Carnaval: “adeus, carne”, uma metáfora do reino da liberdade

Fonte: Site de Leonardo Boff
10/02/2013
Dei uma entrevista à jornalista da Globo, Patrícia Kalil para [http://redeglobo.globo.com/globocidadania].
Ela  consultou outros especialistas sobre o tema, especialmente Roberto
da Matta. Aproveiou algo do minha contribuição. Fez um bela e extensa
matéria  da qual eu mesmo  aprendi muito.Leiam-na que vale a pena.
Como é carnaval, tomo a liberdade de publicar a minha parte, esperando não magoar a entrevitadora. Uso as perguntas dela.
lboff
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1. Li referências do tempo em que o carnaval nasce primeiro
como manifestação popular na antiguidade para agradecer a chegada da
primavera (ou da vida no hemisfério norte). Depois, durante o período
medieval, a festa é assumida pela Igreja, algo que pelo que pesquisei só
permanece até o final da idade média. Por que o carnaval deixa de ser
da igreja? Em algum lugar ele ainda é vinculado à Igreja?

    
R/ O berço do carnaval ocidental se encontra na Igreja, apesar
dos antecedentes na cultura greco-latina. O próprio nome carnaval lembra
esse fato. A palavra “Carnaval”  é a combinação de duas palavras
latinas: “carnis” que é carne e “vale” que é uma saudação, geralmente no
final das cartas ou no final de uma conversa. Significa “adeus”. Então
antes de começar o tempo da quaresma na quaarta-feira de cinzsas, que é
tempo de jejuns e penitências, se reservaram  uns dias anteriores para
dizer “adeus” à “carne”. Pois durante todo o tempo da quaresma não se
podia comer carne, como ainda hoje em algumas regiões na Baviera alemã.
De festa de  cunho religioso passou a ser uma festa meramente profana,
na qual tudo podia ocorrer como bebedeiras e até prostituição aberta. Ai
a Igreja se afastou mas nunca totalmente. Em muitos lugares, como no
convento  franciscano em que vivi em Munique, nos meus tempos de estudo
universitário, os frades no carnaval dançavam no convento e chamavam
freiras dos conventos vizinhos para dançar com eles. E depois se
revezavam: os frades iam dançar no convento das freiras. E se bebia
vinho e cerveja e muitas salsichas com mostarda. Mas tudo na maior
decência. Não deixava de ser engraçado de ver aqueles hábitos de frades e
de freiras esvoaçando em círculos. Eu como brasileiro no início ficava
escandalizado, pois no Brasil não havia isso. Mas acabei entendendo o
sentido de liberdade antes de começar o tempo do rigor e das penitências
que eram sentidas à mesa, mais sóbria e na falta de cerveja e vinho.
2. Encontrei referência que citam a origem do nome como
carnis levare (de retirar a carne) e como carnis valles (retirar o
prazer). Qual das duas deram origem ao nome carnaval?

R/ Ficou respondida anteriormente
3. Calha que essa festa popular pagã usa o calendário cristão
para se posicionar. E o carnaval, ao longo do último século, sofreu
transformações importantes dentro do seu papel em comunidades e
valorização do ritmo negro para hoje ser algo mais ligado ao
showbusiness e não necessariamente social. Como o senhor vê o papel do
carnaval no Brasil, historicamente, e a relação entre Igreja e essa
festa popular
R/ O carnaval possuía no passado e posssui ainda hoje grande
significado sociológico e antropológico. Há a intuição no povo e uma
certeza entre os estudiosos de que a sociedade com suas hierarquias e
papéis definidos é uma construção humana. Ela é fruto da vontade,
geralmente, dos poderosos que estabelecem as leis e as ordens que os
beneficiam. É o mundo da ordem estabelecida. A sociedade é assim uma
construção que tem algo de arbitrárip.O carnaval é a inversão desta
ordem. É conduzir a todos ao estado original onde não havia hierarquias e
papéis, ordem no qual todos eram iguais. No carnaval cria-se um caos
criador. Invertem-se os papéis. O rei deixa de ser rei e cria-se o rei
Momo; o rico se veste de pobre; o pobre se veste de rico; a empregada 
anônima vira a princesa da ilha encantada; o vendedor de rua se
transmuta em príncipe e o príncipe num escravo. Até no carnaval romano
os escravos, durante aqueles dias, ficavam libertos. A sociedade precisa
tirar as máscaras e voltar ao seu estado “natural”. O carnaval possui
uma função socialmente terapêutica: pela inversão dos papéis todos podem
se recriar, dar vazão ao que no fundo gostariam de ser. Essa
reviravolta, para acontecer, deve vir acompanhada de uma mudança de
consciência; dai a importância da bebida e da comida que produz esta
alteração:  alteram-se as relações entre todos. Agora não funciona o
tempo do trabalho com leis, normas, prescrições e comandos. Funciona o
tempo livre, liberto das injunções,o ansiado reino  da liberdade de cada
um ser, pelo menos por um momento, aquilo que lhe passar pela cabeça.
Pelo fato de no tempo  medieval tudo era regido pela religião e pela
Igreja, os carnavais se realizavam dentro do espírito de alegria e de
liberdade permitidas por estas instâncias. Era a famosa festa dos
foliões. Leigos podiam se vestir de bispos e até de papas. As máscaras
eram para esconder as identidades e no fundo para dizer que tudo na
sociedade e tambem na Igreja são máscaras. Bobos somos todos que as
tomamos a sério e cremos nelas. São os papéis sociais. Mas chega um
momento que nos damos conta de que as máscaras são apenas máscaras e que
os  papéis sociais são criados e distribuidos conforme a vontade dos
que detém o poder. E que no fundo somos todos humanos que tem as mesms
necessidades básicas que são intransferíveis. O presidente da república
não pode dizer ao secretário: vá fazer pipi para mim. Ele mesmo tem que
ir. Na medida em que a sociedade foi separando o sagrado do profano, o
carnaval escapou do controle da Igreja. Ganhou sua identidade própria.
Mas o seu significado básico continua o mesmo. O importante é que seja
feito pelos populares, por aqueles que socialmente nada contam. No
carnaval eles contam. São aplaudidos quando normalmente são eles que
devem aplaudir. Especialmente importante é o carnaval para os
afro-descendentes: sempre estiveram por baixo, eram os invisíveis. Agora
se tornam visíveis, mostram a sua rica humanidade que lhes tinha sido
roubada e continua ainda a ser roubada. Dai que no carnaval mostram todo
o seu potencial criador. Bem dizia o Betinho: o carnaval carioca é a
nossa Mitsubishi.Quer dizer: tudo funciona maravilhosamente como
funciona  a fábrica de automóveis japonesa.
4. Para finalizar e porque o carnaval é uma festa altamente
ligada ao prazer e a liberdade, direitos cada vez mais exigidos, por que
a condenação do prazer é algo tão marcante na vida religiosa? O vilão é
mesmo o prazer ou é o egoísmo, a falta de humanidade, de compaixão, de
respeito pelo próximo e pela vida? Por que tanta culpa pelo prazer? Por
que, afinal, o homem sente prazer.
R/ A essência do carnaval é tirar os super-egos castradores e
ordenadores da vida social. Eles são responsáveis pela ordem. A ordem
sempre impõe limites, cerceia o campo da liberdade, quando esta quer não
ter cerca nenhuma para se expressar. Quer espontaneidade e supõe
criatividade. É nesse âmbito que o ser humano se sente feliz. Porque há
um momento em que os controles caem e os homens da ordem não tem mais
poder para impor a ordem. Eles mesmos aproveitam a liberdade e tiram a
máscara. Viram gente, gente livre, que brinca, come e bebe sem se impor
ordem. O prazer é essencial na vida, também para as religiões, embora
tenham sublimado o prazer projetando-o no céu. Mas não existe céu sem
terra. O prazer começa no tempo  e culmina na eternidade. Prazer é
irradiação da vida, a sensação de estar sem amarras e viver segundo seu
ritmo interior. A busca da droga se deve a isso: ela produz prazer.
Somente que este prazer é destrutivo. Para curar alguém da droga
precisa-se inventar outras fontes de prazer que não sejam destrutivas.
Qualquer outro método é condenado à ineficácia. O carnaval resgata os
direitos do prazer, do corpo embelezado, ou libertado de adereços e
roupas. O carnaval, de forma secular, nos lembra que o céu não é outra
coisa que um eterno e infinito carnaval de Deus e com Deus, onde o ser
humano pode ser radicalmente humano, por isso totalmente livre, livre
para plasmar a sua vida, construir a sua figura e viver de festa em
festa. A Igreja antiga, especialmente a oriental, a ortodoxa, elaborou
toda uma reflexão do céu como uma dança celeste e Deus como o Grande
Dançarino. Criou o universo num momento auge de sua dança: jogou para um
lado as galáxias, para outro as estrelas, depois inventou a fauna e a
flora e num passe mágico de dança, o ser humano. Tudo é fruto do Deus
dançarino. Não há festa sem bebida e sem comida. Elas expressam a vida.
Não bebemos nem comemos para matar a fome. Isso é outro momento. Bebemos
e comemos para celebrar. E toda festa tem que ter abundância de comida e
bebida, senão não é festa. Mesmo nas comunidades em que trabalhei,
muito pobres, as festas eram feitas com abundante pipoca e coca-cola, a
ponto de sobrar. Tem que sobrar senão a festa não é boa. O carnaval tem
sempre excessos. Mas eles não devem ser entendidos moralisticamente.
Eles tem uma função humana: violar a ordem, afastar os limites,
exorcizar os controles, pois tudo isso foi inventado pelos seres
humanos, especialmente, pelos que tem poder de se impor aos outros. No
carnaval se volta ao caos originário. Ele nunca é caótico, mas criativo.
No carnaval todos tem a sensação: finalmente estamos livres, podemos
viver como  gostaríamos, podemos inverter os papéis porque eles não
passam de papéis. O carnaval é uma metáfora do que pode ser a 
humanidade um dia reconciliada e feliz.
Mas como tudo o que é sadio pode ficar doente, assim no
carnaval há doenças no sentido de alguns extrojetarem seu exibicionismo,
se embebedarem em demasia e aproveitarem a liberdade reconquistada 
para se vingar dos desafetos. Mas essa é uma patologia, uma doença. E
toda doença  remete à saúde. Quer dizer, o carnaval é algo saudável
especialmente em sociedades de grande desigualdade. No carnaval as
desigualdades caem. Todos estamos juntos para festejar, comer e beber
numa ilimitada fraternidade.
Eu não posso me imaginar o céu senão como um eterno carnaval
ou então uma luminosa virada de ano na praia de Copacabana, na qual
todos se confraternizam, conhecidos e desconhecidos, chorando de alegria
pela beleza dos fogos. Quando alguém chega ao céu, imagino eu, Deus lhe
prepara como recepção um carnaval ou uma festa de virada de ano com
fogos e luzes sem fim. E a alegria começará e o bom é que será então
eterna. Bom carnaval para quem gosta.
Eu, coitado, fico em casa tirando os atrasos dos textos e livros que estou escrevendo.
Comentários 
Zezito de Oliveira 
10/02/2013 12:26

“Eu, coitado, fico em casa tirando os atrasos dos textos e livros que estou escrevendo.”
Não acho, como tu faz com prazer, não deixa de ser um carnaval particular. E você não está sozinho rsrsrsrsrsrss

Luís Felipe Borduam 
10/02/2013 13:58

Uau! Como cristão protestante nunca havia pensado no
carnaval com esse olhar. Obrigado pela nova perspectiva. Contudo, não se
torna um pouco contraditório seu comentário final? Me deu o
entendimento que o carnaval é bom, mas só serve para os outros, pois eu
ficarei em casa.
Na minha leiga percepção o carnaval não se originou com a igreja, mas
sim foi absorvida pela mesma como uma estratégia da ICAR para manter ou
“satisfazer” seus seguidores..
Outra pergunta, se eu tiver errado e o carnaval realmente tiver uma
origem com a igreja, será que este sentido já não se perdeu há muito
tempo? Se sim, o que é melhor tentarmos fazer uma recuperação do
“sentido original” do carnaval ou uma apologia contrária a ele? Digo
isso de um ponto de vista pragmático como um jovem que vive em um mundo
pós-moderno no século XXI, pois não vislumbro uma “purificação” desta
festa aos termos aqui propostos. Muito pelo contrário, vejo
jovens/adolescente cada vez mais cedo se prostituindo e se entregando a
excessos que só geram sofrimento no curto e médio prazo.
Paz e bem!

10/02/2013 16:16

Luis Felipe,
É certo que o carnaval surgiu num contexto litúrgico. A quaresma antiga,
ainda no meu tempo, era coisa séria, de restrição de festas, não podia
haver bailes, cada sexta-feira era de abstinência de carne Antes de
entrar neste regime mais severo a Igreja permitia que as pessoas
aproveitassem para se divertir, comer, beber, dançar…E depois com muita
cinza na cabeça começava a quaresma.No meu tempo o pessoal saia do baile
e ia direto à Igreja a receber a cinza. Eu adorava por muita cinza na
cabeça das madames e naqueles que vinham de peito aberto.E eles se
sentiam “perdoados”.
Logicamente a sociedade se seculrizou e tambem o sentido do carnaval.
Hoje é uma festa popular do calendário, com desfiles….dias em que as
pessoas se tomam a liberdade de “vadiar”, de não precisar fazer nada.
Alias no Brasil não se faz nada de serio , nem negocios, antes do
Carnaval. Tudo é para depois do carnaval. Agora começa o ano laboral.
Precisamos superar uma visão moralista, frequente nos irmãos
evangelicos, muito ligados ao pecado e à cruz.A festa tem seu lugar.
Jesus compara o Reino a uma festa de casamento, a um banquete.
Mas como em todas as coisas, há sempre defeitos, excessos que não
invalidam a essência original boa do carnaval. O extravio atual da
juventude não se deve ao carnaval mas a ocaso da figura do pai na
família e na decadência geral de nosso tipo de cultura materialista e
consumista que não atende aos reclamos mais profundos da busca humana e
não apresenta ideiais que galvanizem os jovens.
um abraço
lboff

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