Segunda, 24 de março de 2014
Romero. Durante 13 anos, tivemos até um arcebispo do Opus Dei. Mas
simplesmente não há figuras episcopais desse porte. É o ‘legado’ das
nomeações de João Paulo II e Bento XVI”, avalia o teólogo.
| Foto: Wikipedia |
“Um símbolo da opção preferencial pelos pobres da Igreja até hoje.” É assim que o arcebispo de San Salvador, Óscar Romero, é lembrado pelo teólogo Juan Hernández Pico
e alguns setores da Igreja, 34 anos depois da sua morte. Assassinado
por um atirador do exército salvadorenho em 24 de março de 1980,
enquanto celebrava uma missa, Romero está entre os
mártires da Igreja latino-americana moderna, que atuaram politicamente
para combater as injustiças sociais do continente.
De acordo com Pico, Romero
é lembrado em seu país de muitas maneiras, e nas paróquias populares é
considerado “o maior santo”. Em outros setores católicos, entretanto,
“sua figura é vista politicamente como nefasta”. O arcebispo
salvadorenho ficou conhecido por denunciar as violações dos direitos
humanos em El Salvador em suas homilias dominicais e por apoiar as vítimas da violência política durante a Guerra Civil de El Salvador.
em termos geográficos, um dos três países latino-americanos com menor
crescimento econômico e enfrenta problemas sociais relacionados à
violência e ao narcotráfico. Na última semana, o país elegeu o novo
presidente, Salvador Sánchez Cerén, que já havia
ocupado cargos do governo em outras ocasiões. Na avaliação de Pico, a
eleição do ex-guerrilheiro demonstra que a população “conseguiu superar a
‘auréola’ guerreira que, em outras eleições, acompanhava os
ex-comandantes guerrilheiros (Facundo Guardado e Shafic Jorge Handal perderam fortemente como candidatos a presidente em 1999 e em 2005)”. Cerén foi eleito com 50,11% dos votos, o que demonstra que “o país está dividido”, disse Juan Hernández Pico à IHU On-Line,
em entrevista concedida por e-mail. Para ele, “nenhum dos candidatos
poderia governar sem uma aliança”. Essa eleição, portanto, “talvez seja a
oportunidade para voltar ao espírito dos acordos de paz, recuperá-lo e
propor um plano conjunto de nação. Não vai ser fácil superar os
extremistas de ambos os partidos, sobretudo os direitistas da Aliança Republicana Nacionalista, que ainda cantam um hino que diz que ‘a liberdade é escrita com sangue’”.
Confira a entrevista.
o canonize. Há alguns setores católicos da alta classe em que a sua
figura é vista politicamente como nefasta. Não devemos nos esquecer de
que a Comissão da Verdade, que procede dos Acordos de Paz, assinalou o fundador do partido de direita Arena, o major Roberto D’Aubuisson,
como autor intelectual do seu assassinato. Anualmente, no sábado
anterior ao aniversário do assassinato, realiza-se uma peregrinação da Plaza del Salvador del Mundo, onde há uma estátua de Romero, até a Catedral,
onde se celebra uma Eucaristia com a maior parte dos bispos do país e,
depois, há uma vigília festiva. Neste governo, colocou-se um mural sobre
Romero no aeroporto, e batizou-se com o nome de Romero a rodovia mais importante da cidade. Na Universidade Centro-Americana – UCA, conserva-se a sua memória estudando-se a sua teologia e o que ele significou para a Igreja e para o país. Jon Sobrino escreve muito sobre ele.
“Ainda são muitos os salvadorenhos que precisam emigrar para encontrar trabalho” |
ainda são atuais considerando o contexto social e político de El
Salvador? Ainda há reflexos de sua luta na sociedade salvadorenha?
nunca fosse canonizado. Há outra pequena parte que desejaria que ele
fosse canonizado como confessor: “Um grande sacerdote destacado pelo seu
magnífico desempenho sacerdotal”. A grande maioria espera a sua
canonização como mártir, o mais rápido possível, e às vezes há decepção
com o longo tempo de espera. Sabe-se que a Congregação da Fé há muito tempo aprovou a catolicidade de todos os seus escritos. Espera-se que Francisco mova a canonização de Romero com rapidez. Esse seria o sinal que o consagraria, assim como indicam outros sinais.
entre os anos 1980, quando Romero foi assassinado, aos dias de hoje, 34
anos depois? O que mudou na sociedade salvadorenha ao longo desse
tempo?
vai repetir um mandato presidencial e com um líder guerrilheiro como
candidato e presidente eleito diz algo sobre as possibilidades dessa
democracia. No entanto, faltam mudanças econômicas sérias.
“O narcotráfico é muito mais perigoso do que as maras” |
três países latino-americanos com menor crescimento econômico anual
médio, e a iniciativa privada e os grandes capitais investem
preferencialmente (embora não unicamente) fora do país, na economia
global. Ainda são muitos os salvadorenhos que precisam emigrar para
encontrar trabalho, por exemplo.
debate eleitoral entre os dois principais candidatos à Presidência da
República de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén e Norman Quijano? Em
que consistiam as propostas políticas de ambos e qual, na sua avaliação,
é mais eficaz para governar El Salvador?
Juan Hernández Pico –
Infelizmente, a campanha eleitoral não debateu projetos sérios de
nação. A segurança monopolizou os debates. Sim, a campanha foi muito
tranquila e cortês por parte dos candidatos da FMLN. Foi muito dura e, às vezes, criadora de ódio por parte dos candidatos da Arena.
“A violência é muito mais forte entre os narcotraficantes. E muito mais financiada, evidentemente” |
é um homem de 69 anos, educador de profissão. Uniu-se no início dos
anos 1970 às organizações guerrilheiras, depois de ter militado como
professor sindicalista. Foi o comandante de uma das cinco organizações
político-militares que se uniram para formar as Forças Populares de Libertação – FMLN. Foi vice-presidente da República durante o governo do presidente Funes e ministro da Educação,
um dos dois ministros mais bem considerados nas pesquisas de opinião
pública. É uma pessoa inteligente, gentil e também capaz de diálogo. Uma
das coisas que essas eleições mostraram é que El Salvador conseguiu superar a “auréola” guerreira que, em outras eleições, acompanhava os ex-comandantes guerrilheiros (Facundo Guardado e Shafic Jorge Handal
perderam fortemente como candidatos a presidente em 1999 e em 2005).
Além disso, ele foi acompanhado como candidato a vice-presidente por
alguém muito mais jovem, um prefeito no cargo, reeleito como prefeito em
uma grande cidade por três vezes (ou seja, eleito quatro vezes).
com 50,11% dos votos. Qual o significado dessa votação tão acirrada? A
população estava muito dividida?
país está dividido. Nenhum dos candidatos poderia governar sem uma
aliança. Talvez seja a oportunidade para voltar ao espírito dos acordos
de paz, recuperá-lo e propor um plano conjunto de nação. Não vai ser
fácil superar os extremistas de ambos os partidos, sobretudo os
direitistas da Aliança Republicana Nacionalista, que ainda cantam um hino que diz que “a liberdade é escrita com sangue”.
Salvatrucha e como eles têm atuado em El Salvador e na América Central?
Por quais razões o grupo tem conseguido se manter desde os anos 1980?
por jovens salvadorenhos deportados. Hoje, o que era um jogo violento
provavelmente se tornou uma dependência do tráfico de drogas. O
narcotráfico é muito mais perigoso do que as maras. Ainda mais quando
tenta passar despercebido por trás da máscara das quadrilhas, às quais
se atribui toda a violência. A violência é muito mais forte entre os
narcotraficantes. E muito mais financiada, evidentemente. Enquanto não
houver políticas de emprego sérias, não vai ser fácil começar a resolver
o problema das quadrilhas. Eu acho que os problemas das favelas pode
fazer com que vocês entendam melhor o que acontece aqui.
“Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, estão construindo uma dinastia à la Somoza” |
Por outro lado, eles têm um voto duro que remonta à década
revolucionária dos anos 1980 e agem com os pobres de forma populista,
não os tirando estruturalmente da pobreza, mas mantendo-os dependentes
das dádivas do Estado. Desfrutaram de mais de 3,5 bilhões de dólares,
vindos do chavismo venezuelano e que não estiveram sujeitos a aparecer
no orçamento, mas são administrados pela família presidencial. Eles
estão construindo uma dinastia à la Somoza.
Juan Hernández Pico – O principal problema da América Central é a sua fragmentação em “paisinhos”. Se se conseguisse a Integração Centro-Americana, seríamos o quinto grupo populacional da América Latina (depois do Brasil, México, Argentina e Colômbia). Junto com o Panamá,
teríamos entre 43 e 44 milhões de habitantes. Mas assim temos seis
grupos oligárquicos defendendo direitos de minorias, seis exércitos,
seis polícias, 12 aduanas territoriais. Uma confusão. O fato de ser um
corredor do narcotráfico aumenta os nossos problemas. E principalmente a
posição geoestratégica de corredor de acesso à água da bacia amazônica,
que não pode ser deixada nas mãos de qualquer um.
Veja também:
Oscar Romero, modelo profeta para hoje
As ”últimas” homilias de Dom Romero. Artigo de Jon Sobrino
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