Gente Feliz pode viver o carnaval de diversas maneiras. Pode até juntar Retiro, Acampamento e Carnaval como fez o Projeto Reculturarte na Aracaju dos anos 1990.

 

Gente feliz não se incomoda com poucoEu acho que a felicidade não vem sóOs meus amigos eu escolhoSão sócios da alegria que eu gosto de levar
Gente feliz não se incomoda com os outrosCada um tem sua maneira de existirSe cuide para não ficar amarguradoNão seja o tipo que reclama e fica sentado
Não procure maisGente que te faz sofrerPra que o auto-abusoDar o rosto a bater
Há problemas simSem beijo na bocaSem solução mágicaVamos trabalhar
Eu vi o sorriso de Nelson MandelaÉ quando meu coração desmantelaOuvindo as notas precisas de FelaE vendo as cores que pintam na tela
Sinceridade, sinceridadeO sorriso do bem tem que ser de verdadeSinceridade, sinceridadeO sorriso do bem tem que ser de verdade
Eu vou fazer uma mandinga pra tirar QuizilaE o sorriso amarelo descer na banguelaE mergulhar no teu juízo
Eu vou fazer uma mandinga pra tirar QuizilaE o sorriso amarelo descer na banguelaE mergulhar no teu juízo
Não procure maisGente que te faz sofrerPra que o auto-abusoDar o rosto a bater
Há problemas simPois estamos vivosSe existe vidaVamos celebrar
Não deixe que ninguém te tire o sorrisoHá sempre alguma coisa para celebrarNão deixe que ninguém te tire o sorrisoHá sempre alguma coisa para celebrar
Não deixe que ninguém te tire o sorrisoHá sempre alguma coisa para celebrar

Este artigo integra o segundo volume da trilogia AMABA/Projeto Reculturarte‘Ação Cultural para a Cidadania na Aracaju dos anos 1990’, que será lançado no final de 2026. O texto propõe uma reflexão sobre a criação de oportunidades para a felicidade coletiva, pautada na liberdade interior e no respeito à individualidade, sem a imposição de padrões de bem-estar ao próximo, evitando, assim, a postura dos ‘conservadores em conserva’, criticados no desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói no último domingo, 15/02/2026, na Sapucaí. A agremiação levou ao Sambódromo uma reflexão necessária sobre aqueles que tentam  impor seu modo de pensar e de viver, ignorando a pluralidade das formas de existência.”

OS
RETIROS DO RECULTURARTE COMO UM TEMPO E LUGAR QUE NUNCA DEVERIA ACABAR.
 

Retiro Reculturarte – Fonte:
Acervo AMABA.
 

Oito (8) horas da manhã, hora de acordar. Hora de ouvir
o Pe. Zezinho, a senha para começar mais um dia de retiro no projeto
Reculturarte, ou retiro-acampamento.

Das canções ouvidas nas primeiras horas da manhã, antes
mesmo do café, “Nova Geração” era uma das mais constantes. Um trecho
da letra diz muito o que e quem impulsionava alguns jovens, residentes do
bairro América e do seu entorno, para se engajarem na organização da proposta
socioeducativa, cultural e espiritual dos retiros do Reculturarte.

 

Não tenho passado, mas sei entender
Um jovem foi crucificado
Por ter ensinado a gente a viver
Eu grito ao mundo descrente que eu quero ser gente
Que eu creio na cruz
Eu creio na força do jovem
Que segue o caminho de Cristo Jesus.
 

O
QUE SÃO RETIROS?

Segundo a Wikipédia, “entre religiosos é muito comum a
realização de Retiros Espirituais visando
ao aprimoramento do indivíduo e de sua relação com o sagrado”
.

Com origem católica, retiro é um termo muito usado por
cristãos para designar uma atividade da igreja em que, geralmente, eles são levados
para lugares ao ar livre a fim de que possam usufruir ao máximo do encontro com
Deus. Nesse sentido, “(…) existem diversos tipos de retiros, tais como
formação, espiritual, meditação, reflexão, entre outros”.

Há também uma interpretação de que “Retiro” pode ser um
local como chácara, sítio, acampamento, fazenda etc. Enfim, algum
estabelecimento afastado ou isolado da cidade, onde possa ser possível a
realização de eventos de natureza mais pessoal ou em grupo.

 O QUE FOI O RETIRO/ACAMPAMENTO
RECULTURARTE?

No caso do Reculturarte, algumas características do
retiro espiritual foram assimiladas. Porém, pelo fato de buscarmos um espaço
para a formação integral, criamos uma espécie de retiro-acampamento. Isto
porque juntamos, em determinados momentos e locais específicos, conhecimentos a
partir da realidade pessoal e do cotidiano dos adolescentes, acrescentando
ainda outros saberes no campo social, cultural e político, assim como tínhamos
situações de lazer (dinâmicas e brincadeiras/jogos de salão, jogos esportivos,
natação, comemoração de aniversários, passeios e práticas artísticas).
Entretanto, sem deixarmos de realizar momentos de oração, leitura, reflexão
bíblica e relaxamento da mente. Inclusive, havia uma opinião frequente dos
entrevistados, a saber: “nos retiros haviam momentos para tudo, e tudo era bem
organizado”
.

Todos os entrevistados, sem exceção, também consideraram
os retiros como “bons demais”. Era uma das maiores alegrias que se tinha no
projeto. Quando era mês de viagem para retiro, o povo gostava, como bem
destacado por Cláudia
da Silva, mais
conhecida como Kaká.

Diversidade,
conforme
disse Sandra
, é uma palavra que resume muito bem a razão pela qual
ela gostava dos retiros. E acrescenta Márcia Maria: “os retiros significavam um
momento para conversar mais com os amigos do projeto e com os educadores, me
sentia em família e conhecia novas pessoas”
.

 Rosilar   também relembra:

 

Tem
retiro, eu era a primeira a chegar. Em alguns casos fomos até em cima de
caminhão. Lembro o frio de Propriá e em Pedrinhas. Era tão bom, fosse aonde
fosse, porque, você sair de sua casa, pra ir pra dentro dos matos, dormir no
chão, mal com um lençolzinho, em cima de uma esteira ou colchonete,  precisava gostar, às vezes sem iluminação.
Embora no Recanto dos Frades tinha mais conforto. Iam muitos responsáveis pela
gente nos retiros. Lembro em Pedrinhas, de
madrugada, andando de mata fora. Foi Benicio, um dos educadores, e uma
outra pessoa que me seguiram, disseram que não podia me acordar e então me
acompanharam, dei uma “vortinha”, quando acordei, estava ceia de formiga,
ficaram tirando formiga durante um tempo. E era sonâmbula, mas não sabia.

 

Nos retiros participavam em torno de vinte e cinco a
trinta adolescentes, além de uma média entre cinco e dez adultos. Em seguida,
um exemplo da programação de um retiro a que tivemos acesso por meio de
documentação escrita:

Retiro
do Projeto Reculturarte em Propriá

(Local: Sede do PT Propriá – De 08 a 11 de abril de 1993).

 

PROGRAMAÇÃO

QUINTA-FEIRA

Tarde

1)
Chegada, arrumação;

2) Passeio
para conhecer a cidade;

SEXTA-FEIRA

Manhã

1)
Oração inicial;

2) O
que o projeto representa para mim? (roda de conversa); 

 

Tarde

3)
Repasse do curso de geração de renda (Paulo Rogério e Ronaldo Lima) – (roda de
conversa);

Noite
livre;

                                                    SÁBADO


Manhã

1)
Oração;

2)
Planejamento da programação do festinfantil (festival de arte infantil) –
(subgrupo e plenária);

Tarde

1) O
que é minha família? O que eu represento pra ela? O que quero dela? (rodas de
conversa e plenária);

DOMINGO
Manhã

1)
Ida à missa;

2)
Debate sobre tema livre a escolher;

3)
Tarde Livre (proposta aberta).

 

Também descobrimos um pequeno relato resumido sobre o
segundo retiro realizado na cidade de Propriá. 

 

Mais
uma vez a AMABA realiza uma programação de sucesso em 1995. Dessa vez foi o
primeiro retiro do ano, promovido durante o carnaval na cidade de Propriá. Sem
dúvida, a melhor parte da programação foi o banho de rio, além disso tivemos a
apresentação de uma banda afro de Propriá, exibição de fitas de vídeo,
dramatização, roda de músicas, debates e um bate-papo com o deputado estadual
Renatinho Brandão. Participaram 26 pessoas, a maioria adolescentes que
participam do Projeto Reculturarte. (…) No planejamento de 1995 está previsto
mais três retiros, os temas a serem estudados, serão: Família, Amizade, Namoro
e Sociedade. No retiro de Propriá não houve um tema em destaque, tendo sido
mais um retiro de lazer.

 

LOCAIS
DE REALIZAÇÃO DOS RETIROS/ACAMPAMENTOS E ALGUMAS HISTÓRIAS

Dentre os locais em que os retiros foram realizados,
destaca-se a chácara dos frades franciscanos no Mosqueiro. Este é um dos locais
que se tem as melhores lembranças. Além deste local, foram lembrados as
seguintes localidades: Povoado Jenipapo – Lagarto (1991 e 1995); Capela (1992 e
1995), Povoado Pedrinhas – Areia Branca (1993), Japoatã (S/D) , Propriá (1993 e 1995),
Macambira e Malhador
  (1994),  Praia de
Atalaia Nova (1995) .
 

A chácara dos frades franciscanos deixou boas
recordações, segundo os entrevistados, porque era uma casa grande de estilo
colonial, com muitas camas, grande área verde no entorno, com mangueiras,
cajueiros e jaqueiras, além de estar localizada à beira de um rio.

O retiro em Areia Branca, no povoado Pedrinhas, marcou
porque o alojamento de dormir foi instalado em um galinheiro. Não havia mau
cheiro porque estava desativado, mas era bastante frio na hora de dormir. E
isso ficou bem gravado na memória de Sandra e de outros entrevistados. Este
retiro também marcou por causa de um riacho e de uma cachoeira, conforme
lembrou Márcio, ainda que fosse “uma boa caminhada para chegar até lá”.

Outros aspectos negativos também são lembrados por
Cláudia da Silva: “algumas brincadeiras sem graça que levaram a brigas”.
Cláudia da Silva lembra, por exemplo, de ter tido o olho pintado com pasta de
dente por um outro colega, o Alex, e isso enquanto dormia, o que fez com que
ela, com raiva, pegasse uma faca e ameaçasse enfiar no rapaz. Nesse dia, foi
uma confusão muito grande, na qual em um certo momento: “era eu correndo com
uma faca e Alex correndo e se defendendo com uma cadeira”
, destacou Kaká
sorrindo.

Foi por causa de uma brincadeira inconveniente que
Everaldo Guedes  (Vevé) foi enviado
imediatamente de volta para casa, quando ele participava do retiro no povoado
Jenipapo. Isto foi como castigo, o que o levou a chorar muito. Vevé só não
consegue lembrar como foi a brincadeira.

Como um exemplo de lembrança boa, Cláudia da Silvs lembra
de um exercício proposto após assistirem ao filme Sonho de Uma Noite de
Verão
,
baseado em uma obra de Shakespeare, o grande escritor de teatro que
viveu na Inglaterra do século XVI. A tarefa era formar grupos e cada um
produzir uma apresentação com base em uma ou mais cenas do filme.

Já Kekê (ou Cleildes da Silva), irmã de Cláudia da Silva,
lembra positivamente das cantorias com violão como, por exemplo, da canção
“minha boneca de lata”, em que cantou várias vezes para o neto dormir. Em
alguns retiros, o violão ficava a cargo de Ronaldo Lma, frequentador e
colaborador esporádico da AMABA. No retiro, ele levava violão e tocava
utilizando as revistinhas com cifras.

Conforme recorda Crécia:

 

Os retiros se pareciam mais com um
acampamento de férias do que com um retiro religioso. Era tudo planejado
antecipadamente pelos educadores. Acontecia cerca de três vezes por ano, em
feriados prolongados, principalmente no período do carnaval e da semana santa,
duravam de três a quatro dias.

Os
retiros era momento de abrirmos as nossas mentes e os nossos corações. Fazia-se
muitas atividades para facilitar o relacionamento interpessoal. Em todos os
retiros, tínhamos atividades para relaxamento, em que às vezes nos tocávamos corporalmente, em especial com massagens nos ombros, costas e etc.,  mas com
respeito, sem malícia. Para participar dos retiros, como no caso de algumas meninas, inclusive no meu caso, tinha
que haver uma insistência muito grande junto a família, com visitas de
educadores jovens-adultos a minha casa para buscar convencer principalmente meu pai,
isso porque tratava-se de retiros que eram realizados no interior do estado, e
ele não queria que eu dormisse fora de casa.

Quem
participava dos retiros contribuía com alimentos. Os critérios para ir era ter
bom comportamento em casa, na escola e no projeto e a permissão dos pais, assim
como ter boas notas na escola. No caso de haver um número maior de
participantes por atividade, além da quantidade definida previamente, havia uma
votação de escolha por parte de colegas da atividade e educadores. Os retiros
eram importantes para nós, porque do contrário ficávamos nos feriados
prolongados, “largados” no bairro, com os nossos pais sem condições financeiras
para nos oferecer alternativas sadias de lazer ou de cultura para nós.

 

Para colaborar com informações sobre questões que não
tínhamos conhecimento, em alguns momentos, eram convidadas pessoas de fora para
participar dos retiros, em que participavam de uma espécie de roda de conversa
ou mesa de debate. Por exemplo, Renato Brandão, então deputado estadual pelo
PT, Zenaide Sandres e Vera Vilar, educadoras populares ligadas aos movimentos
sociais, e Evanildo de Oliveira, sendo este integrante de movimento religioso
ligado à igreja católica.

Todo mundo dormia no mesmo local, mas separados, ou
seja, com meninos de um lado e meninas do outro, junto com os educadores (as).
Já para Dona Fátima, a cozinheira responsável pela alimentação, o retiro era
importante porque permitia uma melhor comunicação com as crianças, o que
permitia uma melhor orientação e convivência dentro de um bom ambiente social,
de respeito e afeto. Era um forte momento de confraternização. Dona Fátima era
considerada, nos retiros/acampamentos, como a mãe de todos e aqui ela reforça uma
opinião semelhante à de Márcia Maria, citada acima.

O local que Dona Fátima mais gostava era a chácara Recanto
dos Franciscanos. Lá alguns meninos gostavam de nadar e pescar: “uma vez, à
noite, fui pescar siri com alguns meninos e meninas. Foi uma noite de fartura,
um balde cheio de siri. Quem nos emprestou a canoa e a tarrafa emprestada foi o
caseiro da chácara”
.

Já em retiro realizado em outro local   Dona Fátima se recorda de uma fazenda sem água, o que fez com que ela e os meninos
andassem uma distância de quilômetros para encher garrafas nas águas em um
minadouro. Além disso, também lembra de ter utilizado lenha para cozinhar. Em
uma escola em Capela e no povoado Jenipapo, Fátima conta da grande quantidade
de sapos, quando afirma:

Foi
o segundo local, onde Dona Marilene, uma das senhoras participantes e mãe de
Márcio e Mauricio, membros da capoeira, quase infartou porque ela tinha pavor
de sapos. Quando precisava ir ao banheiro, os meninos tinham que entrar antes
para ver se não tinha sapos e ficavam olhando de fora para afastar os que
poderiam se aproximar.

 

E a questão das maledicências, das fofocas, intrigas?
Para não ficar falando somente das flores, encontramos informações a respeito
disso. Em um dos registros na agenda de um dos educadores, tratando da conversa
com um subgrupo de participantes em um retiro no povoado Jenipapo sobre o que
foi espalhado por um integrante do projeto ligado à banda afro, punido com a
não participação nesse retiro por causa de problemas com indisciplina e
insubordinação.

Assim ficou registrado: 

        “O que nós viemos fazer no retiro?”. Trabalhar, estudar, divertir, ouvir
música, realizar partilha, discutir gravidez na adolescência, brincar, andar de
cavalo, namorar, visitar a cidade, ir até o rio e a cachoeira, trabalhar,
dormir, conhecer a cidade, dormir, avaliar, passear. Mas “o que falaram do
retiro de forma negativa?”: Que todo mundo, meninos e meninas, dormiam
misturados, a comida era sem sal, que não era para chegar perto de três meninas
que não tomavam banho. 
 Quem falou isso, estava na torcida para alguém não vir,
desistir, para ele vir como substituto.
  
Quem
fez isso, fez por qual razão?” Para vir, porque sente-se rejeitado (antes ia
para tudo), inveja, porque as coisas mudaram, o sucesso subiu demais à cabeça
sem ele ter feito as bases de preparação”
. Aqui estavam se referindo a um dos
integrantes e líder da banda afro Meninos do B.A.

As recordações de Emanuel Rocha, um dos principais educadores e coordenadores dos Retiros/Acampamentos, reafirmam muito do que foi lembrado
acima, com acréscimos importantes:

 

Os
retiros f
oram
vários e em lugares diferentes. Desde em locais mais confortáveis como a casa
de Retiro dos Frades Franciscanos, até em um sítio com um galinheiro
desativado, sendo este o nosso principal local para realização de algumas
atividades, assim como local de dormida com esteiras, mas eles não reclamaram.

Esse era um
momento único pra os meninos e para os educadores também porque não era, amanhã
vai ter um retiro, e pronto.

Não, era
preparado meses antes, até para quem ia como educando. Até porque estes tinham
que ter boas notas na escola, bom comportamento no projeto etc.

Por que isso era
necessário? Para que os outros seguissem como uma direção na vida deles.

O retiro não era
apenas um retiro, era um momento de grande lazer pra os meninos, assim também
como espaço para adquirir novos conhecimento, para a descoberta de novos
talentos.

Quantos meninos
não foram descobertos naqueles retiros para o teatro? Isso por meio dos
exercícios e dinâmicas que eram realizadas. A gente descobriu assim, pessoas
com boa capacidade de oratória e outras qualidades no campo da criatividade e
da arte.

Por outro lado, a
gente não repetia muito os participantes. A gente fazia rodízio. Um rodízio até
para descobrir os talentos em potencial que depois poderiam se tornar
educadores mirins.

Houve momento em
que fomos de caminhão tipo pau de arara, porque naquele tempo isso era
permitido. 

Tudo era
novidade. Mas tudo com responsabilidade. Tinha que ter autorização dos pais, os
pais também eram visitados neste sentido.

Outra coisa, era
muito participativo, onde todos tinham suas funções, tudo dividido, com a
formação em diversas equipes, apoio a cozinha, limpeza, animação

E pra gente
também era um momento legal, porque o aprendizado não era somente para os
meninos, mas para nós educadores também.

A gente, como
educadores, saíamos ricos com o que eles nos informavam. E então não tinha
ninguém que soubesse mais da história deles, das ruas e do bairro onde
morávamos do que a gente.

Momentos tristes
era quando eles contavam sobre algumas situações em casa, como alguns eram
espancados e/ou enfrentavam situações de fome.

Era um encontro
terapêutico, podemos dizer assim. Sobre questões de sexualidade, incluindo
assédio ou violência sexual, quem tratava mais dessas questões com as meninas
era Cléia e algumas vezes Adriana, educadora da dança. Com os meninos, eu,
Benicio e Paulo Rogério.

 A
RELAÇÃO PASSADO PRESENTE NOS RETIROS/ACAMPAMENTOS RECULTURARTE

 Sobre a relação passado e presente nos retiros
Reculturarte, quem nos traz uma boa reflexão sobre isso é Rejane Conceição, a
partir do papel que ela exerce nos dias de hoje como professora no município de
Poço Redondo: 

 

“O
que chamava atenção era a forma de planejar, a gente não tinha tempo ocioso.
Era tudo muito bem programado. A gente ficava longe das nossas famílias, mas
não era pra fazer qualquer coisa. A gente tinha nossos dias e horários, tudo
muito bem programado.  Pela manhã, a gente trabalhava temas, tipo
seminários, rodas de conversa, e depois a gente voltava pra debater. Eu lembro
muito disso que a gente se dividia em grupos, discutia ali, e depois voltava
pra plenária, para haver uma discussão mais ampla. Além disso, tinha muitas
dinâmicas, que eu ainda hoje uso em sala de aula, telefone sem fio é uma delas.
São coisas dessa bagagem anterior e que ainda uso hoje em sala de aula,
principalmente quando estou no início do ano, que é pra fazer integração,
quando faço uso de algumas dinâmicas. Tudo isso, tudo da base que trago dos
retiros. A gente falava muito de política nos retiros e o meu fraco era não
falar muito desse assunto e as comidas? Hoje quando eu como ovo com charque e
cuscuz, só vem o retiro na cabeça, acredita? Até hoje quando eu faço ovo com
charque, lembro dos retiros”.

 


Retiro Reculturarte. Pedrinhas, o retiro em um sitio que incluiu galinheiro desativado como espaço de utilização. Quem está de amarelo é o autor desse artigo.



Fonte:
Acervo AMABA
 

LEMBRANÇA
POÉTICA-AFETIVA

 

Uma
noite de retiro em Propriá,
de acordo com depoimento de Ronaldo
Lima:

 

Uma
noite depois do jantar, o grupo dos participantes ficou liberado para
atividades livres, alguns ficaram assistindo filmes na televisão, o projeto
sempre levava o aparelho DVD e algumas fitas VHS como opção, outros preferiram
ficar jogando dominó. Já outros preferiram dar uma volta pelas redondezas e uma
dupla formado por Ronaldo e Zezito, acompanhado de uns três adolescentes
preferiram sentar-se em um banco localizado na praça, em frente à casa onde
ficamos alojados e onde as atividades do retiro estavam sendo realizadas. O
fundo da praça era o cemitério da cidade.

O
tempo passou, a noite ia ficando mais funda e, quem veio junto, resolveu voltar
para a casa, e então ficou somente eu Ronaldo,  e Zezito. E foi aí que chegou um
senhor levemente embriagado que começou a ficar próximo, ouvindo as canções e
conversando sobre histórias de corações partidos como o dele, ficou um tempo e
depois foi embora, antes disso cantamos SAMPA do Caetano Veloso, dedicando a
ele, e como esta canção tem uma linha melódica que chama  outra, RONDA do
Paulo Vanzolini, demos sequência, com  o moço caminhando, indo
embora,  como a noite que também se ia, tendo como fundo musical a bela
melodia de RONDA e seus versos, um dos quais até que poderia se adequar à
situação do moço, na busca do amor que foi embora. “De noite eu rondo a cidade
a te procurar, sem encontrar. No meio de olhares espio, em todos os bares, você
não está (…)”.  Ao longe, a despedida do moço com um adeus, antes de nos
perdermos de vista. Uma situação que marcou as nossas vidas.

 Zezito de Oliveira






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Leia também: Ajuda a entender as razões da publicação do artigo acima.

O Carnaval e a alegria do Espírito. Por Marcelo Barros (*) & CARNAVAL ou RETIRO. A FALSA POLÊMICA CONSERVADORA Romero Venâncio (*)


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