Filme ‘Tarja Branca’ propõe revolução pela brincadeira

Filme discute importância das atividades lúdicas e defende que brincar pode ser a cura para muitos males do mundo moderno

por Xandra Stefanel, especial para RBA


publicado
18/06/2014 16:38,


última modificação
18/06/2014 17:47


Divulgação
Brincar não tem idade

A cultura popular é uma chance de se ter uma segunda infância
É raro encontrar algum adulto que não se comova ao ver a beleza das crianças brincando.
Por um instante, bate saudades da leveza do mundo lúdico que geralmente
povoa o universo infantil. Mas isso logo passa, afinal, crescer traz
grandes responsabilidades e não se pode perder tempo com coisas que não
são “sérias”. É exatamente isso que o documentário Tarja Branca – A Revolução que Faltava questiona. O longa-metragem dirigido por Cacau Rhoden com produção de Maria Farinha Filmes tem estreia nacional nesta quinta-feira (19).

Com um roteiro impecável, o filme intercala saborosas imagens de brincadeiras
e de manifestações populares brasileiras com entrevistas com artistas,
pesquisadores, psicólogos, psicanalistas, terapeutas, pedagogos,
etnomusicólogo e brincantes em geral. Os depoimentos de José Simão, do
multiartista Antonio Nóbrega, do escritor Marcelino Freire e do músico e
ator Wandi Doratiotto se equilibram com os depoimentos de estudiosos e
pesquisadores e de personagens comuns que brincam a cultura popular,
como é o caso de Geraldo Antonio da Silva, capitão da Congada Guarda de
Moçambique, de Belo Horizonte.

A trilha sonora,
composta de cirandas, maracatus, cocos, sambas e outros ritmos nacionais
faz um casamento harmonioso e emocionante com a fotografia de Janice
D’Ávila. O conjunto da obra leva ao espectador a compreensão do tema
pelo sentimento, mais do que pela razão. Impossível não se identificar
com as histórias e brincadeiras apresentadas e não lembrar das cores brilhantes
que devem fazer parte da vida de todas as crianças. Mais que isso,
improvável não se questionar: “Quando é que deixei de brincar e por
quê?”

Do início ao fim, a montagem de André Finotti conduz o espectador à esta reflexão por meio de um ritmo orgânico, que evolui

sem

que se perceba, naturalmente, sem forçar a barra. Assim como as
brincadeiras. O casamento que documentário promove entre as brincadeiras
e as manifestações culturais típicas brasileiras é comovente, além de
fazer todo o sentido. “A grande riqueza da cultura popular é que ela é a
chance de você ter uma segunda infância”, afirma a coreógrafa Andrea
Jabor, entrevistada num Rio de Janeiro ensolarado tendo ao fundo o
deslumbrante Morro Dois Irmãos.
A impressão que se tem quando o filme acaba é que a equipe viajou
pelos rincões do Brasil todo para captar a beleza e alegria de um povo
brincante com o objetivo de alertar sobre importância de não deixar a
brincadeira morrer, especialmente as grandes cidades, onde há cada vez
menos espaço para o lúdico. “Tem gente que morre e que uma ou duas
cordas foram acionadas. As outras ficaram em silêncio a vida toda. É no
brincar que você dedilha a lira inteira”, lamenta Lydia Hortélio,
professora e pesquisadora de música tradicional da infância.

Na ânsia de preparar as crianças para o futuro,
os pais estão cada vez mais se esquecendo do tempo sagrado das
brincadeiras, a principal base da infância. Há cada vez menos um
equilíbrio entre o aprendizado formal e o aprendizado por meio do
lúdico. “A criança, com 4, 5, 6 anos, já aprende balé, inglês,
sapateado… É muita coisa que se enfia na cabeça. Daí vai crescendo um
adulto muito preocupado”, aponta o músico e ator Wandi Doratiotto.

“Não adianta ter a forma e não ter conteúdo. E o conteúdo, para mim, vai ser encontrado no brincar, nesse tempo livre,
justamente quando ela está em contato com a cultura, com a comida, com a
dança, com o teatro. É isso o que vai fazer essa alma ficar cheia.
Tirar o tempo livre de recreio, o pouco contato que ela possa a ter com
a natureza é o maior pecado que a gente está cometendo com a criança”,
afirma a pedagoga Ana Lucia Villela, que diz se sentir profundamente
triste ao constatar que 9 entre 10 crianças das grandes cidades preferem
ir ao shopping a brincar.

O documentário prega que o prazer da brincadeira deve ser estimulado
desde cedo para que, quando adulta, a pessoa continue brincando e saiba
buscar a verdadeira felicidade. “Pergunte ao poeta se ele pode não
escrever. Se a resposta for ‘sim’, abandona essa m* e se dedica a
qualquer outra coisa. Se a resposta for ‘não’, então você será um poeta e
um escritor, vai escrever e escrever cada vez melhor. Pronto. Isso é ir
atrás do seu próprio desejo. Isso é brincar. A única solução para nós é
fazermos o que gostamos. Se formos pagos por isso, melhor, mas é
secundário”, opina o psicólogo argentino Ricardo Goldenberg.

Para Lydia Hortelio, a solução para muitos problemas da sociedade
vêm junto com crianças brincantes. “Eu estou pela revolução que falta,
que é esta revolução da criança. É isso que vai nos tirar deste
mal-estar, dessa tristeza generalizada que a gente vê nas pessoas, essa
falta de alegria que a gente está vivendo”, afirma e vai além: “A gente
está vendo a rebeldia das crianças nas escolas, o número de crianças
encaminhadas para terapeutas e a escola sem poder resolver a questão da
violência. E a violência está aí porque as pessoas foram violentadas na
sua capacidade de ser gente”, afirma Lydia.

Pião, bolinha de gude, pipa, carrinho de lata, cantigas de roda. Para
a criança, é simples ser feliz em um mundo de brincadeira. Por que, então, depois de adultas, as pessoas acham vergonhoso brincar? “Quem brinca é mais feliz. Ponto. Eu não tenho dúvida. E eu acho que é o grande lance. Todo mundo quer
ser feliz. Tudo bem, você quer ter dinheiro, ter conforto… Mas
fundamentalmente, o que a gente quer? Felicidade”, diz Andrea Jabor.

TARJA BRANCA – trailer from Maria Farinha Filmes on Vimeo.

CartazFicha técnica Tarja BrancaDireção: Cacau Rhoden
Produção: Estela Renner, Luana Lobo e Marcos Nisti
Direção de produção: Juliana Borges
Direção de fotografia: Janice D’Ávila
Montagem e finalização: André Finotti
Produção musical: André Caccia Bava
Desenho de som: Miriam Biderman
Argumento: Cacau Rhoden, Estela Renner e Marcos Nisti
Roteiro: Marcelo Negri

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