Damares Alves estava
com enxaqueca naquele fim de tarde em 2015. O expediente de uma
quarta-feira de junho, às vésperas do recesso parlamentar, havia sido
repleto de reuniões, telefonemas, assinaturas de papéis e caminhadas
pelos corredores das duas Casas do Congresso Nacional.
Mesmo cansada, a futura ministra dos Direitos Humanos de Jair
Bolsonaro aceitou conceder a entrevista que eu havia lhe pedido para o
meu documentário Púlpito e Parlamento: Evangélicos Na Política.
Ao final da conversa de cerca de uma hora, perguntada sobre seu
futuro, ela me daria um ultimato: “Eu estou cheia de tudo isso, vou
parar de trabalhar aqui em dezembro de 2015”. Não parou.
Até chegar ao atual palco do poder Executivo federal, no entanto, a
advogada e professora Damares Alves, 54, transitou por muitas coxias.
Desde o início dos anos 2000, ela trabalha como poucos na organização do
multifacetado bloco evangélico que hoje faz barulho no Congresso, mas
que à época ainda era um grupo disforme. Sempre nos bastidores, ela
treinou servidores, deu aulas de técnicas regimentais para parlamentares
novos e ganhou status de celebridade – maior do que o de grande parte
dos eleitos com quem atuou.
Quando nos encontramos para a entrevista, Alves acumulava, no
parlamento, os cargos de assessora do senador Magno Malta e consultora
jurídica das frentes parlamentares Evangélica e da Família e Apoio à
Vida. Fora dele, ela ainda era Secretária Nacional do movimento Brasil
Sem Aborto e membro dos grupos Maconha Não e Brasil Sem Drogas, além de
figura carimbada em programas de entrevistas evangélicos.
Esse havia sido o motor da minha curiosidade: como a Brasília do
baixo clero produzira, sem votos, uma formadora de opinião entre a
parcela mais conservadora do público evangélico? E em que medida ela
concentraria poder para alçar voos mais altos?
No burocrático e pouco aconchegante gabinete onde trabalhava, Alves
me recebeu em meio a vários pedidos de “espera só um pouquinho que eu
vou conversar aqui uma coisa importante e já volto”. Na sala, bandeiras
dos movimentos em que ela milita tentavam levar alguma decoração ao
amarelo das paredes, sem sucesso.

Fé, política e sobretudo infância são as causas que
credenciaram Damares ao ministério de Bolsonaro. Evangélica de berço,
ela frequenta e é pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular, de
tradição pentecostal.

Paralelo à religião, o outro grande fio condutor da carreira política
da nova ministra começou a ser desenrolado na adolescência. Em Sergipe,
ela se envolveu aos 14 anos com organizações ligadas à defesa da
criança, dando aulas de alfabetização. A vocação para o tema teria
nascido antes, da forma menos inspiradora possível: um abuso sexual
sofrido aos 6 anos de idade. Hesitei em falar sobre o fato, dei algumas
voltas antes de perguntar, mas ela foi rápida em entender e me contou,
entre enfática e emocionada.

‘Ele enganou meus pais e me submeteu a várias sessões de estupro.’

“Um homem se hospedou na minha casa dizendo ser missionário. Ele
enganou meus pais e me submeteu a várias sessões de estupro. Tirou minha
inocência, achei que eu não iria mais para o céu. Mais tarde eu tentei
me suicidar, mas tive um encontro com Jesus que me livrou da morte. A
partir dali, resolvi fazer daquela dor a minha bandeira.”
Entre o final dos anos 80 e a metade dos 90, a advogada acompanhou a
criação de políticas públicas relacionadas à infância, como o Estatuto
da Criança e do Adolescente, assessorando políticos cristãos. Em 1998,
ela aterrissou definitivamente na capital federal e passou a trabalhar
com o deputado João Campos, futuro presidente da Frente Parlamentar
Evangélica e de quem se tornaria chefe de gabinete.
No ano seguinte, ela participaria da equipe de assessores da CPI da
Funai, introduzindo a causa indígena em seu portfólio. “Ali eu descobri
que crianças eram enterradas vivas por suas famílias ao nascerem
defeituosas. Resolvi lutar contra o infanticídio indígena para sempre.”
Em pouco tempo, porém, o ar-condicionado de uma sala com mesa e
telefone empurraria a pastora para longe da rotina de gabinete. Damares
Alves queria sair e transitar. Fora do cargo e já uma habitué dos
corredores, ela passou a perceber o potencial contido no grupo de
parlamentares evangélicos que começava a se organizar para votar o
Código Civil, em 2002.
O novo conjunto jurídico tratava de temas caros ao pastorado, como
taxação de igrejas, flexibilização dos conceitos de família e
facilitação do divórcio. Antes divididos, os deputados e senadores das
mais diversas igrejas precisariam abdicar das divergências teológicas em
nome da proteção política.
Oficializada a partir daí, a Frente Parlamentar Evangélica passaria a
atuar com mais força em torno de pautas morais no Congresso poucos anos
depois. A votação do PL 122/2006, que criminaliza a homofobia, o debate
sobre o aborto que marcaria a disputa à presidência em 2010 e a
escalada do deputado-pastor Marco Feliciano à presidência da Comissão de
Direitos Humanos da Câmara, em 2013, colocariam  o bloco religioso no
centro da política nacional.

Pioneira na paranoia do ‘kit gay’

Damares Alves acompanhou tudo isso de perto, e foi justamente em 2013
que ela começou a sair das sombras dos parlamentares para os holofotes.
Durante uma pregação noturna na Primeira Igreja Batista de Campo
Grande, Mato Grosso do Sul, a pastora apresentou aos fiéis uma série de
slides com denúncias supostamente inéditas de erotização infantil
promovida pelo Estado.
Muito antes de Jair Bolsonaro levar o chamado “kit gay” à bancada do
Jornal Nacional na entrevista pré-eleições de 2018, Alves já apontava
para a existência de cartilhas escolares “ensinando homossexualidade”.
Na fala, a advogada alertava, por exemplo, que a ex-prefeita de São
Paulo Marta Suplicy teria pago um grupo de estudos para promover
práticas de masturbação em bebês. E convocava: “a igreja evangélica está
deixando isso acontecer. Vamos começar a reagir, porque estão detonando
as nossas crianças”.
Damares Alves já havia gravado apresentações do tipo anteriormente,
mas a popularização proporcionada pelo YouTube impulsionou o vídeo como
nunca antes (a edição original
tem hoje cerca de 650 mil views). O material foi, inclusive, meu
primeiro contato com a imagem e a voz dela. Viral, ele passou a ser tema
de encontros em igrejas, foi visto por padres, espíritas, médicos e até
traduzido para outros idiomas. A partir de então, o boom de convites
para palestras valorizaria o passe da pastora dentro e fora do
Congresso.
A desconfiança sobre as falas de Damares Alves no vídeo, no entanto,
pairou sobre a pesquisadora Magali Cunha, então no departamento de
comunicação da Universidade Metodista de São Paulo. Em um relatório
analisando todos os slides da palestra, ela constatou: sem fontes, a
maior parte das informações continha inverdades, falsas associações e
generalismos.


Contestada, a advogada me diria que não precisava provar as denúncias
porque “existe entre a ovelha e o pastor o princípio da confiança mútua
e da credibilidade”. E atacaria: Magali foi uma enviada do PT para
deslegitimar sua atuação enquanto evangélica e conservadora. Ficou por
isso mesmo.


Os deputados dela


Não foram poucas as vezes em que Alves parou para cumprimentar outros
assessores, tirar fotos com fãs ou adiantar assuntos da pauta
evangélica com parlamentares enquanto andávamos pelo Congresso.


Em uma das conversas, com prancheta e folhas de papel na mão, ela
caminhava ao lado de um deputado enquanto planejava a derrubada do
projeto de lei  882/2015, de Jean Wyllys, do PSOL carioca. Colocada em
tramitação dois meses antes, a proposta sugeria a descriminalização do
aborto no país e seria discutida na Comissão de Seguridade Social e
Família nas semanas seguintes. “Vamos lutar para barrar isso”, Damares
prometeu. O PL está parado no colegiado até hoje.


Me impressionou a forma como a assessora reivindicava para si uma
espécie de propriedade dos parlamentares evangélicos. “Eu oro com os meus deputados. Eu leio a Bíblia com os meus deputados. Eu vou na casa deles orar quando eles estão tristes”, ela me diria sobre sua relação com os parlamentares.


‘Eu oro com os meus deputados. Eu leio a Bíblia com os meus deputados.’


Impressionante também era a quase onipresença com que ela se movia
para acompanhar os eventos da bancada evangélica. Durante dois dias de
gravações na Câmara, acompanhei-a na reunião semanal do grupo,
encontrei-a no culto que ocorre às quartas-feiras pela manhã e em duas
audiências públicas que tratavam de homossexualidade, ambas convocadas e
com massiva presença dos parlamentares cristãos.


É possível dizer que a substância responsável por dar alguma
consistência ao discurso de Jair Bolsonaro na última campanha estava
sendo formulada nesses eventos. Grande parte das teses conspiratórias,
dos inimigos comuns e das ações de contra-ataque a eles eram apontados
ali. O futuro presidente, aliás, compartilhou do mesmo espaço com
Damares Alves em diversas ocasiões, ambos como ouvintes e também
participantes ativos.

Entre um evento e outro, Alves me pediu para acompanhar a entrevista
que daria sobre “ideologia de gênero” para a rádio Canção Nova, de
orientação católica. Entrar ao vivo na emissora demonstrava que a
pregação da advogada não se resumia ao mundo evangélico, normalmente
refratário à Igreja de Roma. Valia se aliar aos antigos inimigos dos
protestantes em nome dos bons costumes.


“Eu fiz aula de biologia e nunca precisei levar uma banana para a
sala e botar uma camisinha nela. Se os pais souberem de algo que os
professores estão ensinando e que contrarie seus princípios, devem
denunciar”, disse ela, em tom enérgico, ao apresentador do programa.


A consolidação do underground


A despeito dessas e de outras declarações que fazem estourar os
tímpanos mais progressistas, é preciso dizer que Damares é um tanto
complexa. Como a própria bancada evangélica, ela não não encarna um
bloco monolítico de ideias e opiniões.


Contrariando Magno Malta, seu ex-chefe, ela me surpreendeu ao dizer
que não endossa a redução da maioridade penal, por exemplo. “Quem
defende crianças e adolescentes não pode ser a favor de prendê-los”.


Diferente ainda de Bolsonaro, ela já se manifestou contra a diferença
salarial entre homens e mulheres e chegou a dizer que lutaria a favor
de crianças discriminadas por sua orientação sexual. A declaração não
caiu bem para parte do parlamento evangélico, diga-se.


‘Quem defende crianças e adolescentes não pode ser a favor de prendê-los’


Mal também soou a nomeação da pastora para quem esperava estar entre
as primeiras opções do presidente. O próprio Magno Malta, dado como
certo no cargo e depois preterido, declarou não ser coisa sua a
indicação Damares Alves. Em uma entrevista de respostas curtas ao Intercept, ele diz não estar chateado com o esquecimento de Bolsonaro. Mas tampouco parece estar satisfeito.


Na última quinta, no Centro Cultural Banco do Brasil, sede da
transição do governo, a escolha de Damares Alves pelo presidente eleito
foi anunciada à imprensa.


Falando aos microfones de tantas emissoras provavelmente pela
primeira vez, a agora ministra manteve o tom enérgico e professoral com o
qual costuma pregar. Quase sempre com o indicador em riste, ela relatou
brevemente seu histórico, anunciou suas principais medidas e deu os
primeiros avisos aos desconfiados, já adiantando que a prioridade pasta será “a proteção da vida”.


Ao seu lado direito, a figura de Onyx Lorenzoni se impunha, mirando o
horizonte. Outrora um deputado de pequena importância do DEM, o gaúcho
foi alçado à Casa Civil do Planalto.


Naquele momento, os dois sintetizavam o tom do novo ministério: a
vitória do baixo clero, que tem em Jair Bolsonaro seu maior troféu. A
Brasília underground, agora, virou governo.