Papa Francisco sobre sexo «O prazer não é pecado». Entrevista com Marinella Perroni
O mal não é sexo, mas luxúria, “a objetificação do outro”. Um demônio que desfigura o prazer sexual, em si um “presente de Deus”. O Papa toma o seu distanciamento ainda mais explícito da visão obscurantista da sexualidade que dominou a doutrina católica durante séculos, pelo menos até o Vaticano II. Ele faz isso acompanhando suas catequeses sobre os vícios e virtudes cristãs e falando, o primeiro Pontífice a dizê-lo sem equívocos, da virtude da castidade não se confundir com abstinência sexual: “É o desejo de não possuir o outro”.
Irmãos e irmãs, depois de refletir sobre a gula, hoje detenho-me sobre outro vício que ronda o nosso coração desejando entrar nele: é a luxúria. Trata-se duma sofreguidão que devora as relações. Ao alertar para este veneno, o cristianismo não condena o instinto sexual. Na verdade, o enamoramento é um dos sentimentos mais puros: os enamorados desintoxicam-se de si mesmos ao pensarem constantemente na pessoa amada. Porém, esta bela experiência humana corre dois perigos: um é o querer submeter a outra pessoa a uma vontade egoísta; o outro é o vício da pornografia que “coisifica”. Para ambos, o remédio é construir a beleza duma história a dois, com respeito e liberdade.
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Cântico dos Cânticos: o livro erótico que está na Bíblia Sagrada
No livro “TerraFutura: Dialoghi con Papa Francesco sull’Ecologia Integrale”, uma coletânea de entrevistas do jornalista Carlo Petrini com o papa Francisco lançada neste mês na Itália, o líder máximo da Igreja Católica diz: “O prazer vem diretamente de Deus. Não é católico, nem cristão, nem nada parecido — é simplesmente divino”.
“O prazer de comer serve para manter uma boa saúde, da mesma forma que o prazer sexual serve para embelezar o amor e garantir a continuidade da espécie. O prazer de comer e o prazer sexual vêm de Deus”, afirma o papa.
Se declarações assim podem causar estranhamento aos conservadores católicos, vale ressaltar que a própria Bíblia Sagrada tem um livro erótico. Cântico dos Cânticos, que consta do Antigo Testamento, é o único poema das escrituras que celebra o amor sexual. Ou, nas palavras do professor de hebraico Robert Bernard Alter, da Universidade da Califórnia, em seu livro The Art of Biblical Poetry, trata-se de um texto sobre “dois amantes que se elogiam e se desejam com convites para o prazer mútuo”.
Mas por que uma obra assim acabou incluída na Bíblia — tanto nas escrituras judaicas, o Tanakh, quanto no compilado de livros que os cristãos chamam de Antigo Testamento? Segundo o filósofo e teólogo Fernando Altemeyer Junior, chefe do departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), “não há a possibilidade de falar algo sobre Deus sem falar do amor erótico”.
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Verbo fálico: sobre o erotismo divino na canção Sobre todas as coisas de Chico Buarque e Edu Lobo



