ADEUS AMARAL, ADEUS POETA!
Acordo com a notícia: morreu Amaral Cavalcante. Inegável o susto e o sentimento. É como se houvesse recebido um corte na minha própria formação e construção cultural, é saber que calou-se uma das mais brilhantes vozes da cena sergipana, o poeta, o jornalista, o cronista, o editor.
Ícone e referência de uma geração brilhante, a mesma geração do poeta Mário Jorge, da multifacetada Ilma Fontes, do grande compositor Alcides Melo, do artista plástico Joubert Moraes, do músico Marcos Chulé, da atriz Uilma Rodrigues, do cronista João de Barros, o Barrinhos, da bailarina Lu Spinelli, do cinéfilo Djaldino Mota Moreno, da jornalista Clara Angelica Porto, do poeta Hunaldinho Alencar, da historiadora Terezinha Oliva, do jurista Clóvis Barbosa…
Havia nessa geração o desejo de criar e o fez como qualquer outra geração do planeta, antenada, atualizada, talentosa, duma época em que a comunicação jornalística para além dos limites da cidade se fazia pelo fax e se esperava chegar a tarde para receber os jornais do Sul do país ou à noite quando as ondas médias do rádio possibilitavam uma melhor audição dos programas internacionais e com ele, o rádio, saber o que se passava no mundo em tempo real. A televisão estava só começando, mera repetidora com jornais somente no plano local.
No fim dos anos 60 “Vôos Mitos Coloridos” que na cacofonia formava “vômitos coloridos” disse muito daquela geração, uma antes da minha mas que pude beber e alcançar, como um privilegiado, tudo que aquela geração legou.
Amaral era então o poeta, o jornalista que ousou o mais significativo jornal alternativo de Sergipe, o Folha da Praia, uma mistura meio pasquim com tecidos iconoclastas fazendo uma inovação e abrindo oportunidades à escrita fácil sem as exigências do jornalismo engessado, onde até havia a crônica social em forma docemente irônica. Amaral foi a síntese disso tudo.
Como na música de Belchior, Amaral veio do interior (Simão Dias) “sem parentes importantes” e trazendo na cabeça muito mais que uma canção do rádio e compreendendo que nem tudo era divino e maravilhoso. Morou em pensões, trabalhou como vendedor na livraria alternativa da Galeria Álvaro Santos, sobreviveu. Mas logo sua inteligência fulgurante fez dele uma referência: era o poeta. Mas o poeta que publicou de poesias somente um livro, depois de ter sido o primeiro vencedor do Concurso de Poesia Falada do Nordeste com o magnânimo poema “Romance da Aparição”.
Irriquieto, no início dos anos 80 escrevia uma coluna diferenciada no Jornal da Cidade chamada “Pique Geral” multifacetada, centrada nos costumes e fazeres daquela geração e que inspirou outras colunas como a minha “Artefatos” (Jornal de Sergipe) e a “Resenha” de Jorge Lins (Gazeta de Sergipe) a que juntos em doce ironia, cognominávamos de “colunistas não alinhados” numa referência ao bloco dos países não alinhados da época da guerra fria.
No surgimento das redes sociais Amaral fez do Facebook sua maior trincheira. Ali com sua pena fina, com o deboche elegante, o uso inteligente do chiste, um estilo próprio e o domínio incomum da palavra, nos brindou com as mais deliciosas crônicas do cotidiano sergipano, trazendo reminiscências sobretudo dos efusivos anos 80, ou mesclando com sua contundente poesia. Das crônicas veio “A vida me quer bem: crônicas da vida sergipana” o segundo e último livro dele, o seu canto do cisne, que teve a cuidadosa supervisão de edição de Mário Britto e lançado ano passado.
Também foi o editor da “Cumbuca” a revista cultural da Editora Diário Oficial, única no gênero,uma válvula de escape para o registro da sergipanidade e da cultura sergipana.
Com a mesma engenhosidade com que escrevia suas crônicas Amaral resumiu sua geração:
“Somos uma geração etílica, nós convivemos nos bares, frente a frente na mesa de bar batendo papo, conversando, discutindo a vida e aprendendo, hoje ficamos mais a frente do computador”. Aliás sou da geração que sequencia a de Amaral e que, portanto, quando me dei conta já estava na mesma contemporaneidade.
Amaral merece uma biografia que, ao ter sua vida contada, contar-se-ia a história de uma das mais brilhantes gerações do fazer artístico inovador de Sergipe.
Nos últimos dois anos o poeta esteve em uma cadeira de rodas e recebendo com bom humor as sessões semanais de diálise e vivia sob os cuidados de Samuel, seu anjo da Guarda a quem chamava de filho.
Com sua morte na madrugada desta terça feira (07/07) se vai um importante pedaço da nossa cultura. Se vai Amaral Cavalcante em um instante tão triste do mundo, um instante de dor e advertência à humanidade pós Covid, um “instante amarelo” que é o título do seu único e marcante livro de poesia.
Vai levando poesias, um baú de recordações e toda a sua grandeza.
Vá com Deus poeta!
Luiz Eduardo Oliva
(*) na foto um dos meus últimos encontros com o poeta, numa animada conversa juntamente com Clóvis Barbosa. Amaral já estava em cadeira de rodas
Amaral Cavalcante se foi. Mas é um que “se” fica!
Amaral Cavalcante: *11.07.1947+07.07.2020
Um beat. Um poeta. Um iconoclasta. Um lúdico. Um lírico. Um memorialista. Um passional. Um jornalista. Um arregimentador de desiguais e de diferentes. Um boêmio. Um que marcou.
Em diversas categorias de definições bem se encaixava o velho Antonio Amaral Cavalcante, que na madrugada deste dia 7 de julho juntou uma bota noutra com o bico pra cima e bateu às portas de São Pedro.
Amaral Cavalcante lutou bravamente, entre uns e vinhos, contra um diabetes indelicado, um câncer de próstata, mas não quis prosa com a Covid-19 que Jair Bolsonaro batizara de uma gripinha.
Amaral Cavalcante morreu nesta madrugada na Urgência do Hospital do Ipes e vai ser cremado na Caueira ainda durante esta terça-feira numa solenidade nada solene: só ele com seu fogo final. No atestado de óbito está contida a inscrição da Covid.
Antonio Amaral Cavalcante nasceu no dia 11 de julho de 1946 em Simão Dias – estava, portanto, a quatro dias de emplacar 74 anos. Foi avexado, e partiu sem arredondar a conta.
Impossível pensar a cena da memória, da cultura beat e do jornalismo sergipano sem que se puxe uma cadeira cativa e fornida para Amaral Cavalcante. Nos anos 70 e 80 ele deu dois tiros certeiros nos agitos culturais do lugar.
Com um, funda o irreverente Folha da Praia, que foi laboratório jornalístico e da contracultura de muitos malucos sergipanos e aqui aportados. A Folha da Praia foi, em versão serigyzada, um Pasquim. Um monumento ao jornalismo destabacado, lírico, chutador de paus de barraca. Contestador.
Era um inferninho contra botas e quepes de milicos e adesistas da nada branda ditadura militar, hoje irresponsavelmente tão evocada com suspiros de saudade por alguns insanos. A Folha fez história e garantiu a existência e os vinhos de Amaral.
Ainda na mesma década, Amaral Cavalcante causou com “Instante Amarelo”, seu único livro de poemas publicado em vida – bom livro, por sinal. Ele era, ao modo arrebentador, signatário da poesia marginal dos 70, que tinha uma visão dos beats bem ativada.
Há em “Instante Amarelo” ecos de Cacaso, Leducha, Leminisk e de muitos dos seus contemporâneos, como Mário Jorge Menezes e Ilma Fontes, que reverberam a poesia dos 70 com dignidade na terra dos cajueiros e papagaios.
Neste milênio, convidado por mim a ser um cronista do falecido Cinform, Amaral Cavalcante surpreendeu com um jorro portentoso de escritos na esfera memorialista.
Destilou textos fantásticos, onde a linha do afeto memoralístico deu o ritmo, o compasso e a formação do livro “A vida me quer bem”, uma reunião do melhor desta fase, que ele lançou dia 7 de novembro do ano passado.
Sim, a vida quis bem a Amaral Cavalcante e ele, inegavelmente, quis bem a ela. Uma pena que ambos tenham levantado o crachá do adeus assim tão cedomente. Tão precocemente.
E, ainda mais, em tempo de pandemia de Covid-19, que nos veda de afagar os cabelos ou beijar a testa dos que partem.
Mas incomode-se não, Amaral velho de guerra, e se sinta afagado. Que a terra – ou melhor -, o fogo lhe seja leve.
Jozailto Lima
