O que seria de Sergipe sem Frei Enoque e seus companheiros da Diocese de Propriá?

 Zezito de Oliveira

Fiquei
muito chateado quando, em 1981/1982, meu pai resolveu retornar da viagem que
fez ao Rio de Janeiro no ano de 1969.

Isso
porque, naqueles tempos de abertura ou de redemocratização, o Rio de Janeiro
era um dos principais epicentros desse movimento nacional que atravessa toda a
década de 1980.

Como
abordo em um dos capítulos do primeiro livro que estou lançando, intitulado AMABA: O esquecido círculo de cultura da
Aracaju dos anos de 1980
,
nessa década os trabalhadores perdem na economia,
mas ganham na organização política.

A
culminância é a chegada de Lula ao segundo turno nas eleições de 1989. De novo?
É, a ponte para o passado regrediu tanto que poderemos ter Lula novamente
candidato, e vencedor nas eleições de 2022, se não ocorrer um cataclisma,
inclusive um atentado (não fake)
contra o candidato.

Mas voltando ao Rio de Janeiro das décadas de 1970 e 1980, a  despeito da forte  presença de uma direita fisiológica e
conservadora representada pelo velho Chagas Freitas e seu jornal  O DIA, o Rio de Janeiro tinha uma esquerda
forte e em ascensão, tanto que em 1982 elegeu Brizola governador, não obstante tentativa
de fraude — que contou com a participação das organizações Globo, a velha
empresa  golpista dos Marinho, já na  época do presidente  Getúlio Vargas.

Quem quiser pode conferir isso em detalhes no documentário recém
lançado, A fantástica fábrica de golpes,
ainda inédito no Brasil, o qual, pode ser obtido mais informações  no   site do Catarse
https://www.catarse.me/fabricadegolpesOs jornalistas
brasileiros Victor Fraga e Valnei Nunes, residentes em Londres, se uniram ao
produtor britânico John Ellis para fazer a continuação do documentário “Muito
Além do Cidadão Kane”, (1993), de Ellis. A ideia é contar a participação das
Organizações Globo no golpe de Estado de 2016.”

E
aqui em Sergipe? O que me esperava? Um estado provincianamente atrasado e tradicional,
pelo menos a partir do que percebia nas conversas dos familiares que vez ou
outra visitavam meus pais, também não ouvia referências na imprensa nacional a
alguma presença sergipana de destaque nas lutas sociais e políticas que
forçaram a abertura do governo militar. A exceção foi umas duas ou três vezes,
a leitura no Jornal de Brasil de críticas do deputado federal Jackson Barreto
aos ditadores de plantão, o que naquele tempo poderia gerar cassação de
mandato.

Mas
aí, eis que em 1980, abrindo as páginas de uma edição de domingo do estimado
Jornal do Brasil (JB) – 17/08/1980, sou surpreendido com uma extensa reportagem
sobre os enfrentamentos da diocese de Propriá com os grandes fazendeiros do
sertão e do baixo São Francisco.

A
reportagem listava uma sequência de atos violentos contra líderes religiosos da
diocese de Propriá com sérios riscos de provocar a morte de um deles, incluindo
a do Frei Enoque.

1
– No dia 03 de fevereiro de 1978, em plena feira, o Prefeito de Porto da Folha,
Antônio Pereira Feitosa, tentou, por duas vezes, espancar Frei Enoque Salvador
de Melo.

2
– No dia 3 de março de 1978 a casa paroquial de Ilha das Flores foi arrombada.
O bispo, juntamente com o vigário-geral, prestaram queixa à polícia. Nenhuma
providência foi tomada.

3-
No dia 14 de Outubro de 1978, no povoado de Poçãozinho,  município de Canhoba, o Sr.  Antonio Britto,  Prefeito de Propriá, o Sr. Elcio Britto e o Dr.
Francisco Novaes, atual juiz de direito de Porto da Folha tentaram agredir o
Padre Nestor. O Sr. Elcio Brito chegou a ameaçar de morte o Padre Nestor. Nenhuma
providência foi tomada. 

Segue
várias outras denúncias até o ano de 1980, como a tentativa de espancamento
contra Frei Enoque e Padre Nestor, assim como ameaças de morte a este,
campanhas de desmoralização contra Dom José Brandão de Castro, bispo de
Propriá, o vigário de Ilha das Flores e os pobres que resistiam a perseguição,
tentativa de sequestro das irmãs Liege e Salvadora, em Penedo. Interrupção da
missa na catedral de Propriá, por pistoleiros e jagunços e com ameaças de
morte.


em outra edição de domingo do JB (15/09/1985), “Em Sergipe , o conflito entre a
tribo Xokó, que habita a ilha de São Pedro, no município de Porta da Folha, a
200 quilômetros de Aracaju, e os fazendeiros da região, acabou envolvendo a
Diocese de Propriá, através de Frei Enoque Silva, que sempre esteve ao lado dos
índios, exercendo grande influência para conscientizá-los sobre a posse da
terra.”

E
enfrentando os riscos inerentes a esse tipo de opção evangelizadora, que levou à
morte muitos padres, irmãs e sindicalistas naqueles anos, Frei Enoque e seus
companheiros realizam celebrações de ação de graças pelas suas caminhadas e
superação ou livramento  dos perigos a
que estiveram submetidos.

Neste
dia, em  05 de dezembro , na paróquia de
Nossa Senhora da Conceição, em Porto da Folha, e em 12 de dezembro, na Ilha de
São Pedro, foram realizadas missas e atividades festivas pelo cinquentenário de ordenação sacerdotal do Frei Enoque.  Assim também com esses mesmos objetivos,  foram promovidos eventos  civis e religiosas em homenagem a Frei
Roberto, Irmã Francisca, companheiros de jornada de Frei Enoque

 É
verdade que com o tempo Frei Enoque entrou na vida partidária, fez alianças com
antigos adversários para vencer eleições, governou com a direita, foi acusado
de comportamento autoritário (o que vem de longa data) mas, mesmo assim,
reitero o que publiquei abaixo, quando recebi o convite de divulgação para
participar das atividades celebrativas em homenagem a Frei Enoque.

Quem
está escrevendo ou planejando escrever a biografia do Frei Enoque, assim como
um documentário? Há tempos conversei com a professora Ana Lúcia, quando
deputada, a esse respeito. E a proposta era mais ampla, não apenas focalizando
o Frei Enoque. Propunha uma indicação ou projeto de lei e a criação de um fundo
com recursos do salário como parlamentar, acrescido de contribuições de Sindicatos,
MST, Ongs e pessoas físicas. Em um grande mutirão de financiamento
colaborativo. A proposta não prosperou. Quem vai lembrar isso aos atuais
detentores de mandatos progressistas?

Quem
ler este artigo de opinião, leve à frente essa demanda pelo registro e difusão
da memória histórica dos lutadores e lutadoras do povo.

Historiador, Professor de História na rede pública estadual,
agente/produtor/assessor de iniciativas culturais de base comunitária, autor do
livro AMABA: O esquecido círculo de cultura da Aracaju dos anos de 1980.


Leia mais: 

O confronto da fé ante o escândalo da pobreza: A emergência da opção preferencial pelos pobres na Diocese de Propriá.

UM RELIGIOSO PERNAMBUCANO NO SERTÃO SERGIPANO: Trajetória de Frei Enoque e a questão fundiária. 1942-1986

FREI ENOQUE: VIDA E MISSÃO, UMA CONTESTAÇÃO EM NOME DO EVANGELHO


 

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