Um dos maiores dramas do Brasil em termos de polaridade, e que o momento atual está deixando bem
exposto, bem escancarado, é a forte dose de autoritarismo, exclusão e elitismo em disputa com uma fraca disposição em
basearmos as nossas relações em conceitos como democracia, participação e inclusão.
educação, a comunicação e a cultura tem no enfrentamento a isso. Porém, com pouco resultado
de curto prazo, mas crescente a médio e a longo prazo, desde que feito com criatividade,
ousadia, determinação, e de forma permanente e constante.
experiência, particularmente no Bairro América, Aracaju, a partir da pesquisa e dos estudos que estão sendo realizados para a produção de um livro sobre
a AMABA/Projeto Reculturarte (1986 à 1996) , revela o quão instigante e desafiador,
é realizar ações no campo da arte-educação popular e das ações culturais de base comunitária, e ao mesmo tempo descobrir o quanto de autoritarismo,
elitismo e exclusão nos acompanha e estão dentro de nós. Mesmo dentro
daqueles (as) que fazem o bom combate contra isso, com maior grau em uns, e em outros em menor grau.
culturais que se propõem a transformar a realidade de opressão, terminam por avançar
até um certo ponto, mas sucumbem depois, por não conseguir superar os choques dos desejos. Como por exemplo, o de controlar, de mandar,
de ser o centro das atenções de um lado, e
do outro lado, o de saber ouvir, dialogar e decidir mediante consenso, assim como o respeito e reconhecimento pelos conhecimentos
e talentos dos outros. Assim a disputa
no plano micro, fortalece o plano macro. As derrotas
e vitórias embaixo nos enfraquecem ou nos fortalecem em cima.
Dentre os documentos encontrados no trabalho de pesquisa que estou
realizando, trago esse abaixo , sem titulo e sem data precisa, para desenvolver melhor a argumentação do que proponho acima. O texto abaixo foi escrito e distribuído em cópias xerox para companheiros (as)
dirigentes e educadores (as) envolvidos
com as atividades da AMABA/ Projeto Reculturarte possivelmente no ano de 1994, envolvidos
em um conflito onde se misturavam questões de ordem pessoal, com questões de ordem ideológica.
Vamos ao documento:
“Em 1988, participei de um seminário
da ANAMPOS (articulação nacional do movimento popular e sindical) em vitória (ES), e que contou com a participação de delegações de
20 estados reunindo militantes do movimento popular.
O objetivo era fazer uma avaliação de como estava o movimento popular em
termos de organização, infraestrutura, relação com o governo, igreja e partidos
etc… fora estas questões mais gerais, um tema que não suscitou maior
interesse da plenária na hora de formação dos grupos, mas que produziu um dos
melhores textos, foi “A dimensão afetiva do militante “, onde participei juntamente com três mulheres
da discussão, ficando a cargo da companheira Luiza Fernandes de São Paulo
elaborar a síntese final em forma de tese. Algum tempo depois, o texto foi
publicado no boletim da ANAMPOS que era distribuído a nível nacional,
possibilitando desta forma ser lido por um número maior de pessoas.
Recentemente folheando o arquivo da AMABA encontrei-o, e ao lê-lo
confesso que fiquei muito feliz pois o texto coloca algumas questões que tem
muito a ver com a nossa situação interna atual, por este motivo trago-o resumido para
servir de introdução a analise dos motivos que nos levaram a essa situação. Por
ultimo, é importante frisar que estas não são e nem serão as ultimas palavras a
respeito do assunto.
(…) As análises, os relatos feitos, as experiências vividas tem revelado
em sua maioria, que reproduzimos a estrutura vertical da sociedade burguesa. A
hierarquização, o desrespeito pelo iniciante que passa a ser usado como massa
de manobra, como voto na convenção e
para panfletagem, vive uma situação semelhante ao operário na fabrica que não
tem direito a nenhuma instância de decisão. Ele também não sabe sobre como,
porque e quando fazer.(…)
(…) Raramente discutimos porque uma pessoa entra em um
movimento. Será que isto só acontece quando ela já tem uma consciência politica
pronta. Se for isso, como fazer um trabalho educativo. E a idéia de processo. E
a idéia de transformação enquanto um processo contínuo e dialético. (…)
(…) Até
que ponto , o como e porque iniciei no movimento não está relacionado com a
minha estória de vida. (…)
(…)Se sou machista com minha mulher, se espanco meus
filhos, se escondo que tenho família, nada disso interessa ao movimento. Estas
são questões de foro intimo. Mas será isso mesmo? Será que mesmo não querendo
não levamos para o movimento tudo o que somos . (…)
(…) Até que ponto, não fazemos do movimento um lugar de valorização,
de busca de status. Ou não conhecemos muitos que entraram em um processo de
deterioração por causa da falta de diálogo, da desconfiança entre companheiros,
de situações ambivalentes, de desentendimentos entre os companheiros, de
palavras não ditas. (…)
(…) Usamos nossas experiências passadas como guia numa
situação nova. E como adultos, racionalizamos de acordo com normas e valores
acumulados durante toda a nossa vida. E como adultos temos dois caminhos: podemos cristalizar uma
posição, ou estamos sempre abertos para reelaboração, que é diferente de não
ter posição. ” (…)
Zezito de Oliveira
(PT, PSOL, PDT, PC do B, PSB), assim como movimentos sociais (UNE, UBES, CUT CONAN,
CMP, MST, MTST) decidirem fazer auto critica.
falta de esperança, no niilismo, na depressão. Os ateus considerem o uso da
expressão “Tomara, meu Deus tomara” como
força de expressão. Mesmo assim, a
canção não perde o sentido. Independente de se ter fé ou não, o trabalho, a
ação, é o fundamental. E com a esperança
e a utopia no centro.
inatingíveis… ora! / Não é motivo para não querê-las… / Que tristes os
caminhos, se não fora / A mágica presença das estrelas!”
P.S.: – Associação dos moradores e amigos do bairro américa (AMABA) e Reeducação, Cultura e Arte. (Reculturarte)
meu Deus, tomara
Que tudo que nos separa
Não frutifique, não valha
Tomara, meu Deus
meu Deus, tomara
Que tudo que nos amarra
Só seja amor, malha rara
Tomara, meu Deus
meu Deus, tomara
E o nosso amor se declara
Muito maior, e não pára em nós
águas da Guanabara
Escorrem na minha cara
Uma nação solidária não pára em nós
meu Deus, tomara
Uma nação solidária
Sem preconceitos, tomara
Uma nação como nós.”

