eram como que um testamento, escrito por amor. Com firmeza, punha
algumas pessoas no centro: os pobres, aqueles que buscam a fé, as
mulheres e os estrangeiros. A eles ele havia se dedicado com todas as
forças pela vida inteira. Não por acaso as suas demandas receberam o
nome de “Agenda Martini” para o conclave.
A opinião é do jesuíta austríaco Georg Sporschill, coautor, junto com o cardeal Carlo Maria Martini, do livro Diálogos Noturnos em Jerusalém (Paulus, 2008). O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 25-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
No dia 8 de agosto de 2012, a pedido do cardeal Martini, visitei-o em Gallarate junto com Federica Radice Fossati ConfalonieriTransilvânia, pelos jovens e pela mulher comprometidos naquele país.
No
momento da Comunhão, ele quis se levantar e, com uma ajuda, conseguiu.
Nunca me esquecerei dessa cena, de como ele estava profundamente
prostrado e, ao mesmo tempo, forte. A confiança desse homem provinha de
outro mundo. Depois da missa, eu o levei de volta ao quarto na sua
cadeira de rodas. Era o quarto modesto de um jesuíta.
No falar, o
cardeal buscava fatigantemente cada palavra. Compadecia-se da Igreja
que ele também amava. Somente a sua fé em Deus explica por que ele
deixou as instituições eclesiásticas e o rico mundo ocidental com
palavras de crítica radical.
“A Igreja deve reconhecer os
próprios erros e deve percorrer um caminho radical de mudança, começando
pelo papa e pelos bispos”. Com fé, confiança, coragem. Para permitir a
entrada do Espírito Santo na Instituição, o cardeal sugeriu ao papa e
aos bispos que se cercassem de pessoas próximas dos jovens e dos pobres.
Naturalmente, entre estas, também devem haver mulheres. Somente com
homens idosos seria impossível.
A principal preocupação do
cardeal era a perda de credibilidade que a Igreja havia sofrido junto a
vastas fileiras de pessoas. Não se tratava de leis ou de dogmas, mas sim
da capacidade de assistência, de escuta. “Sabemos nos ocupar das
perguntas dos jovens, dos problemas das famílias ampliadas, dos não
crentes?”, perguntava, duvidoso.
Aqueles que estão distantes da
Igreja têm uma mensagem para nós, defendia ele. Mais do que a
coincidência de pontos de vista, interessavam-lhe o diálogo, a busca
comum. O seu pensamento admitia as contradições, assim como a Bíblia.
Várias
vezes pediu que a Igreja se desculpasse pelo que havia afirmado no
passado sobre o tema da sexualidade. Com uma coragem como a havia
mostrado João Paulo II quando, em Israel, pediu perdão aos judeus pelos pecados da Igreja. A esse respeito, ele escreveu ao Papa Bento XVI pessoalmente. Muitas vezes citava a encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI,
um papa ao qual estava particularmente ligado. Ele afirmava, depois,
que a medicina e a psicologia tinham muito de novo a nos dizer sobre a
família e a sexualidade.
As críticas expressadas pelo cardeal na
sua última conversa eram como que um testamento, escrito por amor. Com
firmeza, punha algumas pessoas no centro: os pobres, aqueles que buscam a
fé, as mulheres e os estrangeiros. A eles ele havia se dedicado com
todas as forças pela vida inteira. Não por acaso as suas demandas
receberam o nome de “Agenda Martini” para o conclave.
O cardeal Martini era muito próximo do Papa Bento XVI. Por mais de uma década, como cardeais, foram membros da Congregação para a Doutrina da Fé e também tinham a mesma idade. Porém, os dois homens tinham sentimentos e pensamentos muito diferentes.
No entanto, a lealdade do cardeal idoso ao Santo Padre era indiscutível. Era junho de 2012 quando o cardeal Martini viu pela última vez o Papa Bento XVI, em visita a Milão.
Naquela ocasião, ele voltou ao palácio que havia deixado em 2002. Ele o
fez em cadeira de rodas, e o papa se inclinou sobre ele. Quando quase
ordenou o papa a se acomodar, este, contra todas as regras ditadas pelo
protocolo, se sentou, e o bispo idoso pôde reconhecer nos seus olhos
cansados a fragilidade do coetâneo. A coragem, assim, o abandonou, não
podia fazer-lhe as propostas que ele havia preparado. Apenas lhe disse:
“Santo Padre, rezo pelo senhor e pela Igreja”.
O cardeal contou,
comovido, sobre aquele encontro com o pontífice e acrescentou com um
toque de humor: “O alfaiate do papa deve ser um artista para fazer com
que os hábitos lhe caiam bem”. A sua enfermeira lhe perguntou então:
“Eminência, o senhor, fraco e idoso, deixaria o ofício de papa ou de
bispo?”. O cardeal deve ter respondido: “Sim, eu me retiraria para Montecassino“. Era como se tivesse aberto a estrada para a grande e surpreendente decisão do pontífice.
O que diz a “Agenda Martini” sobre o perfil do novo papa?
Deve ser um otimista como João XXIII:
não defender o que é antiquado, mas abrir as portas da Igreja ao novo.
Deve ter muita compreensão humana e confiança no futuro.
Deve ter amor como Paulo VI.
Talvez ele tinha um excessivo temor das possibilidades oferecidas pela
tecnologia, pela medicina e pela liberdade social, mas era uma
preocupação pelo ser humano, como gostava de sublinhar o cardeal Martini quando criticava a encíclica Humanae Vitae. Ele mesmo podia testemunhar isso, pois Paulo VI o convidava muitas vezes como um amigo a discutir questões bíblicas.
Deve ser decidido como João Paulo II. O cardeal Martini contava que o papa polonês o tinha nomeado, natural de Turim,
como arcebispo de Milão, sem ouvir as objeções. Ele tinha decidido e
ponto final. Com a sua força, conseguia mover muitas coisas no Vaticano e
na política eclesiástica. Uma força que fez cair até mesmo a cortina de
ferro.
O que o novo papa deve ter dos seus antecessores? Pode construir sobre o que fez Bento XVI, que queria preservar a Igreja dos perigos, queria manter todos na comunidade eclesiástica, até mesmo a Fraternidade São Pio X. Apontava para as elites, que via nos novos movimentos.
Agora é preciso o agere contra, um movimento voltado às paróquias, à revalorização das Igrejas locais e a escuta do mundo inteiro, como o cardeal Martini fazia corajosamente. Bento XVI, no seu clericalismo, era impulsionado por forças centrípetas; agora são necessárias energias centrífugas.
Com um bispo proveniente do Novo Mundo, da África ou das Filipinas, o Espírito Santo pode nos surpreender mais do que com um defensor do Velho Mundo. Quão jovem, estrangeiro ou de cor deve ser hoje um instrumento do Espírito Santo.


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