Leonardo Boff – Sobre as manifestações de rua no Brasil. (Munique > Paris 24/06/2013)

Estou
fora do pais, na Europa a trabalho e constato o grande interesse que
todas as mídias aqui conferem às manifestações no Brasil.



bons especialistas na Alemanha e França que emitem juízos pertinentes.
Todos concordam nisso, no caráter social das manifestações, longe dos
interesses da política convencional. É o triunfo dos novos meios e
congregação que são as mídias sociais.


O grupo da libertação e a
Igreja da libertação sempre avivaram a memória antiga do ideal da
democracia,presente, nas primeiras comunidades cristãs até o século
segundo pelo menos.Repetia-se o refrão clássico:”o que interessa a
todos, deve poder ser discutido e decidido por todos”. E isso funcionava até para a eleição dos bispos e do Papa. Depois se perdeu
esse ideal nas nunca foi totalmente esquecido. O ideal democrático de ir
além da democracia delegatícia ou representativa e chegar à democracia
participativa, de baixo para cima, envolvendo o maior número possível de
pessoas, sempre esteve presente no ideário dos movimentos sociais, das
comunidades de base,dos Sem Terra e de outros. Mas nos faltavam os
instrumentos para implementar efetivamente essa democracia universal,
popular e participativa. Eis que esse instrumento nos foi dado pelas
várias mídias sociais. Elas são sociais, abertas a todos. Todos agora
tem um meio de manifestar sua opinião, agregar pessoas que assumem a
mesma causa e promover o poder das ruas e das praças. O sistema
dominante ocupou todos os espaços. Só ficaram as ruas e as praças que
por sua natureza são de todos e do povo. Agora surgiram a rua e a praça
virtuais, criadas pelas midias sociais.


O velho sonho
democrático segundo o qual o que interessa a todos, todos tem direito de
opinar e contribuir para alcançar um objetivo comum, pode em fim ganhar
forma.

Tais redes sociais podem desbancar ditaduras como no Norte
da Africa, enfrentar regimes repressivos como na Turquia e agora mostram
no Brasil que são os veículos adequados de reivindicações sociais,
sempre feitas e quase sempre postergadas ou negadas: transporte de
qualidade, saúde, educação, segurança, saneamento básico. São causas que
tem a ver com a vida comezinha, cotidiana e comum à

maoria dos motais. Portando, coisas da Política em maiúsculo.


Nutro a convicção de que a partir de agora se poderá refundar o Brasil a
partir de onde sempre deveria ter começado, a partir do povo mesmo que
já encostou nos limites do Brasil feito para as elites. Estas costumavam
fazer

políticas pobres para os pobres e ricas para os ricos. Essa
lógica deve mudar daqui para frente. Ai dos políticos que não mantiverem
uma relação orgânica com o povo. Estes merecem ser varridos da praça e
das ruas.

Escreveu-me um amigo que elaborou uma das interpretações
do Brasil mais originais e consistentes, o Brasil como grande feitoria e
empresa do Capital

Mundial, Luiz Gonzaga de Souza Lima. Permito-me citá-lo:


“Acho que o povo esbarrou nos limites da formação social empresarial,
nos limites da organização social para os negócios. Esbarrou nos limites
da Empresa Brasil.

E os ultrapassou. Quer ser sociedade, quer
outras prioridades sociais, quer outra forma de ser Brasil, quer uma
sociedade de humanos, coisa diversa da sociedade dos negócios. É a
Refundação em movimento”.


Creio que este autor captou o sentido
profundo e para muitos ainda escondido das atuais manifestações
multitudinárias que estão ocorrendo no Brasil.

Anuncia-se um parto
novo. Devemos fazer tudo para que não seja abortado por aqueles daqui e
de lá de fora que querem recolonizar o Brasil e condená-lo a ser apenas
um fornecedor de commodities para os países centrais que

alimentam
ainda uma visão colonial do mundo, cegos para os processos que nos
conduzirão fatalmente à uma nova consciência planetária e a exigência de
uma governança global. Problemas globais exigem soluções globais.
Soluções

globais pressupõem estruturas globais de implementação e
orientação. O Brasil pode ser um dos primeiros nos quais esse inédito
viável pode começar a sua marcha de realização. Dai ser importante não
permitirmos que o

movimento seja desvirtuado.
Música nova exige um ouvido novo.

Todos são convocados a pensar este novo, dar-lhe sustentabilidade e
faze-lo frutificar num Brasil mais integrado, mais saudável, mais
educado e melhor servido em

suas necessidades básicas.
———————————————————————————————————————–


Intermitências da Memória: O legado de Maio de 68

Fonte: Caros Amigos


Intermitências da memória: o legado do “maio de 68” francês


Por Fabio Mascaro Querido


“O dom de atear ao passado a centelha da esperança pertence
somente àquele historiador que está perpassado pela convicção de que
também os mortos não estarão seguros diante do inimigo, se ele for
vitorioso. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. Walter Benjamin,
“Teses sobre o conceito de história” (Tese VI), 1940.


Toda rememoração do passado carrega consigo, inevitavelmente, uma
visão específica do presente, temporalidade na qual os sentidos do ontem
e do amanhã são permanentemente interpelados, reconstruídos,
redimensionados. É sempre do presente que interrogamos o passado, e por
isso, o ocorrido nunca é apresentado “tal como ele propriamente foi”,
mas sim à luz de um “agora” entendido como instante político por
excelência. O passado, como o presente, está em constante “disputa”. A
herança não é um objeto inerte, mas sim aquilo que dela farão os
herdeiros. É nesse sentido que, como diria Walter Benjamin, o passado
interpela criticamente o presente.


“Os debates em torno do legado do
assim chamado “maio de 68” francês, que se proliferam a cada data
comemorativa, refletem esta “constelação saturada de tensões” entre o
passado e o presente, entre o que efetivamente foi e aquilo que, no
presente, pensamos ou gostaríamos que tivesse sido”


Os debates em torno do legado do assim chamado “maio de 68” francês,
que se proliferam a cada data comemorativa, refletem esta “constelação
saturada de tensões” entre o passado e o presente, entre o que
efetivamente foi e aquilo que, no presente, pensamos ou gostaríamos que
tivesse sido. Este embate “representativo”, mais do que uma disputa
meramente historiográfica, constitui uma expressão de perspectivas
políticas divergentes (se não antagônicas). Deste ponto de vista, seria o
caso de indagar: qual o significado histórico, político e cultural do
imaginário de “maio de 68” hoje, 45 anos após a sua irrupção real? O que
as lutas operárias e estudantis daquele período tem a nos dizer no
mundo contemporâneo, quando a fusão entre vida e arte (projetada pelos
surrealistas e reivindicada pelos jovens de 1968) foi canalizada pelos
imperativos da sociedade da mercadoria?


Revolta


Para não poucos autores, alguns à esquerda do espectro político, Maio
de 68 não foi senão o marco simbólico que removeu os últimos obstáculos
à emergência da sociedade de consumo (mais tarde neoliberal),
cimentando, desse modo, as bases ideológicas e culturais do
pós-modernismo. Esta leitura estreita e unilateral, que não vê nos
acontecimentos de 68 senão o estopim de uma revolta lúdica e efêmera,
que prenunciaria por razões diversas o hedonismo pós-moderno,
transformou-se na leitura “oficial” das inúmeras “comemorações” da data,
como se, de fato, a “vitória” do Maio francês – se ela existiu –
correspondesse à decisiva contribuição para o que, enfim, a sociedade se
transformou: uma sociedade dominada pelos desígnios da mercadoria, cuja
“modernidade” plena logrou eliminar quase definitivamente os entraves
“tradicionais” (ético-morais) que bloqueavam o advento do sonhado mundo
da liberdade mercantil. Tal leitura parece se confirmar à luz do fato de
que parte significativa dos jovens protagonistas das lutas da época
tornaram-se membros muito bem adaptados à ordem que naquele momento
julgavam combater.


Memória


Daí as intermitências de uma memória que se transforma no tempo, e
que responde a interesses específicos alojados no presente. Se não, como
explicar que este período de lutas, no qual estalou (é preciso dizer) a
mais massiva e mais longa greve geral da história, início de uma nova
vaga de lutas operárias na Europa, seja transformado no ponto de partida
simbólico de um paradigma societário caracterizado, entre outras
coisas, pelo avanço inexorável da lógica mercantil que se alastra por
todos os poros da vida social? Trata-se, sem dúvida, de uma inexorável
amostra da capacidade do capitalismo “pós-moderno” de “integrar”
demandas potencialmente subversivas, metamorfoseando-as em aspectos
palatáveis à “diversidade” da sociedade das mercadorias. Mais difícil de
explicar, porém, são as razões pelas quais muitos autores situados à
esquerda no campo intelectual visualizam em Maio de 68 o início de uma
decadência generalizada da política revolucionária, daí em diante
gradativamente suplantada pela emergência fulminante dos “novos
movimentos sociais”, apanágios práticos da diluição teórica pós-moderna.


“Sua rememoração constitui, portanto,
hoje em dia, uma meditação sobre a derrota, mas sobre uma derrota que,
ao ameaçar alterar o curso das coisas, legou ensinamentos decisivos às
gerações posteriores, combustíveis utópicos que podem impulsionar os
enfrentamentos atuais”


Se, ao contrário, na contramão das apropriações pós-modernas
(paradoxalmente legitimadas por alguns guardiões da ortodoxia), se
reconhece nos acontecimentos daquele período um momento importante da
tradição de lutas dos oprimidos, em sentido anticapitalista, torna-se
nítido que a eclosão de um individualismo sem individualidade e de um
hedonismo sem prazer (avalizada pelos “novos filósofos” emergentes) não
são o resultado de Maio de 68, e sim a consequência da sua derrota e do
seu refluxo – para os quais contribuíram, vale dizer, as direções
políticas e sindicais (PC e OS) hegemônicas no movimento operário. Sua
rememoração constitui, portanto, hoje em dia, uma meditação sobre a
derrota, mas sobre uma derrota que, ao ameaçar alterar o curso das
coisas, legou ensinamentos decisivos às gerações posteriores,
combustíveis utópicos que podem impulsionar os enfrentamentos atuais
contra a transformação do mundo em uma grande mercadoria.


Resgate


Para os jovens e os operários combatentes de 1968, assim como para
muitos dos movimentos sociais e políticos atuais, “o mundo não é uma
mercadoria”. Para os oprimidos do presente, é este o Maio de 68 que deve
ser resgatado e rememorado, o Maio de 68 contra o qual vociferou
Nicolas Sarkosy na campanha eleitoral em 2007. A rememoração ativa deste
passado recente, à diferença das “comemorações” conformistas, só pode
ser realizada por aqueles que, no presente, dão seguimento às lutas e ao
horizonte anticapitalista entreaberto em 68, isto é, por aqueles que
anteveem no imperativo de “revolução total” que ali se manifestou
(buscava-se, ao mesmo tempo, mudar a vida e transformar o mundo) um
horizonte estratégico ainda atual e necessário. Estes sabem que, sem
memória do passado, não há luta pelo futuro. E sabem também que a
herança encontra-se ainda em disputa, constantemente ameaçada pela
apropriação apaziguadora por parte daqueles para os quais o legado de
maio de 68 constitui uma ameaça à continuidade de sua dominação.


Remomoração Revolucionária


De onde a necessidade – defendida por Walter Benjamin nas “teses
sobre o conceito de história” – da rememoração revolucionária da
“tradição dos oprimidos”, a fim de impedir que ela seja metamorfoseada,
por assim dizer, “em instrumento da classe dominante”. “Em cada época”,
diz Benjamin (tese VI), “é preciso tentar arrancar a transmissão da
tradição ao conformismo que está na iminência de subjugá-la”. Como?
“Escovando a história a contrapelo” (tese VII), quer dizer,
visualizando-a do ponto de vista dos “vencidos”, daqueles que resistiram
ao “cortejo triunfal” das classes dominantes de sua época. É sob esta
ótica que acontecimentos como os que ocorreram em maio-junho de 1968, na
França, constituem uma “iluminação profana” permanente para as lutas
das classes subalternas a cada novo presente, quando olham para as lutas
do passado buscando prefigurações críticas daquilo que visualizam para o
futuro.


Rolar para cima