o conhecimento, o homem tem que sofrer, O trabalho o
escraviza. E por isso o homem escraviza a mulher. A relação
homem-mulher-natureza não é mais de integração e, sim, de dominação. O
desejo dominante agora é o do homem. O desejo da mulher será para sempre
carência, e é esta paixão que será o seu castigo. Daí em diante, ela
será definida por sua sexualidade, e o homem, pelo seu trabalho.
Mas
o interessante é que os primeiros capítulos do Gênesis podem ser mais
bem entendidos à luz das modernas teorias psicológicas, especialmente a
psicanálise. Em cada menino nascido no sistema patriarcal repete-se, em
nível simbólico, a tragédia primordial. Nos primeiros tempos de sua
vida, eles estão imersos no Jardim das Delícias, em que todos os seus
desejos são satisfeitos. E isto lhes faz buscar o prazer que lhes dá o
contato com a mãe, a única mulher a que têm acesso. Mas a lei do pai
proíbe ao menino a posse da mãe. E o menino é expulso do mundo do amor,
para assumir a sua autonomia e, com ela, a sua maturidade.
Principalmente, a sua nudez, a sua fraqueza, os seus limites. E à medida
que o homem se cinde do Jardim das Delícias proporcionadas pela
mulher-mãe que ele assume a sua condição masculina.
E para que
possa se tornar homem em termos simbólicos, ele precisa passar pela
punição maior que é a ameaça de morte pelo pai. Como Adão, o menino
quer matar o pai e este o pune, deixando-o só.
Assim, aquilo que
se verifica no decorrer dos séculos, isto é, a transição das culturas de
coleta para a civilização agrária mais avançada, é relembrado
simbolicamente na vida de cada um dos homens do mundo de hoje. Mas duas
observações devem ser feitas. A primeira é que o pivô das duas
tragédias, a individual e a coletiva, é a mulher; e a segunda, que o
conhecimento condenado não é o conhecimento dissociado e abstrato que
daí por diante será o conhecimento dominante, mas sim o conhecimento do
bem e do mal, que vem da experiência concreta do prazer e da
sexualidade, o conhecimento totalizante que integra inteligência e
emoção, corpo e alma, enfim, aquele conhecimento que é, especificamente
na cultura patriarcal, o conhecimento feminino por excelência.
Freud
dizia que a natureza tinha sido madrasta para a mulher porque ela não
era capaz de simbolizar tão perfeitamente como o homem. De fato, para
podermos entender a misoginia que daí por diante caracterizará a cultura
patriarcal, é preciso analisar a maneira como as ciências psicológicas
mais atuais apontam para uma estrutura psíquica feminina bem diferente
da masculina.
A mesma idade em que o menino conhece a tragédia da
castração imaginária, a menina resolve de outra maneira o conflito que a
conduzirá á maturidade. Porque já vem castrada, isto é, porque não tem
pênis (o símbolo do poder e do prazer, no patriarcado), quando seu
desejo a leva para o pai ela não entra em conflito com a mãe de maneira
tão trágica e aguda como o menino entra com o pai por causa da mãe.
Porque já vem castrada, não tem nada a perder. E a sua identificação com
a mãe se resolve sem grandes traumas. Ela não se desliga inteiramente
das fontes arcaicas do prazer (o corpo da mãe). Por isso, também, não se
divide de si mesma como se divide o homem, nem de suas emoções. Para o
resto da sua vida, conhecimento e prazer, emoção e inteligência são mais
integrados na mulher do que no homem e, por isso, são perigosos e
desestabilizadores de um sistema que repousa inteiramente no controle,
no poder e, portanto, no conhecimento dissociado da emoção e, por isso
mesmo, abstrato.
De agora em diante, poder, competitividade,
conhecimento, controle, manipulação, abstração e violência vem juntos. O
amor, a integração com o meio ambiente e com as próprias emoções são os
elementos mais desestabilizadores da ordem vigente. Por isso é preciso
precaver-se de todas as maneiras contra a mulher, impedi-la de
interferir nos processos decisórios, fazer com que ela introjete uma
ideologia que a convença de sua própria inferioridade em relação ao
homem.
E não espanta que na própria Bíblia encontremos o primeiro
indício desta desigualdade entre homens e mulheres. Quando Deus cria o
homem, Ele o cria só e apenas depois tira a companheira da costela
deste. Em outras palavras: o primeiro homem dá à luz (pare) a primeira
mulher. Esse fenômeno psicológico de deslocamento é um mecanismo de
defesa conhecido por todos aqueles que lidam com a psique humana e serve
para revelar escondendo. Tirar da costela é menos violento do que tirar
do próprio ventre, mas, em outras palavras, aponta para a mesma
direção. Agora, parir é ato que não está mais ligado ao sagrado e é,
antes, uma vulnerabilidade do que uma força. A mulher se inferioriza
pelo próprio fato de parir, que outrora lhe assegurava a grandeza. A
grandeza agora pertence ao homem, que trabalha e domina a natureza.
Já
não é mais o homem que inveja a mulher. Agora é a mulher que inveja o
homem e é dependente dele. Carente, vulnerável, seu desejo é o centro da
sua punição. Ela passa a se ver com os olhos do homem, isto é, sua
identidade não está mais nela mesma e sim em outro. O homem é autônomo e
a mulher é reflexa. Daqui em diante, como o pobre se vê com os olhos do
rico, a mulher se vê pelo homem.
Da época em que foi escrito o
Gênesis até os nossos dias, isto é, de alguns milênios para cá, essa
narrativa básica da nossa cultura patriarcal tem servido
ininterruptamente para manter a mulher em seu devido lugar. E, aliás,
com muita eficiência. A partir desse texto, a mulher é vista como a
tentadora do homem, aquela que perturba a sua relação com a
transcendência e também aquela que conflitua as relações entre os
homens. Ela é ligada à natureza, à carne, ao sexo e ao prazer, domínios
que têm de ser rigorosamente normatizados: a serpente, que nas eras
matricêntricas era o símbolo da fertilidade e tida na mais alta estima
como símbolo máximo da sabedoria, se transforma no demônio, no tentador,
na fonte de todo pecado. E ao demônio é alocado o pecado por
excelência, o pecado da carne. Coloca-se no sexo o pecado supremo e,
assim, o poder fica imune à crítica. Apenas nos tempos modernos está se
tentando deslocar o pecado da sexualidade para o poder. Isto é, até hoje
não só o homem como as classes dominantes tiveram seu status
sacralizado porque a mulher e a sexualidade foram penalizadas como causa
máxima da degradação humana.
O Malleus como Continuação do Gênesis
Enquanto
se escrevia o Gênesis no Oriente Médio, as grandes culturas patriarcais
iam se sucedendo. Na Grécia, o status da mulher foi extremamente
degradado. O homossexualismo era prática comum entre os homens e as
mulheres ficavam exclusivamente reduzidas às suas funções de mãe,
prostituta ou cortesã. Em Roma, embora durante certo período tivessem
bastante liberdade sexual, jamais chegaram a ter poder de decisão no
Império. Quando o Cristianismo se torna a religião oficial dos romanos
no século IV, tem início a Idade Média. Algo novo acontece. E aqui nos
deteremos porque é o período que mais nos interessa.
Do terceiro
ao décimo séculos, alonga-se um período em que o Cristianismo se
sedimenta entre as tribos bárbaras da Europa. Nesse período de conflito
de valores, é muito confusa a situação da mulher. Contudo, ela tende a
ocupar lugar de destaque no mundo das decisões, porque os homens se
ausentavam muito e morriam nos períodos de guerra. Em poucas palavras:
as mulheres eram jogadas para o domínio público quando havia escassez de
homens e voltavam para o domínio privado quando os homens reassumiam o
seu lugar na cultura.
Na alta Idade Média, a condição das
mulheres floresce. Elas têm acesso às artes, às ciências, à literatura.
Uma monja, por exemplo, Hrosvitha de Gandersheim, foi o único poeta da
Europa durante cinco séculos. Isso acontece durante as cruzadas, período
em que não só a Igreja alcança seu maior poder temporal como, também, o
mundo se prepara para as grandes transformações que viriam séculos mais
tarde, com a Renascença.
E é logo depois dessa época, no período
que vai do fim do século XIV até meados do século XV III que aconteceu o
fenômeno generalizado em toda a Europa: a repressão sistemática do
feminino. Estamos nos referindo aos quatro séculos de “caça às bruxas”.
Deirdre
English e Barbara Ehrenreich, em seu livro Witches, Nurses and Midwives
(The Feminist Press, 1973), nos dão estatísticas aterradoras do que foi
a queima de mulheres feiticeiras em fogueiras durante esses quatro
séculos. “A extensão da caça às bruxas é espantosa. No fim do século XV e
no começo do século XVI, houve milhares e milhares de execuções –
usualmente eram queimadas vivas na fogueira – na Alemanha, na Itália e
em outros países. A partir de meados do século XVI, o terror se espalhou
por toda a Europa, começando pela França e pela Inglaterra. Um escritor
estimou o número de execuções em seiscentas por ano para certas
cidades, uma média de duas por dia, ‘exceto aos domingos’. Novecentas
bruxas foram executadas num único ano na área de Wertzberg, e cerca de
mil na diocese de Como. Em Toulouse, quatrocentas foram assassinadas num
único dia; no arcebispado de Trier, em 1585, duas aldeias foram
deixadas apenas com duas mulheres moradoras cada uma. Muitos escritores
estimaram que o número total de mulheres executadas subia à casa dos
milhões, e as mulheres constituíam 85~Vo de todos os bruxos e bruxas que
foram executados.”
Outros cálculos levantados por Marilyn
French, em seu já citado livro, mostram que o número mínimo de mulheres
queimadas vivas é de cem mil.
Desde a mais remota antiguidade, as
mulheres eram as curadoras populares, as parteiras, enfim, detinham
saber próprio, que lhes era transmitido de geração em geração. Em muitas
tribos primitivas eram elas as xamãs. Na Idade Média, seu saber se
intensifica e aprofunda. As mulheres camponesas pobres não tinham como
cuidar da saúde, a não ser com outras mulheres tão camponesas e tão
pobres quanto elas. Elas (as curadoras) eram as cultivadoras ancestrais
das ervas que devolviam a saúde, e eram também as melhores anatomistas
do seu tempo. Eram as parteiras que viajavam de casa em casa, de aldeia
em aldeia, e as médicas populares para todas as doenças.
Mais
tarde elas vieram a representar uma ameaça. Em primeiro lugar, ao poder
médico, que vinha tomando corpo através das universidades no interior do
sistema feudal. Em segundo, porque formavam organizações pontuais
(comunidades) que, ao se juntarem, formavam vastas confrarias, as quais
trocavam entre si os segredos da cura do corpo e muitas vezes da alma.
Mais tarde, ainda, essas mulheres vieram a participar das revoltas
camponesas que precederam a centralização dos feudos, os quais,
posteriormente, dariam origem às futuras nações.
O poder disperso
e frouxo do sistema feudal para sobreviver é obrigado, a partir do fim
do século XIII, a centralizar, a hierarquizar e a se organizar com
métodos políticos e ideológicos mais modernos. A noção de pátria
aparece, mesmo nessa época (Klausevitz).
A religião católica e,
mais tarde, a protestante contribuem de maneira decisiva para essa
centralização do poder. E o fizeram através dos tribunais da Inquisição
que varreram a Europa de norte a sul, leste e oeste, torturando e
assassinando em massa aqueles que eram julgados heréticos ou bruxos.
Este
“expurgo” visava recolocar dentro de regras de comportamento dominante
as massas camponesas submetidas muitas vezes aos mais ferozes excessos
dos seus senhores, expostas à fome, à peste e à guerra e que se
rebelavam. E principalmente as mulheres.
Era essencial para o
sistema capitalista que estava sendo forjado no seio mesmo do feudalismo
um controle estrito sobre o corpo e a sexualidade, conforme constata a
obra de Michel Foucault, História da Sexualidade. Começa a se construir
ali o corpo dócil do futuro trabalhador que vai ser alienado do seu
trabalho e não se rebelará. A partir do século XVII, os controles
atingem profundidade e obsessividade tais que 05 menores, os mínimos
detalhes e gestos são normatizados.
Todos, homens e mulheres,
passam a ser, então, os próprios controladores de si mesmos a partir do
mais íntimo de suas mentes. E assim que se instala o puritanismo, do
qual se origina, segundo Tawnwy e Max Weber, o capitalismo avançado
anglo-saxão. Mas até chegar a esse ponto foi preciso usar de muita
violência. Até meados da Idade Média, as regras morais do Cristianismo
ainda não tinham penetrado a fundo nas massas populares. Ainda existiam
muitos núcleos de “paganismo” e, mesmo entre os cristãos, os controles
eram frouxos.
As regras convencionais só eram válidas para as
mulheres e homens das classes dominantes através dos quais se
transmitiam o poder e a herança. Assim, os quatro séculos de perseguição
às bruxas e aos heréticos nada tinham de histeria coletiva, mas, ao
contrário, foram uma perseguição muito bem calculada e planejada pelas
classes dominantes, para chegar a maior centralização e poder.
Num
mundo teocrático, a transgressão da fé era também transgressão
política. Mais ainda, a transgressão sexual que grassava solta entre as
massas populares. Assim, os inquisidores tiveram a sabedoria de ligar a
transgressão sexual à transgressão da fé. E punir as mulheres por tudo
isso. As grandes teses que permitiram esse expurgo do feminino e que
são as teses centrais do Malleus Maleficarum são as seguintes:
1)
O demônio, com a permissão de Deus, procura fazer o máximo de mal aos
homens a fim de apropriar-se do maior número possível de almas.
2)
E este mal é feito prioritariamente através do corpo, único “lugar”
onde o demônio pode entrar, pois “o espírito [do homem] é governado por
Deus, a vontade por um anjo e o corpo pelas estrelas” (Parte 1, Questão
1). E porque as estrelas são inferiores aos espíritos e o demônio é um
espírito superior, só lhe resta o corpo para dominar.
3) E este
domínio lhe vem através do controle e da manipulação dos atos sexuais.
Pela sexualidade o demônio pode apropriar-se do corpo e da alma dos
homens. Foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a
sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens.
4) E
como as mulheres estão essencialmente ligadas à sexualidade, elas se
tornam as agentes por excelência do demônio (as feiticeiras). E as
mulheres têm mais conivência com o demônio “porque Eva nasceu de uma
costela torta de Adão, portanto nenhuma mulher pode ser reta” (1,6).
5)
A primeira e maior característica, aquela que dá todo o poder às
feiticeiras, é copular com o demônio. Satã é, portanto, o senhor do
prazer.
6) Uma vez obtida a intimidade com o demônio, as
feiticeiras são capazes de desencadear todos os males, especialmente a
impotência masculina, a impossibilidade de livrar-se de paixões
desordenadas, abortos, oferendas de crianças a Satanás, estrago das
colheitas, doenças nos animais etc.
7) E esses pecados eram mais
hediondos ao que os próprios pecados de Lúcifer quando da rebelião dos
anjos e dos primeiros pais por ocasião da queda, porque agora as bruxas
pecam contra Deus e o Redentor (Cristo), e portanto este crime é
imperdoável e por isso só pode ser resgatado com a tortura e a morte.
Vemos
assim que na mesma época em que o mundo está entrando na Renascença,
que virá a dar na Idade das Luzes, processa-se a mais delirante
perseguição às mulheres e ao prazer. Tudo aquilo que já estava em
embrião no Segundo Capítulo do Gênesis torna-se agora sinistramente
concreto. Se nas culturas de coleta as mulheres eram quase sagradas por
poderem ser férteis e, portanto, eram as grandes estimuladoras da
fecundidade da natureza, agora elas são, por sua capacidade orgástica,
as causadoras de todos os flagelos a essa mesma natureza. Sim, porque as
feiticeiras se encontram apenas entre as mulheres orgásticas e
ambiciosas (1, 6), isto é, aquelas que não tinham a sexualidade ainda
normatizada e procuravam impor-se no domínio público, exclusivo dos
homens.
Assim, o Malleus Maleficarum, por ser a continuação
popular do Segundo Capítulo do Gênesis, torna-se a testemunha mais
importante da estrutura do patriarcado e de como esta estrutura funciona
concretamente sobre a repressão da mulher e do prazer.
De
doadora da vida, símbolo da fertilidade para as colheitas e os animais,
agora a situação se inverte: a mulher é a primeira e a maior pecadora, a
origem de todas as ações nocivas ao homem, à natureza e aos animais.
Durante
três séculos o Malleus foi a bíblia dos Inquisidores e esteve na banca
de todos os julgamentos. Quando cessou a caça às bruxas, no século
XVIII, houve grande transformação na condição feminina. A sexualidade se
normatiza e as mulheres se tornam frígidas, pois orgasmo era coisa do
diabo e, portanto, passível de punição. Reduzem se exclusivamente ao
âmbito doméstico, pois sua ambição também era passível de castigo. O
saber feminino popular cai na clandestinidade, quando não é assimilado
como próprio pelo poder médico masculino já solidificado. As mulheres
não têm mais acesso ao estudo como na Idade Média e passam a transmitir
voluntariamente a seus filhos valores patriarcais já então totalmente
introjetados por elas.
É com a caça às bruxas que se normatiza o
comportamento de homens e mulheres europeus, tanto na área pública como
no domínio do privado.
E assim se passam os séculos.
A
sociedade de classes que já está construída nos fins do século XVIII é
composta de trabalhadores dóceis que não questionam o sistema.
As Bruxas do Século XX
Agora,
mais de dois séculos após o término da caça às bruxas, é que podemos
ter uma noção das suas dimensões. Neste final de século e de milênio, o
que se nos apresenta como avaliação da sociedade industrial? Dois terços
da humanidade passam fome para o terço restante superalimentar-se; além
disto há a possibilidade concreta da destruição instantânea do planeta
pelo arsenal nuclear já colocado e, principalmente, a destruição lenta
mas contínua do meio ambiente, já chegando ao ponto do não-retorno. A aceleração tecnológica mostra-se, portanto, muito mais louca dos inquisidores.
Ainda
neste fim de século outro fenômeno está acontecendo: na mesma jovem
rompem-se dois tabus que causaram a morte das feiticeiras: a inserção no
mundo público e a procura do prazer sem repressão. A mulher jovem hoje
liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclusão ao domínio
privado formam também os dois pilares da opressão feminina.
Assim,
hoje as bruxas são legião no século XX. E são bruxas que não podem ser
queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela primeira vez na
história do patriarcado, para o mundo masculino, os valores femininos.
Esta reinserção do feminino na história, resgatando o prazer, a
solidariedade, a não-competição, a união com a natureza, talvez seja a
única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva.
Creio que com isso as nossas bruxinhas da Idade Média podem se considerar vingadas!
Rose
compreendermos a importância do Malleus é preciso termos uma visão ao
menos mínima da história da mulher no interior da história humana em
geral.
Segundo a maioria dos antropólogos, o ser humano habita
este planeta há mais de dois milhões de anos. Mais de três quartos deste
tempo a nossa espécie passou nas culturas de coleta e caça aos
pequenos animais. Nessas sociedades não havia necessidade de força
física para a sobrevivência, e nelas as mulheres possuíam um lugar
central.
Em nosso tempo ainda existem remanescentes dessas
culturas, tais como os grupos mahoris (Indonésia), pigmeus e bosquímanos
(África Central). Estes são os grupos mais primitivos que existem e
ainda sobrevivem da coleta dos frutos da terra e da pequena caça ou
pesca. Nesses grupos, a mulher ainda é considerada um ser sagrado,
porque pode dar a vida e, portanto, ajudar a fertilidade da terra e dos
animais. Nesses grupos, o princípio masculino e o feminino governam o
mundo juntos. Havia divisão de trabalho entre os sexos, mas não havia
desigualdade. A vida corria mansa e paradisíaca.
Nas sociedades
de caça aos grandes animais, que sucedem a essas mais primitivas, em que
a força física é essencial, é que se inicia a supremacia masculina. Mas
nem nas sociedades de coleta nem nas de caça se conhecia função
masculina na procriação. Também nas sociedades de caça a mulher era
considerada um ser sagrado, que possuía o privilégio dado pelos deuses
de reproduzir a espécie. Os homens se sentiam marginalizados nesse
processo e invejavam as mulheres. Essa primitiva inveja do útero” dos
homens é a antepassada da moderna “inveja do pênis” que sentem as
mulheres nas culturas patriarcais mais recentes.
A inveja do
útero dava origem a dois ritos universalmente encontrados nas sociedades
de caça pelos antropólogos e observados em partes opostas do mundo,
como Brasil e Oceania. O primeiro é o fenômeno da couvade, em que a
mulher começa a trabalhar dois dias depois de parir e o homem fica de
resguardo com o recém-nascido, recebendo visitas e presentes… O
segundo é a iniciação dos homens. Na adolescência, a mulher tem sinais
exteriores que marcam o limiar da sua entrada no mundo adulto. A
menstruação a torna apta à maternidade e representa um novo patamar em
sua vida. Mas os adolescentes homens não possuem esse sinal tão óbvio.
Por isso, na puberdade eles são arrancados pelos homens às suas mães,
para serem iniciados na “casa dos homens”. Em quase todas essas
iniciações, o ritual é semelhante: é a imitação cerimonial do parto com
objetos de madeira e instrumentos musicais. E nenhuma mulher ou criança
pode se aproximar da casa dos homens, sob pena de morte. Desse dia em
diante o homem pode “parir” ritualmente e, portanto, tomar seu lugar na
cadeia das gerações…
Ao contrário da mulher, que possuía o
“poder biológico”, o homem foi desenvolvendo o “poder cultural” à medida
que a tecnologia foi avançando. Enquanto as sociedades eram de coleta,
as mulheres mantinham uma espécie de poder, mas diferente das culturas
patriarcais. Essas culturas primitivas tinham de ser cooperativas, para
poder sobreviver em condições hostis, e portanto não havia coerção ou
centralização, mas rodízio de lideranças, e as relações entre homens e
mulheres eram mais fluidas do que viriam a ser nas futuras sociedades
patriarcais.
Nos grupos matricêntricos, as formas de associação
entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder nem a da
herança, por isso a liberdade em termos sexuais era maior. Por outro
lado, quase não existia guerra, pois não havia pressão populacional pela
conquista de novos territórios.
E só nas regiões em que a coleta
é escassa, ou onde vão se esgotando os recursos naturais vegetais e os
pequenos animais, que se inicia a caça sistemática aos grandes animais. E
aí começam a se instalar a supremacia masculina e a competitividade
entre os grupos na busca de novos territórios. Agora, para sobreviver,
as sociedades têm de competir entre si por um alimento escasso. As
guerras se tornam constantes e passam a ser mitificadas. Os homens mais
valorizados são os heróis guerreiros. Começa a se romper a harmonia que
ligava a espécie humana à natureza. Mas ainda não se instala
definitivamente a lei do mais forte. O homem ainda não conhece com
precisão a sua função reprodutora e crê que a mulher fica grávida dos
deuses. Por isso ela ainda conserva poder de decisão. Nas culturas que
vivem da caça, já existe estratificação social e sexual, mas não é
completa como nas sociedades que se lhes seguem.
E no decorrer do
neolítico que, em algum momento, o homem começa a dominar a sua função
biológica reprodutora, e, podendo controlá-la, pode também controlar a
sexualidade feminina. Aparece então o casamento como o conhecemos hoje,
em que a mulher é propriedade do homem e a herança se transmite através
da descendência masculina. Já acontece assim, por exemplo, nas
sociedades pastoris descritas na Bíblia. Nessa época, o homem já tinha
aprendido a fundir metais. Essa descoberta acontece por volta de 10000
ou 8000 a.C. E, à medida que essa tecnologia se aperfeiçoa, começam a
ser fabricadas não só armas mais sofisticadas como também instrumentos
que permitem cultivar melhor a terra (o arado, por ex.).
Hoje há
consenso entre os antropólogos de que os primeiros humanos a descobrir
os ciclos da natureza foram as mulheres, porque podiam compará-los com o
ciclo do próprio corpo. Mulheres também devem ter sido as primeiras
plantadoras e as primeiras ceramistas, mas foram os homens que, a partir
da invenção do arado, sistematizaram as atividades agrícolas, iniciando
uma nova era, a era agrária, e com ela a história em que vivemos hoje.
Para
poder arar a terra, os grupamentos humanos deixam de ser nômades. São
obrigados a se tornar sedentários. Dividem a terra e formam as
primeiras plantações. Começam a se estabelecer as primeiras aldeias,
depois as cidades, as cidades-estado, os primeiros Estados e os
impérios, no sentido antigo do termo. As sociedades, então, se tornam
patriarcais, isto é, os portadores dos valores e da sua transmissão são
os homens. Já não são mais os princípios feminino e masculino que
governam juntos o mundo, mas, sim, a lei do mais forte. A comida era
primeiro para o dono da terra, sua família, seus escravos e seus
soldados. Até ser escravo era privilégio. Só os párias nômades, os
sem-terra, é que pereciam no primeiro inverno ou na primeira escassez.
Nesse
contexto, quanto mais filhos, mais soldados e mais mão-de-obra barata
para arar a terra. As mulheres tinham a sua sexualidade rigidamente
controlada pelos homens. O casamento era monogâmico e a mulher era
obrigada a sair virgem das mãos do pai para as mãos do marido. Qualquer
ruptura desta norma podia significar a morte. Assim também o adultério:
um filho de outro homem viria ameaçar a transmissão da herança que se
fazia através da descendência da mulher. A mulher fica, então, reduzida
ao âmbito doméstico. Perde qualquer capacidade de decisão no domínio
público, que fica inteiramente reservado ao homem. A dicotomia entre o
privado e o público torna-se, então, a origem da dependência econômica
da mulher, e esta dependência, por sua vez, gera, no decorrer das
gerações, uma submissão psicológica que dura até hoje.
E nesse
contexto que transcorre todo o período histórico até os dias de hoje. De
matricêntrica, a cultura humana passa a patriarcal.
E o Verbo Veio Depois
“No
principio era a Mãe, o Verbo veio depois.” l~ assim que Marilyn French,
uma das maiores pensadoras feministas americanas, começa o seu livro
Beyond Power (Summit Books, Nova York, 1985). E não é sem razão, pois
podemos retraçar os caminhos da espécie através da sucessão dos seus
mitos. Um mitólogo americano, em seu livro The Masks of God: Occidental
Mythology (Nova York, 1970), citado por French, divide em quatro grupos
todos os mitos conhecidos da criação. E, surpreendentemente, esses
grupos correspondem às etapas cronológicas da história humana.
Na
primeira etapa, o mundo é criado por uma deusa mãe sem auxílio de
ninguém. Na segunda, ele é criado por um deus andrógino ou um casal
criador. Na terceira, um deus macho ou toma o poder da deusa ou cria o
mundo sobre o corpo da deusa primordial. Finalmente, na quarta etapa, um
deus macho cria o mundo sozinho.
Essas quatro etapas que se
sucedem também cronologicamente são testemunhas eternas da transição da
etapa matricêntrica da humanidade para sua fase patriarcal, e é esta
sucessão que dá veracidade à frase já citada de Marilyn French.
Alguns
exemplos nos farão entender as diversas etapas e a frase de French. O
primeiro e mais importante exemplo da primeira etapa em que a Grande Mãe
cria o universo sozinha é o próprio mito grego. Nele a criadora
primária é Géia, a Mãe Terra. Dela nascem todos as protodeuses: Urano,
osTitãs e as protodeusas, entre as quais Réia, que virá a ser a mãe do
futuro dominador do Olimpo, Zeus. Há também o caso do mito Nagô, que vem
dar origem ao candomblé. Neste mito africano, é Nanã Buruquê que dá à
luz todos os orixás, sem auxílio de ninguém.
Exemplos do segundo
caso são o deus andrógino que gera todos os deuses, no hinduísmo, e o
yin e o yang, o principio feminino e o masculino que governam juntos na
mitologia chinesa.
Exemplos do terceiro caso são as mitologias
nas quais reinam em primeiro lugar deusas mulheres, que são, depois,
destronadas por deuses masculinos. Entre essas mitologias está a
sumeriana, em que primitivamente a deusa Siduri reinava num jardim de
delícias e cujo poder foi usurpado por um deus solar. Mais tarde, na
epopéia de Gilgamesh, ela é descrita como simples serva. Ainda, os mitos
primitivos dos astecas falam de um mundo perdido, de um jardim
paradisíaco governado por Xoxiquetzl, a Mãe Terra. Dela nasceram os
Huitzuhuahua, que são os Titâs e os Quatrocentos Habitantes do Sul (as
estrelas). Mais tarde, seus filhos se revoltam contra ela e ela dá à luz
o deus que iria governar a todos, Huitzilopochtli.
A partir do
segundo milênio a.C., contudo, raramente se registram mitos em que a
divindade primária seja mulher. Em muitos deles, estas são substituídas
por um deus macho que cria o mundo a partir de si mesmo, tais como os
mitos persa, meda e, principalmente e acima de todos, o nosso mito
cristão, que é o que será enfocado aqui.
Javé é deus único
todo-poderoso, onipresente, e controla todos os seres humanos em todos
os momentos da sua vida. Cria sozinho o mundo em sete dias e, no final,
cria o homem. E só depois cria a mulher, assim mesmo a partir do homem. E
coloca ambos no Jardim das Delícias onde o alimento é abundante e
colhido sem trabalho. Mas, graças à sedução da mulher, o homem cede à
tentação da serpente e o casal é expulso do paraíso.
Antes de
prosseguir, procuremos analisar o que já se tem até aqui em relação à
mulher. Em primeiro lugar, ao contrário das culturas primitivas, Javé é
deus único, centralizador, dita rígidas regras de comportamento cuja
transgressão é sempre punida. Nas primitivas mitologias, ao contrário, a
Grande Mãe é permissiva, amorosa e não coercitiva. E como todos os
mitos fundantes das grandes culturas tendem a sacralizar os seus
principais valores, Javé representa bem a transformação do
matricentrismo em patriarcado.
O Jardim das Delícias é a
lembrança arquetípica da antiga harmonia entre o ser humano e a
natureza. Nas culturas de coleta não se trabalhava sistematicamente. Por
isso os controles eram frouxos e podia se viver mais prazerosamente.
Quando o homem começa a dominar a natureza, ele começa a se separar
dessa mesma natureza em que até então vivia imerso.
Como o
trabalho é penoso, necessita agora de poder central que imponha
controles mais rígidos e punição para a transgressão. É preciso usar a
coerção e a violência para que os homens sejam obrigados a trabalhar, e
essa coerção é localizada no corpo, na repressão da sexualidade e do
prazer. Por isso o pecado original, a culpa máxima, na Bíblia, é
colocado no ato sexual (é assim que, desde milênios, popularmente se
interpreta a transgressão dos primeiros humanos).
E por isso que a
árvore do conhecimento é também a árvore do bem e do mal. O progresso
do conhecimento gera o trabalho e por isso o corpo tem de ser
amaldiçoado, porque o trabalho é bom. Mas é interessante notar que o
homem só consegue conhecimento do bem e do mal transgredindo a lei do
Pai. O sexo (o prazer) doravante é mau e, portanto, proibido. Praticá-lo
é transgredir a lei. Ele é, portanto, limitado apenas às funções
procriativas, e mesmo assim é uma culpa.
Daí a divisão entre sexo
e afeto, entre corpo e alma, apanágio das civilizações agrárias e fonte
de todas as divisões e fragmentações do homem e da mulher, da razão e
da emoção, das classes…
Tomam ai sentido as punições de Javé.
Uma vez adquirido o conhecimento, o homem tem que sofrer, O trabalho o
escraviza. E por isso o homem escraviza a mulher. A relação
homem-mulher-natureza não é mais de integração e, sim, de dominação. O
desejo dominante agora é o do homem. O desejo da mulher será para sempre
carência, e é esta paixão que será o seu castigo. Daí em diante, ela
será definida por sua sexualidade, e o homem, pelo seu trabalho.
Mas
o interessante é que os primeiros capítulos do Gênesis podem ser mais
bem entendidos à luz das modernas teorias psicológicas, especialmente a
psicanálise. Em cada menino nascido no sistema patriarcal repete-se, em
nível simbólico, a tragédia primordial. Nos primeiros tempos de sua
vida, eles estão imersos no Jardim das Delícias, em que todos os seus
desejos são satisfeitos. E isto lhes faz buscar o prazer que lhes dá o
contato com a mãe, a única mulher a que têm acesso. Mas a lei do pai
proíbe ao menino a posse da mãe. E o menino é expulso do mundo do amor,
para assumir a sua autonomia e, com ela, a sua maturidade.
Principalmente, a sua nudez, a sua fraqueza, os seus limites. E à medida
que o homem se cinde do Jardim das Delícias proporcionadas pela
mulher-mãe que ele assume a sua condição masculina.
E para que
possa se tornar homem em termos simbólicos, ele precisa passar pela
punição maior que é a ameaça de morte pelo pai. Como Adão, o menino
quer matar o pai e este o pune, deixando-o só.
Assim, aquilo que
se verifica no decorrer dos séculos, isto é, a transição das culturas de
coleta para a civilização agrária mais avançada, é relembrado
simbolicamente na vida de cada um dos homens do mundo de hoje. Mas duas
observações devem ser feitas. A primeira é que o pivô das duas
tragédias, a individual e a coletiva, é a mulher; e a segunda, que o
conhecimento condenado não é o conhecimento dissociado e abstrato que
daí por diante será o conhecimento dominante, mas sim o conhecimento do
bem e do mal, que vem da experiência concreta do prazer e da
sexualidade, o conhecimento totalizante que integra inteligência e
emoção, corpo e alma, enfim, aquele conhecimento que é, especificamente
na cultura patriarcal, o conhecimento feminino por excelência.
Freud
dizia que a natureza tinha sido madrasta para a mulher porque ela não
era capaz de simbolizar tão perfeitamente como o homem. De fato, para
podermos entender a misoginia que daí por diante caracterizará a cultura
patriarcal, é preciso analisar a maneira como as ciências psicológicas
mais atuais apontam para uma estrutura psíquica feminina bem diferente
da masculina.
A mesma idade em que o menino conhece a tragédia da
castração imaginária, a menina resolve de outra maneira o conflito que a
conduzirá á maturidade. Porque já vem castrada, isto é, porque não tem
pênis (o símbolo do poder e do prazer, no patriarcado), quando seu
desejo a leva para o pai ela não entra em conflito com a mãe de maneira
tão trágica e aguda como o menino entra com o pai por causa da mãe.
Porque já vem castrada, não tem nada a perder. E a sua identificação com
a mãe se resolve sem grandes traumas. Ela não se desliga inteiramente
das fontes arcaicas do prazer (o corpo da mãe). Por isso, também, não se
divide de si mesma como se divide o homem, nem de suas emoções. Para o
resto da sua vida, conhecimento e prazer, emoção e inteligência são mais
integrados na mulher do que no homem e, por isso, são perigosos e
desestabilizadores de um sistema que repousa inteiramente no controle,
no poder e, portanto, no conhecimento dissociado da emoção e, por isso
mesmo, abstrato.
De agora em diante, poder, competitividade,
conhecimento, controle, manipulação, abstração e violência vem juntos. O
amor, a integração com o meio ambiente e com as próprias emoções são os
elementos mais desestabilizadores da ordem vigente. Por isso é preciso
precaver-se de todas as maneiras contra a mulher, impedi-la de
interferir nos processos decisórios, fazer com que ela introjete uma
ideologia que a convença de sua própria inferioridade em relação ao
homem.
E não espanta que na própria Bíblia encontremos o primeiro
indício desta desigualdade entre homens e mulheres. Quando Deus cria o
homem, Ele o cria só e apenas depois tira a companheira da costela
deste. Em outras palavras: o primeiro homem dá à luz (pare) a primeira
mulher. Esse fenômeno psicológico de deslocamento é um mecanismo de
defesa conhecido por todos aqueles que lidam com a psique humana e serve
para revelar escondendo. Tirar da costela é menos violento do que tirar
do próprio ventre, mas, em outras palavras, aponta para a mesma
direção. Agora, parir é ato que não está mais ligado ao sagrado e é,
antes, uma vulnerabilidade do que uma força. A mulher se inferioriza
pelo próprio fato de parir, que outrora lhe assegurava a grandeza. A
grandeza agora pertence ao homem, que trabalha e domina a natureza.
Já
não é mais o homem que inveja a mulher. Agora é a mulher que inveja o
homem e é dependente dele. Carente, vulnerável, seu desejo é o centro da
sua punição. Ela passa a se ver com os olhos do homem, isto é, sua
identidade não está mais nela mesma e sim em outro. O homem é autônomo e
a mulher é reflexa. Daqui em diante, como o pobre se vê com os olhos do
rico, a mulher se vê pelo homem.
Da época em que foi escrito o
Gênesis até os nossos dias, isto é, de alguns milênios para cá, essa
narrativa básica da nossa cultura patriarcal tem servido
ininterruptamente para manter a mulher em seu devido lugar. E, aliás,
com muita eficiência. A partir desse texto, a mulher é vista como a
tentadora do homem, aquela que perturba a sua relação com a
transcendência e também aquela que conflitua as relações entre os
homens. Ela é ligada à natureza, à carne, ao sexo e ao prazer, domínios
que têm de ser rigorosamente normatizados: a serpente, que nas eras
matricêntricas era o símbolo da fertilidade e tida na mais alta estima
como símbolo máximo da sabedoria, se transforma no demônio, no tentador,
na fonte de todo pecado. E ao demônio é alocado o pecado por
excelência, o pecado da carne. Coloca-se no sexo o pecado supremo e,
assim, o poder fica imune à crítica. Apenas nos tempos modernos está se
tentando deslocar o pecado da sexualidade para o poder. Isto é, até hoje
não só o homem como as classes dominantes tiveram seu status
sacralizado porque a mulher e a sexualidade foram penalizadas como causa
máxima da degradação humana.
O Malleus como Continuação do Gênesis
Enquanto
se escrevia o Gênesis no Oriente Médio, as grandes culturas patriarcais
iam se sucedendo. Na Grécia, o status da mulher foi extremamente
degradado. O homossexualismo era prática comum entre os homens e as
mulheres ficavam exclusivamente reduzidas às suas funções de mãe,
prostituta ou cortesã. Em Roma, embora durante certo período tivessem
bastante liberdade sexual, jamais chegaram a ter poder de decisão no
Império. Quando o Cristianismo se torna a religião oficial dos romanos
no século IV, tem início a Idade Média. Algo novo acontece. E aqui nos
deteremos porque é o período que mais nos interessa.
Do terceiro
ao décimo séculos, alonga-se um período em que o Cristianismo se
sedimenta entre as tribos bárbaras da Europa. Nesse período de conflito
de valores, é muito confusa a situação da mulher. Contudo, ela tende a
ocupar lugar de destaque no mundo das decisões, porque os homens se
ausentavam muito e morriam nos períodos de guerra. Em poucas palavras:
as mulheres eram jogadas para o domínio público quando havia escassez de
homens e voltavam para o domínio privado quando os homens reassumiam o
seu lugar na cultura.
Na alta Idade Média, a condição das
mulheres floresce. Elas têm acesso às artes, às ciências, à literatura.
Uma monja, por exemplo, Hrosvitha de Gandersheim, foi o único poeta da
Europa durante cinco séculos. Isso acontece durante as cruzadas, período
em que não só a Igreja alcança seu maior poder temporal como, também, o
mundo se prepara para as grandes transformações que viriam séculos mais
tarde, com a Renascença.
E é logo depois dessa época, no período
que vai do fim do século XIV até meados do século XV III que aconteceu o
fenômeno generalizado em toda a Europa: a repressão sistemática do
feminino. Estamos nos referindo aos quatro séculos de “caça às bruxas”.
Deirdre
English e Barbara Ehrenreich, em seu livro Witches, Nurses and Midwives
(The Feminist Press, 1973), nos dão estatísticas aterradoras do que foi
a queima de mulheres feiticeiras em fogueiras durante esses quatro
séculos. “A extensão da caça às bruxas é espantosa. No fim do século XV e
no começo do século XVI, houve milhares e milhares de execuções –
usualmente eram queimadas vivas na fogueira – na Alemanha, na Itália e
em outros países. A partir de meados do século XVI, o terror se espalhou
por toda a Europa, começando pela França e pela Inglaterra. Um escritor
estimou o número de execuções em seiscentas por ano para certas
cidades, uma média de duas por dia, ‘exceto aos domingos’. Novecentas
bruxas foram executadas num único ano na área de Wertzberg, e cerca de
mil na diocese de Como. Em Toulouse, quatrocentas foram assassinadas num
único dia; no arcebispado de Trier, em 1585, duas aldeias foram
deixadas apenas com duas mulheres moradoras cada uma. Muitos escritores
estimaram que o número total de mulheres executadas subia à casa dos
milhões, e as mulheres constituíam 85~Vo de todos os bruxos e bruxas que
foram executados.”
Outros cálculos levantados por Marilyn
French, em seu já citado livro, mostram que o número mínimo de mulheres
queimadas vivas é de cem mil.
Desde a mais remota antiguidade, as
mulheres eram as curadoras populares, as parteiras, enfim, detinham
saber próprio, que lhes era transmitido de geração em geração. Em muitas
tribos primitivas eram elas as xamãs. Na Idade Média, seu saber se
intensifica e aprofunda. As mulheres camponesas pobres não tinham como
cuidar da saúde, a não ser com outras mulheres tão camponesas e tão
pobres quanto elas. Elas (as curadoras) eram as cultivadoras ancestrais
das ervas que devolviam a saúde, e eram também as melhores anatomistas
do seu tempo. Eram as parteiras que viajavam de casa em casa, de aldeia
em aldeia, e as médicas populares para todas as doenças.
Mais
tarde elas vieram a representar uma ameaça. Em primeiro lugar, ao poder
médico, que vinha tomando corpo através das universidades no interior do
sistema feudal. Em segundo, porque formavam organizações pontuais
(comunidades) que, ao se juntarem, formavam vastas confrarias, as quais
trocavam entre si os segredos da cura do corpo e muitas vezes da alma.
Mais tarde, ainda, essas mulheres vieram a participar das revoltas
camponesas que precederam a centralização dos feudos, os quais,
posteriormente, dariam origem às futuras nações.
O poder disperso
e frouxo do sistema feudal para sobreviver é obrigado, a partir do fim
do século XIII, a centralizar, a hierarquizar e a se organizar com
métodos políticos e ideológicos mais modernos. A noção de pátria
aparece, mesmo nessa época (Klausevitz).
A religião católica e,
mais tarde, a protestante contribuem de maneira decisiva para essa
centralização do poder. E o fizeram através dos tribunais da Inquisição
que varreram a Europa de norte a sul, leste e oeste, torturando e
assassinando em massa aqueles que eram julgados heréticos ou bruxos.
Este
“expurgo” visava recolocar dentro de regras de comportamento dominante
as massas camponesas submetidas muitas vezes aos mais ferozes excessos
dos seus senhores, expostas à fome, à peste e à guerra e que se
rebelavam. E principalmente as mulheres.
Era essencial para o
sistema capitalista que estava sendo forjado no seio mesmo do feudalismo
um controle estrito sobre o corpo e a sexualidade, conforme constata a
obra de Michel Foucault, História da Sexualidade. Começa a se construir
ali o corpo dócil do futuro trabalhador que vai ser alienado do seu
trabalho e não se rebelará. A partir do século XVII, os controles
atingem profundidade e obsessividade tais que 05 menores, os mínimos
detalhes e gestos são normatizados.
Todos, homens e mulheres,
passam a ser, então, os próprios controladores de si mesmos a partir do
mais íntimo de suas mentes. E assim que se instala o puritanismo, do
qual se origina, segundo Tawnwy e Max Weber, o capitalismo avançado
anglo-saxão. Mas até chegar a esse ponto foi preciso usar de muita
violência. Até meados da Idade Média, as regras morais do Cristianismo
ainda não tinham penetrado a fundo nas massas populares. Ainda existiam
muitos núcleos de “paganismo” e, mesmo entre os cristãos, os controles
eram frouxos.
As regras convencionais só eram válidas para as
mulheres e homens das classes dominantes através dos quais se
transmitiam o poder e a herança. Assim, os quatro séculos de perseguição
às bruxas e aos heréticos nada tinham de histeria coletiva, mas, ao
contrário, foram uma perseguição muito bem calculada e planejada pelas
classes dominantes, para chegar a maior centralização e poder.
Num
mundo teocrático, a transgressão da fé era também transgressão
política. Mais ainda, a transgressão sexual que grassava solta entre as
massas populares. Assim, os inquisidores tiveram a sabedoria de ligar a
transgressão sexual à transgressão da fé. E punir as mulheres por tudo
isso. As grandes teses que permitiram esse expurgo do feminino e que
são as teses centrais do Malleus Maleficarum são as seguintes:
1)
O demônio, com a permissão de Deus, procura fazer o máximo de mal aos
homens a fim de apropriar-se do maior número possível de almas.
2)
E este mal é feito prioritariamente através do corpo, único “lugar”
onde o demônio pode entrar, pois “o espírito [do homem] é governado por
Deus, a vontade por um anjo e o corpo pelas estrelas” (Parte 1, Questão
1). E porque as estrelas são inferiores aos espíritos e o demônio é um
espírito superior, só lhe resta o corpo para dominar.
3) E este
domínio lhe vem através do controle e da manipulação dos atos sexuais.
Pela sexualidade o demônio pode apropriar-se do corpo e da alma dos
homens. Foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a
sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens.
4) E
como as mulheres estão essencialmente ligadas à sexualidade, elas se
tornam as agentes por excelência do demônio (as feiticeiras). E as
mulheres têm mais conivência com o demônio “porque Eva nasceu de uma
costela torta de Adão, portanto nenhuma mulher pode ser reta” (1,6).
5)
A primeira e maior característica, aquela que dá todo o poder às
feiticeiras, é copular com o demônio. Satã é, portanto, o senhor do
prazer.
6) Uma vez obtida a intimidade com o demônio, as
feiticeiras são capazes de desencadear todos os males, especialmente a
impotência masculina, a impossibilidade de livrar-se de paixões
desordenadas, abortos, oferendas de crianças a Satanás, estrago das
colheitas, doenças nos animais etc.
7) E esses pecados eram mais
hediondos ao que os próprios pecados de Lúcifer quando da rebelião dos
anjos e dos primeiros pais por ocasião da queda, porque agora as bruxas
pecam contra Deus e o Redentor (Cristo), e portanto este crime é
imperdoável e por isso só pode ser resgatado com a tortura e a morte.
Vemos
assim que na mesma época em que o mundo está entrando na Renascença,
que virá a dar na Idade das Luzes, processa-se a mais delirante
perseguição às mulheres e ao prazer. Tudo aquilo que já estava em
embrião no Segundo Capítulo do Gênesis torna-se agora sinistramente
concreto. Se nas culturas de coleta as mulheres eram quase sagradas por
poderem ser férteis e, portanto, eram as grandes estimuladoras da
fecundidade da natureza, agora elas são, por sua capacidade orgástica,
as causadoras de todos os flagelos a essa mesma natureza. Sim, porque as
feiticeiras se encontram apenas entre as mulheres orgásticas e
ambiciosas (1, 6), isto é, aquelas que não tinham a sexualidade ainda
normatizada e procuravam impor-se no domínio público, exclusivo dos
homens.
Assim, o Malleus Maleficarum, por ser a continuação
popular do Segundo Capítulo do Gênesis, torna-se a testemunha mais
importante da estrutura do patriarcado e de como esta estrutura funciona
concretamente sobre a repressão da mulher e do prazer.
De
doadora da vida, símbolo da fertilidade para as colheitas e os animais,
agora a situação se inverte: a mulher é a primeira e a maior pecadora, a
origem de todas as ações nocivas ao homem, à natureza e aos animais.
Durante
três séculos o Malleus foi a bíblia dos Inquisidores e esteve na banca
de todos os julgamentos. Quando cessou a caça às bruxas, no século
XVIII, houve grande transformação na condição feminina. A sexualidade se
normatiza e as mulheres se tornam frígidas, pois orgasmo era coisa do
diabo e, portanto, passível de punição. Reduzem se exclusivamente ao
âmbito doméstico, pois sua ambição também era passível de castigo. O
saber feminino popular cai na clandestinidade, quando não é assimilado
como próprio pelo poder médico masculino já solidificado. As mulheres
não têm mais acesso ao estudo como na Idade Média e passam a transmitir
voluntariamente a seus filhos valores patriarcais já então totalmente
introjetados por elas.
É com a caça às bruxas que se normatiza o
comportamento de homens e mulheres europeus, tanto na área pública como
no domínio do privado.
E assim se passam os séculos.
A
sociedade de classes que já está construída nos fins do século XVIII é
composta de trabalhadores dóceis que não questionam o sistema.
As Bruxas do Século XX
Agora,
mais de dois séculos após o término da caça às bruxas, é que podemos
ter uma noção das suas dimensões. Neste final de século e de milênio, o
que se nos apresenta como avaliação da sociedade industrial? Dois terços
da humanidade passam fome para o terço restante superalimentar-se; além
disto há a possibilidade concreta da destruição instantânea do planeta
pelo arsenal nuclear já colocado e, principalmente, a destruição lenta
mas contínua do meio ambiente, já chegando ao ponto do não-retorno. A aceleração tecnológica mostra-se, portanto, muito mais louca dos inquisidores.
Ainda
neste fim de século outro fenômeno está acontecendo: na mesma jovem
rompem-se dois tabus que causaram a morte das feiticeiras: a inserção no
mundo público e a procura do prazer sem repressão. A mulher jovem hoje
liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclusão ao domínio
privado formam também os dois pilares da opressão feminina.
Assim,
hoje as bruxas são legião no século XX. E são bruxas que não podem ser
queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela primeira vez na
história do patriarcado, para o mundo masculino, os valores femininos.
Esta reinserção do feminino na história, resgatando o prazer, a
solidariedade, a não-competição, a união com a natureza, talvez seja a
única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva.
Creio que com isso as nossas bruxinhas da Idade Média podem se considerar vingadas!
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domingo, 22 de junho de 2014
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Marie Muraro, chega ao céu e não deve estar sendo fácil conter tanta
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adicionado em 24 de Setembro de 2023
