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São mais de uma dezena e “chegaram-se à frente” quando o sociólogo e fundador do Centro de Estudos Sociais daUniversidade de Coimbra negou os primeiros relatos de abusos publicados no ano passado em livro. A SÁBADO ouviu osrelatos de assédio moral, assédio e abuso sexual que garantem ter vivido no CES.e há pessoa que conhece bem o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, essa pessoa é Sara Araújo, 44 anos, investigadorado Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. “Ele tem os dois lados. Se Boaventura quiser seragradável para alguém porque precisa de alguma coisa dessa pessoa, ele consegue ser a pessoa mais agradável. Por isso,é que no caso dos movimentos sociais, as pessoas tinham a imagem de que Boaventura era um ser humano extraordinário”,diz. O outro lado é bem mais difícil de digerir: “Admitirmos que a pessoa que nós vemos como mentor é um abusador sexual, éum ato sem retorno. É onde estou agora”, confessa.
As paredes falaram em 2017. Na altura, graffitis pintados nas paredes do CES e na zona universitária de Coimbra interpelavamdiretamente o alvo: “Boaventura Fora. Todas Sabemos”, mas foi só no ano passado, com a publicação do artigo “As paredesfalaram quando mais ninguém se atreveu”, assinado por três ex-alunas dos CES a denunciar assédio moral, assédio e abusosexual, que Sara conseguiu ver-se ao espelho: “Via-me dentro de uma família profundamente abusiva, de onde não conseguiasair”, recorda.
O artigo publicado não identificava, nem o CES, nem os visados, mas Boaventura de Sousa Santos veio a público admitir queera o “Star professor ” retratado. Esse foi o gatilho para que várias mulheres se “chegassem à frente”. Foi o caso de Sara, queentrou no CES, há 24 anos, pela porta grande, convidada diretamente pelo então diretor, Boaventura Sousa Santos, paraassistente de investigação. “Há 20 anos, era uma estudante de licenciatura, absolutamente fascinada pela discussãoepistemológica do professor Boaventura. Achava mesmo convictamente que me estava a ser dada uma grande oportunidade”,lembra. O professor que, no plano público, lutava por mais justiça social, aplicava, no plano privado, velhas receitas. “Estivetrês anos a recibos verdes, sem horário de trabalho, todas as horas eram de trabalho. E quando digo todas, estou a ser literal.Era perfeitamente normal entrar às 9 da manhã e sair à meia noite. Todos os dias, sem dias de descanso, sem fins de semana”.Na altura, não o percecionou como uma contradição. “Era o preço a pagar pelo grau de excelência que pretendíamos que o CESatingisse”, justifica.
As explosões de ira também era imagem de marca do professor. “Entramos para o CES e começamos a ouvir coisas como: ‘Comoé que é hoje? Deus está bem disposto?’. E normaliza-se isso. Boaventura era Deus. Ou era o grande chefe e que podia acabarcom qualquer pessoa. Vi investigadores a chorarem a saírem do gabinete dele”, descreve. Havia ainda, as chamadas a qualquerhora, às vezes com os pedidos mais bizarros. “Sara, estou em Onãti (que é onde fica o Instituto Internacional de Sociologia doDireito, próximo de Bilbao), e esqueci-me dos meus medicamentos. Preciso que venhas amanhã trazer-me os meusmedicamentos a Bilbao. E eu: ‘professor, não é razoável o que me está a pedir'”. E prossegue: “Ele estava lá como um professor
catedrático, altamente privilegiado, com uma série de gente que estaria disponível para ir com ele ao médico, à farmácia, paralhe resolver o problema. Ele não quis nada disso. Ele quis, pura e simplesmente, resolver tudo colocando o problema em cimade mim”, diz.
A situação agravou-se muito quando em 2011, o CES conseguiu um financiamento avultado (2 milhões e 400 mil euros) doConselho Europeu de Investigação para desenvolver o projeto Alice, uma proposta “fora da caixa” do professor Boaventura, quepretendia desafiar a perspetiva “Eurocêntrica” e levar os europeus a aprender com as experiências dos países do Sul.Boaventura integrou 22 jovens investigadores e Sara foi uma das escolhidas. “Era aquilo que me movia, era aquilo que me fazialevantar da cama”, recorda Sara emocionada. A verdade é que o projeto traz associado alguns dos piores momentos de assédioque garante ter vivido.
Sara Raújo trabalhou 25 anos no CES
“Eu apresento-lhe ideias. Ele arrasa-me, mas eu nunca percebo por que é que não gosta das minhas ideias. Apresentei-lhe aproposta do livro “
Direito e epistemologias do Sul
“, em 2015, e ele rejeitou”, assegura. Anos depois, o professor apresentou umnovo livro e Sara ficou estupefacta. “Sabe como é que se chama?
Lei e Epistemologias do Sul
, que era a minha ideia”, diz,indignada. E acrescenta: “Ele assegurou-se de que toda a minha energia era sugada para ele, para o currículo dele, para acarreira dele, para os livros dele e para os projetos dele”, refere.
O assédio sexual
Olhando para trás, Sara consegue identificar hoje um padrão no seu “mentor”: “Acho que há uma objetificação global dasmulheres, mas depois há mulheres que são objetificadas para trabalhar e há mulheres que são objetificadas de forma sexual epara o trabalho. Eu era objetificada para trabalhar”, assegura. Mas em 2017, Sara vive um episódio que hoje não tem dúvidasem identificar como de assédio sexual. “Estávamos em casa do Boaventura para ter uma reunião, num sábado. Eu estava empânico permanente ali. E quando chega a minha vez de discutir o meu livro, mostro que ainda estou ali com algumas dúvidasque estou aberta à discussão e o Boaventura silencia-me imediatamente e começa aos berros comigo”. A situação escalou e acerta altura o professor pede para ficar sozinho com a investigadora. “Ele manda toda a gente embora e diz-me: ‘eu sei que estanossa relação é muito difícil. Eu cheguei à conclusão que tu és a única mulher com quem eu tenho uma relação próxima semque essa relação tenha uma dimensão sexual e tu, em Londres, disseste-me que nunca na vida irias para a cama comigo'”. Naaltura, Sara garante que não percebeu a mensagem: “Achava que aquilo era só mais um homem na academia a ser parvo. Não,estava a receber um ultimato. E foi isso que não percebi. E é isso que descubro com o
capítulo (publicado em 2023)
“.
Quando no ano passado sai o artigo a denunciar abusos na academia, Boaventura procurou-a. “É esse o momento em quepercebo que vivi a vida toda debaixo de abuso. Porque o Boaventura contacta-me e diz: ‘Queria falar contigo, desabafar umbocadinho contigo, porque tu estiveste lá sempre e tu sabes de tudo'”, recorda. E prossegue: “E eu pensava assim: Quando asparedes aconteceram, eu disse, temos que falar de sexismo na universidade, temos que discutir estas questões por dentro e fuisempre calada. E quando o Boaventura é acusado de assédio, ele nem sequer me pergunta como é que eu me posiciono sobreisto. E portanto, assume que nos vai conseguir silenciar”. Esse foi um momento de epifania: “Eu não posso ceder a isto. Vou terum comportamento diferente do que tive quando foram as paredes, porque tenho muito mais informação agora do que tinhanaquela altura”, diz. Todo este processo não se faz sem deixar marcas profundas: “Portanto, a primeira coisa que tive que fazer,quando isto aconteceu, foi começar a fazer terapia. E foi começar a perceber que andei a minha vida toda em guerra”.
16/11/24, 15:22 Repórter SÁBADO. As mulheres que denunciam Boaventura de Sousa Santos – Portugal – SÁBADO
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“Senti-me um pedaço de carne no açougue”
Algumas denunciantes não se conheciam entre si, nem foram contemporâneas, mas não é o caso de Sara e Élida queconviveram dez anos no CES a trabalhar com Boaventura de Sousa Santos. Élida Lauris, jurista e consultora de DireitosHumanos, reside atualmente no Rio de Janeiro, Brasil. Élida garante que viveu no CES uma experiência de “servidãoacadémica”. E explica: “Era desde a pessoa que podia limpar o tapete do lado de fora para o Boaventura passar, até fazer aTeoria da Justiça para entrar no livro do Boaventura”, diz. Élida entrou no CES em 2005, com apenas 25 anos, para fazer odoutoramento em Pós-Colonialismo e Cidadania Global. O orientador da tese era precisamente Boaventura de Sousa Santos.”Boaventura representava uma novidade teórica. Ele era um teórico muito inspirador”, recorda. Élida deu nas vistas pelacapacidade de trabalho e depressa o professor a “desviou” para os seus projetos de investigação. “Às vezes, dizendo de umaforma assim não muito transparente, que era um trabalho por fora e que me iria pagar, mas nunca definindo o que era otrabalho ou o valor”, recorda. E acrescenta: “No primeiro trabalho, senti-me honrada, no segundo trabalho pensei: ‘Nossa, comoestou atendendo ao professor’, no terceiro, dei-me conta de que ele não ia parar”, diz.
Élida Lauris, jurista e consultora de Direitos Humanos, diz que escreveuboa parte de um livro assinado apenas por Boaventura de Sousa Santos
Outra situação flagrante do chamado “extrativismo intelectual” é o episódio da publicação da terceira edição do livro “
Areforma democrática da Justiça
” em 2011. Élida guarda até hoje todos os emails que demonstram que terá sido a jurista aescrever uma boa parte do livro, porém, aquando da publicação, o livro aparece apenas assinado por Boaventura de SousaSantos. “Ele apenas colocou os tópicos que queria que desenvolvesse e o livro foi publicado, a versão atualizada na autoria doBoaventura, sem nenhuma referência ou reconhecimento ao que escrevi”, recorda. Teve apenas direito a um agradecimento.”Sem o exigente profissionalismo e o indefetível entusiasmo de Élida, o livro não seria possível. Ora, isso não dá conta do queeu fiz”, refere indignada. É aquilo que várias denunciantes classificam como extrativismo intelectual. “Consiste em aproveitar otrabalho de estudantes de doutoramento que estão ali ao seu redor, para capturar ideias, para pedir textos que só aquelesestudantes vão ter especialidade porque eles vêm de locais muito específicos”, explica. E continua: “Não é à toa, depois na obrado Boaventura, vai ter quem diga: ‘Como é que ele sabe tão bem sobre a Colômbia, como é que ele sabe tão bem sobre o Brasil?’Porque tem esse processo, tem a utilização dos doutorandos ou até pedidos específicos para doutorandos para preparar aulas,para completar textos, que foi o que aconteceu comigo e chega no máximo, que é esse processo de usurpação, mesmo, e deapropriação intelectual que é pedir a uma doutoranda para fazer a atualização integral do livro e publicar o livro em nomepróprio”, diz.
Quando ingressou no projeto Alice, em 2011, a jurista diz que as situações de assédio moral foram uma constante: “Passei porconversas em que o Boaventura me disse que não deveria engravidar porque o projeto era exigente e ia ter muito tempo e quenão poderia sofrer perturbações e eu tinha obrigação de terminar o meu doutoramento”. Foi o pior período de todos: “E eledizia-me que eu estava desequilibrada psicologicamente. Enfrentei esses boatos. Chegava a casa exausta, sem conseguirtrabalhar na tese. Chorava todas as noites porque achava que a culpa era minha. Ainda tem esse elemento do assédio moralcontinuado, você passar anos achando que é você que não está trabalhando o suficiente”.
Em 2014, Élida consegue finalmente concluir o doutoramento. Exausta, pede para regressar ao Brasil e consegue autorizaçãodo professor. “Queria fazer isso de forma que não gerasse rutura, porque tinha muito receio dos impactos na minha reputação,se ele falasse mal de mim, porque via como ele espalhava boatos sobre outros investigadores”, recorda.
É nessa altura, em 2015, que garante que o professor lhe terá proposto sexo em troca de sucesso profissional: “Élida, você podeter uma relação especial comigo, como poucas mulheres têm. Porque, quando olho para esse seu corpinho e quando olho paraas suas perninhas, eu fico.. eu nunca fiz nada porque você é casada”. Élida ficou aterrada: “A gente estava conversando sobrecrescimento profissional, oportunidades profissionais, desenvolvimento de carreira e eu fiquei com muita noção de que aquilo,na cabeça do Boaventura, era o melhor que ele me poderia oferecer: uma espécie de vantagem única que iria me segurar,
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trabalhando com ele, ter a relação sexual com ele”, recorda. E acrescenta: “Senti-me um pedaço de carne no açougue”. Só haviaum caminho: “Saí fugida do CES, em 2015. Saio com uma mala e não voltei mais, nem para ir buscar as minhas coisas. Ereconstrui a minha vida no Brasil”, diz.
O caso estava quase esquecido, quando em 2023 é publicado o artigo das três ex-investigadoras do CES. Ao ver Boaventuranegar tudo, Élida sentiu que só havia um caminho: “Anos em que senti vergonha de contar o que eu tinha passado. Quando,finalmente, três pessoas falaram a verdade, eu não ia admitir ficar omissa e elas serem punidas por falar a verdade”, refere.
Élida e um grupo de cerca de uma dezena de mulheres enviaram denúncias para a Comissão Independente que analisou assuspeitas de abusos no CES. A verdade é que pediam o anonimato, o que inviabilizou que os visados fossem confrontados comas denúncias concretas. Assim sendo, quando em março deste ano, a Comissão Independente que analisou os casos de assédiono CES identificou “padrões de conduta de abuso de poder e assédio por parte de algumas pessoas que exerciam posiçõessuperiores na hierarquia do CES”, nem os denunciantes, nem os denunciados eram identificados.
É nessa altura, que o grupo de mulheres que compõe o coletivo de denúncia decide sair do anonimato: “Nos pareceu muitoóbvio que se a gente não fizesse uma carta de pressão e saísse do anonimato para poder identificar quem a gente denunciou, achance de isso não dar em nada era muito grande. A gente estava fazendo um trabalho de recuperação da verdade e da justiça”,explica Élida. E termina: “Tive medo por dez anos, de fazer qualquer coisa que contrariasse o Boaventura e o meudoutoramento não terminar e eu ter uma dívida para pagar porque eu fui com uma bolsa do Brasil”. Emociona-se quandoexplica que deixou para trás o sonho de trabalhar no mundo académico. “Tinha um sonho muito grande. Nem consigo falar….Acreditava na universidade. Deixei de acreditar. Essa é a maior perda que tive. As pessoas têm que ser responsabilizadas peloque eu passei. Não é porque eu aguentei, que foi justo”.
“Nunca foi difamação, sempre foi assédio”
Aline Mendonça, 46 anos, vive em Porto Alegre, no Brasil, e está a regressar à vida académica. Recentemente, passou nasprovas para lecionar na Universidade Federal de Rio Grande do Sul. Nos últimos anos, tem trabalhado como pesquisadora econsultora de organizações internacionais como, por exemplo, a ONU. “Estive muito tempo trabalhando com o CES, por contade um grupo de pesquisa que ajudei a fundar em 2008, o grupo Ecosol de economia solidária”. Entrou no CES em 2008 parafazer o doutoramento. “Éramos muitos brasileiros que estávamos lá, seduzidos pelo discurso e pela construção epistemológicaque o Boaventura vinha provocando no universo da ciência”, recorda. E prossegue: “Correu muito bem na ocasião. Costumodizer que caí nas graças do Boaventura. Ele elogiava muito o meu trabalho, expunha muito o meu trabalho, a minha relaçãocom os movimentos sociais”. Aline diz que “caiu nas graças do professor” por contraste com o que via acontecer noutros casos:”Da mesma forma que eu era muito bem tratada pelo Boaventura, a gente também foi testemunha dele ser rude”. Alinechamava-lhe a pedagogia da competitividade: “Ele qualificava o trabalho de um, desqualificando o trabalho de outro, e acabavagerando um processo de competitividade violento, abusivo entre os alunos e entre as pessoas que trabalhavam com ele”,descreve. Quando em 2011, arranca o projeto Alice, a já doutorada Aline é convidada a integrar o projeto e aí tudo mudou.”Uma vez, cheguei à FEUC [Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra] com outros colegas do projeto Alice e não fuicumprimentá-lo. Sentei-me logo para assistir à atividade e depois fui embora. Depois, ele ligou-me a retaliar a pedir projetos,isto e aquilo. Acontecia com muita frequência. Ele tinha uma obsessão comigo Se eu não desse a devida atenção que ele achavaque eu tinha que dar, ele ficava, não sei, se sentia incomodado, rejeitado”, recorda.
Aline Mendonça recorda que chegou a mostrar uma troca de emails comBoaventura a um advogado e que este não teve dúvidas de que se tratavade assédio
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O episódio mais explícito de assédio sexual aconteceu em 2012, na sequência de um reparo feito à qualidade estilística dainvestigadora. Em resposta, Aline enviou crónicas que tinha escrito em jornais brasileiros. “E ele diz, então, que tambémescreve de forma poética, sobretudo poemas eróticos, e ele começa a falar, então, que sempre me achou uma mulher muitobonita, muito atraente, falou das minhas pernas, que é recorrente no assédio sexual dele, ele tem uma obsessão por pernas, edisse que alguns desses escritos tinham sido inspirados no meu corpo”. Aline, exibiu o email a um advogado brasileiro comquem divida casa na altura, receosa de que pudesse de alguma forma ter dado azo aquela reação do professor: “A vítima aindase sente culpada”, sublinha. O colega de casa leu os dois emails e concluiu: “Aline: isso é assédio sexual”. A investigadora não seconteve: “Fiquei muito abalada e comecei a chorar”. A
SÁBADO
contactou o referido advogado que é testemunha no inquéritoem curso no CES e que confirmou todo o episódio vivido em 2012.
Aline ignorou o email e garante que a seguir entrou no inferno. “Claro que gatilho foi o assédio sexual, ele é horroroso, mas osprocessos de assédio moral
à posteriori
, foram muito piores”. Garante que as situações de humilhação pública eram frequentese dá exemplos: “Houve um grande evento público em que propus estudar o movimento da economia solidária no mundo, comoé que eles se organizavam a partir de diferentes países e o Boaventura disse que o meu objetivo era viajar pelo mundo e quenão ia investir nesse trabalho. Disse isto publicamente num seminário”, aponta.
Continuava ligada aos projetos do CES até porque usufruía de uma bolsa de investigação do governo brasileiro, mas os efeitosfísicos e psicológicos daquilo que considera ser um assédio moral feroz tornaram-se evidentes: “Passei a ter pesadelos à noite enessa sequência desenvolvi incontinência urinária”. Procurou terapia e confirmaram-lhe que os episódios poderiam estarassociados à pressão psicológica em que vivia. O problema está ultrapassado, mas a dor ainda está bem presente: “Quando falodisto, choro. São cicatrizes que não fecharam”, explica. O texto das três investigadoras, em 2023, não lhe deixa dúvidas: “Nuncafoi difamação, sempre foi assédio”, diz.
Boaventura exige pedido de desculpas público
As denunciantes são mais de uma dezena e residem em Portugal, Espanha, Brasil, México e Estados Unidos da América, masBoaventura de Sousa Santos avançou, entretanto, com uma
ação especial de tutela de direitos de personalidade
, apenascontra as quatros denunciantes que residem em Portugal. Não pede indemnizações. O objetivo é outro, conforme explica aadvogada das quatros mulheres, Lara Roque Figueiredo. “É exigido um pedido de desculpas público num jornal de grandetiragem regional e nacional. E portanto, o objetivo é que venham a desmentir o que declararam anteriormente e que peçamuma desculpa pública ao requerente”. A juíza do Tribunal Cível de Coimbra suspendeu a sessão, agendada para sexta-feira, 15de novembro, para analisar os documentos enviados por Boaventura, e determinou que as sessões serão realizadas à portafechada. “Parece-nos que as minhas clientes estão no seu direito de denunciar e a sua denúncia é legítima e que se deveriaantes criar condições para que as mulheres possam fazer este tipo de denúncias de uma forma livre e consciente, ao contráriode estarmos aqui a tentar silenciar ou diminuir os factos que constam nas denúncias que já foram efetuadas”, defende aadvogada. Sara é categórica: “Morro antes de assinar essa declaração, como é óbvio. Morro, no sentido de que eu não assinoessa declaração”.
Em 2017 apareceram frases de denúncia nas paredes do CES
Na ação, o sociólogo rejeita todas as acusações. Sara é a principal visada pelo professor. Foi a que conviveu mais de perto comele. Boaventura de Sousa Santos junta, até, vários emails trocados ao longo dos anos com a investigadora para tentar provarque a relação entre os dois era de respeito e admiração mútuos. Sara reage: “Acho muita graça o professor Boaventura dizerque a prova de que nós não vivíamos num ambiente de assédio, eram os emails educados que lhe enviávamos. Porque nós,além de termos sido assediadas, além de termos sido exploradas, promovendo um extrativismo intelectual enorme das nossasideias, em cima disso tudo, ainda tínhamos que ser bem-educadas com ele, tínhamos que o admirar e que o venerar porque oego dele era tão frágil que, se a gente não o fizesse, íamos ter que lidar com o Boaventura maldisposto”. E remata: “Lidar com o
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Boaventura maldisposto era extremamente complicado. Dizer isto, não é dizer que a minha relação com ele não fosseextremamente complexa como é normal que seja a relação com abusadores que vemos como mentores. Eu admirava-o muito.Cegamente, em muitas coisas”, termina.
Boaventura de Sousa Santos já não está auto-supenso
Boaventura de Sousa Santos, 84 anos, é professor catedrático jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.Realizou o doutoramento na Universidade de Yale com a tese “O Direito dos Oprimidos”, que resultou de um estudo feito nafavela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, durante os anos 70 do século passado. Tem mais de 21 doutoramentos
honoris causa
por diferentes universidade mundiais, lecionou na Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, ondecontinua afiliado com o título de Distinguished Legal Scholar (catedrático de mérito reconhecido, em tradução livre).
Fundou o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra em 1978 e dirigiu-o até 2019, altura em que passou a ter otítulo de diretor emérito. Chegou a auto-suspender-se de funções, mas está de novo a desenvolver a atividade de investigador.Contactado pela
SÁBADO
, Boaventura de Sousa Santos diz que em breve irá avançar contra as denunciantes que residem foramde Portugal, solicitou que lhe enviássemos as questões por escrito, mas a resposta foi curta: “Infelizmente, nesta fase, não fareideclarações. O processo já está nas mãos dos tribunais e não é minha intenção perturbar o seu trabalho. Caso possa entrar emcontacto consigo, numa data posterior, fique certa de que o farei”, escreveu.
Já o CES diz que o inquérito interno em curso está prestes a ser concluído. Refere, ainda, que foi criado um grupo de trabalhopara desenvolver a política de prevenção e combate ao assédio. Também há um inquérito crime pendente no DIAP de Coimbra.Na próxima semana, vamos dar a conhecer mais testemunhos.
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