educação e ao conhecimento o salvou da exploração na Amazônia
por Gabriel Bonis
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publicado
30/06/2013 10:21
Em uma sala de aula em Manaus, capital do Amazonas, a plateia ouve
atenta as palavras de Manoel Cunha. Seringueiro de longa tradição
familiar, o amazonense narra um de seus primeiros encontros com a
“metrópole” manauense em 1998. Então presidente da associação
comunitária de sua região, o extrativista voltava de avião de Macapá, no
Amapá, e faria uma escala no aeroporto de Manaus, de onde iria para
Carauari (AM).
O voo no Amapá atrasou e Cunha perdeu sua conexão na capital
amazonense. O próximo avião para Carauari demoraria dias. O extrativista
foi, então, para um hotel no centro da cidade. Pediu um quarto com
janela para a rua. “Minha irmã morava perto do centro de Manaus. Achei
que se ficasse na janela, eu a veria passar”, conta em um linguajar
simples. “Meus cotovelos adormeceram na janela e ela não passou.”
Era de se esperar, completa aos risos, que a ideia não funcionaria.
“O conhecimento é importantíssimo. A falta dele me levou a pensar que na
capital do Amazonas, uma cidade com milhares de pessoas, eu poderia
simplesmente esperar na janela a minha irmã passar.”
A história de Manoel Cunha, repetida mais tarde à reportagem, ilustra
um Brasil onde o investimento na educação e na qualificação
profissional esbarram em distâncias geográficas e na ausência de
políticas públicas dos governos. Mesmo tendo sido alfabetizado
precariamente pelas irmãs, foi a educação que ajudou o seringueiro a
romper a lógica da exploração e se tornar um dos três principais
secretários do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Hoje, ele
coordena o diretório do CSN do Amazonas.
O conhecimento também foi a chave para superar a pobreza. “Minha mãe
dizia que era uma benção ser pobre. Éramos pobres porque Deus queria,
pois os ricos iam todos para o inferno. Mas conforme tive acesso ao
conhecimento, ficou claro que éramos pobres porque a sociedade estava
montada para que assim fosse”, lembra em sua ampla sala do CNS.
Cunha vem de uma região do Amazonas onde quem manda são os chamados
“patrões”, uma versão amazônica dos coronéis. Os “patrões” eram os
supostos donos das terras nas quais os trabalhadores exploravam os
seringais. Eles impunham regras rígidas aos trabalhadores, estabeleciam
quanto pagariam pela extração da borracha e ainda obrigavam os
seringueiros a comprar comida em seus barracões, nos quais cobravam
altos valores pelos alimentos. Um esquema quase análogo à escravidão.
“Um dia, chegou à comunidade o Movimento de Educação de Base (MEB), que
começou a abrir os horizontes dos ribeirinhos para a possibilidade de
mudarmos essa realidade de exploração. Para isso, seria preciso formar
grupos políticos e reivindicar nossos direitos junto à prefeitura.”
Os “patrões”, relata, tentaram evitar a atuação do MEB. Temiam que as
reuniões do grupo levassem à organização política da comunidade e que
os trabalhadores demandassem melhorias para a região. Foi o que
aconteceu. “As políticas públicas no Brasil não andam sozinhas,
precisamos pressionar. Ainda mais na Amazônia, onde temos grandes
distâncias.”
Diferentemente do Pará, no Amazonas a maior parte dos conflitos não é
gerada pela extração ilegal de madeira. No estado, o recurso pesqueiro é
o catalizador de confrontos entre ribeirinhos e exploradores da
floresta. “Conflitos surgem quando as comunidades preservam lagos da
pesca predatória e firmas pesqueiras invadem essas áreas para pegar os
peixes”, afirma. “Já enfrentei patrão, peixeiro e a polícia, que me
ameaçavam para convencer a comunidade a liberar a pesca nestes lagos.”
Muitas vezes, os ribeirinhos acabavam enganados pelos “patrões” e
liberavam a pesca. “Eles não sabiam, achavam que o dono das terras é o
dono da água, mas não é assim.”
Para evitar esse tipo de pressão, Cunha ajudou a desenvolver um
programa que qualifica moradores locais sobre leis ambientais. Esses
agentes informam a população sobre seus direitos, impedindo que
companhias pesqueiras explorem abusivamente os moradores de áreas
isoladas.
O trabalho também ajuda indiretamente a espalhar o conceito de
sustentabilidade e do apoio ao extrativismo, defendido pelo seringueiro
Chico Mendes, assassinado em 1988. Na parede, Cunha mantém um quadro do
líder acreano. “A produção extrativista também movimenta o PIB, mas é
esquecida, não é registrada pelo governo. Sem apoio técnico, não dá para
registrar quanto os produtos da floresta geraram em riqueza. E imagine
quantos bilhões de reais em matéria prima ficam sem registro por causa
da falta de apoio do governo ao extrativismo.”
*O repórter viajou a convite da Fundação Amazonas Sustentável (FAS).
