O abacaxi da cultura – Entrevista com Hermano Vianna

Para antropólogo, governo tem dificuldade em implantar uma política cultural, mas a anticultural é corriqueira

11 de fevereiro de 2013 | 19h 56
Fonte: Ivan Marsiglia, de O Estado de S. Paulo
Com a sua peculiar estridência, a assim chamada “nova classe
média” ocupa, além de aeroportos e manchetes de economia, o centro da
cena cultural brasileira. É o carnaval do Ai se eu te Pego, do
tchererê-tche-tchê, da Beyoncé paraense Gaby Amarantos, da redenção do
funk carioca e também da tragédia da Gurizada Fandangueira. Nessa
explosão de sentidos figurados e literais, que marcas deixarão impressas
na cultura nacional os cerca de 40 milhões de “ex-pobres” – na jocosa
definição de MC Papo – que ascenderam ao mercado na última década?

Na opinião do antropólogo Hermano Vianna, antes de mais nada vale a
pena remeter para a discussão da cultura a crítica feita pelo
ex-presidente FHC ao termo nova classe média. “Há de tudo nela: pastores
de igrejas evangélicas, DJs de tecnobrega, militantes de coletivos
periféricos, donos de lan houses”, diz o irmão mais velho do guitarrista
Herbert Vianna, dos Paralamas, e um dos mais importantes pesquisadores
musicais do País. “O rótulo impreciso tenta dar conta de uma grande
transformação da sociedade brasileira ainda não analisada devidamente.”
Aos que denunciam um suposto empobrecimento geral das
manifestações artísticas no País, o doutor em antropologia social pelo
Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – que
também é consultor do programa Esquenta!, de Regina Casé, na Globo -,
lança mão de uma metáfora, a do disco voador: trata-se de um olhar que
sobrevoa o País sem conexão com o mundo de baixo que agora penetra a
fuselagem da nave, incomodando seus finos tripulantes. E reedita, em tom
de provocação, a enfática defesa que faz há anos da música mais popular
dos morros cariocas. “Encontro no funk muitos elementos que o tornam
superior a uma sub-MPB que tentam me empurrar como música de qualidade.”
Na última década, o Brasil vive a ascensão de uma nova
classe média e a chamada inclusão pelo consumo. De que forma essa
transformação se expressa no âmbito da cultura?

Em seu artigo de domingo passado no Estado, Fernando Henrique
Cardoso escreveu que “a dissolução do conceito de classes em ‘categorias
de renda’ chamadas classes A, B, C, D, ou nesta ‘nova classe média’,
dificilmente se sustenta teoricamente”. Falou mais como sociólogo do que
como ex-presidente ou político da oposição. Eu, como antropólogo,
orientando de Gilberto Velho – por sua vez orientando de Ruth Cardoso,
corajosa o suficiente para, durante a ditadura militar, aceitar que
Gilberto fizesse tese sobre o consumo de drogas entre jovens da velha
classe média -, posso afirmar que tal dissolução também não se sustenta
culturalmente. Quando dizemos “nova classe média” estamos pensando num
grupo extremamente heterogêneo em termos de estilos de vida e visões de
mundo. Há de tudo nela: pastores de igrejas evangélicas, DJs de
tecnobrega, militantes de coletivos periféricos, donos de lan houses,
etc. O rótulo impreciso tenta dar conta de uma grande transformação da
sociedade brasileira, ainda não analisada devidamente.


Em que termos falta analisá-la?

Ela não é apenas uma transformação econômica. Aconteceu ao mesmo
tempo em que outras mudanças profundas se processavam. Na cultura, as
consequências da revolução digital foram imediatas. O modelo de negócios
da “indústria cultural”, que funciona na base do broadcast,
poucos-para-muitos, ainda não conseguiu se adaptar ao mundo das redes,
muitos-para-muitos. Por exemplo, o mundo das gravadoras de discos, que
comandava o mercado mundial de música popular, praticamente desmoronou.
Milhares de pequenos estúdios surgiram em todas as periferias. Seus
produtos são distribuídos via internet e fazem sucesso sem precisar de
rádio, imprensa, TV. Em 2006, quando escrevi o texto para lançamento do
programa Central da Periferia, na Globo, deixei claro: somos a mídia de
massa correndo atrás da música mais popular nas ruas brasileiras que
nunca esteve na TV antes. Descrevi a grande mídia como um disco voador,
sobrevoando o País, sem conexão com o mundo “de baixo”. De lá para cá,
nada mudou tanto assim: apenas o barulho de fora (Ai se eu te Pego),
amplificado por milhões de alto-falantes de som automotivo ou de
celulares ligados em redes sociais, já penetra a fuselagem da nave,
incomodando seus finos tripulantes.


O sr. quer dizer que há um incômodo com a democratização da cultura?

O melhor texto sobre isso é o do Otávio Velho dizendo que não há
mais grotões no Brasil. Ele criticava a opinião de que os votos que
elegeram Lula vinham de grotões ignorantes e sem conexão com a realidade
contemporânea. Quem não viaja pelo interior não deve se dar conta
disso. Quando piso em qualquer biboca, longe das capitais, logo encontro
grupos articuladíssimos, tocando projetos sociais e culturais muitas
vezes com repercussão internacional. E há também uma politização geral
nesse interior que não é só de esquerda, e quase sempre não tem lugar
definido no espectro ideológico tradicional. Ela é alternativa à vida
político-partidária, parte do “disco voador”, e produziu importantes
organizações como a Cufa (Central Única de Favelas) e o AfroReggae. O
pop periférico e a politização cultural periférica – que não mantêm
relações harmoniosas entre si – são as principais novidades culturais
brasileiras das duas últimas décadas.


E as políticas de cultura do País, estão dando o melhor a essa população ou apenas reforçando estereótipos?

Políticas de cultura não devem “dar” nada para a população. Isso
se parece com promessa velha de político acostumado ao ar condicionado
no disco voador: “Vou levar cultura para as favelas”. A imagem
tradicional era a favela como vazio cultural que devia ser iluminada com
arte de fora. Os próprios favelados já deram a resposta: “Qual é, mané,
o que não falta aqui é cultura”. As políticas de cultura, então,
precisam trabalhar junto com o que já acontece em cada lugar,
possibilitando uma melhor circulação de informações e contribuindo para
ampliações de horizontes de maneiras de fazer arte, que foram criadas
muitas vezes aos trancos e barrancos (ou dentro de barracos). Outro dia
vi um censo cultural realizado com jovens de áreas “ex-pobres” –
expressão inventada pelo MC Papo, rei do reggaeton mineiro – do Rio
revelando uma maioria absoluta que nunca tinha ido a um show musical.
Conheço bem as áreas onde a pesquisa foi aplicada e sei que essa
rapaziada frequenta baile funk com muitas apresentações ao vivo. Aquilo
não é considerado show musical? Por quem, o pesquisador ou o pesquisado?
Show musical é o quê? Só o que acontece no Citibank Hall?


O sr. foi um defensor dos CEUs e dos Telecentros da então
prefeita Marta Suplicy. O que achou do Vale Cultura, apresentado pela
agora ministra?

O Vale Cultura não foi inventado pelo ministério Marta. Tem
longa história de formulação e debate, anterior até à data de 2009,
quando foi para o Congresso. Na época, o então ministro Juca Ferreira já
precisou atacar a opinião de que o dinheiro “não deveria ser usado em
baile funk”. Juca seguiu o pensamento de Gilberto Gil, que numa de suas
melhores frases como ministro disse: “Cultura ruim também é cultura”. É
isso, não tenho o que acrescentar porque sei que Gil e Juca sabem que
funk não é cultura ruim. Gil até já cantou, em declaração de amor para o
Rio, “quero ser teu funk”.


Então o sr. concorda com a resposta da ministra aos críticos do
Vale Cultura: ‘Se quiser comprar revista de quinta categoria, pode’ e
‘compra porcaria quem quiser’?

É engraçado: quando a política deixa o mercado decidir como o
incentivo vai ser usado, é acusada de sustentar cultura de mercado com
dinheiro público. Quando quer corrigir “distorções do mercado”, como o
fato de a região Sudeste acabar com a maior porcentagem do dinheiro da
Lei Rouanet, é acusada de dirigismo cultural. Parece que todos preferem o
imobilismo – que o ministério não proponha política nenhuma. Não morro
de amores pelo Vale Cultura, mas encaro sua implementação como uma
experiência. Por que, de antemão, achar que ele vai ser usado só em
porcaria? Essa é a imagem que temos do tal “povo”, coitadinho, que
precisa de nossa orientação para saber o que é bom. E se for assim, por
que esses críticos não partem para a porta das fábricas para ensinar ao
povo o que é bom, com serviço de van grátis direto para a Sala São
Paulo?


A ida de Juca Ferreira, um baiano, para a Secretaria de Cultura paulistana de Fernando Haddad, lhe agradou?

Confesso que fiquei surpreso. Estamos acostumados a pensar a
política estadual ou municipal de forma paroquial, como se só os locais
pudessem lidar com realidades locais. Então foi surpresa boa: uma pessoa
de fora pode descobrir maneiras novas para resolver velhos problemas já
naturalizados pelos nativos. Mesmo quando entende as coisas de forma
errada. Lembro a descoberta do tropicalismo pelos críticos estrangeiros
nos anos 1990: eles falaram muita besteira, não captavam as sutilezas do
nosso contexto, terrivelmente complexo para gringos. Mas aquilo me fez
entender nosso passado musical com novos olhos, e tudo ficou ainda mais
interessante. Espero que o mesmo aconteça com o diálogo entre o baiano
Juca e os paulistanos, que sempre souberam acolher bem os baianos, a
ponto de ninguém poder dizer com certeza se o tropicalismo é baiano ou
paulistano. Mandei até uma sugestão, de que uma das primeiras ações do
novo secretário deveria ser um encontro com a grande comunidade do samba
paulistano.


E como vai a cultura em sua cidade, o Rio?

No Rio acontecem outras surpresas: uma pessoa de fora, o gaúcho
Beltrame, impulsionou o projeto das UPPs. Por anos fui defender o funk e
a possibilidade de realização dos bailes na Secretaria de Segurança –
já que a Secretaria de Cultura nunca se pronunciava. Hoje, há uma nova
era de projetos culturais. Bom sinal para a cidade, que agora,
pós-tragédia em Santa Maria, terra do Beltrame, percebe como as coisas
estavam descontroladas. Havia a tal da Resolução 013 que era sempre
usada por policiais quando queriam fechar um baile. Tudo podia ser
motivo: falta de saídas de emergência, banheiros, isolamento acústico,
etc. Agora sabemos que mesmo os espaços culturais da prefeitura ou do
Estado funcionavam contrariando regras de segurança. Por que só os
bailes eram fechados?


E o carnaval? Nessa semana de exaltação e júbilo país afora, temos o que comemorar?

Este carnaval é do sertanejo, do arrocha, do funk paulistano.
Ela é Top, do paulistano MC Bola, é a música mais tocada no rádio em
Salvador, com versão bem local. Essa é a brincadeira musical preferida
atualmente: os sucessos ganham versões em todos os ritmos do momento. E
os estilos se misturam. Quem diria que o sertanejo iria virar música de
balada? Quem diria que Campo Grande, Mato Grosso do Sul, iria se
transformar na capital do pop brasileiro? Eu não entendia muito bem o
mundo do sertanejo. Até que fui numa festa de fundo de quintal, bem
familiar, em Campo Grande. Uma dupla tocava canções que eu nunca ouvira
antes e todo mundo fazia coro, com emoção tão explosiva quanto no
momento mais animado do bumbódromo de Parintins. Foi minha rendição:
gosto de pop fake, mas também não resisto diante da autenticidade.
Naquele momento, gostei por motivos antropológicos, o que me encantava
era o amor que aquelas pessoas sentiam por aquela música. Estava claro
que algo grande iria acontecer dali. Hoje gosto também por motivos
musicais. Mas há outro aspecto interessante nessa brincadeira, que é bem
mais que música. Ninguém, nem mesmo o fã mais “inculto”, acha que Ai se
eu te Pego é um clássico de Tom Jobim. Aquilo é outra coisa: um mote
para festa, para animação coletiva. Começou com uma cantoria de meninas
paraibanas viajando para a Disney, virou refrão para animar turistas em
Porto Seguro e depois forró em Feira de Santana. Michel Teló transformou
o resultado em canção pop, que já foi apropriada em vídeos em todo o
planeta, como Gangnam Style. O que importa aí é o processo, a diversão
agora, o riso solto, e não a obra-prima para ser venerada como fuga de
Bach. É preciso julgar as duas coisas com critérios diferentes.


O sr. parece otimista, mas há alguns dias o sambista Zeca
Pagodinho criticou o carnaval no Rio, disse que ‘tudo foi roubado’ e não
se vê mais nem enfeites nas ruas de periferia. Sambas-enredo falam de
países distantes e cavalos manga-larga por exigência de patrocinadores. E
até o elogiado renascimento dos bloquinhos de rua, em contraponto ao
megashow mercantilizado do sambódromo, já é promovido por marcas de
cerveja. A massificação põe em risco a riqueza da festa?

O carnaval é uma festa moderna, que cresceu mesmo a partir do
final do século 19. O primeiro desfile de escola de samba aconteceu em
1929, e o patrocínio dos jornais foi importante para sua popularização e
“oficialização”. Antes era algo menor no calendário cultural do Rio. A
grande festa da cidade era o Divino, que ocupava o Campo de Santana
durante várias semanas. Desapareceu. Nem por isso o Rio deixou de ser o
Rio. Tudo muda. E muitas novidades importantes têm origem em desrespeito
a tradições. O baiano Hilário queria botar seu terno de Reis nas ruas
cariocas. Notando que o 6 de janeiro não era dia de folia no Rio,
resolveu sair no carnaval. Deu nos ranchos, nas escolas de samba e assim
por diante. Se fosse fiel às regras tradicionais, a cultura da cidade
hoje seria bem diferente. Eu adorava o carnaval no Centro do Rio no
início dos anos 80. Cacique de Ramos e Bafo da Onça desfilavam
gigantescos, empolgadíssimos. Aquilo foi minguando, melancolicamente.
Houve ano que não escutei nenhum som de blocos na rua. Hoje há cada dia
mais blocos, cada vez maiores. A garotada carioca, de todas as classes,
voltou a ter no carnaval sua melhor festa. Você não gosta de blocos
comerciais? Não se preocupe, há muitos outros que fogem do comércio.
Neste ano vai ter até bloco que só canta marchinhas baseadas em
tragédias gregas.


Há quem veja, no entanto, um empobrecimento nas manifestações
artísticas de hoje, especialmente se lembrarmos do samba de raiz de
Cartola e Pixinguinha, por exemplo. Não há em seu discurso uma certa
correção política que impede a crítica?

Cito mais uma vez Gil: raiz para mim só de mandioca. Samba é
música moderna, criada no início do século 20, inclusive com a invenção
de instrumentos novos, como o surdo, criado a partir de tonéis
industriais. Tudo muda, o tempo todo. Ficou mais pobre? A partir de que
critério? Sei que o relativismo está fora de moda. Nem ligo: sou
relativista incorrigível, cada vez mais radical. Constantemente me pego
fazendo coro para Hêmon brigando com seu pai Creonte, em Antígona:
“Guarda-te, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o
que dizes, e por seres tu que o dizes, exclui qualquer outra
possibilidade de ver e sentir as coisas”. Não tem quem me convença que
há um fundamento estético único a partir do qual podemos decretar o
empobrecimento ou o enriquecimento das criações humanas. Mas digamos que
há: então encontro no funk muitos elementos que o tornam superior a uma
sub-MPB que tentam me empurrar como música de qualidade. O tamborzão do
funk salvou a música brasileira na virada do século 20 para o 21. É
vanguarda mesmo, concretismo eletrônico afro-brasileiro. Mas para quem
acha que hip hop não é música, ou que Stockhausen não é música, o que
estou falando é delírio. Um consolo é saber que a produção da gravadora
Motown um dia foi considerada por todos os críticos como lixo comercial
sem futuro.


A que servem iniciativas suas como o programa Esquenta!, com Regina Casé?

Antes de qualquer outra coisa queremos fazer uma boa festa. Nas
gravações do programa, os momentos que mais nos agradam são quando a
plateia assume o controle e viramos espectadores da farra coletiva. Como
em qualquer outra festa boa, para isso acontecer é preciso reunir gente
que pensa diferente e não tenha preconceito diante das diferenças.
Reunião só com gente que pensa igual não tem graça.


O Brasil deveria apostar num programa de inclusão social pela cultura?

Detesto a palavra inclusão por motivos que já comentei nas
respostas anteriores: parece que a salvação do excluído – que não tem
nada, é um vazio a ser preenchido por bom conteúdo – está na sua captura
por um mundo que não é dele, não sua transformação em Outro. Partindo
dessa premissa, a política cultural já seria de grande valor se não
atrapalhasse o que já existe. O governo tem enorme dificuldade para
criar e implantar política cultural. Mas política anticultural é
corriqueira. Como a proibição dos bailes funk quando a música estava
nascendo, empurrando-a para dentro de morros controlados pelo tráfico
armado. O “funk proibidão” foi produto dessa ação anticultural do poder
público.

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