Longa de Rosemberg Cariry observa
rotina de trupe de um circo que roda o interior nordestino para levar
arte e graça às pessoas – e sobreviver disso

Falar
de arte talvez seja tanto uma sina como uma obsessão do artista. O
escritor, poeta,  jornalista e cineasta Rosemberg Cariry
, uma das figuras mais proeminentes na regionalização do cinema
brasileiro, o faz com delicadeza e beleza em “Os Pobres Diabos”, que
estreia nesta quinta-feira (6) nos cinemas brasileiros.
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Cena do filme Os Pobres Diabos, que estreia nesta quinta-feira (6)
Divulgação

Cena do filme Os Pobres Diabos, que estreia nesta quinta-feira (6)

O filme mostra a rotina da
companhia mambembe do Grand Circo Teatro Americano que perambula por
pequenas cidades do interior nordestino até armar a tenda em Aracati, no
litoral do Ceará.   Os pobres diabos
do título são os artistas deste circo que vivem com o mínimo e parecem
tirar força única e exclusivamente de sua arte consubstanciando a máxima
“o show deve continuar”.

A grande questão que a trupe se depara ao
armar a tenda em um metafórico ambiente desértico é que a comunidade
local é tão pobre quanto eles, o que estabelece a problemática da qual o
filme trata sutilmente. Em um ambiente de fragrante e
desestabilizadores indicadores sociais, quem se importaria com a arte, a
cultura, o circo?
Ainda que por um viés lúdico, é esse o eixo
central do filme de Cariry. Que gradativamente vai se deixando permear
pelas angústias dos personagens principais – e uma das belezas do filme é
que são todos, de alguma maneira, personagens principais dessa história
– para entregar um final agridoce, condoído em sua verdade inegável,
mas fortalecido justamente por ela. A verdade em questão é a que os
olhos veem, mas também a que acalenta a alma.

O elenco é peça vital dessa engrenagem lírica. Chico Diaz
faz um palhaço mulherengo extremamente protetor do único patrimônio que
tem, uma galinha; Gero Camilo, por sua vez, tem uma cabra, uma filha
que não é sua e uma mulher, vivida por Silvia Buarque
, de quem desconfia que lhe é infiel. Esse núcleo, onde Cariry permite
um humor mais farsesco, é o que aproxima o público dos personagens.

Silvia Buarque e Chico Diaz, marido e mulher na vida real, e amantes na ficção
Divulgação

Silvia Buarque e Chico Diaz, marido e mulher na vida real, e amantes na ficção

A ponderação sobre o valor da arte – e por
consequência da valoração do artista – é uma das camadas mais
interessantes de “Os Pobres Diabos”, mas o filme cativa também pela
afetuosidade que move os personagens e, nesse sentido, se mostra um
filme muito feliz nas convenções de um gênero tão difícil de se acertar
como o é o do filme de grupo.