O documentário Hora do Recreio mostra a realidade brutal nas escolas das periferias do Rio e a arte como sublimação, mas também ato de rebeldia. Blog do IMS e Outras Palavras..

 

Enquanto o mundo olha para o Oscar, “Hora do recreio”, de Lúcia Murat, chega aos cinemas para lembrar que o cinema também pode ser escuta. O filme acompanha adolescentes de escolas públicas da periferia do Rio — em sua maioria negros — e os coloca no centro da narrativa. Eles falam de violência, racismo, homofobia, abandono. Mas também criam: colagens, teatro, dança. A realidade brutal não é apenas denunciada, mas transformada em arte. A diretora não invade; ela pactua. O resultado é uma obra coletiva, horizontal, que pulsa com a vitalidade de quem, apesar de tudo, insiste em existir.

A sequência da excursão ao centro do Rio é das mais belas: os alunos descobrem a Candelária — palco de diretas e de chacina —, o Cais do Valongo, porta de entrada de africanos escravizados, e o CCBB, com sua arquitetura e arte modernista. A história não é lição, é descoberta. E o humor, o frescor, a rebeldia adolescente permeiam tudo. Não é filme militante; é filme vivo. Vencedor do Urso de Cristal em Berlim, “Hora do recreio” prova que, quando a câmera se curva para ouvir, o que emerge é muito mais que denúncia: é potência.

Por José Geraldo Couto

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Só se fala em Oscar, mas vamos mudar de assunto por um momento. Hora do recreio, de Lúcia Murat, que entra hoje em cartaz, merece toda a atenção possível. É, em linhas gerais, um semidocumentário sobre (e com) adolescentes de escolas públicas de bairros periféricos do Rio de Janeiro. Sob essa descrição sumária, no entanto, encontra-se um filme de riqueza ímpar dos pontos de vista social, cultural, moral, político e artístico.

Dividido em quatro escolas – três de nível médio e uma de ensino fundamental –, Hora do recreio põe em cena meninos – e sobretudo meninas – falando sobre o seu dia a dia e elaborando artisticamente essa experiência, não raro brutal e traumática. Uns (os pequenos) fazem colagens, outros fazem teatro e dança.

Arte como salvação

A equação realidade bruta x sublimação artística está presente na estratégia expositiva desde a primeira sequência, ainda pré-créditos: planos curtos de crianças e adolescentes indo para a escola (a pé, de ônibus, de bicicleta) contrapostos a imagens de uma exposição de quadros que mostram… crianças e adolescentes indo para a escola, sob o rap incisivo A música da mãe, de Djonga. Vida e arte entrelaçadas intimamente.

Na primeira escola, meninas adolescentes, em sua maioria negras, falam sobre violências de gênero que presenciaram ou vivenciaram. São histórias terríveis, de agressões a mães, de pais alcoólatras ou drogados, abandono, medo, solidão. A certa altura aparece a diretora, Lúcia Murat, para agradecer a coragem e a franqueza das meninas. Ficamos sabendo então que aquela é uma sala de aula fake, recriada num outro ambiente, já que a secretaria de educação do Rio não autorizou a filmagem em escolas da rede pública.

Na conversa acalorada, emergem naturalmente outros temas, como racismo, homofobia, transfobia. O tom fica cada vez mais íntimo, confessional, como numa terapia de grupo. Um garoto trans, por exemplo, diz que chegou à beira do suicídio na sétima série porque era impedido de usar os banheiros da escola, tanto o masculino como o feminino. Segundo ele, só um professor o ouvia e acolhia.

Realidade e ficção

Expor desde o início o caráter parcial de encenação não enfraquece a contundência do que é dito e mostrado, muito pelo contrário. Parece até acentuar a veracidade e o frescor do que vemos e ouvimos, pela percepção de que é fruto de um pacto transparente entre filmadora e filmados.

Em outra escola, no complexo da Penha, adolescentes, outra vez quase todos negros, interpretam (eu quase dizia “exorcizam”) em um misto de dança, teatro e mímica seu cotidiano de violência e opressão. Máscaras com recortes de jornais e revistas sublinham o contexto histórico-social, deixando à mostra olhares duros, intensos, como poucas vezes vemos nos palcos ou nas telas.

Estudantes de outra escola transformam em peça de teatro o romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto. Em meio ao ensaio de trechos da peça, eles e elas discutem e atualizam os temas presentes na peça: racismo, machismo, opressão de classe. O personagem Cassi Jones, o branco sedutor da garota negra Clara, revela-se muito parecido com os jovens abusadores e estupradores de classe média que têm povoado o noticiário e as redes sociais.

A cidade e a história

Uma das sequências mais bonitas e reveladoras do filme é a que mostra a excursão de um grupo grande de alunos de uma escola de periferia ao centro do Rio. Na Candelária, o professor/guia negro explica os fatos contraditórios acontecidos ali: o comício das diretas e a “chacina da Candelária”. No cais do Valongo, ele lembra que o local era a principal porta de entrada no país dos africanos escravizados. No Centro Cultural Banco do Brasil a garotada se encanta e se diverte com a arquitetura majestosa e as obras de arte modernistas.

Resumido assim, pode-se ter a impressão de um filme sisudo, militante, professoral. Nada disso. Tudo – o horror, a denúncia, a carência – é permeado pelo humor, pela vitalidade e pelo frescor da adolescência. É de vida que se trata ali, afinal. Maltratada, marginalizada, tornada quase invisível, mas também pulsante e transbordante vida.

Realizadora tarimbada tanto no documentário como na ficção, Lúcia Murat atesta em Hora do recreio sua enorme generosidade, curiosidade e capacidade de escuta. Seu filme é, de fato, uma obra coletiva, de criação horizontal, que deve tanto a ela quanto a cada garota e garoto que entregou sua mente e seu corpo ao projeto. O Urso de Cristal conquistado na mostra Generation 14plus do Festival de Berlim consagrou essa qualidade.

Trailler

https://ims.com.br/blog-do-cinema/a-hora-do-recreio-por-jose-geraldo-couto/


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Filme de Lúcia Murat, que estreia nesta quinta-feira (12/3), mostra rotina de alunos da rede pública e incorpora os percalços das filmagens

 

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