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Acidentes expõem falta de segurança em trios elétricos
Edição do dia 06/03/2011 – Atualizado em 06/03/2011 21h38
Neste carnaval, houve mortes em acidentes envolvendo trios. No sábado, em Recife, duas pessoas caíram de um carro de som.
das maiores manifestações populares do Brasil: o trio elétrico. Quando
três músicos plugaram seus instrumentos e desfilaram em cima de um carro
comum pelas ruas de Salvador, nascia o trio elétrico. Dos anos 50 para
cá, muita coisa mudou. Eles se espalharam pelo Brasil e agora são
grandes caminhões de som que atraem multidões em várias cidades do país.
Mas colocar um trio na rua exige planejamento e segurança – o que não
acontece em todo o Brasil.
No Rio, a estudante Camila Dib, de 21 anos, morreu no desfile do
Bloco Ensaio Geral. Quando o trio se aproximou de um fio, todo mundo
teve que se abaixar, e ela caiu.
“Você observa no guarda-corpo lateral que tem uma trava central,
um barramento central no guarda-corpo que impede que as pessoas caiam. O
único local em que não tem a barra é no fundo. Ela passa justamente
entre as ferragens do guarda-corpo por ausência daquela barra central”,
aponta Moacyr Duarte, especialista em emergência.
guarda-corpo. Pelo menos um metro de altura e barras ou telas para
evitar quedas. Segundo a polícia do Rio, não era para Camila nem ninguém
ter subido no trio.
“O Ensaio Geral não tinha autorização para levar pessoas em cima
do bloco. A autorização dada foi apenas para que o trio elétrico
desfilasse como carro de som”, explica a delegada Daniela Terra.
O bloco tinha que ter apresentado laudo de um engenheiro
provando que o trio pode carregar pessoas no teto. O laudo então deveria
ser entregue ao corpo de bombeiros.
“A função específica do Corpo de Bombeiros nesse caso é a parte
documental. Ele não vai ao bloco carnavalesco fiscalizar”, avisa Marcelo
Rosa, do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro.
O trajeto também não é fiscalizado.
“O que cabe à prefeitura é dar autorização para o bloco sair.
Todo percurso precisa ser de sabedoria do próprio bloco”, alerta o
presidente da Riotur, Antônio Pedro Figueira Melo.
No Recife, a segurança do trajeto aumentou este ano.
“O padrão normal da rede elétrica de baixa tensão é 5,5 metros
em vias urbanas no Brasil todo, mas nós elevamos a 6,5 metros por uma
solicitação para facilitar o desfile dos trios”, diz Amauri Pereira, da
Companhia Energética de Pernambuco.
Mesmo assim, na quinta-feira passada (3), o primeiro desfile do
Galo da Madrugada precisou de uma mãozinha – com luvas que não deixam a
eletricidade passar.
Foi a eletricidade que matou 15 e feriu 56 pessoas no carnaval
de Bandeira do Sul, em Minas. Ainda não se sabe o que causou o
curto-circuito, mas esse acidente poderia ter sido evitado.
“Olha a largura do carro e a largura da rua. Os fios são extremamente próximos”, analisa Moacyr Duarte.
Grandes capitais do mundo não têm esse problema da fiação
exposta. A Times Square, em Nova York, é a esquina do mundo. A energia
gasta no local todos os dias daria para iluminar uma cidade como Maceió,
por exemplo, que tem quase um milhão de habitantes. Mas aí, você
procura e não enxerga de onde vem toda essa eletricidade.
É porque na ilha de Manhattan a energia elétrica corre por
debaixo da terra. São 151 mil quilômetros de cabos e 35 mil
transformadores, tudo debaixo das ruas e calçadas. Para chegar até eles,
264 mil bueiros. Três quartos da rede de energia em Nova York estão nos
subterrâneos.
Em Londres, não é diferente. São 34 mil quilômetros de rede que
levam eletricidade para 2,3 milhões de pessoas. Os cabos passam por
túneis, que não param de ser escavados, já pensando na ampliação da rede
no futuro.
São Paulo é a cidade brasileira com a maior rede de cabeamento
subterrâneo. Ao todo, 10% da rede estão debaixo do chão. Se a instalação
é mais cara, também traz vantagens.
“Essa rede, por ser subterrânea, é muito menos sujeita a
problemas causados por agentes externos, como raios, queda de árvores e
carros que derrubam postes. O custo com relação à manutenção é muito
menor”, diz o professor de energia e eletrotécnica da USP, Alexandre
Piantini.
O carnaval de Salvador acontece na orla da cidade, onde não há fiação elétrica exposta.
“Desde que foi criada a central, há 15 anos, nunca tivemos um
acidente”, conta o Major Sampaio, diretor da central de fiscalização.
Mais: os trios são fiscalizados com rigor, por 12 órgãos públicos.
“No Trio da Estrela, com Ivete Sangalo, nós procuramos cumprir
as determinações para não correr nada de errado, para ela desfilar e
fazer um belíssimo carnaval”, diz o produtor Railton Nunes.
“Não se pode sobrepor o interesse da festa à segurança das
pessoas, isso aí tem que acabar. A gente tem que ter uma festa que tenha
só felicidade”, opina Moacyr Duarte.
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