CIA financiou Igreja em marchas pró-golpe militar, diz Frei Betto

Postado por Simone de Moraes 12:15:00 21/03/2014


Crédito : Reprodução

Por
Guilherme Balza – Frei Betto é sempre lembrado quando o assunto é a
controversa relação entre a ditadura e a Igreja Católica, que passava
por profundas transformações enquanto o país esteve sob o jugo das
Forças Militares.
Em entrevista ao UOL, o
dominicano descreve os conflitos no interior da igreja durante a
ditadura e explica como se operou a mudança de lado da CNBB, que
inicialmente celebrou o golpe com agradecimentos a Nossa Senhora
Aparecida, mas depois se constituiu como força de resistência ao regime.
O religioso revela ainda que a CIA (agência de inteligência dos Estados
Unidos) financiou as Marchas da Família com Deus pela Liberdade,
manifestações populares que antecederam o golpe militar.

UOL – O que o senhor estava fazendo em 31 de março de 1964?
Frei Betto –
 Na verdade o golpe foi no dia 1º. Essa história de
31 é invenção dos milicos porque tinham vergonha do 1º de abril. O golpe
foi oficialmente no dia 1º de abril, quando Jango sai do Brasil e se
refugia no Uruguai. Eu estava participando do Congresso Latino-americano
de Estudantes em Belém, no Pará.
UOL – Como o senhor recebeu a notícia?
Frei Betto –
 A notícia veio de maneira difusa, confusa, de que
havia movimento de tropas, que o Jango tinha passado por Brasília,
depois ido a Porto Alegre e de lá saído ao Uruguai, porque estava
deposto. O Congresso foi desfeito porque ali participavam estudantes de
quase todos os países da América Latina, muitos deles acostumados a
golpes militares. Eles sentiram que a coisa ia endurecer. Estava
hospedado na casa do arcebispo de Belém dom Alberto Gaudêncio Ramos
porque eu era dirigente da  Juventude Estudantil Católica (JEC) e da
Ação Católica também. Fui pra casa de um militante da JEC chamado Lauro
Cordeiro. E ali fiquei, de ouvido colado no rádio, tentando entender o
que estava acontecendo, e fomos tomando consciência, a partir do dia 2
ou 3 [de abril], de que realmente havia um golpe militar, que começava
uma repressão. Nós esperávamos uma reação das forças esquerda, do PCB
(Partido Comunista Brasileiro), da Ação Popular, das Ligas Camponesas,
reação que nunca veio. Praticamente os militares assaltaram o poder sem
precisar dar nenhum tiro.
UOL – Essa reação não ocorreu por quê?
Frei Betto – 
Não ocorreu porque era um blefe. Realmente a
esquerda não estava suficientemente organizada. Primeiro, não acreditava
que houvesse um golpe, porque havia um mito de que o Jango detinha
pleno controle das Forças Armadas. E que os generais que eram ministros
dele jamais haveriam de traí-lo. O esquema militar do Jango era um mito
que se alimentava. Em segundo, porque a esquerda era muito proselitista,
mas não fazia um trabalho de organização popular. Não havia um trabalho
de base como houve depois da ditadura. Era uma esquerda muito mais
discursiva, ideológica, mas que não tinha uma capacidade de mobilização
popular como se imaginava que tinha ou se esperava que tivesse para
reagir ao golpe.
UOL – Naquele momento o que lhe passava pela cabeça?
Frei Betto – 
Meu pai já tinha vivido sob uma ditadura, de
[Getúlio] Vargas, já tinha sido preso, nos anos 30, teve que deixar o
Rio de Janeiro, onde exercia a advocacia, e voltar a Minas porque forças
de Vargas cercearam qualquer possibilidade dele de arrumar emprego. Ele
me descrevia a ditadura como uma coisa cruel, assassina, com censura,
sem nenhuma liberdade de expressão. Comecei a esperar que a mesma coisa
viesse a acontecer. E fui atingido na pele só no dia 6 de junho de 1964,
quando eu voltei ao Rio de Janeiro, onde morava, e ali eu fui preso com
a direção da JEC, da JUC (Juventude Universitária Católica) e da Ação
Católica, pelo serviço secreto da Marinha na madrugada de 5 para 6 de
julho.
UOL – Nessa primeira prisão, onde o senhor ficou?
Frei Betto – 
Primeiro eu fui levado até o comando da Marinha, na
praça Mauá (centro do Rio), onde nós fomos torturados, interrogados e
transferidos para Ilha das Cobras (RJ), no quartel de fuzileiros navais.
Ficamos uma semana presos e depois fomos levados de volta ao
apartamento em que morávamos por conta da CNBB, mas especificamente por
conta de d. Helder Câmara, que era o assistente da Ação Católica, e
ficamos em prisão domiciliar mais uma semana. Depois fomos liberados sem
que houvesse processo formal.
UOL – Nesse período chegou a haver tortura?
Frei Betto – 
Houve tortura. Quando fomos levados para o comando
naval, houve tortura. Não nos moldes de 1969, quando fui preso de novo,
mas houve tortura, com sopapos, soco na cara, empurrão.. Não houve
pau-de-arara, choque elétrico, essas coisas.
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UOL – O senhor poderia descrever qual era o clima político do país naquele momento?
Frei Betto – 
Era um clima de absoluta perplexidade. Em meados de
abril de 1964, numa reunião no Rio da qual participei como membro da
direção nacional da Ação Católica, houve uma furiosa discussão entre
bispos conservadores e progressistas, tendo ganhado o setor conservador.
E a CNBB oficialmente apoiou o golpe por ter livrado o Brasil da ameaça
comunista. O caldo de cultura do golpe já havia sido preparado pela CIA
no Brasil através do padre Patrick Peyton, que era o pároco de
Hollywood e veio ao Brasil. Hoje já se sabe com documentos que ele era
pago pela CIA para fazer as Marchas da Família com Deus pela Liberdade.
Ele promovia grandes mobilizações nesse sentido. Portanto, quando veio o
golpe, a igreja agradece a Nossa Senhora Aparecida ter livrado o Brasil
da ameaça comunista. Ao mesmo tempo havia aquela ideia de que a
ditadura não duraria muito tempo porque [depois do golpe] não houve
propriamente uma manifestação popular de apoio explícito. Então se
pensava que os militares não teriam respaldo da opinião pública. Nos
enganamos. A ditadura não só foi se aprimorando na sua crueldade, no seu
desrespeito aos direitos humanos, principalmente a partir de 68 com o
AI-5, como também ela durou 21 anos, o que na época ninguém esperava que
acontecesse.

Se
pensava que os militares não teriam respaldo da opinião pública. Nos
enganamos. A ditadura não só foi se aprimorando na sua crueldade, no seu
desrespeito aos direitos humanos, principalmente a partir de 68 com o
AI-5, como também durou 21 anos, o que na época ninguém esperava que
acontecesse.

UOL
– Pelo o que o senhor diz, a igreja estava dividida naquele momento. Ou
os setores que eram contrários ao golpe ainda eram minoritários?

Frei Betto – Eles
eram minoritários. Os bispos tinham uma formação tradicional. Os
primeiros bispos progressistas estavam praticamente aparecendo no
cenário brasileiro, como o d. Helder [Câmara], o d. Waldyr Calheiros,
que era bispo de Volta Redonda (RJ), o d. José Vicente Távora, de
Aracaju. Mas eram poucos. O d. Carlos Carmelo Mota, de São Paulo
(presidente da CNBB à época), era um moderado, mais para progressista.
Era muito amigo do Juscelino [Kubistchek]. Mas o d. [Alfredo] Scherer,
que era arcebispo de Porto Alegre, o d. Jaime Câmara, que era arcebispo
do Rio, eles eram muito conservadores e tinham muita força. Havia também
dois militantes de extrema direita no episcopado, que eram o d. Geraldo
Proença Sigaud, de Diamantina (MG), e d. [Antônio de] Castro Mayer, de
Campos do Goytacazes (RJ), que eram patronos da TFP (Tradição Família e
Propriedade). Esses eram dois militantes ferozes do fundamentalismo
conservador na igreja. E tiveram muita atividade, muito empenho, nessa
aprovação do golpe por parte da CNBB.
UOL – Como o Vaticano e o papa Paulo 6º se posicionavam?
Frei Betto – 
O papa não se posicionou no início. Mais tarde, o
Vaticano veio a censurar a ditadura. Porque com o tempo a repressão se
estendeu também à igreja e daí criou-se não só uma divisão na igreja,
mas a própria CNBB foi se afastando da ditadura. A partir dos anos 70 a
CNBB foi praticamente a grande voz de defesa das vítimas da ditadura.
Tanto que o mais importante documento sobre os mais de 20 anos de
ditadura foi produzido pelo d. Paulo Evaristo Arns, que é o livro
“Brasil Nunca Mais”, que ele fez também com o reverendo Jaime Wright. A
igreja e a própria CNBB se tornaram, a partir do AI-5, uma voz contra a
ditadura. A igreja mudou de posição à medida que padres, bispos e
religiosos eram também perseguidos e vitimizados pela ditadura. O d.
Adriano Hipólito, por exemplo, bispo de Nova Iguaçu (RJ), foi apreendido
e torturado. O d. Marcelo Carvalheira, que era assessor de d. Helder,
foi preso comigo no Rio Grande do Sul. Toda essa repressão que atingiu
os bispos fez com que a igreja assumisse cada vez mais uma posição
crítica à ditadura.
Na
medida em que os bispos foram se posicionando, Paulo 6º veio em apoio,
tanto que na prisão dos dominicanos se manifestou explicitamente a nosso
favor. Enviou-nos de presente um rosário feito de contas de oliveiras
de Jerusalém e um cartão manuscrito “como um testemunho de afeição,
Paulo 6º”. Tivemos um apoio explícito nos quatro anos em que estivemos
presos.
UOL – E os bispos conservadores, como ficaram após essa virada na CNBB?
Frei Betto – 
Eles ficaram em minoria. Alguns foram morrendo,
outros foram aposentados por razão de idade ou de doença, mas eles foram
perdendo a hegemonia da CNBB, que passou para as mãos dos
progressistas, que eram críticos contundentes da ditadura e, portanto,
defensores dos direitos humanos. Você vê surgir uma igreja progressista,
das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), das pastorais populares,
assumindo uma posição bastante consequente, contundente, contra a
ditadura militar.
UOL – Mas também houve repressão contra as CEBs.
Frei Betto –
 Sempre houve. Quanto mais a igreja se posicionava,
mais havia repressão. Houve repressão sobre todos aqueles que se opunham
à ditadura.
UOL – Antes dessa virada, havia trânsito entre os militares e lideranças da igreja?
Frei Betto – 
Havia. Como o caso do d. Eugênio Sales, no Rio, cuja
postura até hoje, no meu ponto de vista, não está devidamente
esclarecida. Ele alega que ajudou perseguidos, mas eram perseguidos do
Uruguai, da Argentina e mesmo assim eu pessoalmente não conheci nenhum
dos perseguidos do Cone Sul que tenham sido ajudados por ele. Sei que no
caso dos perseguidos brasileiros, com exceção de algumas pessoas
notórias, como intelectuais e jornalistas, ele se omitiu inteiramente.
Pelo menos foi assim nos casos dos dominicanos.
UOL – Havia delatores dentro da igreja?
Frei Betto – 
Isso sempre aconteceu. Não foi uma coisa maciça, mas
aconteceu. Eu mesmo fui interrogado no Dops (Departamento de Ordem
Política e Social) de São Paulo pelo delegado Alcides Cintra Bueno, que
era conhecido como delegado oculto. Ele tinha delatores dentro da
igreja. Tinha padres, freiras, frades, pessoas que achavam, sei lá, em
sã consciência que estavam ajudando a livrar o Brasil do comunismo, a
purificar a igreja. Havia sim delatores dentro da igreja, como há em
qualquer instituição, dentro do jornalismo, no teatro, em sindicatos.
Isso sempre houve.
UOL – Como avalia o impacto do golpe na igreja?
Frei Betto – 
Eu acho que o impacto foi muito positivo. Porque
levou a igreja a se conscientizar do que é uma ditadura e do papel dela
em defesa das vítimas, dos direitos humanos, dos mais pobres. São males
que vem para o bem. Ou seja, a ditadura acabou produzindo uma grande
renovação da igreja no Brasil, renovação que depois se perde bastante
com o pontificado do João Paulo 2º.
São
males que vem para o bem. A ditadura acabou produzindo uma grande
renovação da Igreja no Brasil, renovação que depois se perde bastante
com o pontificado do João Paulo 2º.

UOL – Esta renovação interrompida se recupera hoje?
Frei Betto – 
Agora com o papa Francisco (risos) nós estamos
virando a página. Ainda a maioria dos bispos e padres que temos é
resultado dos pontificados de João Paulo 2º e Bento 16. Então não dá
para ser otimista imediatamente, mas, a médio prazo, sim. Tenho
impressão que a Igreja Católica vai passar por uma grande mudança, com a
volta das CEBs e daquela igreja progressista, que, diga-se de passagem,
enchia os templos da Igreja Católica, não havia essa evasão que há
hoje. A evasão coincide com a repressão às CEBs, às pastorais populares.
Tenho a impressão que vamos voltar a um novo alento aí na Igreja
Católica com o papa Francisco.
UOL – Como a igreja vem se comportando nesse processo de rediscussão da ditadura, com as Comissões da Verdade?
Frei Betto – 
Vem se comportando muito bem, inclusive dando todo
apoio, assessoria, documentação. Aliás, toda a documentação mais
importante que existe sobre a ditadura foi feita pelo trabalho da
igreja, do d. Paulo Evaristo Arns e do reverendo Wright. Eles que
fizeram essa documentação, que foi microfilmada, levada para Suíça,
recentemente retornou e hoje está à disposição dos pesquisadores em São
Paulo.

Outro lado

Procurada pela reportagem do UOL, a Embaixada dos EUA no Brasil informou não ter “como fornecer nenhuma análise histórica desse período”. 
A reportagem do UOL entrou
em contato por telefone com a assessoria de imprensa da CNBB na última
terça-feira (18) para que comentasse as afirmações feitas por Frei
Betto. Até o fechamento do texto, às 20h desta quarta-feira (19), a
entidade não havia respondido as perguntas enviadas por email.
* Produção: Noelle Marques

QUEM É FREI BETTO
Frade
dominicano e escritor, Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto,
69, mineiro de Belo Horizonte, era um jovem estudante adepto da Teologia
da Libertação quando as tropas derrubaram o presidente João Goulart, em
1964. Foi preso pela primeira vez dois meses após o golpe, permanecendo
15 dias detido. O segundo cárcere foi mais longo, entre 1969 e 73, e
mais cruel: o frade foi submetido a sessões torturas nos porões do
DOI-Codi, em São Paulo, comandado pelo Coronel Brilhante Ustra.

Nos
dias posteriores ao golpe, o militante religioso foi testemunha da
derrota dos progressistas no embate com conservadores dentro da CNBB
(Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), fato que resultou no apoio
da Igreja Católica aos militares ao menos até 1968, quando o regime
aprofundou a repressão e a violação de direitos humanos.

Autor
de três livros sobre os anos de chumbo (“Cartas da Prisão”, “Diário de
Fernando” e “Batismo de Sangue”), Frei Betto relata que o Ato
Institucional nº. 5 (AI-5) e o aumento da perseguição a religiosos,
assim como a ascensão de bispos progressistas, provocaram uma virada na
igreja, que passou a se opor aos militares até o final do regime, com a
chancela do Vaticano.

Fonte: UOL
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 50 Anos do Golpe

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