Social Mundial apresentou uma tensão interna axial. Claro que havia
outras, mas esta era constitutiva, conceitual. Refiro-me à tensão entre
os que viam o fórum como um espaço de encontro e debate, sem eixos nem
decisões de ação, e os que viam-no, ao contrário, como um impulsionador
de ações concretas. Havia múltiplos matizes entre ambos os extremos, mas
aquela tensão dominou a vida dos fóruns – e ainda a domina hoje –
embora, aparentemente, um dos lados tenha estabelecido sua hegemonia
sobre seu espaço e seu processo.
suas supraorganizações nacionais e internacionais. A segunda, por
sindicalistas, militantes de partidos políticos (embora estes não
tivessem representação oficial nas deliberações) ou intelectuais ligados
à militância histórica anti-imperialista.
se pode esquecer que grande parte da sua vitalidade veio da sua abertura
para um leque de atividades e posições que não era limitado por nenhuma
disposição de se obter uma “declaração final” obtida através de
processos que, por mais abertos que sejam, permanecerão herdeiros, pelo
menos por muito tempo, das velhas concepções de “centralismo
democrático”. Por outro lado, também não se pode esquecer que a mesma
vitalidade se deveu também a consignas matriciais como a da grande
manifestação em favor da paz e de uma cultura da paz (às vésperas da
invasão do Iraque), na terceira edição, ainda em Porto Alegre.
concepção do “espaço aberto” tornou-se hegemônica nos conselhos
decisórios dos fóruns. A segunda concepção, axial (chamemo-la assim),
passou a segundo plano.
representantes desta última corrente, ressentidos, passaram a ver, no
Fórum Social, um espaço esvaziado e desvitalizado, pelo menos
parcialmente, de sua razão de ser. Este olhar se manifestou em relação à
décima segunda edição do fórum, realizada na Tunísia, de 26 a 31 de
março.
dispersivo e fragmentado do que nunca. As revoluções, conquistas e
impasses no Maghreb, que, em princípio, justificariam a escolha da
Tunísia como espaço, não “deram a tinta” do fórum. Estiveram presentes,
sim, mas de modo discreto em relação ao esperado. A causa palestina foi
um dos eixos da edição, e motivo de sua manifestação de encerramento. Na
sua realização no espaço da jovem Universidade de El-Manar, por vezes
deu mesmo a impressão de um destes encontros acadêmicos, em que muitas
são as mesas e nichos, mas a catedral em construção não dá o ar de seu
travejamento. Aparentemente, o “espaço aberto”dominara de fato o fórum, e
o ressentimento dos “axiais” tinha sua razão de ser.
presença dos movimentos do Mahgreb e do Oriente Médio se deveu às suas
condições objetivas. São movimentos que ainda engatinham entre
conquistas importantes, mas limitadas por contradições e impasses
gigantescos, e numa região de poucos contatos sinérgicos entre os países
envolvidos. Muitos destes contatos se devem a uma cultura islâmica
comum (apoiada por uma presença quase onipresente da língua árabe), mas
colocada em posição subalterna por ditaduras, monarquias ou regimes
presidenciais fechados que mais isolavam os países uns dos outros do que
aproximavam os seus povos.
Social coincidiu com um período de seu enfraquecimento em quase todo o
mundo, com exceção da América Latina, onde sua robustez, apoiada por e
apoiadora de governos progressistas, sempre pareceu uma ameaça para os
advogados do “espaço aberto”. Veja-se, como exemplo, o que ocorreu no
Fórum de Belém, em 2009, quando o evento mais importante de sua
realização foi o encontro paralelo dos presidentes progressistas (Lula
entre eles) que galvanizou e polarizou as atenções. Na Europa,
sobretudo, a crise financeira, combinada com a hegemonia neoliberal em
todas as instituições da União Européia e da Zona do Euro combaliu até
mesmo a solidariedade internacional entre os trabalhadores, bandeira que
só começou a ser resgatada mais recentemente. De resto, o enfrentamento
com aquela hegemonia foi muito mais marcado, como nos Estados Unidos,
por movimentos do tipo “Occupy”, “Indignados” que, não raro, procuravam
se afastar da política e das mobilizações tradicionais.
por duas tendências axiais, apesar de toda a ênfase colocada no “espaço
aberto”. Não me refiro apenas a bandeiras do tipo “Dignidade”, motto do
Fórum e nome afinal dado ao movimento tunisiano que derrubou o ditador
Ben Ali, ou a da causa palestina. Refiro-me muito mais a movimentos
axiais que apontam para desdobramentos futuros em termos de formação de
redes de ação concreta.
jovens. Sua presença se devia a todos os matizes possíveis: estudantes
que temiam a repressão de uma “Sharia” que viesse a substituir com novas
imposições a ditadura anterior, desempregados, curiosos que estavam
tendo seu “batismo inaugural” em termos de militância. Isso deu uma
vitalidade enorme ao lado “laboral” do Fórum Social, em conjunto com uma
presença significativa dos sindicatos e associações de classe da
Tunísia.
mulheres e de seus movimentos. Foi significativo que, num país visto
como de tradição machista, a abertura do Fórum Social tivesse apenas
mulheres como palestrantes (além de um show notável capitaneado por
Gilberto Gil). As mulheres e suas articulações mostraram quer podem ser
os vetores das novas redes internacionais entre os movimentos
democratizantes na região, e da tessitura de amplas relações com o mundo
inteiro.
À Carta Maior, Wallerstein diz que ‘nada’ se compara ao Fórum Social Mundial
Para o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein (à
direita na foto), presente no Fórum Social Mundial da Tunísia, não há
nada que esteja acontecendo que se compare ao encontro, seja em termos
de visões, de inclusão ou de esforços para transformar o mundo. “Não é
perfeito, é claro, mas é um sucesso”, afirmou a Maurício Hashizume,
nosso enviado a Túnis.
Túnis – Referência internacional na
abordagem de questões geopolíticas e econômicas que preocupam a
humanidade, o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein foi um dos
“pesos-pesados” que circularam pelo campus da Universidade El Manar
entre os participantes do Fórum Social Mundial (FSM) 2013.
Entre
uma discussão e outra – algumas delas, aliás, em que o renomado
formulador da teoria do “sistema-mundo” esteve apenas como ouvinte para
captar a manifestação de movimentos e organizações sociais –, Carta Maior conseguiu uma entrevista exclusiva com Wallerstein.
Para
o sociólogo, não há nada que esteja acontecendo que se compare ao FSM,
seja em termos de visões, de inclusão ou de esforços para transformar o
mundo. “Não é perfeito, é claro, mas é um sucesso”. Leia a entrevista:
Carta Maior – O que o senhor pensa que sejam as principais questões que estão sendo discutidas neste Fórum Social Mundial?
Immanuel Wallerstein
– Estamos aqui discutindo o mundo! Estamos discutindo os problemas do
mundo e como podemos transformá-lo, pois “outro mundo é possível”.
Acreditamos nisso. E cada vez mais gente acredita nisso. Desde a
primeira vez que fui ao Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em 2002,
todos os encontros seguintes têm sido melhores: melhores porque envolvem
mais gente, por conta da estruturas das reuniões. E as pessoas
continuam querendo comparecer. Poderiam querer vir ou não. Ou até se
juntar a outra coisa qualquer. Mas no presente momento, não existe
alternativa ao Fórum Social Mundial. Não há nada que esteja acontecendo
que se compare a isso. Seja em termos de visões, de inclusão ou de
esforços para transformar o mundo. Não é perfeito, é claro, mas é um
sucesso.
CM – Mas ainda assim, como se vê em uma
quantidade enorme de painéis aqui apresentados, as forcas ligadas ao
capital seguem vencendo os embates contra os mais diferentes povos.
IW
– Eles não vão desistir fácil. Afinal, têm os seus interesses. Eles
estão defendendo a si mesmos e essa e uma coisa que eles sempre tiveram
que fazer. E eles podem ganhar. Eu não sou daqueles que dizem que o
futuro está garantido. Sempre disse que as chances são de 50%. Podemos
ganhar ou perder. E se perdemos será pior, é claro. Eles defendem os
interesses deles e não há nada de anormal nisso.
CM – E o que podemos aprender com a situação aqui da Tunísia?
IW
– Em Tunis, um dos principais problemas é a questão da “Irmandade
Muçulmana”, do governo e até da sua possível ligação com os salafistas.
Há uma grande divisão de opinião aqui. Alguns dizem que o Ennahda é o
demônio, que é apenas um fascismo que esconde o seu rosto. Outros dizem
que é uma realidade das presenças sociais. É um debate não resolvido. E
este Fórum é um dos lugares em que este debate está se dando.
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