Olhando a chacina de Suzano sem os chavões e clichês recorrentes. Mesmo que alguns façam sentido.

     
    foto Werther Santana
    Jornalista André Ortega
    A
    tragédia que aconteceu em uma escola num bairro de Suzano (essa de
    video de youtube falando “Escola Suzano” já é sintoma da banalização)
    merece o título de tragédia por sua profundidade, que vai além da
    superficialidade dos debates políticos que estão canibalizando o
    acontecimento.

    Vejo vários comentários que tentam emprestar a
    legitimidade de áreas como a sociologia e a psicologia, mas no fim mais
    se afastam do que se aproximam do problema.

    A esquerda tem esse vício do discurso
    com pretensão científica, o que ao invés de desvelar as interações que
    formam o fenômeno as encobre com alguma simplificação.


    É como o clichê de falar que tudo é “construção social”, colocando
    alguma determinação unilateral por cima da da interações que formam o
    sujeito (nem consideram “sujeito”). No fim é forma insidiosa de
    reabilitar a falácia naturalista, “construção social” vira uma espécie
    de chave metafísica que explica tudo (“clavis aurea”).

    Na sua especificidade, esse problema é um problema que diz respeito a área de estudos em comunicação.
    Isso é um fenômeno comunicacional internacional, que tem suas origens em fóruns nos Estados Unidos.

    Existem fóruns, grupos, ambientes comunicacionais em que esses jovens
    interagem, produzem e reproduzem signos com SOLIDEZ E CONSTÂNCIA,
    criando símbolos e cultura própria. Especificamente, eles criam uma
    pseudo ciência e uma narrativa que explica a situação de sofrimento dos
    membros, oferece identidades e noções éticas (extremamente distorcidas,
    mas prescritivas).

    É claro que existe um problema social,
    psicológico. Esses lugares virtuais não flutuam no nada e são formados
    por pessoas reais. A “civilização capitalista” dissolve laços de
    socialização, dissolve comunidades e cria indivíduos cada vez mais
    atomizados, ao mesmo tempo que os violenta e cria poucos parâmetros de
    referência além do consumismo – todos os valores fora do consumo (que é
    uma categoria extra-econômica, é antropológica) estão em crise.

    A
    sociedade não oferece valores tão sólidos. O individualismo é mais
    forte do que a socialização. De certa forma, não se oferece oportunidade
    para as pessoas fazerem algo pela sociedade, pelo coletivo. Não existem
    grandes referências, grandes acontecimentos.

    (jovens em
    situações de vulnerabilidade e pobreza mas que estão em comunidades são
    menos suscetíveis a esse tipo de coisa, mesmo que ali exista uma outras
    criminogenia – mesmo a máfia é uma forma de acolhimento)

    Tratar
    como um simples problema de “transmissão de ideologias”, “ah o
    bolsonarismo, a extrema direita” é perder de vista uma realidade muito
    contemporânea. Estão presos no século XX, é uma resposta funcionalista,
    igual a conversa de culpar viodegame, como se as pessoas funcionassem
    assim como receptores passivos e determinados.

    Não tem medida administrativa, panaceia humanista ou aumento de gasto que vá fazer mágica.
    Não se resolve com materialismo de farmácia.
    (nisso eu incluo clichê noventista sobre “bullying”)

    —————————

    A PROPÓSITO DO QUE ACONTECEU NA ESCOLA EM SUZANO NO DIA DE ONTEM
    (13/03/2019). O QUE ALGUMAS PRÁTICAS DEMONSTRAM SOBRE O QUE PODE
    CONCORRER PARA TRANSFORMAR DE FORMA SADIA E SAUDÁVEL O AMBIENTE E O
    CLIMA ESCOLAR. FAZENDO REPERCUTIR ATÉ NO CLIMA E AMBIENTE DAS FAMILIAS
    E DAS COMUNIDADES.
    Gestão democrática de ” verdade”,
    imprescindível para avançar nessa proposta de comunidade terapêutica. E
    aqui, antes que digam que professor não é psicólogo, não me refiro aqui
    ao termo terapêutico “stricto sensu”. Me refiro a combinação da
    gestão democrática “de verdade”, da interdisciplinaridade, do esporte,
    dos saraus, cineclubes, das oficinas culturais, das aulas-passeio, das
    caminhadas em grupo, dos retiros/acampamentos , dos grupos de debates,
    não apenas de temas pedagógicos e políticos, mas também de questões
    ligados ao campo das emoções, dos sentimentos, das identidades, das
    fragilidades, dos temas tabus e etc.. e etc. Junto e misturado. Bem na
    linha do que meninos e meninas apontaram no movimento de ocupação de
    escolas e que Frei Betto propõe no texto ao final desse post.
    PROSSEGUINDO A DISCUSSÃO GERADA PELOS DOIS PEQUENOS TEXTOS REPUBLICADOS NO DIA DE ONTEM NO FACEBOOK. (leia no final desse post)
    Abaixo: Uma experiência bem sucedida na rede pública do Estado de São Paulo , mas destruída pelos militares.

    Com projeto de formação crítica, Ginásios Vocacionais foram extintos pela ditadura

    Aqui: O que tem sido feito de melhor hoje, na perspectiva defendida nos termos de comunidades terapêuticas de base.
     

     Sementes da Educação

    Série documental sobre iniciativas transformadoras na educação pública do Brasil.
     

    “ No decorrer da caminhada matinal do dia 15/01/2019, a lembrança de um
    país cheio de gente pirada, de gente maluca, inclusive ocupando a
    presidência e alguns ministérios.
    Daí me ocorre a idéia de comunidades terapêuticas de base, como podemos definir o que foi a AMABA/Projeto Reculturarte.
    Nas entrevistas com os que participaram dessa iniciativa sociocultural
    nos anos de 1990 no bairro américa, periferia de Aracaju, salta aos
    olhos o quanto as ações culturais, esportivas e de reforço escolar,
    colaboraram com a auto estima, o sentido de pertencimento e coesão, o
    centramento, a construção de sentido e projeto de vida, a consciência
    cidadã, a alegria, o bem viver.
    Portanto, precisamos ir além da
    discussão sobre o investimento em comunidades terapêuticas para tratar
    de dependentes químicos, assim como da discussão sobre a redução da
    maioridade penal, o que fará entupir os presídios e empurrar mais jovens
    para os braços do crime organizado.
    O mais necessário é evitarmos a
    necessidade disso, de gente pirada, de gente maluca, elegendo gente
    igual. E para tal, precisamos de mais comunidades terapêuticas de base. O
    que pode também prevenir a quantidade de adolescente paajovens
    enredados no crime e na violência.
     
    Professor Zezito de Oliveira 
     ——————————–
    “Dois jovens entram numa escola, saem atirando e se matam.
    Precisamos cuidar da saúde mental dos nossos jovens, precisamos dar mais atenção as emoções.
    “-Mas se tivessem penas mais duras? “
    Eles se mataram! Não faria diferença!
    ” Mas isso é culpa dos jogos q assistem”
    Se eles se inspiraram num jogo, quer dizer q não sabem diferenciar realidade de fantasia. Falta saúde mental.
    Vamos cuidar do emocional uns dos outros. Que as escolas não sejam
    depósitos de gente e sim onde se cresce como ser humano. Cada jovem
    morto e cada funcionário foi uma vida que se foi, foram sonhos e
    famílias enterradas…
    Mais amor por favor… Tá bom2019.

    Professora Carol Loureiro

    A escola dos meus sonhos Frei Betto

    leia também:

    Dogolochan: até quando ‘mascus’ vão destilar ódio, ameaças e marcar hora para matar?

    Massacre de Suzano foi celebrado em fórum acessado na deep web, mas não foi a primeira vez que um crime foi anunciado no grupo.

     
    O atirador de Suzano. Reportagem
    da Folha entrevistou familiares de Guilherme Taucci Monteiro, um dos
    atiradores do massacre ocorrido em escola na cidade de Suzano, no
    interior de São Paulo, e traz
    detalhes sobre a vida do jovem: bullying, obsessão por jogos e abandono dos pais.  Fonte dessa nota. Agência Pública


Rolar para cima