‘Todas as Mulheres do Mundo’ chega aos 50 anos

Rodrigo Fonseca
06 Julho 2016 | 11h49 

Para compreender o contexto  dessa postagem:



E o Brasil tem jeito afinal? Como a arte pode ajudar?

 domingo, 20 de maio de 2018

Leila Diniz e Paulo José no sucesso de bilheteria
de Domingos Oliveira, finalizado em 1966
Comédia romântica nº1 do cinema brasileiro, Todas
as Mulheres do Mundo
, de Domingos Oliveira, é agora uma senhora
cinquentona. Lançado em 1966, o longa-metragem centrado na história de amor
entre o jornalista e dramaturgo Paulo (Paulo José) e a professorinha Maria
Alice (Leila Diniz) completa agora 50 anos, consolidado como um dos raros
exemplares do gênero a unir sucesso popular e prestígio de crítica. Foi
laureado com o troféu Candango de melhor filme, com outros quatro prêmios e
mais uma menção honrosa para Leila no Festival de Brasília, antes de estrear. O
projeto nasceu como um gesto de “volta pra mim” de Domingos para La Diniz, em
reação ao fim do relacionamento entre eles. O pleito não deu certo, mas rendeu
uma bela amizade e um filme inesquecível. Na entrevista a seguir, Domingos
relembra episódios de bastidor do filme.

O que permanece jovem naquela sua love story
de 1966, capaz de ainda gerar surpresa numa revisão do filme? Que respostas Todas
as Mulheres do Mundo
ainda te dá sobre o amor?
DOMINGOS OLIVEIRA:
Todas.
Todos os amores são iguais e completamente diferentes. A alegria do amor, a
solidariedade com os sofrimentos do outro.

Como era o Brasil de 1966 quando o filme ficou
pronto? Como era o Domingos de 1966?
DOMINGOS: 
5 de
fevereiro: É decretado o Ato Institucional N° 3, que institui as eleições
indiretas para governador e vice-governador, e se dá uma nomeação de prefeitos.
21 de fevereiro: O jogador de futebol Pelé casa-se com Rosemeri dos Reis Cholbi
às 8h30. 5 de junho: Ademar Pereira de Barros é afastado do cargo de governador
de São Paulo e cassado pelo presidente Castelo Branco. 6 de junho: O líder do
Partido Comunista Brasileiro, Luís Carlos Prestes, é condenado a 14 anos de
prisão. 25 de julho: Um atentado a bomba contra o marechal Artur da Costa e
Silva, candidato a presidente do Brasil, no aeroporto de Guararpes, em Recife,
Pernambuco, deixa três mortos e vários feridos. 13 de setembro: Presidente
Humberto de Alencar Castelo Branco sanciona a lei que estabelece o Fundo de
Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). 3 de outubro: O candidato da Aliança
Renovadora Nacional, Artur da Costa e Silva, é eleito presidente do Brasil pelo
Congresso Nacional com 295 votos na eleição presidencial indireta. E lá estava
eu, poeta, com minha fome de viver.
 

Que história mais emotiva você lembra da feitura de
Todas as Mulheres do Mundo em relação à sua história com Leila Diniz?
Como a Leila reagiu quando o filme ficou pronto?
DOMINGOS:
A do
poema no Quitandinha. Quando o filme ficou pronto, nós já éramos amigos, sem
dores. Abraçamos e nos beijamos muito, e, em seguida, nós tomamos um porre.

Quais são seus planos cinematográficos para
comemorar estes 50 anos?
DOMINGOS:
Se Deus
quiser, se a saúde permitir, farei uma série de filmes: Doppelgänger,
A Casa dos Budas Ditosos, Clímax e Ritual de
Passagem
.

Existe um filme novo seu pronto, BR716, com Caio
Blat. A trama se ambienta em 1963, quando um jovem engenheiro e aspirante a
escritor Felipe (Blat) ganha do pai um apartamento na Rua Barata Ribeiro, em
Copacabana, onde viverá uma ciranda afetiva em meio a um turbilhão político no
Brasil.
O que
podemos esperar deste projeto?
DOMINGOS:
No passado, o sentimento de grupo era muito maior. Os jovens de
hoje são bem mais velhos. Foi o que senti fazendo este novo filme.

Todas as Mulheres do Mundo

 Fonte: http://50anosdefilmes.com.br/2008/todas-as-mulheres-do-mundo/


Nota: ★★★★
Anotação em 2008: Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos Oliveira, não é apenas um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. É um dos melhores filmes de todos os tempos.
E é também, na minha opinião, a mais bela e arrebatada declaração de
amor feita no cinema a uma mulher – Leila Diniz, aquela mulher
esplendorosa, maravilhosa, que passou entre nós como um cometa e foi
embora cedo demais.

Fazia muitos anos que eu não revia Todas as Mulheres. Quando
minha sobrinha-neta Sarah pediu para vermos (seria a primeira vez para
ela), fiquei até com uma ponta de medo. Tenho tido decepções ao rever
filmes que adorava quando era bem jovem. São tantos os que ficaram
datados, velhos, eram modismos, perderam o encanto. Pensei até em não
ver, deixar Sarah vendo e fazer outra coisa. Depois pensei; vejo só o
lead e saio. 

É impossível ver só a abertura. O filme me pegou e me deixou
maravilhado como da última vez que tinha visto, como das várias vezes
que revi, como da primeira vez.

Todas as Mulheres resiste intacto ao teste do tempo. Quatro
décadas depois, ele mantém o frescor, o brilho, a inteligência, a
beleza, a criatividade transbordante.

todas 1OK,
o filme é de 1967, e reflete isso o tempo todo, é claro. As roupas, os
cabelos, os carros, as gírias, as ruas, o Rio de Janeiro que era ainda
mais lindo, as modas todas da época, as músicas todas da época. Mas não
envelheceu nada: o encanto é absolutamente o mesmo. 

Todas as Mulheres antecipa Amélie Poulin no quesito criatividade de sobra. Antecipa o charme de Simplesmente Amor/Love Actually ou Quatro Casamentos e um Funeral. Antecipa as brincadeiras de narrativa de Pequeno Dicionário Amoroso. Tem uma câmara ágil como a de Um Homem, Uma Mulher, feito um ano antes. Tem jogos formais como Uma Mulher para Dois/Jules et Jim,
feito cinco antes, do qual, aliás, cita uma frase – “Um dia voltarei à
literatura com uma história de amor cujos personagens serão insetos”.
Tem o tom brincalhão, jovem, à vontade, descompromissado, que Richard
Lester deu aos dois filmes dos Beatles, A Hard Day’s Night e Help!

Não é pouco.
E tem uma das seqüências mais brilhantes da história, o momento em
que surge Maria Alice/Leila Diniz, com aquela sua beleza apavorante, a
festinha no apartamento de Paulo/Paulo José, ele se preparando para
lançar um dardo na porta de entrada, a câmara lenta, a porta se abre e
ali está ela – o que um sorriso tem que nenhum outro sorriso tem? – e a
terra treme e o mundo jamais voltará a ser o mesmo.

Não é pouco.

         ****

Todas 2Quero
registrar: olhei meus cadernos, e chequei que vi o filme pela primeira
vez em julho de 1967, em Curitiba, e revi um mês depois. Era uma época
em que via muitos filmes brasileiros, muito mais do que vejo hoje.
Naquele ano, vi Ganga Zumba, de Cacá Diegues; Os Cafajestes, de Ruy Guerra; Terra em Transe, de Gláuber, duas vezes seguidas; A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos; O Menino de Engenho, de Walter Lima Júnior; mais uma vez Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Gláuber; O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade; Os Fuzis, de Ruy Guerra; O Circo, de Arnaldo Jabor; O Caso dos Irmãos Naves, de Luís Sérgio Person; Esse Mundo é Meu, de Sérgio Ricardo; e Opinião Pública, de Jabor. E, no ano seguinte, 1968, eu veria Edu Coração de Ouro, o filme seguinte de Domingos Oliveira, de novo com o casal Leila Diniz e Paulo José.

Reveria Todas as Mulheres em 1993, apresentando o filme para
Fernanda, minha filha. Acho que essa tinha sido a última vez, antes
desta agora em 2008. E o filme reluz, brilhante, 15 anos depois daquela
revisão.

         ****

Todas 3Sobre a única parte barra pesada deste filme luminoso, a parte paulista
deste filme tão carioca, o trecho em que Maria Alice vai parar em São
Paulo, no caminho de uma viagem a Curitiba que ela acabaria não fazendo,
dias depois desta revisão do filme tive uma sensação doida, maluca.

 Sim, a parte barra pesada. O avião para Curitiba só sairia daí a
tantas horas, e então Maria Alice caminha por São Paulo e é seguida por
um homem estranho, soturno…

 E então me voltou essa passagem num momento em que, poucos dias depois desta revisão do filme, ouvi duas músicas – Woodstock, da Joni Mitchell, e The Anniversary,
as duas cantadas por Eva Cassidy. Me impressionou profundamente como eu
tinha sido incapaz de entender a letra de Woodstock durante tantos
anos, como eu nunca tinha prestado atenção a essa letra grandiosa.
Cacildabecker, a música está no Déjà vu de Crosby, Stills, Nash & Young de 1970; e está no Ladies in the Canyon,
o CD de Joni Mitchell também de 1970. E eu só fui entender que a letra é
grandiosa quando a ouvi cantada por Eva Cassidy, em 2007.

 É exatamente isso o que diz o personagem criado por Domingos Oliveira
e que segue Maria Alice pelas ruas de São Paulo: passei por ali sem
prestar toda a atenção devida. Desperdicei meu tempo, portanto – e a
gente nunca passa duas vezes no mesmo lugar. E depois que a gente passa
por cada lugar está mais próximo da morte. 

 A mesma coisa com relação a The Anniversary. Eu tinha
ficado impressionado com essa música em agosto de 2007; cheguei a
anotar: “Levei um daqueles grandes tapas de surpresa que a gente tem na
vida. Estava ouvindo as músicas da Eva Cassidy para decidir o que jogar
fora e o que manter e me deparei pela primeira vez com ela cantando o
seguinte (a música se chama Anniversary Song):

I never thought I’d get this old, dear,
Never had a reason to live so long.
Ela morreu com 33 anos.”
 Ao ouvir a música de novo, agorinha há pouco, dias depois de rever Todas as Mulheres,
foi que prestei atenção a toda a letra, e fiquei ainda mais
impressionado com ela. Parece ter sido feita pela própria Eva Cassidy,
nem 33 anos de idade e condenada à morte. No mínimo, foi feita para ela.
É de um sarcasmo doloroso, pesadíssimo – parece isso, uma jovem
condenada à morte por uma doença incurável dizendo, pô, meus amigos,
vocês estão aí tudo com uma cara de tristeza, como se estivessem pedindo
desculpas por me dar parabéns – tudo bem, gentinha boa, nunca pensei em
chegar a ficar tão velha.

Todas as Mulheres do Mundo, o filme mais solar que este país já fez, é brilhante até quando faz seu momento barra pesada.

***

Todas - LivroFiz
a anotação acima em outubro de 2008, logo após rever mais uma vez o
filme; pouco tempo depois, em março de 2009, li a biografia de Leila
escrita pelo Joaquim Ferreira dos Santos, Leila Diniz,
publicada pela Companhia das Letras em 2008 mesmo. É um belo livro,
admirável, com muita pesquisa e um texto excelente, extraordinário. Todo
mundo deveria ler o livro.

No meu comentário acima, eu disse que o filme é uma declaração de
amor a Leila, mas não falei explicitamente o óbvio: que o filme é uma
transposição para a tela, com as devidas liberdades poéticas, da
história de amor de Domingos Oliveira e Leila Diniz. Aproveito então
para corrigir essa falha, e acrescentar aqui algumas informações que
estão no livro de Joaquim Ferreira dos Santos, que tem um capítulo
inteiro dedicado a Todas as Mulheres do Mundo, o quinto:

 * O filme foi feito no primeiro semestre de 1966, quando Domingos e
Leila já não estavam mais juntos – eles viveram juntos por um ano e
meio, em 1963 e na primeira metade de 1964. Quando se conheceram, Leila
tinha 17 anos e Domingos, 25. Em 1966, o ano das filmagens, Leila estava
com 21 anos – ela é de 1945.

 * Está lá no livro:
 “A minha intenção era clara”, diz Domingos. “queria reconquistá-la, casar de novo e tentar ser um homem melhor.”
 * A cena esplendorosa em que Leila aparece na festa de Paulo/Paulo
José, e que eu citei na minha anotação acima, é de fato, como diz o
Joaquim Ferreira dos Santos, uma estilização de como Leila surgiu na
vida de Domingos. Domingos estava preparando o apartamento em que
morava, uma cobertura no Bairro Peixoto, em Copacabana, para uma festa
na noite de 24 de dezembro de 1962 quando Leila chegou cedo, antes de
todo mundo, aos 17 aninhos de esplendor, liberdade e uma furiosa alegria
de viver:

 “Uma amiga minha disse que aqui vai ter uma festa de Natal, é verdade?”
 * O apartamento de Paulo/Paulo José é o próprio apartamento em que
Domingos vivia. Para financiar pelo menos parte do filme, o diretor
vendeu um fusca.

 * O texto que Paulo José fala em off, enquanto a câmara passeia pelo
corpo nu de Leila (“Se não fosse meu o segredo do teu corpo, eu
gritaria pra todo mundo”), foi escrito por Domingos na kombi que levou a
equipe para filmar no Quitandinha, em Petrópolis. Desde a separação,
quase um ano antes, enfatiza o autor, Domingos não via Leila nua. “Eu
gravava um plano e ia lá dentro chorar um pouco”, diria Domingos ao
autor do livro.  

 * Joaquim Ferreira dos Santos diz no livro que o filme mostra
influências de Richard Lester, Godard e Truffaut. Exatamente como eu
notei e anotei aí acima, alguns meses antes de ler o livro.

 * O filme ganhou 12 dos18 prêmios do Festival de Brasília.
 * “Quando estreou em março de 1967, no cinema Ópera, na praia de Botafogo, o crítico Maurício Gomes Leite, da revista Manchete, escreveu: ‘É um dos melhores filmes já feitos no Brasil, o mais carioca de todos os tempos’.” 

 Todas as Mulheres do Mundo
De Domingos Oliveira, Brasil, 1967
Com Leila Diniz, Paulo José, Ivan de Albuquerque, Flávio Migliaccio,
Joanna Fomm, Irma Alvarez, Fauzi Arap, Isabel Ribeiro, Ana Christina,
Ana Maria Magalhães

Argumento e roteiro Domingos Oliveira
Fotografia Mario Carneiro
P&B, 86 min.
R, ****

Kenia Gusmão Medeiros

Resumo: Um símbolo de liberdade e ousadia,
Leila Diniz é uma atriz já representada em alguns trabalhos de caráter
biográfico. Como se sabe, contudo, a escrita desse gênero contém
esquecimentos, silenciamentos e olhares distintos que representam
perspectivas também diversas de um mesmo personagem. A Leila que rompe
com padrões sociais e comportamentais de uma época tem sido a memória
mais frequente dessa artista, em detrimento dos aspectos de sua vida
familiar e profissional que também se conformaram nas instâncias que
formaram sua personalidade. Por meio de depoimentos de pessoas ligadas a
atriz e de sua própria voz em entrevistas e cartas, este trabalho
procura mostrar uma Leila que representa sim ousadia e liberdade, mas
que para além disso, conforma também outras possibilidades de
interpretação. Observar o que nessa mulher era considerado fora dos
padrões, quais discursos dão conta disso, em que aspectos ela se
assemelhava a qualquer mulher de seu tempo, também podem ser importantes
meios para um melhor entendimento dessa personagem e da época em que
viveu.

Palavras-chave: Biografia. Leila Diniz. Comportamento. Mulher.

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Por Ricardo Cota
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