tenho certeza que Juca Ferreira sabe disso, é a disputa interna no
setorial cultura do PT. Na verdade os rumos que essa espécie de picadão
político tomou, colocou o partido bem distante do significado de
política pública de cultura. Na realidade tanto o Estado quanto os
partidos foram centrifugados e reduzidos à lógica redefinida pela gestão
corporativa. Então toda aquela cultura funcional a que assistimos
dentro dos institutos e fundações das grandes corporações, à medida em
que o tempo passou, ocuparam suas devidas presenças dentro de grupos e
tribos políticos no Estado e nos partidos, e o PT está longe de ser
diferente disso.
política miúda que fraciona a ocupação dos espaços não deixa que as
perspectivas de fruidez permitam que o próprio partido se desvencilhe
dessa esquizofrenia.
pela frente esse desafio já que vem cumprindo uma agenda de recuperação
perdida nos dois anos em que Ana de Hollanda esteve à frente do MinC.
Mas ela precisa alterar as relações entre o MinC e a sociedade num
discurso oficial longe das empresas e com mais participação dos
intelectuais brasileiros.
se tem ainda é o de um funcionamento do sistema isolado da realidade
brasileira, mesmo com todo o progresso que se teve com a chegada dos
pontos de cultura. A expectativa, sobretudo agora, é de que tanto Marta
quanto Haddad rompam a cortina de interesses dentro do PT e dos gestores
corporativos que passam a vida reclamando mais recursos para a cultura e
impedindo que um movimento intelectual intervenha e aprofunde o debate.
olho clínico para ver o quanto tudo se tornou vagaroso e imbricado nessa
operação cultural que vive de editais, de uma ação “racional” e,
consequentemente virtual. Na prática houve uma acomodação entre os
velhos xerifes da Cultura PT com toda a representação falsificada de
cultura que os gestores ligados ao PSDB e Dem vem adotando há muito
tempo.
está, os caminhos de Juca Ferreira e Marta Suplicy se tornarão difíceis e
estimulará cada vez mais um tipo de prática fisiológica do toma lá dá
cá.
A renovação cultural em São Paulo
Enviado por luisnassif, sab, 19/01/2013 – 10:25
Do Notícia Pólis
Artigo de Hamilton Faria
O discurso de posse do prefeito Fernando Haddad parece ter ido além
das intenções e do seu significado simbólico. A ênfase que deu a cultura
não tem paralelo na história recente na cidade. Luiza Erundina não
acentuou tanto o desenvolvimento cultural em sua posse e nos seus
discursos oficiais, mesmo se levarmos em conta que Marilena Chauí foi a
mais destacada secretária de cultura da cidade de São Paulo após a
ditadura.
Relembremos o que diz Haddad em seu discurso de posse, no dia 1 de janeiro de 2013:
“Eu
sei que as tarefas não são tão simples. Há muitas outras a serem
citadas. Eu falei da produção de conhecimento, da produção de cultura,
como essência da própria cidade, a cidade não funciona, não apenas sem
os empreendimentos que são conhecidos de todos, mas sem produção de
conhecimento e cultura. Nós temos que patrocinar um ambiente favorável
para que isso floresça cada vez mais, para que a força de São Paulo se
expresse na produção científica, na produção cultural. E muito fará a
Prefeitura de São Paulo se seguir o seu caminho de promover a cidadania
no âmbito da cultura e da ciência. Nós somos, além de um centro produtor
de serviços, financeiros inclusive, além da capital financeira do país,
nós somos um centro irradiador de cultura e de conhecimento para o
Brasil e para o mundo. Temos em nosso território a maior universidade da
América Latina. Não falta inteligência disponível nem criatividade
disponível na cidade de São Paulo. Muitas vezes falta articulação, e aí
também cabe ao poder público convocar as lideranças científicas e
artísticas para promover o bemestar.
A cidade é, sobretudo o gozo, o encontro, o prazer da convivência, e a
cultura e a ciência são ingredientes fundamentais desses eventos que
tanto prazer causa a cada um de nós.
Eu sou daqueles que acredita não apenas que haja amor em São Paulo.
Eu acredito que esse amor está pronto para se manifestar com cada vez
mais força, com cada vez mais presença em nossa cidade.”
Praticamente dez por cento do seu discurso é dedicado à cultura.
Algumas questões chamam a atenção de imediato: a primeira delas é o
reconhecimento de que São Paulo é um centro produtor não apenas de
serviços, de empreendimentos, mas que dispõe de inteligência e
criatividade coletivas que podem levá-la ainda mais longe. Ora, nos
últimos anos, o Estado não esteve na vanguarda de muitas iniciativas
culturais relevantes. Estas estiveram com o SESC e com os institutos
culturais dos bancos privados. Uma estrutura funcional
defasada, equipamentos quase sem presença de equipamentos ativos nos
bairros, a Lei Cultural que atende a poucos eleitos, que precisa
urgentemente ser substituída, explica o quadro de a cultura estar em um
lugar menor entre as políticas públicas, mesmo com a Virada Cultural, degrande visibilidade, mas de pequena expressão no campo do desenvolvimento cultural.
Mas Haddad deseja que a prefeitura crie um ambiente favorável para
que a cultura floresça na cidade. Bravo! Este é o verdadeiro papel do
Estado, que já se sabe, não é criador de cultura, mas facilitador de
situações, de ambientes favoráveis, através dos incentivos, das
políticas públicas e da ação cultural. Nesse sentido, torna-se mais que
necessário pensar em uma lei não apenas de mercado, que sirva
verdadeiramente à produção cultural da cidade e novos concursos para
agentes culturais, principalmente destinados a trabalhar nas extensas e
carentes periferias . Também ampliar o programa VAI – centuplicar o seu
alcance, e Pontos de Cultura em cada ambiente vital da diversidade.
Criar um ambiente cultural includente é também exigir das subprefeituras
linhas de desenvolvimento cultural local que fortaleçam o protagonismo e
a autonomia dos grupos, gerando a construção de diversidades a partir
da localidade.
O secretário Juca Ferreira, pela qualidade de sua passagem no
Ministério da Cultura, poderá ser o gestor com essa visão – a de
“culturalizar” a diversidade dos bairros. Mais: o poder público, segundo
o discurso de posse, convocará as lideranças científicas e artísticas
para promover o bem-estar. Isto não é pouco em se tratando de São Paulo;
aqui temos um poder público com baixa capacidade de convocação, aliás, a
convocação não tem sido o forte da gestão estadual e municipal dos
últimos anos. E isto significa acreditar no debate público, nas
oportunidades de diálogo, na ação descentralizada, no conselho municipal
de cultura, nas conferências, nas auscultas socioculturais etc.
O Manifesto 2000 da UNESCO – Por uma Cultura de Paz e Não-Violência
afirma que devemos “Ouvir para Compreender”. Portanto, a escuta deve
compor o rol das ações e políticas públicas e a sustentabilidade
democrática. Por falar em sustentabilidade, a ação da Secretaria de
Cultura deverá alinhar-se a um conceito amplo de cultura e não apenas à
cultura-arte, à cultura- É vento!, à cultura-erudição – mas ampliar o
seu conceito para o desenvolvimento humano e sustentável, estimulando
diálogos com outros segmentos, com a natureza e a comunidade dos seres
vivos.
O que está em questão não é apenas o desenvolvimento das artes, mas
uma ética sensível da vida, composta pela linguagem e o imaginário e os
modos de sensibilidade da arte. Desenvolver a arte é também desenvolver a
nossa capacidade de criar imaginação, emoção e pensamento. Como diz o prefeito eleito – não faltam nem criatividade e nem inteligências disponíveis para a construção da cultura como cidadania. E ele sintetiza muito bem: cultura é “a essência da própria cidade”. Sem cultura e conhecimento a “cidade não funciona”.
Vamos além: o papel da cultura não é apenas tornar mais vivos o
pensamento e o imaginário, mas construir sanidade, restaurando o tecido
social degradado por um modo de vida insustentável; a corrupção na
política revela a corrupção que grassa nas ações cotidianas dos
cidadãos, quando buscam soluções fáceis para a convivência. Trata-se de
construir uma saúde plena – da nossa vida diária de sobrevivência aos
pontos mais altos do imaginário, considerando que numa sociedade que não
deseja tocar em suas zonas de conforto, desregramento também é saúde.
Assim, é saudável a nossa dose de loucura criativa. Está cada vez mais
claro que a cultura, além de elevar o espírito, tem a capacidade de
curar. Nesta chave – a cultura cura.
Parece que estamos diante de um ponto de inflexão e de novos
alinhamentos institucionais: é o momento de aproveitarmos a oportunidade
para se pensar culturalmente a cidade e não apenas fortalecer grupos de
interesse presentes nas ações de “clientelismo cultural”. A Prefeitura,
através do secretário Juca Ferreira deve estar atenta para os novos
diálogos públicos, sua transparência e legitimidade, fugindo das
pressões corporativas que levam em conta segmentos e não a diversidade
ou a universalização dos direitos culturais.
Reencantar a cidade, criar ambientes favoráveis ao sensível, a novos
paradigmas emergentes, a outros pensares fora das linhas da “normose
cultural”, a cidade como um campo permanente de criatividade, enfim,
formar mundos poeticamente habitáveis por seus cidadãos e todos os que
possam fruir da sua magia – parece constituir o verdadeiro desafio da
nossa urbanidade doentia.
Assim, pode-se acreditar mais na presença do Amor, desejo
alvissareiro do novo prefeito, como uma poderosa força de coesão
cultural da diversidade.
Ao que parece, a renovação cultural já começou com a eleição do novo prefeito.
Hamilton Faria é poeta, especialista em desenvolvimento cultural sustentável.
Leia também: A CULTURA DO BRASIL NOVO COM HADDAD AQUI
