Clemilda – Morena dos Olhos Pretos – Exposição prossegue no Museu da Gente Sergipana.


Prossegue, o São João “diferente” promovido pelo Museu da Gente Sergipana
cujo tema na noite de ontem (18/06) foi a homenagem a cantora sergipana  Clemilda,  com a abertura da exposição estruturada em uma programação multimeios e multilinguagens, bem diferente
de um bocado de programação clichê que estamos vendo em Aracaju e no interior.

Presente  ao local,  me lembrei do lançamento da Caravana Luiz Gonzaga em
2012 naquele espaço e da programação que montamos no Gonzagão nos anos de
2007 a 2009.

No planejamento de uma programação de São João,
pode caber um pouco mais que os artistas da área da música,
quadrilhas, grupo folclóricos e comidas regionais

Uma
programação de São João, pode muito mais.. Fotografia, audiovisual,
dança moderna inspirada nas tradições juninas, rezas (como nos altares
de Sto. Antônio, realizado no Cultart), resgate de brincadeiras infantis ou de adultos,
quadrilha improvisada, oficina de forró e ritmos ou folguedos de época, literatura, jornada de estudos sobre o ciclo junino e o que mais
a nossa imaginação for capaz.

O problema é que, nos dias que
correm, tempo primordialmente marcado por interesses politicos e econômicos
imediatistas, a imaginação passa ao largo da criatividade e da inovação.

Será de bom tom, o Instituto Banese criar um edital  para
filmes temáticos ou colocar mais grana no edital promovido pela Secult Sergipe.
O excelente documentário “Morena dos olhos pretos”, dirigido por Isaac
Dourado, mostra o quanto de informação permanente, é preciso dispor para que os
sergipanos possam se “achar mais”, no melhor sentido da expressão.

P.S.: A expressão  “se acha” é comum nas terras do cacique Serigy e quer dizer pessoa muito suficiente de si. É usada de forma negativa e invertendo o sentido, com  “achar mais”  queremos dizer, ter mais senso de pertencimento, valorizar o que é do lugar, melhor auto-estima, espirito de coletividade.

Esta expressão foi usada de forma critica e  feliz, na minha opinião, pela cantora e compositora sergipana Patricia Polayne, na frase “Em Sergipe muitos se acham e poucos se encontram..”

Zezito de Oliveira – Professor de História e Produtor Cultural de iniciativas de base comunitária..


De Patricia Polaine: (via Amaral Cavalcante)

“Uma das coisas que chamaram
atenção na exposição e exibição do documentário sobre Clemilda, que
lotou ontem o Museu da Gente Sergipana foi a total ausência da nova
geração de artistas e músicos sergipanos. estranho, pois, muitos são os
que atuam feito “guardiões da tradição”, citando mestres populares e
folguedos… compondo baiões, cirandas e cocos “geniais”, travestindo o
forró de traquejo pop, criando movimentos de música e poesia nas
ruas…estranho, porque Clemilda fez
tudo isso e num passado em que era quase um crime ser artista…cadê
vocês, que não viram como se faz isso em tempos difíceis, bem distante
da idade mídia? poderiam dar o ar da graça, nem que fosse pra filar o
coquetel oferecido aos convidados…deveriam aprender um pouco com
Clemilda: MULHER, artista, exilada, nordestina, mãe solteira, do circo,
da rua, do pé de serra, da estrada, corajosa, divertida, índia braba,
guerreadora, autêntica na vida e na arte. como pode uma “cena
contemporânea” que não reverencia sua própria memória, não toma
conhecimento do seu passado, da sua história? estranho… contraditório.
ou essa cena é no fundo, fake? quede o movimento?
ainda dá tempo de se redimir…vá lá, no Museu da Gente Sergipana…
porque artista que esquece os seus, corre o risco de, um dia,ser esquecidos também.”

Sobre o alerta de Patricia Polayne

As observações de Patrícia são apropriadas e merecem a atenção dos
artistas e produtores culturais. Até porque vem de uma artista sergipana
com respeitável carreira e não de mero observador, como eu, que não sua
o dia a dia das produções. Bom mesmo seria que ela fosse mais
discutida, não somente entre os artistas diretamente envolvidos na
questão, mas também por agentes públicos da cultura e outros interassados, como os jornalistas da área.

Ocorre que a cena cultural sergipana, principalmente a produção
artística, encontra-se em plena efervescência criativa, em níveis
qualitativos tão evidentes que começa a atrair o publico local às suas
mostras. A última Semana Sergipana de Teatro foi sucesso de público,
como o foi, também, a exibição de Curtas produzidos via Edital do Áudio
Visual que, até por se tratar de uma atividade artística absolutamente
interativa lotou o velho Atheneu; o coletivo Sarau Debaixo mantém-se com
a alternativa das ruas engrossando suas fileiras e incluindo novos
artistas e novas propostas; livros são lançados semanalmente, sempre com
público razoável; Academias de Letras estão em atividade em várias
cidades do interior, de onde nos chegam notícias de outras realizações
artísticas; os três principais museus do estado se consolidam como
espaços vivos a serviço da difusão cultural e, para não deixar de
lembrar, nossa Orquestra Sinfônica arrebanha uma multidão
prioritariamente popular onde quer que se apresente, comprovando a sede
de arte com qualidade até agora latente no público sergipano. Algo está
acontecendo.

Portanto, é evidente que aos sergipanos já não se
pode atribuir uma solene indiferença aos nossos artistas. Algo está em
processo e é aí que as observações da cantora Patrícia Pollaine se
mostram oportunas. Os artistas sergipanos precisam entender este momento
histórico contribuindo de todas as maneiras para que ele se consolide,
mostrando a sua arte, encaminhado as suas propostas, interagindo e
prestigiando o coletivo. As gerações passadas que não dialogaram com o
gosto público e, solitários, se auto entronizaram em altares de cristal,
tiveram grandes prejuízos com isso.

É o que eu acho.

Amaral Cavalcante

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Talco no museu … 

O Aniversário de 50 anos de carreira de Clemilda, nossa
maior “forrozeira”, foi comemorado ontem (18/06) em grande estilo no Museu da Gente
Sergipana, com o lançamento de uma exposição em sua homenagem e da versão em
longa-metragem de “Morena dos Olhos pretos”, documentário dirigido por Isaac
Dourado. Eu estaria mentindo se dissesse que sou um grande conhecedor e
apreciador de sua música, porque não sou. Mas a época em que ela, Genival
Lacerda, Zenilton e Sandro Becker, dentre outros, faziam sucesso no rádio com o
então chamado “forró safado”, aquele com letras de duplo sentido em que muitas
vezes se fazia um verdadeiro malabarismo lingüístico e até mesmo geográfico
apenas para que se pudesse proferir um palavrão (“A capital do Equador/É
Quito/Nunca Mudou/Foi sempre Quito”) foi parte marcante de minha infância. Além
disso, admiro sua personalidade forte e batalhadora. Por isso fiz questão de
prestigiar a festa.

Cheguei por volta das 19:30 e o saguão do Museu já estava
tomado de gente, com o público embalado por um trio de forró “pé de serra”, na
tradicional formação minimalista de sanfona, triângulo e zabumba. A exposição
estava bonita, muito bem arrumada e interativa, com um design gráfico sóbrio, elegante
e bastante informativo, muito embora um tanto quanto carente de objetos –
haviam apenas alguns discos, troféus, o disco de ouro recebido por “Prenda o
Tadeu” e o vestido usado na noite em que foi homenageada no Forrocaju e no Fórum
de Forró. A animação já era grande, mas ficou ainda maior com a chegada de um
grupo de senhoras extremamente animadas e devidamente paramentadas para um “reisado”.
Fizeram uma apresentação empolgante e dinâmica, unindo-se ao trio na
interpretação de canções do repertório da homenageada.
Minha maior expectativa, no entanto, era com relação ao
filme. Havia visto a versão em curta metragem exibida no Festival da Secult e,
mesmo reconhecendo as inúmeras falhas, senti que tudo poderia fazer mais sentido
quando fui informado que aquela era, na verdade, uma espécie de prévia para um
longa metragem. Estava certo: exibido para um auditório lotado, “Morena dos
olhos pretos” me emocionou ao contar de forma passional e didática, sem grandes
arroubos estilísticos ou tentativas de inovação narrativa desnecessária, a história
dessa alagoana “arretada” que deixou sua terra natal no porão de um navio aos
23 anos, em 1960, e foi parar no Rio de Janeiro, onde se tornou uma “piolha de
rádio”: era freqüentadora assídua das apresentações transmitidas ao vivo a
partir do auditório da Radio Mayrink Veiga. Sentada sempre na primeira fila,
acabou chamando a atenção de Raimundo Nobre de Almeida, diretor de um programa de
grande audiência, “Crepúsculo sertanejo”, que um dia perguntou se ela cantava.
Ela disse que sim, subiu ao palco e cantou. Impressionou Gerson Filho,
sanfoneiro aclamado como o “Rei dos oito baixos”, que fazia outro programa
chamado “Esse Norte é de morte”. Acabaram virando parceiros na vida e na arte e
vindo parar em Aracaju, onde tinham uma música, “Rodêro Novo”, “estourada”. Criaram
um programa de rádio – depois “exportado” para a TV – de grande sucesso, “Forró
no Asfalto”, cujo nome foi “surrupiado” de outro produzindo no Rio pelo
compositor Gordurinha – que foi informado e não se incomodou, já que era feito
em outro estado – e por aqui ficaram, tornando-se verdadeiro patrimônio da música
e da cultura popular sergipana.
No filme somos apresentados a essa história fascinante através
de imagens de arquivo e entrevistas com especialistas, além de depoimentos de
artistas consagrados que conviveram com Clemilda: Erivaldo de Carira, Amorosa, Anastácia,
Genival Lacerda, Sandro Becker e Alcymar Monteiro, este último o autor de “Prenda
o Tadeu”, seu maior sucesso. Seu depoimento sobre o fato é hilário: “Na época
eu tava passando o maior perrengue em São Paulo, quebrado, dormindo no porão de uma
pensão, e acabei entregando o ouro de mão beijada”. Igualmente engraçados – e emocionantes
– são os relatos do também alagoano Sandro Becker, com quem ela dividiu, em
parceria, um bizarro projeto de releituras “pop” de suas obras no qual, para as
fotos de divulgação, teve que se ajustar ao figurino de Madona “sadomasô”.
Afora uma ou outra deficiência técnica – o áudio da
entrevista com Becker, por exemplo, está terrível – o filme cumpre com louvor
sua missão de resgatar para as novas gerações a luta desta verdadeira guerreira
da cultura popular. Se encerra com um silencio emocionado de seu filho,
comovido com a situação atual da mãe, que sofre dos males da idade avançada e
convalesce de um AVC e de complicações com a osteoporose, e com um engraçadíssimo
“sketch” de “Os Trapalhões” onde Renato Aragão faz o papel de Tadeu.
A exposição continua em cartaz. Vá ver. E aproveite
para comprar o CD com a trilha sonora do filme, que tem seus maiores sucessos. A
renda da venda será revertida para o custeio das despesas com o tratamento médico
de nossa rainha do forró.
VIVA CLEMILDA!
Ela já é imortal …
A
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