Certa feita, conversando com um amigo educador/artista, que
reside na cidade de Olinda, em Pernambuco, sobre o modo de a esquerda
governar, ele externou para mim algumas preocupações referentes ao
modelo de gestão de muitas administrações progressistas que ele conheceu
e que se moldam facilmente à cultura política das oligarquias locais e
realizam, mesmo que de forma mais eficiente, uma gestão cuja prioridade
são apenas as grandes obras, os programas assistenciais e os shows com
grandes artistas ligados à cultura de massa, o que acaba lembrando uma
canção do Cazuza: “Um museu de grandes novidades” ou parafraseando Belchior: “Minha
dor é perceber que apesar de tudo que fizemos, ainda somos os mesmos,
“pensamos” e administramos a coisa pública como os velhos coronéis.”
E o meu amigo fez o questionamento porque, ocorrendo o término do
mandato (sem reeleição), uma outra administração ligada a partidos
conservadores, com inteligência e perspicácia pode fazer a mesma coisa:
realizar grandes obras, investir em programas sociais e prosseguir na
organização dos mega shows e, conseqüentemente, passar para a população
a idéia de que não haverá necessidade de se votar na esquerda
novamente.
Se na época não consegui imaginar isso como uma possibilidade real,
decorridos alguns anos dessa conversa, reconheço que essa opinião é
pertinente e esse texto foi escrito para ajudar na reflexão sobre o
assunto, na linha de que tudo que é sólido se desmancha no ar e de que o
que é novidade facilmente torna-se comum, e por isso todo indivíduo ou
organização que deseja ser sempre considerada e reconhecida deve
continuadamente buscar se aprimorar naquilo para que foi criada e
facilitar as coisas para que novas descobertas e novas invenções possam
ter lugar.
E isso só acontece num ambiente de autonomia e que favoreça
condições e oportunidades para a construção e reconstrução
subjetiva dos indivíduos .
Nesse sentido, considero duas questões primordiais. Em primeiro lugar,
atenção especial para a mudança de valores e práticas de relacionamento
político pautado nos antigos procedimentos da elite dominante, como o
clientelismo, o paternalismo, o autoritarismo etc…
Em segundo lugar, atenção especial àquilo que aponta para a criação de
sujeitos mais solidários, mais livres, mais ousados, àquilo que cria e
dá sentido à realização plena das pessoas (refiro- me aqui à produção
artístico/ cultural).
No primeiro caso se faz necessário (re)construir, fortalecer ou criar
estruturas formais e informais de participação “real” da população nas
decisões sobre os rumos do governo, como os conselhos, as conferências,
as câmaras setoriais, os fóruns e as redes, além do incentivo e apoio à
organização da sociedade civil através das ongs, e cooperativas.
Assim, se viabilizaria um ambiente favorável à gestação de novas
idéias e recursos para resolver ou atenuar velhos problemas, o que
também pode garantir a criação de um antídoto para evitar o retrocesso
de condução antidemocrática das decisões, a partir da eleição de
partidos ligados às velhas elites dirigentes, após suceder-se um
governo de esquerda.
No segundo caso, democratizar o acesso aos meios de produção artística e
dos meios de produção e difusão da informação, com orçamento decente e
gestores comprometidos, preparados e que saibam ouvir os
interessados no assunto, o que resultará em diretrizes e ações que
garantirão à maioria da população a possibilidade de se expressar de
maneira que não fiquem apenas se comportando como meros consumidores de
um bocado de lixo que é comercializado como produto cultural e cujos
conteúdos — carregados de intolerância (inclusive religiosa),
vulgarização do sexo, preconceitos vários, individualismo exacerbado,
banalização da violência, etc., — vão na direção contrária de tudo
aquilo que defendemos, formando o “caldo” da cultura que conduz ao
retorno e sustentação da nova/ velha direita.
E isso é tudo que muita gente que ousa lutar e acreditar em outro país
menos deseja, mas que será inevitável, caso opiniões como a nossa não
sejam levadas em consideração a tempo.
P.S.: Segundo o pensador italiano Norberto Bobbio a esquerda orienta-se
por um sentimento igualitário e a direita aceita a desigualdade como
natural. Embora no Brasil seja praticamente impossível perceber a
diferença através dos discursos e propaganda em época de campanha
eleitoral.
Quanto as questões que apresento no texto acima percebo que o modelo de
gestão do Ministério da Cultura aponta para o que escrevi acima. Apesar
da necessidade de aumento do orçamento e da capacitação técnica e
redução da burocracia para o acesso dos pequenos empreendedores
culturais do interior e das periferias aos editais. Em Recife, em
visitas a comunidades periféricas e em conversas com artistas e
arte-educadores populares e também com o Secretário de Cultura, João
Roberto Peixe, que nos concedeu audiência de quase duas horas no ano de
2004, pude perceber que muito daquilo que queremos/sonhamos já é
realidade. Na oportunidade, o secretário me entregou cópias do relatório
de gestão 2000/2004 e da I Conferência Municipal de Cultura do Recife,
da qual tive a honra de participar.
José de Oliveira Santos – “Zezito” Professor de história e ativista cultural