Publicação: 30 de Julho de 2010 às 00:00
a voz tranquila num início de tarde, Tom Zé chega ao telefone depois
de cuidar dos jardins do seu prédio em São Paulo, que também podem ser
seus jardins interiores… “não posso largar os jardins para as cobras”,
avisa. Ansioso pelo show de hoje que fará em Natal na última noite da
SBPC, ele pergunta sobre o clima da cidade e ao ouvir que tem feito frio
pelas bandas de cá responde, “é (silêncio)… o mundo está de cabeça
para baixo”. Sua visão inversa e em forma de prisma sobre todas as
coisas do mundo, tracejam a conversa. Ele se compara a Ulisses de James
Joyce, quando hoje consegue transcender. Depois de passar por um
ostracismo absoluto por anos e perceber que no movimento tropicalista
foi colocado debaixo das coisas possíveis, ele enfatiza, “Nessa altura
isso já soa mais como a passagem de Ulisses às duas horas da tarde
naquele inferno, que é um prostíbulo. Essas fases de descer ao mais
cruel e sofredor que seja num ambiente sempre é algo que o ser humano
deve refletir. Faço essa interpretação mitológica assim como Ulisses
para compreender o conhecimento, as formas que existem de aprendizado…
como um ritual de iniciação, uma coisa para chegar a transcendência”,
disse.
Tom Zé apresenta hoje, na SPBC, O Pirulito da Ciência e será dedicado a Miguel Nicolelistranscendência é o que Tom Zé vivencia hoje. Aos 72 anos, cuidando de
jardins, canções e experimentos, ele acaba de lançar em todo o Brasil
seu DVD “O Pirulito da Ciência”. Com direção de Charles Gavin
(ex-titãs), o trabalho traz 27 músicas de sua trajetória que hoje
completa 40 anos de loucuras, dores, amores, quilos de vida e muitas
doses de inteligência.
O resultado do trabalho, reúne seu disco
tropicalista de 1968 – do qual ele viveu músicas como Parque Industrial e
São São Paulo, meu Amor – até o Estudo da Bossa. Muita poesia concreta,
política e o sagrado “Correio da Estação do Brás” de 1978, giram na
agulha. “Eu lutei muito para não fazer esse trabalho, mas Gavin me
convenceu. Foi ótimo ter obedecido a ele, ele tomou a frente na parte da
produção, tanto artística quanto empresarial e o Canal Brasil.E
acertou. Vivo hoje um momento muito feliz”
A escolha das músicas foi a
parte mais difícil. Gavin ainda conseguiu selecionar 50 e ligou para
Tom Zé avisando, “não consigo tirar mais do que isso”. Ele prontamente
resolveu a parada e das músicas restaram 27. Ao lançar o trabalho em São
Paulo, Tom Zé não acreditou no que viveu. “O fato de ter um DVD feito
na hora, ao vivo pode mostrar a um setor da imprensa e um público que
ficava meio de longe o que eu faço e como atuo no palco”, lembra.
Enquanto leva seu trabalho para o público, carrega em si toda sua
história e um processo criativo segundo o próprio, “esquisito”. Para
ele, suas músicas são tentativas de canções. “vivo num abismo”,
sublinha. Com o hábito de lançar um disco a cada quatro anos, hoje ele
está na fase de “estudar, vivenciar, viver…”. “Na Bahia tem aquele
provérbio mulher que fala muito perde logo o seu amor e no caso de
música, pelo menos no meu caso, eu fico nessa situação de voltar a uma
espécie de retardo mundano, não sei nem falar a língua, até achar os
grampos que vão me segurando, até achar a teia que vai me segurando na
ideia, as estacas da fundação do prédio a ser construído e isso sempre
demora muito mas é um grande prazer”, descreve seu processo de criação.
Ele está habituado a “sofrer prazeroso para criar seus discos” e também
sabe silenciar. “Hoje eu já confio e não tenho mais pressa. Já passei
por isso uma dezena de vezes, antes de cada disco entrei numa escuridão e
um país que não conheço a língua, foi assim no disco “Estudando o
Pagode” no disco da Segregação da Mulher, foi assim no “Estudando a
Bossa”, que nunca havia feito Bossa Nova. Por isso, para criar tenho
diante de mim a caverna escura e a impressão de que não tem saída”.
Dessa
escuridão nasceran raridades como “Senhor Cidadão”, de seu disco “Se o
Caso é Chorar”, quando Tom Zé pergunta com quantos quilos de medo se faz
uma tradição? Perguntas como esta, só os raros e os gênios conseguem,
pois transcendem.. acendem.. e nos velam.
Entrevista – “Tiro da própria carne o alimento”
Tom Zé, compositornão pode largar o jardim e avisa que em São Paulo tem feito muito frio,
“não é como o Nordeste que o frio chega devagar. O frio aqui derruba,
coloca a energia na raiz e passa por um período sem árvores, estamos
podando tudo para nascer e brotar em setembro”. Assim como as raízes de
suas plantas, ele germina, cresce, se expande … “A parte de música
também é isso, minha casa é uma espécie de laboratório, todo o espaço é
só mesmo para trabalhar e o tempo inteiro é para isso, eu gosto e sempre
para tirar meia dúzia de compassos eu demoro. Sou como o “Pelicano” que
tira sangue do próprio corpo para dar sangue para os filhos como
alimento. Tiro da própria carne o alimento para a cabeça se manter”.
Nesta entrevista ao VIVER, além de suas criações e inquietações, Tom Zé
falou de sua leitura atual, dos movimentos de Beethoven e algumas
saudades. Confira:
O que você está lendo agora?
Leitura?
Parece que as coisas se apresentam na hora em que são necessárias, eu
comecei a ler Joseph Campbell, “As Máscaras de Deus”. Este é o quarto
livro de uma série de mitologia e justamente nesse livro ele fala o que
aconteceu com a humanidade no século XII, quando as pessoas conseguiram
fazer pela primeira vez uma antologia pessoal. Antes só seguiam os
ancestrais e as gerações ficavam repetindo experiências sem ter o prazer
de experimentar a raiz que provocou a sua existência. No século XII
vários poetas tiveram coragem de sozinhos instituírem mitos que passaram
a ser a experiência dos artistas, que passaram a ter contato com uma
coisa transcendental muito profunda, e cada geração podia desfrutar uma
espécie de mitogenese, e isso me interessou muito. E estou nessa fase de
sair de um tipo de vida e entrando em outra, que é talvez dessa idade
72 anos. E parece que estou passando por essa transformação, me
interessar por objetivos completamente diferentes que antes dominaram
meu interesse.
É uma necessidade sua de voltar ao que você viveu?
É
curioso porque dizem que faço coisas de vanguarda, mas é o passado que
me inspira “se o futuro correr mais um pouco vai pegar no rabo do
passado. Acenderemos fogueiras para apreciar a lampada elétrica”. Esses
versos começaram a repercutir no profundo da minha música. Quando fiz o
disco da segregação da mulher uma das coisas que entendi é que nunca
houve o matriarcal. E hoje a mulher é tida como um objeto. Isso é
terrível para o homem, pois ele vive hoje uma solidão mais desgraçada
possível dentro do universo porque a sua companhia vive com um pé atrás,
pois sempre está desconfiada como se o homem fosse sempre lhe explorar.
Vive uma guerra instituída dentro da própria vida. Na minha visão,
esse é o grande problema do século. Nós todos estamos obedecendo essa
praga como se fosse uma coisa normal. Nascemos como se isso fosse assim,
é por isso que digo que sou mulher, até das minhas irmãs eu apanhei.
Por
falar em apanhar, você disse que escolheu a música para se livrar da
surra da época do ginásio. Como você observa isso hoje?
A
infância é protelada como fase maravilhosa da vida, os ingleses tem o
hábito de dizer que é mais terrível da vida e eu vivi essa comprovação,
foi muito trágica, não vou nem entrar em detalhes, não foi em pobreza…
digo que sou analfatótese, fui educado sem Aristóteles, mas no ginásio
foi delicado, me tornei quase um delinqüente, só vim harmonizar na
universidade, pois encontrei a Escola de Música. Assim como a língua do
povo da roça que só encontro nos livros de Guimarães Rosa… com a
música comecei a ter uma vida mais calma, menos aflitiva, longe das
promessas de inferno … aí eu já tinha 27 anos.
O que você está ouvindo?
Estou
ouvindo os últimos quartetos de Bethoven, não é esnobação de ouvir
música clássica, não, é que eram os ensinamentos da época da Escola de
Música e hoje senti vontade de retornar. E sempre ouvi falar na escola
que ele a partir de 1820 não deu importância à questão de público e
fazia francamente o queria fazer. É muito forte ouvi-lo. A Nona sinfonia
por exemplo é inesperada, cheguei à conclusão de que aquilo é um tema,
que sai do buraco, que começa pianíssimo e vai até fortíssimo num espaço
de quase 30 segundos. São essas aventuras absolutamente inesperadas o
que realmente me encanta.
Você sente saudade?
Às
vezes tenho saudade de Irará, daquele mundo, aquela Idade Média que
nasci. Lá, todas as relações eram da Idade Média. Ali, era o verdadeiro
concerto do mundo moçárabe que é o mundo que Portugal espalhou pelo
sertão da Bahia. Meus avós chegaram na Bahia em 1570 e lá se tornaram
analfabetos e pobres, mas eram apaixonados pela cultura moçárabe, pela
presença dos Árabes. Eles quem inventaram o zero. O mundo viveu até o
século VIII sem o zero, que fantástico!. No Rio Grande do Norte está
Cascudo para provar isso, fazendo escavações geológicas descobrindo a
presença de judeus. Isso tudo me dá uma saudade, mas estou tão assim que
tive saudade do meu avô e meu avó, eles eram tão doces. Mas enfim,
estou tão ocupado como se estivesse numa espécie de juventil que quase
não tenho tempo de sentir saudade.