A esquerda e a direita, segundo Antonio Prata, Frei Betto e PC Siqueira.

A esquerda e a direita, segundo Antonio Prata

O assunto sempre surge, sorrateiro. Na semana passada, chegaram
a afirmar em comentário, neste blog, que Adolf Hitler era comunista e a
revolução egípcia é um golpe do marxismo-leninismo. Para aliviar os
ânimos e esclarecer a confusão, compartilho aqui a obra definitiva sobre
a esquerda e a direita, do amigo Antonio Prata, sem dúvida o maior cronista da nossa geração.
Direita X Esquerda
A esquerda acha que o homem é bom, mas vai mal – e tende a piorar. A
direita acredita que o homem é mau, mas vai bem – e tende a melhorar.
A esquerda acusa a direita de fazer as coisas sem refletir. A direita
acusa a esquerda de discutir, discutir, marcar para discutir mais
amanhã, ou discutir se vai discutir mais amanhã e não fazer nada. (Piada
de direita: camelo é um cavalo criado por um comitê).
Temos trânsito na cidade. O que faz a direita? Chama engenheiros e
constrói mais pontes. Resolve agora? Sim, diz a direita. Mas só piora o
problema, depois, diz a esquerda. A direita não está preocupada com o
depois: depois é de esquerda, agora é de direita.
Temos trânsito na cidade. O que faz a esquerda? Chama urbanistas para
repensar a relação do transporte com a cidade. Quer dizer então que a
Marginal vai continuar parada ano que vem?, cutuca a direita. Sim, diz a
esquerda, mas outra cidade é possível mais pra frente. A direita ri.
“Outra” é de esquerda. “Isso” é de direita.
Direita e esquerda são uma maneira de encarar a vida e, portanto, a
morte. Diante do envelhecimento, os dois lados se dividem exatamente
como no urbanismo. Faça plásticas (pontes), diz a direita. Faça análise,
(discuta o problema de fundo) diz a esquerda. (“filosofar é aprender a
morrer”, Cícero). Você tem que se sentir bem com o corpo que tem, diz a
esquerda. Sim, é exatamente por isso que eu faço plásticas, rebate a
direita. Neurótica! – grita a esquerda. Ressentida! – grita a direita.
A direita vai à academia, porque é pragmática e quer a bunda dura. A
esquerda vai à yoga, porque o processo é tão ou mais importante que o
resultado. (Processo é de esquerda, resultado, de direita).
Um estudo de direita talvez prove que as pessoas de direita,
preocupadas com a bunda, fazem mais exercícios físicos do que as de
esquerda e, por isso, acabam sendo mais saudáveis, o que é quase como
uma aplicação esportiva do muito citado mote de Mendeville, de que os
vícios privados geram benefícios públicos — se encararmos vício privado
como o enrijecimento da bunda (bunda é de direita) e benefício público
como a melhora de todo o sistema cardio-vascular. (Sistema
cardio-vascular é de esquerda).
Um estudo de esquerda talvez prove que o povo de esquerda, mais
preocupado com o processo do que com os resultados, acaba com a bunda
mais dura, pois o processo holístico da yoga (processo, holístico e yoga
são de extrema esquerda) acaba beneficiando os glúteos mais do que a
musculação.
Dieta da proteína: direita. Dieta por pontos: esquerda. Operação de
estômago: fascismo. Macrobiótica: stalinismo. Vegetarianismo: loucura.
(Foucault escreveria alguma coisa bem interessante sobre os Vigilantes
do Peso).
Evidente que, dependendo da época, as coisas mudam de lugar. Maio de
68: professores universitários eram de direita e mídia de esquerda. (“O
mundo só será um lugar justo quando o último sociólogo for enforcado com
as tripas do último padre”, escreveram num muro de Paris). Hoje a
universidade é de esquerda e a mídia, de direita.
As coisas também mudam, dependendo da perspectiva: ao lado de um suco
de laranja, Guaraná é de direita. Ao lado de uma Coca-Cola, Guaraná é
de esquerda. Da mesma forma, ao lado de um suco de graviola, pitanga ou
umbu (extrema-esquerda), o de laranja vira um generalzinho. (Anauê juice
fruit: 100% integralista).
Leão, urso, lobo: direita. Pinguim, grilo, avestruz: esquerda.
Formiga: fascismo. Abelha: stalinismo. Cachorro: social democrata. Gato:
anarquista. Rosa: direita. Maria sem-vergonha: esquerda. Grama:
nacional socialismo. Piscina: direita. Cachoeira: esquerda. (Quanto ao
mar, tenho minhas dúvidas, embora seja claro que o Atlântico e o
Pacífico estejam, politicamente, dos lados opostos aos que se encontram
no mapa). Lápis: esquerda. Caneta: direita. Axilas, cotovelo, calcanhar:
esquerda. Bíceps, abdomem, panturrilha: direita. Nariz: esquerda.
Olhos: direita. (Olfato é sensação, animal, memória. Visão é
objetividade, praticidade, razão).
Liquidificador é de direita. (Maquiavel: dividir para dominar).
Batedeira é de esquerda. (Gilberto Freyre: o apogeu da mistura, do
contato, quase que a massagem dos ingredientes). Mixer é um caudilho de
direita. Espremedor de alho é um caudilho de esquerda. Colher de pau,
esquerda. Teflon, direita. Mostarda é de esquerda, catchupe é de direita
– e pela maionese nenhum dos lados quer se responsabilizar. Mal passado
é de esquerda, bem passado é de direita. Contra-filé é de esquerda,
filé mignon é de direita. Peito é de direita, coxa é de esquerda. Arroz é
de direita, feijão é de esquerda. Tupperware, extrema direita. Cumbuca,
extrema esquerda. Congelar é de direita, salgar é de esquerda. No
churrasco, sal grosso é de esquerda, sal moura é de direita e jogar
cerveja na picanha é crime inafiançável.
Graal é de direita, Fazendinha é de esquerda. Cheetos é de direita,
Baconzeetos é de esquerda e Doritos é tucano. Ploc e Ping-Pong são de
esquerda, Bubaloo é de direita.
No sexo: broxada é de esquerda. Ejaculação precoce é de direita.
Cunilingus: esquerda. Fellatio: direita. A mulher de quatro: direita.
Mulher por cima: esquerda. Homem é de direita, mulher é de esquerda.
(mas talvez essa seja a visão de uma mulher – de esquerda).
Vogais são de esquerda, consoantes, de direita. Se A, E e O estiverem
tomando uma cerveja e X, K e Y chegarem no bar, pode até sair briga.
Apóstrofe ésse anda sempre com Friedman, Fukuyama e Freakonomics embaixo
do braço. (A trema e a crase acham todo esse debate uma pobreza e são a
favor do restabelecimento da monarquia).
“Eu gostava mais no começo” é de esquerda. “Não vejo a hora de sair o próximo” é de direita.
Dia é de direita, noite é de esquerda. Sol é de direita, lua é de
esquerda. Planície é de direita, montanha é de esquerda. Terra é de
direita, água é de esquerda. Círculo é de esquerda, quadrado é de
direita. “É genético” é de direita. “É comportamental” é de esquerda.
Aproveita é de esquerda. Joga fora e compra outro, de direita. Onda é de
direita, partícula é de esquerda. Molécula é de esquerda, átomo é de
direita. Elétron é de esquerda, próton é de direita e a assessoria do
neutron informou que ele prefere ausentar-se da discussão.
To be continued (para os de direita)
Under construction (para os de esquerda)

Direitista e esquerdista

Direitista e esquerdista – os dois são perfeitos idiotas. O
direitista padece da doença senil do capitalismo e o esquerdista, como
afirmou Lênin, da doença infantil do comunismo

25/10/2012

Frei Betto

Nada
mais parecido a um esquerdista fanático, desses que descobrem a nefasta
presença do pensamento neoliberal até em mulheres que o repudiam, do
que um direitista visceral, que identifica presença comunista inclusive
em Chapeuzinho Vermelho.
Os dois padecem da síndrome de pânico
conspiratório. O direitista, aquinhoado por uma conjuntura que lhe é
favorável, envaidece-se com a claque endinheirada que o adula como um
dono a seu cão farejador. O esquerdista, cercado de adversários por
todos os lados, julga que a história resulta de sua vontade.
O
direitista jamais defende os pobres e, se eventualmente o faz, é para
que não percebam quão insensível ele é. Mas nem pensar em vê-lo amigo de
desempregados, agricultores sem terra ou crianças de rua. Ele olha os
deserdados pelo binóculo de seu preconceito, enquanto o esquerdista
prefere evitar o contato com o pobre e mergulhar na retórica contida nos
livros de análises sociais.
O esquerdista enche a boca de
categorias teóricas e prefere o aconchego de sua biblioteca a
misturar-se com esse pobretariado que nunca chegará a ser vanguarda da
história.
O direitista adora desfilar suas ideias nos salões,
brindado a vinho da melhor safra e cercado por gente fina que enxerga a
sua auréola de gênio. O esquerdista coopta adeptos, pois não suporta
viver sem que um punhado de incautos o encarem como líder.
O
direitista escreve, de preferência, para atacar aqueles que não
reconhecem que ele e a verdade são duas entidades numa só natureza.
O
esquerdista não se preocupa apenas em combater o sistema, também se
desgasta em tentar minar políticos e empresários que, a seu ver, são a
encarnação do mal.
O direitista posa de intelectual, empina o
nariz ao ornar seus discursos com citações, como a buscar na autoridade
alheia a muleta às suas secretas inseguranças. O esquerdista crê na
palavra imutável dos mentores do marxismo e não admite outra
hermenêutica que não a dele.
O direitista considera que, apesar
da miséria circundante, o sistema tem melhorado. O esquerdista vê no
progresso avanço imperialista e não admite que seu vizinho possa sorrir
enquanto uma criança chora de fome na África.
O direitista é de
uma subserviência abjeta diante dos áulicos do sistema, políticos
poderosos e empresários de vulto, como se em sua cabeça residisse a
teoria que sustenta todo o edifício de empreendimentos práticos que
asseguram a supremacia do capital sobre a felicidade geral.
O
esquerdista não suporta autoridade, exceto a própria, e quando abre a
boca plagia a si mesmo, já que suas minguadas ideias o obrigam a ser
repetitivo. O direitista é emotivo, prepotente, envaidecido. O
esquerdista é frio, calculista e soberbo.
O direitista irrita-se
aos berros se encontra no armário a gola da camisa mal passada. Dedicado
às grandes causas, as pequenas coisas são o seu tendão de Aquiles.
O
direitista detesta falar em direitos humanos, e é condescendente com a
tortura. O esquerdista admite que, uma vez no poder, os torturados de
hoje serão os torturadores de amanhã.
O direitista esbraveja por
ver tantos esquerdistas sobreviverem a tudo que se fez para
exterminá-los: ditaduras militares, fascismo, nazismo, queda do Muro de
Berlim, dificuldade de acesso à mídia etc. O esquerdista considera o
direitista um candidato ao fuzilamento.
Direitista e esquerdista –
os dois são perfeitos idiotas. O direitista padece da doença senil do
capitalismo e o esquerdista, como afirmou Lênin, da doença infantil do
comunismo.
Embora mineiro, não fico em cima do muro. Sou de
esquerda, mas não esquerdista. Quero todos com acesso a pão, paz e
prazer, sem que os direitistas queiram reservar tais direitos a uma
minoria, e sem que os esquerdistas queiram impedir os direitistas de
acesso a todos os direitos – inclusive o de expressar suas delirantes
fobias.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros.

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