Estamos “comendo” a FIFA

“Brasil é pior país para trabalhar a sério na organização do
Mundial, afirmou entidade. Para nação antropofágica, não poderia haver
elogio mais gratificante”. O comentário é de Lisandro Moura, sociólogo, mestre em Educação e professor de Sociologia do IFSul, em artigo publicado por Outras Palavras, 11-06-2014.
Segundo ele, “não basta a FIFA ter o poder do
capital para financiar o espetáculo artificialmente midiatizado e
ordenar a cidade de acordo com interesses financeiros. Aqui nos
trópicos, capital não é suficiente. Tem que ter jogo de cintura, saber
sambar e rebolar na boquinha da garrafa. Caso contrário, damos de 10 a 0
com direito a drible à la Garrincha, balãozinho e bola
por entre as canelas. Não basta ter poder, tem que ter espírito. Isso
nós temos de sobra. Com o espírito do Exu tranca-copa, o espírito do
povo das ruas, dos bêbados e equilibristas, dos palhaços de circo, dos
bufões de esquina, dos mascarados, dos craques da várzea… nós vamos, aos
poucos, “comendo” a FIFA“.
Eis o artigo.

“O Brasil não é para principiantes”. Essa frase, atribuída a Antonio Carlos Jobim, corresponde a uma advertência para quem coloca em questão o Brasil de hoje e de ontem e de sempre. Em tempos de Copa do Mundo, nosso país está mais do que nunca sintonizado com sua verdadeira vocação antropofágica, tão bem descrita no manifesto oswaldiano: “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós” [nota 1].

Temos aversão a todo tipo de ordenação, de disciplina, de
racionalização que caracterizam o pensamento burocrático impessoal e as
economias de todo o tipo. Somos atrapalhados e nos metemos em grandes
confusões. Na verdade, essa é a nossa maior riqueza. É que não somos
afeitos à domesticação. Nem a FIFA, nem o mercado, nem o Estado e nem ninguém conseguem amansar esse povo complexo e controverso. A FIFA
já constatou: o Brasil é o pior país para se trabalhar a sério na
organização do Mundial. Não há elogio mais gratificante do que esse.
Estamos com as obras atrasadas. Pois que atrasem! Somos originais.
Vangloriamo-nos da dor de cabeça que causamos ao inimigo externo. Sairão
daqui com o desejo de nunca mais retornar. Mas os traremos de volta,
daqui uns anos mais, para causar-lhes uma dor de cabeça renovada.
Aqui no Brasil, nós devoramos o inimigo pela adesão a ele. Uma adesão
relativa, é certo, e avessa aos compromissos de filiação. Aceitamos a
Copa para mostrar ao mundo quem somos e o que desejamos ou não
desejamos. Para mostrar que o país do futuro se constrói na incerteza do
presente. Na aceitação do presente como um devir. Aceitamos a Copa para
combatê-la através do que ela nos proporciona de melhor: o futebol. Ah,
o futebol… O combate acontece na forma de entrega nada maniqueísta. Vai
ter Copa e não vai ter. Vai ter jogo e protesto, farras e vaias, sangue
e gols e punhos cerrados. O corpo inteiro como experiência coletiva.
 Abrimos
as portas de casa para o mercado financeiro, para a especulação
imobiliária, para a violência internacional, violência policial.
Dormimos abraçados com o inimigo. E acordamos em festa. No entanto, mal
sabem os analistas principiantes que, durante a noite, nós é que
“comemos” o inimigo. Assimilamos seus valores e os transformamos de
acordo com uma lógica interna, própria do espírito carnavalesco. Tal
como nas palavras de Haroldo de Campos sobre o sentido
do Brasil canibal: “assimilar sob espécie brasileira a experiência
estrangeira e reinventá-la em termos nossos, com qualidades locais
iniludíveis que dariam ao produto resultante um caráter autônomo e lhe
confeririam, em princípio, a possibilidade de passar a funcionar por sua
vez, num confronto internacional, como produto de exportação [nota 2].”
Esse é o alicerce da nossa nacionalidade. A verdade subtropical do
pensamento selvagem, o pensamento da fundação da nova civilização
planetária. Homo Novus Brasilensis. Eis a
virtude do jeitinho brasileiro e do “homem cordial” como produto de
exportação. Porque essa é nossa herança mais profunda, nossa ontologia
cultural brasileira. Boicotamos o Estado antes que ele boicote nossa
espontaneidade. Driblamos os governos e o mercado e apresentamos ao
mundo uma nova Copa do Mundo, onde a bola dividirá o campo com os
protestos. Usamos a Copa para revelar ao mundo as mazelas do mundo.
Nossa luta é contra as instâncias referendadas pelo Estado e pelo
mercado, que tentam controlar as efervescências e organizá-las de acordo
com a lógica normativa do poder. O poder que vem de cima e que é avesso
ao húmus, aos que vivem no chão. Nossa filosofia é chã, como a do Manoel de Barros.
Nossa tática é irracional, é anti-tática. O fim da política como
estratégia de guerra. A refundação da política como experiência interna,
regada à festa. A ordem primitiva. A vitória de Dionísio sobre Apolo.
A derrota da ciência pela astúcia do mito. A superioridade da magia
frente à desencantada religião. Não seria isso o verdadeiro “ateísmo com
Deus” do manifesto antropofágico?
De fato, não há compatibilidade entre o nosso turbante de bananas e a
gravata engomada dos executivos da Copa. Aqui a periferia (aqueles do
chão) impera antes, durante e depois do carnaval. É ela quem civiliza.
Essa é a nossa virtude. Por isso, a tradicional fórmula “colonizadores
versus colonizados”, com a superioridade dos primeiros, não se encaixa
no nosso perfil. Nossa fórmula é tupi: a anti-fórmula. Somos potência
econômica. Mas o que temos com isso? Não partilhamos a riqueza.
Dominamos pelo imaginário, esse sim bem distribuído e cada vez mais real
e potente.
Não basta a FIFA ter o poder do capital para
financiar o espetáculo artificialmente midiatizado e ordenar a cidade de
acordo com interesses financeiros. Aqui nos trópicos, capital não é
suficiente. Tem que ter jogo de cintura, saber sambar e rebolar na
boquinha da garrafa. Caso contrário, damos de 10 a 0 com direito a
drible à la Garrincha, balãozinho e bola por entre as
canelas. Não basta ter poder, tem que ter espírito. Isso nós temos de
sobra. Com o espírito do Exu tranca-copa, o espírito do povo das ruas,
dos bêbados e equilibristas, dos palhaços de circo, dos bufões de
esquina, dos mascarados, dos craques da várzea… nós vamos, aos poucos,
“comendo” a FIFA.
Estamos na véspera da Copa que não vai acontecer. Cabe aqui uma
última advertência a todos o que pensam poder colocar o Brasil em xeque.
A advertência já foi dada por Hélio Oiticica, o herói
marginal, mas poderia ter saído de qualquer outro anti-herói Macunaíma,
ou seja, de qualquer um de nós: “quem ousará enfrentar o surrealismo
brasileiro?” [nota 3].

Notas:
1- ANDRADE, Oswald. Manifesto Antropófago. In: A Utopia Antropofágica. Obras Completas de Oswald de Andrade. São Paulo: Globo 1990.
2- Citado por VELOSO, Caetano. Antropofagia. São Paulo: Penguin Classics / Companhia das Letras, 2012, p. 54.
3- OITICICA, Hélio. Brasil Diarréia (1973). In: In DERCON, Chris et all (org). Hélio Oiticica (catálogo). Rio de Janeiro: Centro de Arte Hélio Oiticica, 1998.

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