“Precisamos repensar o que há de tradição e cultura nas festas juninas”
Dele, nenhum nordestino escapa. Deu maio, e as brisas dos festejos do
mês de junho bafejam de um por um os quase 60 milhões de brasileiros
que habitam a região Nordeste, da Bahia ao Maranhão. Pouco importa a sua
crença ou credo.
Junho é junho, e se afigura forte e bem personalizado em comidas,
roupas, músicas típicas, fé e fogos. Neste sábado, 30, a fumaça quase
sacra do último junho deu seu adeus. Mas daqui a 11 meses tudo se
repetirá – com as chuvas de inverno, a colheita do milho, os fogos e as
louvações aos três santos da hora – Antonio, 13, João, 24, e Pedro, 29.
No centro de todo essa importância, impactando ou impactadas
fortemente, estão as tradições e a cultura da região, que junho tão bem
sacramenta e sacraliza numa série de atitudes que que tem na música algo
meio que de síntese.
E nasce daí o maior debate sobre junho: o poeirão que o poder público
faz estrondosamente levantar em eventos como os de Campina Grande, na
Paraíba, em Caruaru, Pernambuco, em Aracaju, Sergipe exalta e respeita
as tradições e a cultura junina, ou é apenas pirotecnia de mercado e de
consumo? Uma mercantilização?
O jornalista sergipano Thiago Paulino da Silva, 38 anos, bacharel em
Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco, mestre em
Mídia e Cultura pela UFPE e recém-doutorado em Sociologia pela
Universidade Federal de Sergipe, debruçou-se por quatro anos sobre uma
pesquisa nesta esfera, sai de lá com um livro chamado “Palco de disputas
e disputas pelo palco no país do forró” e tem visões pouco positivas
sobre tudo isso, apesar de louvar o histórico da festa.
Para Thiago Paulino da Silva, há tempos a lógica do mercado, da
mercantilização, assaltou a da cultura e a da tradição e impôs palcos
diferenciados e divergentes ao ciclo junino. Seu livro “Palco de
disputas e disputas pelo palco no país do forró”, que é síntese da sua
tese, vai (de)anunciar isso.
Na sua visão, a pauta das grandes festas públicas segue mais a linha
do consumo da indústria cultural e bem menos a da tradição?,
questiona-lhe uma das perguntas desta entrevista do JLPolítica. “Isso é
notório e gritante”, responde Thiago Paulino, sem radicalismos.
“Essa tendência de deixar a lógica de mercado dominar os espaços de
circulação da música é perigoso e, para a prática da boa cidadania, é
essencial que atuemos politicamente nisso. Porque o palco não é somente
diversão. É diversão também, mas é essencialmente formação de público”,
diz ele.
Esta prática, fundamenta Thiago Paulino, depõe muitíssimo contra a
sobrevivência da “cultura autêntica” em face de contratos que visam
contemplar o cantor ou a banda que tenha mais apelo de massas. “Com
certeza ela perde espaço e isso já vem se dando há um bom tempo”,
reforça.
Para Thiago, mais justo e pertinente seria que a definição do mix das
grandes festas públicas, que são montadas com o dinheiro do público, se
desse numa discussão mais democrática e mais inclusiva dos artistas
mais autênticos e que têm dificuldades de acessar os grandes palcos e as
suas benesses – que vão do peso dos cachês à imponência da tecnologia.
“Porque todo artista precisa que sua música seja executada, mas não
no começo ou no final de um evento, e com um cachê bem mais baixo. Isso é
uma prática extremamente desumana. E ele não pode reivindicar, porque
senão é cortado da programação. Mas o que é que está por trás disso? É a
concepção desse palco de que falo: se for para alavancar a popularidade
do prefeito ou do governador, segue-se essa lógica”, analisa.
“Isso é um ciclo vicioso que vai dar no clichê do pão e circo. Isso
não só esvazia o cultural, como aproveita das palavras tradição e
cultura, mesmo que de cultura nada haja. Vem daí que em Caruaru, Campina
Grande e em Aracaju usem como slogan São João de Tradição e Cultura.
Mas o que é que tem de tradição e cultura nesses espaços, nessas festas?
Precisamos repensar isso”, denuncia Thiago.
Mas esta Entrevista Domingueira do Portal JLPolítica com Thiago
Paulino da Silva não se prende somente às questões mercantis da grande
festa junina. O entrevistado é instado a abordar outras esferas dela e
conceitua, por exemplo, o peso de Luiz Gonzaga no ciclo junino, na
música e na importância do Nordeste.
“Em apologia a um cara que vem bem depois, o Chico Science, que fala
da antena fincada na lama do mangue beat, eu diria que Luiz Gonzaga foi a
grande antena que não só se articulou muito com pessoas que captavam
essa alma e essa essência múltipla nordestinas, como cantou muito bem
isso tudo. Porque ele mesmo era um ótimo melodista. E aí conseguiu fazer
com que essa música reverberasse para o Brasil todo”, diz.
Sem preocupações populistas, Thiago Paulino da Silva faz a
iconoclasta defesa de que é perigosa a análise cultural que endeuse ou
sacralize demais a figura de Gonzaga. “Admito até que é muito importante
reconhecer quem é Luiz Gonzaga para o ciclo junino, mas entendo que
endeusá-lo ou sacralizá-lo gera prejuízos para o cenário cultural.
Circular muito em torno de Luiz Gonzaga pode impedir que se enxerguem
outras forças que surgem”, diz ele.
Thiago Paulino da Silva é uma voz nova no universo da Sociologia. Mas
vem de uma cepa antiga, e boa: é filho do professor José Paulino da
Silva, um inquestionável educador sergipano-pernambucano, um doutor que
emprestou sua expertise em pesquisas populares à Universidade Federal de
Sergipe, da qual chegou a ser vice-reitor. Hoje é aposentado dela.
DAS VÁRIAS CAMADAS DE PERCEPÇÃO E DE INTERAÇÃO
“Quando a gente pensa na festa junina,
constata-se que nela tem várias camadas de percepção e várias de
interação com ela. É difícil medir quantas pessoas sabem os reais
significado e sentido do que há por trás dela. Mas há um imaginário
muito forte no corpo da festa”

Com a esposa, Lavínia; e a filha, Helena
Recém-doutorado em Sociologia, Thiago Paulino estará pondo o pé na vida acadêmica ainda este ano.
Ele está aprovado como professor
assistente da UFS. Em comunicação social, teve passagens pelo Jornal do
Commércio, em Pernambuco, pelo Cinform e pela TV Aperipê, em Aracaju.
Na esfera cinematográfica, por onde transita bem, foi assistente de direção e entrevistador dos documentários “Aboio e Toada” e “Herdeiros do Forró”, ambos do belga Damien Chemin. Thiago
é casado como a bacharel em Direito Lavínia de Vasconcellos Góes, uma
funcionária pública, com quem tem um casal de filhos – Heitor Góes
Paulino, 5, e Helena Góes Paulino, 2.
Thiago Paulino da Silva é o entrevistado de número 74 da série de entrevistas do Portal JLPolítica. Vale conferir o que ele tem a dizer sobre as questões de junho e suas complexidades. Boa leitura.
DO ASSAR DOS MILHO ÀS PROCISSÕES E NOVENAS
“Os festejos em família, os comunitários,
são um bom exemplo. Aquele de se estar à beira de uma fogueira, assando
um milho. Há sentido em alguns campos religiosos também, nas procissões e
novenas”
JLPolítica – Thiago, junho acabou de ir embora, deixando no
ar a fumaça das grandes festas que se dão em nome dos três santos e da
colheita de inverno, tendo o milho por ponto de partida. O brasileiro, o
nordestino e o sergipano sabem o que festejam neste ciclo, ou a festa
se deslocou de seu eixo e perdeu a essência de suas raízes?
Thiago Paulo da Silva – Quando a gente para pra pensar
na festa junina mesmo, constata-se que nela tem várias camadas de
percepção e várias outras camadas de interação com ela. Empiricamente,
então, é difícil você medir assim quantas pessoas sabem os reais
significado e sentido do que há por trás dela. Mas uma coisa é certa: há
um imaginário muito forte no corpo dessa festa, como se fosse um
amálgama que a ajuda a sobreviver.
JLPolítica – Quais são esses amálgamas?
TPS – Os festejos em família, os comunitários, são um
bom exemplo. Aquele de se estar à beira de uma fogueira, assando um
milho. Há sentido em alguns campos religiosos também, nas procissões e
novenas. Talvez isso não esteja tão forte como tivesse sido em outras
épocas da festa. A musicalidade que ainda reverbera nos migrantes das
periferias urbanas é outro aspecto. A minha convivência que remete ao
universo junino, por exemplo, não é a mesma convivência que meu pai, o
professor José Paulino da Silva, 73 anos, teve lá no povoado
pernambucano em que ele nasceu. Eu cresci num ambiente urbano e
litorâneo, que é esse aqui da 13 de Julho, em Aracaju, um bairro de
pescadores. Mas, de certa forma, eu tive uma conexão com junho e suas
representações pelas lendas e pelas histórias que escutava em casa. E
essa conexão junina vibra de alguma forma dentro de mim.
JLPolítica – Esse seria um aspecto que faz junho continuar vivo enquanto significado festivo?
TPS – Sim, ele continua vivo. Vivíssimo. Mas há
diversos outros sentidos que se empregaram para esta festa. Há o de
puramente diversão e entretenimento. Até certo ponto, isso provoca essa
anulação da percepção de que haja três santos sendo reverenciados por
esse período. Mesmo porque hoje há uma diversidade e um campo de
afirmação religiosa muito forte e o entretenimento o abraça, por um
questão até comercial, de público consumidor, e quer levar isso adiante.
Mas há bons sentidos por trás quando uma pessoa, na frente de um palco,
recebe recados de um povo migrante de algo que lhe toca a alma. E ali
ele contata com uma música que lhe faz, sim, sentido.

Com o pai, José Paulino; e o filho, Heitor
UMA MISTURA DE CULTURAS E REGIÕES
“Os compositores que mais contribuíram para
esse universo junino juntamente com Luiz Gonzaga, como Humberto
Teixeira, Zé Dantas, eram pessoas do Nordeste, mas que já estavam na
vida urbana do Rio de Janeiro lá pelos anos 40 e 50”
JLPolítica – O senhor desconhece que na base musical da festa
existe uma apologia muito forte ao campo, ao mato, a um ideal
sertanejo, a um nordestino mais profundo, de grotões?
TPS – Não desconheço, porque com certeza isso existe. A
gente poderia dizer que há uma matriz musical e cultural simbólica das
suas representações, com a qual esta festa estaria extremamente
conectada e sobre a qual foi construída ao longo do seu processo
histórico.
JLPolítica – Essa matriz se move?
TPS – Naturalmente, essa matriz, por ser construída,
não é uma coisa estática. Ela é dinâmica, e também sofre interferências
políticas e de interesses os mais diversos possíveis, como os urbanos.
Os compositores que mais contribuíram para esse universo junino
juntamente com Luiz Gonzaga, como Humberto Teixeira, Zé Dantas, e tantos
outros, eram pessoas do Nordeste, mas que já estavam na vida urbana do
Rio de Janeiro lá pelos anos 40 e 50, mas que remetiam às suas memórias
de infância, que se deram no sertão.
JLPolítica – É justo afirmar que cada vez que alguém
confronta tradição com modernidade dos festejos juninos está sendo
passadista, conservador, e condenando a evolução nos ritmos, nas
quadrilhas, nas vestes e nas comidas?
TPS – Na verdade, pensar numa festa estanque é
extremamente injusto e cruel. Isso é um estigma criado por certas
pessoas para não se promover um debate de fato do que são as tradições.
Eu diria que tradições são invenções humanas. Eric Hobsbawm foi um autor
que defendeu essa ideia e com ela eu compactuo. Agora, quando se começa
criticar os que percebem que há um esvaziamento de sentido na festa,
quando isso entra em debate, as pessoas responsáveis são tratadas de
conservadoras, radicais e outros estigmas. Mas não o são. Portanto, não é
justo, porque a tradição deve ser vista, também, como algo novo. É
preciso perceber que a tradição carrega memórias e afetividades, mas que
ela também se reinventa. Não deixa de haver saudosistas e conservadores
que querem sacralizar e engessar a tradição, e isso acaba embotando o
bom debate.

Da
esquerda para a direita, professores Frank Marcon, Rogério Proença, o
orientador Marcelo Ennes, Durval Muniz (escritor do livro a “Invenção do
Nordeste”), Thiago e o professor Luiz Gustavo
EVOLUÇÃO, MAS COM RESPEITO AO AFETIVO DAS TRADIÇÕES
“Pensar numa festa estanque é extremamente
injusto e cruel. Tradições são invenções humanas. É preciso perceber que
a tradição carrega memórias e afetividades, mas que ela também se
reinventa”
JLPolítica – Qual seria o caminho ideal? É o que respeite o passado, mas que potencialize o futuro?
TPS – Eu acho que nesse campo é muito difícil apontar
um caminho ideal. É muito complicado. Mas percebe-se que é vital para a
memória afetiva de um povo que suas tradições, seus costumes e modos de
vivências sejam respeitados. Isso tem um poder social muito grande. Veja
o peso que é para um adolescente que vai a primeira vez a uma festa de
forró. O rito de passagem a que ele é submetido é fantástico. Agora, é
evidente que o jovem ou adolescente que escuta e curte a música junina
hoje não é o mesmo para quem Humberto Teixeira compôs e Luiz Gonzaga
gravou.
JLPolítica – Mas é justo que o adolescente de hoje tenha por
Wesley Safadão um endeusamento e nutra uma anulação por Luiz Gonzaga?
TPS – Não. Claro que não. Não é justo, e é amplamente
prejudicial para essa geração que isso ocorra, porque em Luiz Gonzaga e
os da mesma linha dele há um riquíssimo arcabouço musical que não
circularia se isso de fato ocorresse. O grande calo desses grandes
palcos públicos e dessas outras questões envolvendo o ciclo de junho é o
da disputa nesse cenário. Veja: tivemos agora em junho mais um Fórum do
Forró, que falou sobre o coco de roda. Ele é um belo ritmo do ciclo
junino também, de uma imensa riqueza. Mas se as pessoas não conseguem
escutar e reconhecer nem o forró tradicional, imagine o coco e outras
manifestações riquíssimas que existem neste universo. Mas quero deixar
patente que a culpa não é do forró e nem do coco.
JLPolítica – No ciclo junino, quem mais sofre alteração ano a
ano entre música, vestimenta e alimentação? Quem é mais passivo de
mudanças?
TPS – Desses três setores, o que estudei foi o da
música. E eu sei dos prejuízos que a música sofre. Para a música, é
vital a experiência da circulação no ciclo junino para a sobrevivência
dela. Ela e o artista responsável por sua existência precisam ser
escutados e dançados. Para o artista, vem da música uma forma de renda
que lhe dê segurança, e você percebe que existe até uma certa ação e
tendência de artistas do ciclo de quebrar essa sazonalidade. Mas eu não
sei quantificar até que ponto essa estrutura comercial prejudica a
comida típica e a vestimenta. Na verdade, uma dada música desse ciclo
sofre por não ter espaço para circulação.

Thiago Paulo da Silva, ao lado do juiz-forrozeiro Sérgio Lucas: esse não perdeu o contrapé da cultura e nem da tradição
O PESO DO SÃO JOÃO X CARNAVAL
“A mercantilização está presente tanto no
Carnaval quanto no São João. Mas talvez os festejos juninos toquem mais a
alma do sertanejo, do povo do interior. Vejo o carnaval mais como um
peso urbano, mais do operário”
JLPolítica – É possível mesclar e preservar?
TPS – Eu diria que há saídas criativas. Eu vi agora em
Aracaju, por exemplo, um show da Luci Alves, muito interessante. Porque,
ao mesmo tempo que ela executou um bloco de músicas com som de violino,
que parecia rabeca, cativando o público com vários cocos, vários
clássicos do cancioneiro popular de época que algumas pessoas não
conheciam, mas que Elomar e Xangai já cantaram, ela também trouxe um
ciclo de músicas extremamente voltadas para um gosto mais contemporâneo e
dançante, como o funk. Veja que em Salvador os forrozeiros se uniram e
criaram a Lei da Zambumba, que reivindica uma cota para que os artistas
locais pudessem tocar. O Chico César já lidou com isso, por entender que
esse espaço de circulação da música é vital.
JLPolítica – Mas é democrático fechar por lei caminhos a outras experimentações musicais?
TPS – Não acho que esse seja o melhor caminho. Eu
defendo que se compreenda qual tipo de proposta se pretende para um
evento público da magnitude dos que se passam em junho.
JLPolítica – Dá para fazer um paralelo de importância e peso
entre o São João e o Carnaval para o Nordeste mais profundo, aquele do
interior, tirando Salvador e Recife?
TPS – Acho que em termos de alegrias e espontaneidades,
eles têm um paralelo. Mas creio que cabe um paralelo também do São João
com o Natal, porque tem em ambos um sentido religioso, e que se
impregna de um renascimento. Mas o elemento mercantilização está
presente tanto no Carnaval quanto no São João. Mas talvez os festejos
juninos toquem mais a alma do sertanejo, do povo do interior. O carnaval
eu vejo mais como um peso urbano, mais do operário. O Carnaval é uma
ocorrência que se dá muito em polos que acarretam massas para dançar.

Cearense,
o advogado Humberto Teixeira é, a partir do Rio de Janeiro, grande
suporte intelectual como compositor-parceiro de Luiz Gonzaga
O QUE É A MÚSICA JUNINA?
“É uma música está dentro desse universo,
que resgata essa matriz cultural simbólica. Que de fato vibra na alma do
povo nordestino, do cara que usa música para a alegria da colheita, mas
também do que está na periferia de São Paulo”
JLPolítica – Luiz Gonzaga é consequência do São João ou o São João é consequência Luiz Gonzaga?
TPS – Acho que são duas “entidades” extremamente
imbricadas, embora entenda que o São João é anterior a Luiz Gonzaga. Eu
diria que Luiz Gonzaga foi um grande sucesso de mercado e por ter sido
ele que conseguiu ampliar as fronteiras do que é o Nordeste para o
Brasil. Há o depoimento no meu livro de um pessoal do extremo Sul do
Brasil revelando que numa coloniazinha alemã botava-se os LPs de Luiz
Gonzaga para fazer os bailes. Essa força vem uma conjunção de fatores:
da genialidade do cara, mas também de uma indústria fonográfica forte e
de um projeto político e desenvolvimentista de Estado que abraçou de uma
certa forma o ideal dessa música. Convém ressaltar, também, que o
Nordeste nunca deixou de ter seu peso cultural. Seria mais rico e seguro
dizer que nós temos identidades no Nordeste – no plural.
JLPolítica – Dá para pensar o ciclo de junho sem uma música chamada junina?
TPS – Creio que não. A música junina é a essência desse
ciclo. Ela é a grande trilha sonora dessa festa e, ao mesmo tempo, é
universal. De modo que não dá para pensar o São João sem essa música.
Creio que a música é que constrói o sentido dessa festa.
JLPolítica – O que é especificamente uma música junina?
TPS – Acho que é uma música está dentro desse universo,
que resgata essa matriz cultural simbólica. Uma música que de fato
vibra na alma do povo nordestino, do cara que usa música para a alegria
da colheita, mas também do camarada que está na periferia de São Paulo e
do fazendeiro que a escuta n a sua lida. Acho que ela toca a alma desse
universo. Veja que um dos conceitos interessantes de forró vem de
Jacinto Silva: ele diz que o forró ressalta a simplicidade das coisas do
chão. E a força dessa musicalidade – o xaxado, o xote, o baião -,
sinaliza a diversidade do que chamamos de música junina. E é preciso
destacar que cada ritmo traz em si um sentido: o xaxado está ligado ao
ciclo do cangaço, ao modo apressado de xaxar a plantação. E tudo isso se
conecta com o povo e faz este caldeirão ser tão rico.

Luiz Gonzaga: alma do Nordeste e de junho, se fosse vivo talvez não fosse mitificado no São João, segundo Thiago Paulo da Silva
LUIZ GONZAGA NO CONTEXTO DA FESTA JUNINA
“Ele estava bem situado numa época
histórica e se fez a pessoa certa para isso. Não se pode tirar a
autonomia e a genialidade dele. Gonzaga representa toda uma musicalidade
que ele escutava na infância”
JLPolítica – Mas qual é, particularmente, a importância de Luiz Gonzaga neste contexto?
TPS – Em apologia a um cara que vem bem depois, o Chico
Science, que fala da antena fincada na lama do mangue beat, eu diria
que Luiz Gonzaga foi a grande antena que não só se articulou muito com
pessoas que captavam essa alma e essa essência múltipla nordestinas,
como cantou muito bem isso tudo. Porque ele mesmo era um ótimo
melodista. E aí conseguiu fazer com que essa música reverberasse para o
Brasil todo. Digamos que Luiz Gonzaga estava talvez bem situado numa
época histórica e se fez a pessoa certa para isso. Não se pode tirar a
autonomia e a genialidade dele. Mas Gonzaga não é Luiz Gonzaga somente,
ou sozinho. Ele representa toda uma musicalidade que ele escutava na
infância, daquele vendedor de cavacos, que passou tocando um triângulo e
ele montou o trio pé de serra incorporando isso. Na verdade, devemos
admitir que Gonzaga foi um grande inventor – e nisso se insere a
invenção do trio pé de serra. A gente pensa que isso vem de uma
ancestralidade secular – mas vem dele, e ao mesmo tempo não deixa de ter
essa ancestralidade da música negra.
JLPolítica – O senhor acha que se ele fosse vivo e estivesse
em condições de palco e de show teria que tipo de acolhida de povo e de
promotores de eventos juninos?
TPS – Talvez ele caísse no mesmo jogo, infelizmente, de
ícones dessa música que ainda estão na ativa, como Alcymar Monteiro,
Flávio José e até o próprio Dominguinhos, falecido recentemente. Isso
equivale a dizer um espaço garantido, mas talvez não um em que não
tocasse tanto quanto deveria tocar. Apesar disso, eu acredito que Luiz
Gonzaga permanece e que se estivesse vivo e em condições de palco e de
show, como alude a pergunta, talvez permanecesse até menos. Talvez não
tivéssemos essa figura de um mito. Admito até que é muito importante
reconhecer quem é Luiz Gonzaga para o ciclo junino, mas entendo que
endeusá-lo ou sacralizá-lo gera prejuízos para o cenário cultural. Esse
tema foi inclusive levantado pelo cantor e compositor Silvério Pessoa no
Fórum do Forró deste ano. Circular muito em torno de Luiz Gonzaga pode
impedir que se enxerguem outras forças que surgem.
JLPolítica – O senhor debruçou-se durante quatro anos sobre
uma tese de doutorado nesta esfera de junho e vem com um livro chamado
“Palco de disputas e disputas pelo palco no país do forró”. Qual é a
síntese da sua pesquisa?
TPS – É a de que existem dois tipos de palcos. Um, que é
a própria programação dos festejos juninos – espaço físico, horário,
tempo -, no qual se precisa subir para que a música circule. E o
forrozeiro tradicional sofre para acessar este tipo de palco. Ele tem de
atravessar uma série de disputas, inclusive políticas e econômicas,
para fazer com que a sua música circule. E existe um outro palco e um
cenário de disputa mais amplo, que seria o histórico e social, no qual
você tem de enfrentar forças macroeconômicas que regem e empurram as
coisas para privilegiar certos gêneros em detrimentos de outros. Um
Forrócaju está dentro de um sistema de espetáculos e megashows que surge
lá pelos anos 90 e que traz uma nova concepção que esvazia o
protagonismo do povo na festa. Para o artista forrozeiro que está
acostumado a uma outra dinâmica social, adentrar um palco desses lhe
exige uma série de etapas. Existem práticas de clientelismos políticos,
de privilégios, e de forças que interferem nos critérios de escolha de
um artista para esse palco.

“Palco
de disputas e disputas pelo palco no país do forró” e tem visões pouco
positivas sobre tudo isso, apesar de louvar o histórico da festa
PERIGO DE ENDEUSAR OU SACRALIZAR LUIZ GONZAGA
“Admito que é muito importante reconhecer
quem é Luiz Gonzaga para o ciclo junino, mas endeusá-lo ou sacralizá-lo
gera prejuízos para o cenário cultural. Circular muito em torno de
Gonzaga pode impedir que se enxerguem outras forças que surgem”
JLPolítica – Na sua visão, a pauta das grandes festas
públicas segue mais a linha do consumo da indústria cultural e bem menos
a da tradição?
TPS – Isso é notório e gritante. Em abril foi divulgada
a programação do São João de Campina Grande, na Paraíba, e nela não
constava o nome de Elba Ramalho. Por que? Porque toda a programação dali
estava sendo gerenciada por uma empresa. Houve uma terceirização, algo
parecido com o que se deu aqui em Aracaju na gestão de João Alves Filho,
com o Teo Santana assumindo – e quando uma empresa externa assume, os
critérios passam a ser dela. Elba só teria entrado por causa de uma
intervenção política. Essa tendência de deixar a lógica de mercado
dominar os espaços de circulação da música é perigoso e, para a prática
da boa cidadania, é essencial que atuemos politicamente nisso. Porque o
palco não é somente diversão. É diversão também, mas é essencialmente
formação de público.
JLPolítica – O senhor acha que a “cultura autêntica” – se é
que não há risco nesta afirmação – perde quando o contrato destes
artistas de junho pelo agente público é feito visando o cantor ou banda
que tem mais apelo de massas?
TPS – Com certeza ela perde espaço e isso já vem se
dando há um bom tempo. Porque todo artista precisa que sua música seja
executada, mas não no começo ou no final de um evento e com um cachê bem
mais baixo. Isso é uma prática extremamente desumana. E ele não pode
reivindicar, porque senão é cortado da programação. Mas o que é que está
por trás disso? É a concepção desse palco de que falo. Se for para
alavancar a popularidade do prefeito ou do governador, segue-se essa
lógica. Claro que existe uma pressão também sobre o gestor, e ela vem de
por onde a música circula nas rádios, e esse gestor cede naturalmente,
porque ele quer que esse palco gere a promoção da sua gestão e da sua
popularidade. Isso é um ciclo vicioso que vai dar no clichê do pão e
circo. Isso não só esvazia o cultural, como aproveita das palavras
tradição e cultura, mesmo que de cultura nada haja. Vem daí que em
Caruaru, Campina Grande e em Aracaju usem como slogan São João de
Tradição e Cultura. Mas o que é que tem de tradição e cultura nesses
espaços, nessas festas? Precisamos repensar isso.
JLPolítica – O senhor considera normal e comum que Governos
de Estados e grandes Prefeituras contratem duplas sertanejas do
Centro-Oeste para animar o ciclo de junho no Nordeste?
TPS – Isso na verdade foi o centro da polêmica “Devolva
o meu São João”. Eu não acho que se deva completamente excluir essa
tendência, mas entendo que se deva estabelecer um parâmetro mínimo de
espaço para que o grosso do financiamento público e dos cachês esteja de
fato ao lado da economia e da criatividade local. Dos talentos
conectados ao sentido do São João. Entendo que se desvirtua
completamente a festa se se botar somente sertanejos e DJs.

O que é que o Forrócaju tem de cultural e tradição, segundo indagação de Thiago Paulo da Silva?
RISCO DA LÓGICA DE MERCADO DOMINAR JUNHO
“Deixar a lógica de mercado dominar os
espaços de circulação da música é perigoso e é essencial que atuemos
politicamente nisso. O palco não é somente diversão. É diversão também,
mas é essencialmente formação de público
JLPolítica – O senhor acha que o Fórum do Forró, realizado há
tantos anos em Aracaju, produz alguma reflexão prática ou se perdeu em
intrincadas questões acadêmicas?
TPS – O Fórum, que foi fundado por Paulo Corrêa, cumpre
uma função muito importante no aspecto cultural. Mas quando ele fez 10
anos, eu resgatei num texto uma promessa que o prefeito Edvaldo Nogueira
tinha feito, de criar uma Comissão pelo Fórum e que não foi cumprida.
Mas esse Fórum tem a importância de nos fazer conhecer autores e
histórias de forró. Eu diria que cabe ao Fórum esse papel de formação de
público. Creio que o legado dele fica. Agora, ele deveria atentar para
questões deliberativas práticas, como a de aliar as questões de cultura
com a prática das es colas, que foi uma sugestão trazida por Silvério
Pessoa. Porque isso infere na formação dos palcos que debatemos aqui. E
os professores presentes saíram com a cabeça mexida por essa
possibilidade. O Fórum poderia pensar, por exemplo, na capacitação dos
forrozeiros para fazer com sua música ganhe a internet e circule bem
mais.

Dominguinhos sobreviveu, até recentemente, a este ambiente de junho espetaculoso das grandes bandas



