Renan: retrato do eleitor brasileiro

Fonte: Agência Adital


José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor
do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past.
Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e
Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília



Adital

Sou um dos signatários da petição que circulou na
internet pedindo aos senadores que não elegessem Renan Calheiros como
presidente do Senado brasileiro. Apesar das mais de 250 mil assinaturas, a
maioria absoluta dos senadores fez vista grossa e não atendeu ao pedido de um
bom grupo de brasileiros honestos.
Mas quem tem boa memória não se surpreendeu. Afinal
de contas não é a primeira vez que isso acontece. É tradição do Senado
brasileiro, eleger gente suspeita para a sua presidência. Se alguém ainda tem
dúvida basta fazer uma pesquisa e verificar quem ocupou a cadeira de presidente
daquela casa, começando pelo antecessor de Calheiros. E se isso acontece é
porque a maioria absoluta dos senadores faz parte da mesma trupe e não tem
interesse de eleger para cargo tão importante pessoas que se pautariam pela
ética e pela transparência. A maioria é, no dizer do adágio popular, “farinha
do mesmo saco”.
Porém, nesta hora, ao invés de ficarmos revoltados
ou desperdiçando palavras inúteis, fazendo discursos demagógicos, precisamos
fazer um sério exame de consciência.
Certa vez li um texto do Dalai Lama no qual ele dizia que os grandes males da
humanidade existem porque falamos demais e refletimos muito pouco. Ele chegava
a afirmar que em situações como essas é preciso silenciar para percebermos a nossa responsabilidade e, a partir
disso, começarmos a agir de maneira diferente.
Quem é Calheiros?
O retrato fiel da maioria absoluta dos eleitores
brasileiros. Afinal de contas os que o elegeram não chegaram ao Senado através
de um golpe ou por eleição indireta. Não estamos mais na época dos “senadores
biônicos”. Foram eleitos por milhões de brasileiros. Logo, por dedução lógica,
foram eleitos por brasileiros e por brasileiras que, pelo voto direto, os
levaram ao Senado. E, também por dedução lógica, precisamos ter a sinceridade e
a humildade de reconhecer que ainda votamos de forma irresponsável, sem fazer
um discernimento sério e criterioso. Votamos porque o sujeito fala bem. Votamos
porque o cara tem dinheiro. Votamos porque ele é “bonitão” e ela é “lindona”.
Mas votamos também porque ele é o candidato daquele político mais próximo de nós,
que um dia nos fez um favor: pagou uma cachaça, financiou uma dentadura ou uma
receita de remédio.
Portanto, nada de lamentos e de atitudes bobas de
escândalo. Nós, brasileiros e nós brasileiras, de um modo geral, ainda somos
corruptos. Ainda temos a mentalidade do “jeitinho”. Aquele jeitinho que começa
“furando a fila” dos que aguardam o ônibus, ou a abertura do banco, e vai se
propagando até a venda do próprio voto. Dias atrás eu estava com minha esposa
na fila de um restaurante. Aguardávamos a abertura do mesmo para o almoço. Ao
se abrirem as portas do restaurante quase fomos atropelados, pois aqueles que
estavam atrás se precipitaram sobre nós para almoçarem por primeiro. E é bom
lembrar que não era um restaurante popular e que não havia nenhum risco da
comida se acabar. Gestos antiéticos como estes são muito comuns no nosso dia a
dia. Toda vez que podemos enganamos e nos desviamos da boa conduta, sempre com
a intenção de levar vantagem em tudo.
Somos um povo de memória curta, um povo que se
deixa levar facilmente pela propaganda, pela mentira e pela conversa fiada dos
farsantes. Em 1989 Collor de Mello, apoiado pela grande mídia, especialmente
pela Rede Globo, foi eleito com a falsa imagem de “caçador de Marajás”. Na
ocasião a maioria dos brasileiros recusou-se a ver quem ele era e por quem era
apoiado. O resultado desastroso nunca foi esquecido por quem tem boa memória,
especialmente pelos que faliram e sofreram danos horríveis a partir do confisco
do nosso dinheiro, por ele realizado no dia seguinte após a posse presidencial.
Confisco esse tão rentável que permitiu que a sua ex-ministra da Fazenda se
mudasse na época para os Estados Unidos, onde vive confortavelmente até hoje.
No momento a cena se repete. Brasileiros continuam
se empolgando e deixando-se enganar. Não aprendemos a lição. No segundo
semestre do ano passado muita gente ficou entusiasmada com a condenação dos
protagonistas do “mensalão” do PT, por parte da Justiça brasileira. Não foram
capazes de perceber que se trata de um ato politiqueiro, com a finalidade
explícita de desviar a atenção do povo brasileiro dos verdadeiros bandidos. E
para comprovar isso bastaria dar uma olhada nos outros julgamentos da Justiça
ou, melhor ainda, nos processos que se arrastam há anos. Bastaria conhecer os crimes
nunca julgados e nunca punidos. Seria interessante nos perguntarmos por que o
Procurador Geral da República não fez nada até agora para denunciar a famosa
“privataria tucana”, cujos documentos são públicos e notórios e envolve
criminosamente políticos brasileiros numa operação de desvio de quantias
vultosas dos cofres públicos brasileiros. Bastaria lembrar o mensalão do PSDB e
os escravocratas fazendeiros assassinos de Unaí (MG), bem pertinho de Brasília,
mandantes do assassinato dos fiscais do Ministério do Trabalho, até hoje
impunes. E poderíamos aqui multiplicar os exemplos.
Não estou aqui defendendo o PT e nem afirmando que
não houve mensalão, embora pairem dúvidas sérias sobre o assunto. O que estou
afirmando é que existem sérias evidências – pelo menos para as pessoas
inteligentes – de que este julgamento é politiqueiro e parcial. Os políticos do
PT não estariam sendo usados como bodes expiatórios, com a finalidade explícita
de nos desviar de crimes muito mais sérios? Por que mensalões cometidos antes
por outros políticos e partidos, com os quais o PT aprendeu a lição, permanecem
impunes até hoje? A Justiça deve explicação à população brasileira, se não
quiser continuar com a sua imagem arranhada. Ela deve saber que uma boa parte
dos brasileiros já não engole mais a propaganda da grande mídia. Como acreditar
numa Justiça, exaltada no momento do julgamento do mensalão do PT, se esta
exaltação vem de uma mídia que sempre esteve do lado da elite e da oligarquia
brasileiras, únicas responsáveis pela miséria do povo e pela corrupção em nosso
país?
É hora, pois, de acordar e de cada um de nós
assumir sua parte de responsabilidade nesta história. É hora de, com muita
coragem e determinação, reconhecer aquela tendência à corrupção e à
desonestidade que se aninha dentro de cada um e de cada uma de nós. É hora de
conversão, de reviravolta, de “mudança de hábitos”. É hora de parar de reclamar
e de agir com mais transparência, mais seriedade e mais ética.
Por fim, cabe lembrar, não para nos desculpar, que
este não é um problema só nosso e nem
só de hoje. Há exatos 80 anos Hitler, um dos maiores facínoras da humanidade,
chegou ao poder pelo voto direto. Na Itália, Berlusconi, talvez o maior
político corrupto daquele país em todos os tempos, chegou ao poder pelo voto
popular. E o que pensar de Putin na Rússia e de tantos outros políticos em
tantos outros países? Isso só vem confirmar a urgência de uma ética mundial, como incansavelmente vem
defendendo Hans Küng e outros cientistas e estudiosos.

Leia também: Há almoço grátis?  É possivel haver financiamento privado de campanhas politicas com base no interesse púbico?  AQUI 

Vídeo produzido pela Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do
Sistema Político, como forma de fomentar o debate sobre as mudanças
necessárias na política brasileira. Neste, o tema é financiamento
público de campanha.  AQUI
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