Ressurreição da esquerda na ditadura. A vida ensina. A gente aprende?

Fonte: CARTA MAIOR

Ao longo dos últimos 30 anos, refluiu o ativismo de esquerda,
aquele que conectava local de trabalho e local de moradia – e se
realizava em paróquias, associações ou subsedes sindicais. Em seu lugar,
cresceu um outro organizador de rotinas, aspirações e desejos – as
igrejas evangélicas, que se multiplicaram, precisamente, depois de 1980.
Uma escola de política se esvaziava, uma outra se erguia

22/07/2018 12:04
 



exatos 30 anos, o sociólogo e militante Eder Sader publicou um livro de
obrigatória referência para quem busca analisar os movimentos sociais
da Grande São Paulo, na década de 1970. E útil, também, para compreender
outros contextos, nas outras regiões metropolitanas do país.
O título era mais do que sugestivo – Quando Novos personagens entraram em Cena
experiências e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo 1970-1980.
(Paz & Terra, S. Paulo, 1988).  

O livro procurava entender “a
experiência da condição proletária”, o modo de vida das classes
populares e, também, a dinâmica dos novos movimentos sociais. Enfatizava
a importância de dois “lugares” dessas lutas – a moradia (os bairros
periféricos) e o trabalho (fábricas e sindicatos). O estudo –
originalmente uma tese de doutorado em sociologia – dava bastante
importância às “matrizes discursivas” que animavam os personagens e
ajudavam a compor a sua visão de mundo. Aí, o autor identificava “três
centros de elaboração”: a igreja católica, o novo sindicalismo e os
grupos de esquerda em reconstrução, depois da derrota sob o governo
Médici. 


Olhando
em retrospectiva, parece-me que seria prudente reavaliar o peso dessas
“agências”. Quanto aos grupos de esquerda em reconstrução, por exemplo,
embora tenham tido importância crucial em certos momentos e lugares, a
memória me convence que só sobreviveram e vicejaram, durante algum
tempo, precisamente na medida em que cultivaram algum tipo de simbiose –
criativa, muitas vezes – com as outras duas matrizes, a Igreja e os
movimentos sindicais de novo tipo.


Passaram-se
três décadas desse estudo, com grandes transformações operando sobre a
cena e sobre os personagens retratados. As mudanças foram de tal porte
que quase se pode dizer que aqueles novos personagens saíram da cena,
trocaram de identidade ou se enquadraram em um novo enredo.


Voltarei
aos outros personagens em outra ocasião. Por enquanto, registro as
peculiaridades de um deles, que me parece ganhar importância quando
tomamos distância. Refiro-me à “matriz discursiva” da Igreja Católica –
ou, pelo menos, de uma parte então relevante daquela igreja. Até porque
foi bem mais do que discursiva, como se pode ver nos episódios que
comento.


Começo
pela memória de um evento casual. No início de 1972, eu era militante
de um grupo clandestino que se opunha à ditadura. Estava envolvido numa
campanha, a da chapa de oposição no sindicato dos metalúrgicos de S.
Paulo-Capital.  

Depois de uma jornada de panfletagens nas fábricas de
Santo Amaro, acompanhei meu amigo Vito Giannotti, operário vinculado à
esquerda católica, à casa de Plinio de Arruda Sampaio, no bairro dos
Jardins. Na nossa provável ingenuidade juvenil (Vito tinha 28 anos, eu
tinha 21), íamos pedir a Plinio, membro importante da Comissão de
Justiça e Paz, para que recomendassem aos padres da periferia uma
atitude de cooperação com os movimentos operários e populares.
Basicamente, que abrissem as paroquias periféricas para nossas reuniões e
campanhas de difusão.  

Anos depois, bem depois, entendi que não era
apenas isso. Não íamos pedir algo que não estivesse já deliberado em
certa agenda. Sabíamos que em outras regiões, outros trabalhadores
católicos faziam algo parecido com outros membros progressistas da
Comissão. O que não sabíamos era que nossa “demanda” era a contrapartida
(talvez induzida) de uma estratégia bem mais ampla e organizada do
saudoso cardeal Paulo Evaristo Arns. A chamada Operação Periferia.
Segundo minha avaliação atual, Arns precisava dessa pressão “pelas
bases” para ajudar a legitimar sua decisão corajosa e estratégica. Hoje
tenho convicção de que jamais conseguiremos exagerar a importância de
sua Operação Periferia para a reconstrução do movimento operário e
popular, nas duras condições dos anos 1970.

Por
isso vale a pena recompor a estória dessa operação de Arns, que não
tinha apenas a dedicação de um franciscano, era um pastor
intelectualmente sofisticado e um “comandante” dotado de notável visão
estratégica.

Desde
logo, quando se tornou arcebispo de São Paulo (1970), Arns planejava
reorientar a ação da igreja na região (incluía capital e Osasco, a
cidade “vermelha”).  Era uma mudança clara com relação ao antigo gestor,
Agnelo Rossi, que tinha declarada simpatia pelo regime militar. Durante
a campanha da Fraternidade de 1972, Dom Paulo lançou sua Operação
Periferia, num programa de rádio da Diocese.

Organizar
a igreja na periferia tinha mais do que um sentido geográfico – eram
periféricos os pobres, morando em favelas, bairros precários da
periferia ou cortiços e casas de cômodos do centro deteriorado da
cidade.

O
objetivo básico da Operação era formar comunidades. Para isso, era
necessário descobrir e treinar lideranças para animá-las, montar centros
comunitários nos bairros, para nuclear atividades religiosas ou não.
Formular projetos que envolvessem necessidades dos moradores, que os
envolvessem. A Operação projetava uma organização através de colegiados
em diferentes níveis, da base (as comunidades) ao topo (a coordenação). E
incorporando militantes leigos. Construir comunidades implicava
construir essa liderança organizada.

A
operação teve lances de enorme simbolismo. D. Paulo vendeu a majestosa
residência episcopal, um palacete rodeado de jardins em região nobre. E
investiu o recurso na compra de uma centena de terrenos em bairros
periféricos, para a construção de centros comunitários. Não seriam
apenas igrejas, destinadas a celebrar missas. Seriam centros com salas e
salões destinados a atividades como reuniões dos clubes de mães, dos
grupos de catequese, dos núcleos da pastoral operária, creches, cursos,
grupos de jovens para fazer música ou teatro. E também, claro, para as
celebrações dominicais.

Um viveiro de criatividade militante

Durante
os anos 1970, mesmo sob a ditadura, houve uma difícil mas progressiva
recomposição da esquerda política. Um crescimento de seus ativistas e
militantes com fundamento em uma base social clara, uma rede de conexões
que se propagava. Uma rede meio subterrânea que viria à luz do dia com o
declínio da ditadura e a “redemocratização” dos anos 1980. 

Esse
crescimento foi muito alimentado pela forja de militantes e ativistas
que vinham de sindicatos e igrejas. A base social relevante da esquerda
política começou a ser essa: os movimentos do “povo pobre da periferia”,
expressão preferida dos católicos e dos maoístas, a corrente política
mais “casada” com os religiosos. 

Sim,
era daí que saia o grosso da militância e dos filiados do PT, por
exemplo. Ou das oposições sindicais. Ou da futura CUT. Porque os
sindicatos e esses movimentos populares – tantas vezes nucleados em
paróquias perdidas em bairros precários –  eram os “lugares” da
semeadura. Era ali que se realizava aquela atividade regular, constante,
de formação de identidades e afinidades, de hábitos de pensamento e de
comportamento. Hábitos de encontro – a palavra igreja vem de Eclésia,
assembléia, encontro, e não é por acaso. 

Quando
a base social da esquerda política se fragmenta, desintegra, amolece, a
dificuldade para promover enfrentamentos é terrível. Depois de 1980,
principalmente, as empresas começam a passar por “reengenharias”. São
fragmentadas e terceirizadas. Com essa reforma e com a automação,
categorias profissionais inteiras são reduzidas pela metade, são
partidas. Depois, com as privatizações, outras categorias definham. Os
movimentos sindicais iriam sentir esse baque. E outros viriam.

Outros
baques viriam, no movimento dos bairros periféricos, o outro lugar de
florescimento de lideranças. Nos anos 1970, a esquerda conseguiu avanços
significativos (em parceria com o chamado clero progressista) criando
conexões entre movimentos no local de moradia. Havia uma interligação e
cooperação viva entre movimentos por transporte, saúde, infraestrutura
urbana, e movimentos sindicais, redundando em fortalecimento de
campanhas de sindicatos e oposições sindicais. Escolas de solidariedade e
de política. Essa atividade foi profundamente abalada por vários
fatores, um dos quais, nada desprezível, foi o brutal desmonte da igreja
da libertação, uma iniciativa clara e enérgica do papa eleito em 1979. 

Nos
bairros populares, a chamada “igreja progressista” foi rapidamente
desmantelada por um papa claramente reacionário. Ali, onde elas eram o
lugar do encontro, são substituídas por uma profusão de alternativas
evangélicas, com práticas de enraizamento bem parecidas, mas, em geral,
com um discurso radicalmente oposto. A teologia da libertação – a da
salvação coletiva –  dá lugar à teologia da prosperidade, em que Deus é
uma caderneta de poupança: você investe e ele dá retorno, aqui mesmo, na
vida material, no vale de lágrimas. A salvação individual, através do
mérito e do mercado.

A
Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, nasceu num barracão do
subúrbio carioca, no final dos anos 1970. Menos de dez anos depois já
possuía templos e salões de culto em centenas de municípios. E adquiria
uma das maiores redes de rádio e TV. Muitas concorrentes – ou co-irmãs –
seguiram esse rumo.

As
chamadas correntes evangélicas mostraram admirável energia militante.
Evangélicos são usualmente praticantes – vão ao culto toda semana. Mais
do que isso. Muitos vão mais vezes à igreja, enviam os filhos para
atividades de jovens, crianças. Participam de círculos bíblicos, grupos
de jovens e mulheres, organizam campanhas de proselitismo e venda de
publicações, de conquista de adeptos e “associados”. Muitas igrejas
dessas igrejas realizam um notável e dedicado serviço social, de apoio
aos “irmãos”, de atração de fiéis. Oferecem cursos, grupos de teatro,
creches, orientação para emprego, moradia, legalização de documentos,
informam sobre o acesso a serviços públicos e assim por diante.
Socializam, acolhem, integram. E para ajudar, nos intervalos o fiel ouve
seus pastores e cantores no rádio, cadeias enormes de rádio e TV. Nas
ruas comerciais das grandes cidades, lojas ou cinemas que fecham são com
frequência alugados para alguma igreja desse perfil, não importa sua
denominação. 

Nos bairros periféricos, desde a metade dos anos 1980,
vemos a multiplicação de pequenos galpões. Nos anos 1970 era quase
impossível ver um sequer. Com o tempo, transformam-se em templos
maiores, alguns bastante imponentes – suficientemente amplos para
abrigar todas essas atividades.

Tem que ser assim?

Resumindo
o argumento. Ao longo dos últimos 30 anos, refluiu o ativismo de
esquerda, aquele que conectava local de trabalho e local de moradia – e
se realizava em paróquias, associações ou subsedes sindicais. Em seu
lugar, cresceu um outro organizador de rotinas, aspirações e desejos –
as igrejas evangélicas, que se multiplicaram, precisamente, depois de
1980. Uma escola de política se esvaziava, uma outra se erguia. 

Descrevi,
páginas acima, a Operação Periferia, um construto político de notável
envergadura. Nenhuma das organização de esquerda , pequenas e divididas,
teria condições de emprendê-la, mesmo que tivesse tal visão. Os
sindicatos – mesmo que fossem imbuídos dessa compreensão – não tinham
coesão suficiente para isso, ainda que, hipoteticamente, tivessem os
recursos. Esse papel coube à Igreja, ou uma parte inovadora e
voluntarista da Igreja, equipada com uma nova teologia. 


A partir do
final dos anos 1970, vemos empreendimento similar mas com cortes
claramente conservadores. Houve e há uma operação periferia da
constelação de igrejas pentecostais conservadoras. Nada garante que
continuem a ter essa inclinação doutrinária nem que seja eficientes na
tarefa de controle social. Mas… quem saberá construir uma alternativa?
Como? Talvez hoje sindicatos, movimentos e partidos à esquerda tenham
mais saber e mais coesão para tentar. Talvez. Se não o fazem, acredito,
renunciam a seu papel, mergulham na mediocridade e entregam a batalha
para o adversário. A história provê a oportunidade, não o resultado.

As
condições e os personagens são diferentes, portanto. Para o bem e para o
mal. E hoje não precisamos de um empreendimento imobiliário como aquele
do cardeal rebelde. Há um grande número de espaços estatais para
reconquistar e tornar públicos. Uma escola em cada bairro, centros
comunitários como os CEUs de São Paulo. Outros. Talvez o que falte seja a
criação de pacientes e dedicadas brigadas juvenis, por exemplo. Que
tenham a humildade de aprender e ensinar uma nova lição, para que o
“publico alvo” seja mais do que um alvo. Porque, como diziam meus amigos
cristãos, quem mastiga sente o gosto. E quem sente o gosto tem mais
fome. De poder, porque é do poder que estamos falando.

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 terça-feira, 19 de abril de 2016


Assista também, depois de ler o conjunto de textos recomendado acima, para entender melhor a sugestão. 


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