A politização do carnaval e a culturalização da politica e da educação de base.(8)

LIGANDO OS PONTOS. UM MOMENTO FORTE DO PROJETO RECULTURARTE EM 1990 COM O CARNAVAL 2019.

Bastante curioso como os  dois tempos em que  estou imerso nesse
momento, dialogam  de forma intensa. O  ano de 1990, quando escrevo
sobre a organização do primeiro encontro de menores do bairro américa e a
passeata  de protesto “culturalizada”,  realizada como culminância do
referido encontro que aconteceu neste ano, e o tempo propriamente em que
estou inserido agora, o ano de 2019  com seu  carnaval, considerado um
dos mais politizados.

Da parte dos setores mais tradicionais e conservadores  de direita, 
leio critica quanto aos aspectos imorais e violentos do carnaval,
resumindo o carnaval a isso, tão somente. 

Como é do conhecimento de quem nos lê, o  exemplo mais eloquente 
nesse sentido foi a postagem do vídeo pornográfico realizada pelo
presidente Bolsonaro, como resposta a avalanche de criticas que recebeu
dos  foliões de norte a sul do país. 

Também quem assistiu a cobertura do  carnaval 2019 realizado pela  TV
Record, só viu cenas de violência associadas aos  festejos de Momo.  

Já do lado dos setores mais tradicionais e conservadores de esquerda,
leio a reiteração da antiga  critica aos aspectos alienantes e de fuga
do carnaval, resumindo o carnaval a isso, tão somente.

Como exemplo, temos a postagem abaixo que recebi no whatzap, compartilhada depois por mim com o adendo que está ao final.

“Já que o Carnaval acabou, vamos acordar pra vida.

“Vamos amigo, lute!
Vamos amigo, ajude!
Senão
A gente acaba perdendo o que já conquistou…
Vamos levante e lute!
Vamos levante e ajude!
Vamos levante e grite!
Vamos levante agora!
Que a vida não parou
A vida não pára aqui
A luta não acabou
E nem acabará
Só quando a liberdade raiar… “

(Edson Gomes)
Lutar com arte! O carnaval 2019 deu a pista. Mas não esqueçamos o investimento necessário. ZdO

Também no rol de acontecimentos  próximos da semana do carnaval 2019,
incluímos o gesto “carnavalizado” do ator José de Abreu que se
autoproclamou presidente do Brasil, mesmo que este não   tenha sido
parte da programação para este período, mas que acabou se conectando.  

E esse gesto “carnavalizado” recebeu criticas, à direita, ameaça de
processo por parte de Bolsonaro e à esquerda, com comentários do tipo:
  “A esquerda é  capaz de lotar um aeroporto pra brincar de “ Zé de
Abreu na presidência”, mas não consegue  lotar as ruas  do Rio para
protestar contra o Bozo e a Reforma da Previdência. Estamos bem! Bom
sábado a todos.”

E o que tem a ver o micro  acontecimento, com alguns pormenores
apresentado  abaixo, cuja pesquisa e escrita do texto foi concluída no
dia de hoje, 10 de março de 2013, com o macro acontecimento do carnaval
de 2019?

O depoimento de Paulo Sergio, na época educador e coordenador
administrativo do projeto Reculturarte, nos mostra o quanto  a
metodologia utilizada, se assemelha  ao processo pedagógico e cultural
da construção de um carnaval de escola de samba ou de bloco afro.

Encontro que marcou o lançamento do projeto Reculturarte em Sergipe e da campanha nacional “Não Matem Nossas Crianças.”

“O encontro muito bonito aconteceu no Bairro América,  na Escola
Santa Rita de Cássia nos dias 23 , 24 e 25 de novembro de 1990. Depois,
abrindo a programação do dia 26, tivemos a  missa que deu o ponta pé da
mobilização de rua . Esta foi  celebrada pelo Pe. Didiu e pelo Pe.
Gabriel, que eram salesianos,  na Igreja de São José,   o que  foi muito
bom. Assim como foi  toda a concentração na Pça. Tobias Barreto, em
frente a Secretaria de Segurança que ficava próximo a igreja, depois
tivemos a caminhada até o centro da cidade, nos levando a crer que as
autoridades de Sergipe iriam tomar posição  em relação as chacinas de
crianças, ainda mais com o envolvimento do procurador geral da
república,   na época Aristides Junqueira, da Anistia Internacional e da
secção sergipana da  OAB, que  entrou de cheio, com o presidente Clóvis
Barbosa. Naquela época a OAB era mais envolvida com a questão social.
Depois,  continuando uma caminhada muito boa pelas ruas do centro da
cidade. Me  recordo da presença de  Ivanir Santos, que era o coordenador
do Centro de Apoio às Populações Marginalizadas (CEAP) do Rio de
Janeiro  e que  veio a Aracaju lançar a campanha nacional “Não Matem
Nossas Crianças”. Sobre o primeiro encontro,  acolhemos pela manhã as
crianças e  os pais, a educadora Rosangela Souza  cantou, teve a
palestra com Rosana do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua,
Zé da Guia e Zezito de Oliveira fizeram a abertura,  representando o
CESEP e a AMABA respectivamente.  Frei Florêncio Pecorari, o pároco da
Igreja São Judas Tadeu,  apareceu, deu uma palavrinha.  Teve  uma
apresentação do próprio projeto  Reculturarte, por meio de um esquete de
teatro e uma apresentação do grupo de dança FAMA, cujo responsável era o
professor Henrique. Teve também  gincanas e brincadeiras, e  não
poderia faltar o lanche e o  almoço. O almoço me marcou, porque quase
todas as crianças do nosso projeto passavam por situações difícieis , 
por necessidade,  e algumas até  fome e o almoço foi bom, porque vimos a
alegria e a felicidade dos pais dizerem, poxa em nosso bairro  tem uma
entidade que promoveu um encontro esclarecedor, de educação, sobre
cultura,  nos oferece um lanche e um  almoço desse. Estamos  num bairro
bom. Não existia somente a guerra da maconha, razão,  segundo a policia,
da morte de tantos  adolescentes e jovens.  Também existia projetos
sociais que precisavam ser vistos pela comunidade, para estimular a
comunidade a resistir, para  levantar a auto estima da comunidade e o
encontro serviu para isso. Foi  graças ao encontro que  tivemos sucesso
com a caminhada no centro. O encontro foi em três dias e no encontro
mobilizamos toda comunidade para participar da caminhada. Muitas
crianças que estavam na caminhada, eram do projeto Reculturarte, e já
estavam participando de atividades como teatro, capoeira, escolinha de
esporte e lazer, cooperativa dos guardadores de carros.  O encontro fez 
o  lançamento da caminhada acontecer em grande estilo.”

Cena da caminhada de protesto contra o assassinato de crianças e adolescentes por grupos de exterminio em 1990.

Em síntese, preparação de uma caminhada de protesto em alguns dias,
 imersos em um local, mesmo que não totalmente, já que as pessoas iam
dormir em casa, e contando com estrutura  de apoio e formação pedagógica
e cultural. 

E depois isso prossegue  de maneira permanente, não mais
episódica ou pontual, isso por conta do apoio financeiro e técnico
recebido das  agências  de cooperação Coordenadoria Ecumênica (CESE) e
Visão Mundial e que se estenderam até o final da década de 1990. As
oficinas culturais e a criação de grupos culturais, assim como o reforço
escolar e a escolinha de esportes. Os  retiros/acampamentos como
  momentos privilegiados para a formação humana integral.  Os encontros
para formação de educadores com base na pedagogia de Paulo Freire. Os
encontros com pais e familiares dos educandos. Os  festivais infantis e a
festa Kizomba, momento anual de apresentação dos trabalhos produzidos
pelos grupos culturais, que lembravam um pouco o clima e a apoteose que
significa um desfile de grandes blocos ou escolas de samba.

E isso não lembra o  barracão e a quadra?  Espaços que escolas de
samba e alguns blocos carnavalescos dispõem,  com a estrutura mínima
necessária para que pessoas possam estudar, debater e criar materiais
cênicos e cenográficos, entre outros tipos, para narrar uma história ou
para construir uma espécie de ópera popular.

Mas há que querermos sempre mais , como bem disse a colega ativista e
pesquisadora  do campo das culturas populares,  Marina Ribeiro,
respondendo à  uma questão proposta pelo colega também pesquisador e
ativista cultural, Jhonatam Vasconcelos. Disse Marina Ribeiro: “o
desfile é emocionante,  mas não sei se os bastidores daquela construção
também é. Conheço pouco do carnaval carioca, mas, do pouco que sei, cada
vez menos cargos de comando são de pessoas pretas ou de pessoas da
comunidade; as rainhas de baterias que muitas vezes têm que ser
artistas; carnavalecxs tão distantes do berço do samba; necessidade de
se ter muito muito, muito dinheiro para competir com o samba-enredo, etc
etc etc. Não sei como estas críticas sociais desfilando na avenida são
vividas no dia-a-dia das escolas e, principalmente, da comunidade que a
escola ocupa. O quanto realmente se investe na comunidade para que
seus/suas moradorxs possam ocupar (voltar a ocupar) espaços de
lideranças, criação, de decisão, de poder dentro do núcleo ativo das
escola/comunidade. Não sei mesmo sobre o carnaval carioca. Mas o canto
de Nelson Sargento pra mim está sendo superior aos emocionantes
desfiles: “mudaram toda sua estrutura, te impuseram outra cultura e você
não percebeu” (Samba, Agoniza Mas Não Morre, 1978).”

E foi por isso não ter sido feito suficientemente, que a
AMABA/Projeto Reculturarte chegou ao fim. Porém,  mais detalhes, tanto
sobre isso, como a respeito do encontro e caminhada constarão no livro.

Não fosse assim,  a AMABA/Projeto Reculturarte, como tantas outras
iniciativas de base comunitária que não conseguiram sobreviver, poderiam
estar dando nesse momento  importantes contribuições para enfrentarmos
os monstros e vampiros que querem devorar os nossos direitos e a nossa
dignidade.

Mas ficaram as lições e resta-nos aprender. Tanto  a ´partir das que
sucumbiram, como das que não sucumbiram. Por isso, vale conhecer,
registrar, sistematizar, estudar, recuperar a história e difundir as
melhores iniciativas dentre milhares de caráter social, educativo e
cultural que colaboraram/colaboram  para os avanços e as conquista
obtidas pelo povo brasileiro.

Como diz os palavras iniciais do capitulo 3 do livro bíblico
Eclesiastes. “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o
propósito debaixo do céu.
”  Decerto,  nestes tempos da onda conservadora
fascista que pensa poder nos afogar, uma outra maneira de utilizar o
tempo, para quem quer combate-la é viajar ao passado, tanto distante,
como recente, para descobrir as luzes que ajudaram a descortinar os sóis
do direito, da justiça,  da esperança, da alegria, do bem viver. E se
puder,  transformar isso em uma grande narrativa de resistência e de
superação como fizeram as escolas de samba Paraiso do Tuiuti e
Mangueira.

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