Carta de Lula aos artistas e a carta da esperança teimosa, indignada e criativa de Leonardo Boff

Festival Lula Livre: Melhores Momentos




29
de Julho de 2018 às 06:02 //
 
O ex-presidente Lula enviou carta aos artistas e ao público do Festival Lula
Livre. Ela foi lida pelo ator Herson Capri no alto do palco central.
Confira na íntegra a carta de Lula:



Queridos
artistas, estudantes, trabalhadores, meus queridos amigos reunidos nesse
sábado. Eu só posso agradecer a solidariedade de vocês.

Quantas vezes, quando a sociedade calou diante de barbaridades,
foram os nossos músicos, escritores, cineastas, atores, dramaturgos,
dançarinos, artistas plásticos, cantores e poetas que vieram lembrar que amanhã
há de ser outro dia?

Que ousaram acreditar em esperanças equilibristas
e em flores vencendo
canhões.
Que se rebelaram contra o “Cale-se!”
imposto pela censura, gritando que era proibido proibir.

Que disseram que o povo da favela só quer ser
feliz e andar com tranquilidade e consciência.
Que denunciaram o sofrimento de quem sai do
nordeste expulso não pela seca, mas pela miséria e ganância dos coronéis.

Ou que era expulso de sua casa e vê ela ser demolida para passar
“o progresso” que não inclui o trabalhador, como cantou Adoniran. Os que sempre estiveram onde
o povo está,
e que agora, nesta que é mais uma página infeliz da nossa
história,
se juntam novamente ao povo brasileiro para soltar a voz em nome
da liberdade.

Onde querem
silêncio, seguiremos cantando.

Vocês não sabem quantas vezes a música, os livros, a arte, tem me
ajudado a atravessar essa provação, que não é maior que a de tantos pais e mães
de família brasileiros que hoje não sabem como irão trazer comida para casa. É
em nome deles que não podemos desanimar jamais

Porque a gente ainda vai festejar, e muito. A
alegria, a liberdade e a justiça de um povo que não tem medo e que não se
entrega não.

Muito obrigado pelo carinho de vocês.
Luiz
Inácio Lula da Silva

Está confuso mas eu sonho

26/07/2018
“Faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar”,proclamou o
poeta Thiago de Mello na época sombria da ditadura civil-militar de
1964.

”Está confuso mas eu sonho”digo eu, nestes tempos não menos sombrios.
O sonho ninguém pode prender. Ele antecipa o futuro e anuncia o amanhã.

Ninguém pode dizer o que vai ser deste país após o golpe
parlamentar-jurídico-mediático de 2016. Faz escuro e tudo está confuso
mas eu sonho. Este sonho está rodando em minha cabeça há muitos dias e
resolvi expressá-lo para alimentar a nossa inarredável esperança.

Sonho ver um Brasil construído de baixo para cima e
de dentro para fora, forjando uma democracia popular, participativa e
sócio-ecológica, recohecendo como novos cidadãos com direitos, a
natureza e a Mãe Terra.

Sonho ver o povo organizado em redes de movimentos,
povo cidadão, com competência social para gerar as suas próprias
oportunidades e moldar o seu próprio destino, livre da dependência dos
poderosos e resgatando a própria auto-estima.

Sonho ver a utopia mínima plenamente realizada de
comer pelo menos três vezes ao dia, de morar com decência, de ter
frequentado a escola por oito anos, de cursar a universidade e a
pós-graduação, de receber por seu trabalho um salário que satisfaça as
necessidades essenciais de toda a família, de ter acesso à saúde básica e
depois de ter labutado por toda uma vida, ganhar uma aposentadora digna
para enfrentar, serenamente os achaques da velhice.

Sonho ver  celebrado o casamento entre o saber
popular, de experiências feito, com o saber acadêmico, de estudos feito,
ambos construindo um país para todos, sem excessos e também sem
carências.

Sonho ver o povo celebrando suas festas com muita
comida e alegria, dançando o seu São João, o seu Bumba-meu-Boi, seu
samba, seu frevo, seu funk e seu esplêndido carnaval, expressão de uma
sociedade sofrida mas que se encontrou na fraternura e na alegre
celebração da vida.

Sonho ver aqueles que foram condenados  a sempre
perder, sentirem-se vitoriosos porque o sofrimento não foi em vão e os
amadureceu para, com outros, construirem um Brasi diferente, uno e
diverso, hospitaleiro e alegre.

Sonho contar com políticos que se abaixam para estar
à altura dos olhos do outro, despojados de arrogância, conscientes de
representar as demandas populares, fazendo da política cuidado diligente
da coisa pública.

Sonho andar por aí à noite sem medo de ser assaltado
ou vítima de balas perdidas podendo desfrutar da liberdade de poder
falar e criticar nas redes sociais  sem logo ser  ofendido e  difamado.

Sonho contemplar nossas florestas verdes, nossos
imensos rios regenerados, nossas soberbas paisagens e a biodiversidade
preservada, renovando o pacto natural com a Mãe Terra que tudo nos dá,
reconhecendo seus direitos e por isso tratá-la com veneração e cuidado.

Sonho ver o povo místico e religioso, venerando a
Deus como gosta, sentindo-se acompanhado por espíritos bons, por forças
portadoras da energia cósmica do axé, dando um caráter mágico à
realidade com a convicção de que, no fim, por causa de Deus-Pai-e-Mãe de
infinita bondade e misericórdia, tudo vai dar certo.

Sonho que este sonho não seja apenas um sonho  mas
uma realidade ridente e factível, fruto maduro de tantos séculos de
resistência, de luta, de lágrimas, de suor  e de sangue.

Só então, só então, poderemos rir e cantar, cantar e dançar, dançar e
celebrar um Brasil novo, o maior país latino do mundo, uma das
províncias mais ricas e belas da Terra que a evolução ou Deus nos
entregara.

Termino com o grande cantor das Comunidades eclesiais  de base, Zé Vicente               de  Crateús:
“Sonho que se sonha só pode ser pura ilusão, mas sonho que se sonha junto é sinal de solução. Então vamos sonhar companheiros e companheiras, sonhar ligeiro, sonhar em mutirão” (Zé Vicente de Crateús)
Assim o quer o povo brasileiro e nos ajude Deus.
Leonardo Boff é escritor e publicou: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependênca (Vozes) 2018.

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 domingo, 29 de julho de 2018


FESTIVAL #LULA LIVRE É AMOR DA CABEÇA AOS PÉS.

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