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Grito contra a violência das juventudes toma as ruas de Copacabana
Fonte: Jovens Conectados AQUI
As ruas de Copacabana, no Rio de Janeiro, foram ocupadas na tarde de
ontem (26) por jovens de todo o mundo que marcharam contra a violência, o
extermínio e deram gritos em favor da vida das juventudes. A Marcha
Mundial A juventude quer viver reuniu cerca de 2.500 pessoas que se
concentraram na Praça do Arpoador e seguiram até Copacabana.
Em um percurso de pouco mais de três quilômetros, os jovens chamaram a
atenção de todas as pessoas que estavam no local. Em forma de jogral,
os participantes repassavam frases e entoavam cantos que iam do começo
ao fim da marcha como: “a juventude tem consciência e está em marcha
contra a violência.” Ao entrarem em Copacabana falaram à população:
“povo do Rio de Janeiro reunido para a Jornada Mundial da Juventude,
somos a juventude Católica que se engaja e luta por justiça social e que
hoje relembra o martírio de Jesus Cristo e os jovens exterminados. Como
disse o Papa Francisco, somo uma igreja pobre e para os pobres.”
“Essa foi uma marcha contra a violência, contra o extermínio e as
desigualdades que assolam as juventudes pobres, excluídas, negras,
quilombolas, indígenas. É a marcha da juventude pela vida!”, disse Leon
Patrick, da Cáritas Minas Gerais. Patrícia Amorim, da Cáritas Ceará,
alertou sobre as divergências que ocorrem: “diferente do que se fala,
não são os jovens que matam mais. Os jovens são os que morrem mais.
Jovens negros, empobrecidos e das periferias principalmente urbanas. Nós
lutamos pela vida e pelos direitos humanos de todas as juventudes.”
Alessandra Miranda é assessora nacional de Direitos Humanos da
Cáritas Brasileira, e completou dizendo que é necessário cultivar e
promover a cultura da paz. “Nós, da Rede Cáritas, trabalhamos para a
conquista de direitos desses jovens e assumimos a juventude como uma de
nossas prioridades”, destacou.
Erick Guardalo veio da Cáritas de Honduras para participar do
Encontro Internacional de Jovens da Cáritas e da Jornada Mundial da
Juventude (JMJ). Durante a marcha ele disse que o ato foi um grito de
toda a América Latina. “Não queremos mais fome no mundo. Não queremos
mais opressão. Não queremos mais repressão. É um chamado para o mundo
inteiro que acredita na juventude. Que acredita que os jovens podem
transformar e construir uma nova sociedade. Eu peço que a juventude se
una em oração, em campanha para que, por meio de todos os nossos
esforços, a gente construa um mundo melhor.”
“A marcha foi muito positiva, pois conseguimos apresentar nossas
pautas e as pessoas que estavam por onde passamos iam se juntando a
nós”, avaliou Thiesco Crisóstomo, secretário nacional da Pastoral da
Juventude que completou dizendo que alguns veículos de comunicação,
principalmente os comerciais, vincularam a Marcha Mundial com as
recentes manifestações ocorridas no Brasil. “Inclusive chegaram a
mencionar uma relação da nossa marcha com os atos que ocorreram na noite
de ontem (26) no Rio de Janeiro. Não! Isso não ocorreu. Quando a marcha
terminou por volta das 16h, o grupo seguiu para acompanhar a Via
Sacra”, ressaltou.
A Marcha Mundial A juventude quer viver fez parte da programação da
Tenda das Juventudes, atividade oficial da JMJ. A tenda foi organizada
pela Cáritas Brasileira, Pastoral da Juventude (PJ), Juventude
Franciscana (Jufra), Centro de Formação, Assessoria e Pesquisa em
Juventude (Cajueiro), Rede Ecumênica da Juventude (Reju), Irmandade dos
Mártires da Caminhada e Setor Pastoral da PUC/RJ. A atividade ocorre na
Paróquia Santa Bernadete, na Avenida dos Democráticos, 896, no bairro
Higienópolis.
Copacabana
Esquerda católica vai às ruas na Jornada Mundial da Juventude
jovens ligados à Teologia da Libertação protagonizam marcha mundial
contra o extermínio da juventude e defendem igreja aberta e comprometida
com os pobres
redução da maioridade penal e também contra a violência e o extermínio
de jovens”, afirmou o paraense Thiesco Crisóstomo, secretário nacional
da Pastoral da Juventude (PJ), durante a Marcha Mundial “A Juventude
quer Viver”, realizada na tarde de ontem (26), pouco antes da missa com o
papa Francisco, na zona sul do Rio de Janeiro.
Depois de percorrer cerca de três quilômetros, do Arpoador à praia de
Copacabana, a marcha encerrou as atividades da Tenda das Juventudes,
espaço oficial da Jornada Mundial, que reuniu uma rede de entidades e
pastorais comprometidas com as transformações sociais.
Severine Macedo, secretária nacional de Juventude do governo da
presidenta Dilma Rousseff, participou do protesto. A jovem de 31 anos
iniciou sua militância em uma área rural de Santa Catarina. “A
pastoral tem uma inserção forte nas comunidades e faz uma discussão
sobre a questão social. Além disso, discute a espiritualidade e a Igreja
Católica, mas com um pé na luta. A galera também atua em partidos,
sindicatos e movimentos sociais. Acho que isso diferencia muito a PJ de
outras organizações católicas”, define.
Com o nome de jovens pregados à cruz, tocando instrumentos e cantando
palavras de ordem, como “para a Igreja avançar, tem que ser mais
popular”, mais de duas mil pessoas lembraram os 20 anos da chacina da
Candelária, o massacre do Pinheirinho, de Eldorado dos Carajás, entre
tantos outros episódios rotineiros de assassinato da população juvenil.
“Hoje nós estamos celebrando a Via-Sacra na Jornada Mundial da
Juventude. Quando a gente olha para a morte de Jesus, a forma como foi
feita, é lógico que também temos que olhar para nossa realidade. Então a
gente quis trazer junto com a Via-Sacra de Jesus, a Via-Sacra de tantos
jovens que são mortos todos os dias no país. A gente quis trazer não só
o Jesus da Igreja, mas o Jesus que está no rosto de cada um e cada uma
de nós”, refletiu Thiesco.
Futuro em risco
Para Severine, “esse é um momento muito importante da Jornada porque
chama atenção do mundo inteiro para este problema”. “A violência é
bastante alta no no mundo, especialmente nos países em desenvolvimento.
No Brasil, é como se caíssem oito aviões lotados de jovens todos os
meses. São em torno de 28 mil jovens assassinados por ano, vítimas de
arma de fogo. Mais de 90% são homens e mais de 70% são negros moradores
das periferias dos grandes centros urbanos.”
A secretária também lembrou que, em conjunto com a PJ e o movimento
negro, foi elaborado o Plano Juventude Viva que tem por objetivo
combater o extermínio de jovens no país. A recente aprovação do Estatuto
da Juventude também foi comemorada como uma das medidas para enfrentar o
problema.
Ao longo de sua passagem, a marcha despertou diferentes reações na
multidão que aguardava a passagem do papa desde cedo pela orla de
Copacabana. Houve quem confundisse a manifestação com os protestos pelo
Fora Cabral ou achasse que se tratava de uma atividade de partidos
políticos. Alguns poucos faziam o sinal da cruz, como se estivessem se
protegendo de alguma coisa. A grande maioria, porém, aplaudiu e
expressou apoio às bandeiras dos manifestantes.
Quem também passou para dar o seu apoio foi o ministro da
Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Ele se
disse encantado com a Jornada Mundial da Juventude. “Você vê centenas de
milhares de jovens de várias nacionalidades andando pelas ruas,
cantando, sorrindo, trocando ideias, vendo uma manifestação popular,
como esta da Pastoral da Juventude. Eu acho que o Brasil precisava deste
gesto”, disse.
A Jornada Mundial da Juventude iniciou nesta segunda-feira (22) e
segue até domingo (28) na capital fluminense. A organização recebeu 375
mil inscritos, vindos de 175 países, sendo 220 mil inscrições
brasileiras. O evento, realizado a cada dois ou três anos, promove um
encontro internacional de jovens católicos com o papa. A última edição
ocorreu em 2011, em Madri, na Espanha, e reuniu cerca de 2 milhões de
pessoas, de mais de 190 países. O JMJ 2013 também marca a primeira
visita do papa à América Latina desde sua nomeação, em 13 de março.
Ecumênicos participam da Jornada Mundial da JuventudeAQUI


A JMJ, que terminou hoje, é um evento criado para atrair
jovens à Igreja Católica e despertar neles o espírito missionário.
Pesquisas indicam que o número de católicos se reduz em todo
o mundo, especialmente entre jovens. No início do século XX, quase 90% da
população da Europa Ocidental se assumiam como católica. Hoje, apenas 24%.
No Brasil, o DataPopular constatou que, em apenas três anos,
o índice de jovens católicos se reduziu em 30,6%. Em 2010, 63% dos jovens entre
16 e 24 anos se declaravam católicos. Hoje, apenas 44,2%.
Quais as causas desse desinteresse dos jovens pela Igreja?
Por que eles são presença rara nas missas de domingo?
Há dois fatores a serem considerados. Primeiro, o crescente
desinteresse das famílias católicas em cuidar da educação religiosa de seus
filhos e netos. Com frequência, amigos me indagam: “Minha filha tem 18 anos,
meu filho 16, e nenhuma motivação religiosa. O que fazer?” Dou sempre a mesma
resposta: “A pergunta chegou com 10 anos de atraso. Se seus filhos tivessem 8 e
6 anos, eu saberia o que responder”.
O que esperar de um jovem que, na infância, jamais viu os
pais participarem da Igreja, orar em família, comentar um texto bíblico? O que
esperar se, na Semana Santa, se aproveita para viajar, e não para celebrar a
morte e ressurreição de Jesus? E o Natal é comemorado em família em torno da
figura consumista de Papai Noel ou como festa do nascimento de Jesus?
Os próprios anacronismos e rigores da Igreja são outro fator
de afastamento dos jovens do catolicismo. Como atrair jovens se pesa sobre eles
as exigências de manter a virgindade até o casamento, jamais usar preservativo
e, uma vez casados, não ter relações sexuais exceto se houver intenção de
procriar?
Soma-se a isso o despreparo de muitos padres e freiras. No
afã de cobrir o déficit de sacerdotes, pois há cada vez menos vocações e muitas
evasões (padres que se casam e ficam impedidos de rezar missa), a formação dos
seminaristas no Brasil é, em geral, de péssima qualidade, salvo raras exceções.
A filosofia é estudada em apostilas e cópias de sites, sem
contato com fontes primárias e textos integrais. A teologia é quase um curso de
catequese para adultos, mera retransmissão da tradição doutrinária, sem debates
e pesquisas sobre temas da atualidade.
As freiras nem curso superior costumam fazer, como se a
dedicação com que se entregam à pastoral fosse suficiente para uma eficaz
evangelização. Há bispos e padres que as encaram como meras coadjuvantes,
adultas infantilizadas que devem ser mantidas distantes dos temas teológicos.
A Igreja, para atrair jovens, deve renovar sua postura nesse
mundo globalizado, pós-moderno, do século XXI. Para isso basta aplicar as
decisões do Concilio Vaticano II e valorizar o protagonismo dos leigos, sobretudo
dos jovens, na missão evangelizadora.
Caso contrário, haverá, sim, jovens da Igreja, fechados em
movimentos espiritualistas, descolados da realidade, subjugados por um
moralismo que centraliza o pecado na sexualidade, indiferentes aos apelos do papa
Francisco de não transformar a Igreja em uma ONG, mas fazê-la sair pra fora,
ser fermento na massa, participar, como Jesus, da conflitividade e dos desafios
do mundo em que vivemos.
Não custa recordar que todos nós, cristãos, somos discípulos
de um prisioneiro político. Jesus não morreu de doença ou de acidente em
Jerusalém. Foi preso, torturado e condenado à morte na cruz por dois poderes
políticos.
[Frei Betto é escritor, autor de “Hotel Brasil – o mistério
das cabeças degoladas” (Rocco), entre outros livros.
http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto.