RESUMO
O presente
artigo relata como foi implementado o cineclube na Escola Júlia
Teles, localizada no Conjunto Jardim, município de Nossa Senhora do Socorro,
por meio de parceria com o Ponto de Cultura Juventude e Cidadania, o qual
teve como objetivo proporcionar diálogo entre os jovens ligados às oficinas dos
ponto de cultura e os de outras realidade semelhantes, moradores de
outros territórios, por meio do suporte fílmico. Apresentar o trabalho
realizado pelo Cineclube Realidade é colaborar para inspirar novas iniciativas
com propósitos semelhantes ou ampliá-las, bem como apontar possibilidades para
a experiência democrática e inclusiva do audiovisual; e aqui, no caso
específico do cineclube, permitir aos seus participantes uma saída dos
limites condicionantes do território e das condições econômicas e
socioculturais por meio do audiovisual.
artigo relata como foi implementado o cineclube na Escola Júlia
Teles, localizada no Conjunto Jardim, município de Nossa Senhora do Socorro,
por meio de parceria com o Ponto de Cultura Juventude e Cidadania, o qual
teve como objetivo proporcionar diálogo entre os jovens ligados às oficinas dos
ponto de cultura e os de outras realidade semelhantes, moradores de
outros territórios, por meio do suporte fílmico. Apresentar o trabalho
realizado pelo Cineclube Realidade é colaborar para inspirar novas iniciativas
com propósitos semelhantes ou ampliá-las, bem como apontar possibilidades para
a experiência democrática e inclusiva do audiovisual; e aqui, no caso
específico do cineclube, permitir aos seus participantes uma saída dos
limites condicionantes do território e das condições econômicas e
socioculturais por meio do audiovisual.
Palavras-chave: juventudes
1 INTRODUÇÃO
“Milhares de casas
amontoadas
Periferia é periferia.
“Vacilou, ficou pequeno. Pode acreditar
Periferia é periferia.
“Em qualquer lugar. Gente pobre
Periferia é periferia.
“Vários botecos abertos. Várias escolas vazias.
Periferia é periferia.
“E a maioria por aqui se parece comigo
Periferia é periferia.
“Mães chorando. Irmãos se matando. Até quando?
Periferia é periferia.
“Em qualquer lugar. É gente pobre.
Periferia é periferia.
“Aqui, meu irmão, é cada um por si
Periferia é periferia.
“Molecada sem futuro eu já consigo ver
Periferia é periferia.
“Aliados, drogados, então…
Periferia é periferia.”
amontoadas
Periferia é periferia.
“Vacilou, ficou pequeno. Pode acreditar
Periferia é periferia.
“Em qualquer lugar. Gente pobre
Periferia é periferia.
“Vários botecos abertos. Várias escolas vazias.
Periferia é periferia.
“E a maioria por aqui se parece comigo
Periferia é periferia.
“Mães chorando. Irmãos se matando. Até quando?
Periferia é periferia.
“Em qualquer lugar. É gente pobre.
Periferia é periferia.
“Aqui, meu irmão, é cada um por si
Periferia é periferia.
“Molecada sem futuro eu já consigo ver
Periferia é periferia.
“Aliados, drogados, então…
Periferia é periferia.”
Periferia é Periferia (Em Qualquer Lugar),
Racionais MC’s[2]
Racionais MC’s[2]
O Cineclube Realidade teve início em agosto de
2015 na Escola Estadual Júlia Teles, tendo as suas atividades encerradas em outubro
de 2017. Estreou com o filme Uma onda no ar (2008) e encerrou com o
filme Quando sinto que já sei (2014).
2015 na Escola Estadual Júlia Teles, tendo as suas atividades encerradas em outubro
de 2017. Estreou com o filme Uma onda no ar (2008) e encerrou com o
filme Quando sinto que já sei (2014).
O início da atividade se deu a partir da oficina-rap
Identidade Cultural, fruto de proposta realizada por ex-alunos da escola que
formaram os grupos de rap Filosofia de Loucos e Resistentes da Favela. Com essa
proposta foi apresentada a Ação Cultural/Ponto de Cultura Juventude e
Cidadania, que àquela altura integrava a rede estadual e nacional do programa
Cultura Viva[3],
realizando oficinas culturais (audiovisual e dança moderna), com apoio
financeiro do Ministério da Cultura e supervisão da Secretaria de Estado da
Cultura.
Identidade Cultural, fruto de proposta realizada por ex-alunos da escola que
formaram os grupos de rap Filosofia de Loucos e Resistentes da Favela. Com essa
proposta foi apresentada a Ação Cultural/Ponto de Cultura Juventude e
Cidadania, que àquela altura integrava a rede estadual e nacional do programa
Cultura Viva[3],
realizando oficinas culturais (audiovisual e dança moderna), com apoio
financeiro do Ministério da Cultura e supervisão da Secretaria de Estado da
Cultura.
Sobre o hip-hop, Moura (2015, p. 41) afirma:
O hip hop é um movimento juvenil urbano, artístico-cultural e
sociopolítico que reúne quatro elementos artísticos e um quinto elemento
político denominado conhecimento e sabedoria, que perpassa os demais.
sociopolítico que reúne quatro elementos artísticos e um quinto elemento
político denominado conhecimento e sabedoria, que perpassa os demais.
A proposta trazida para ser discutida com o
Ponto de Cultura inicialmente não considerava o cineclube, porém, como este
oferece uma importante contribuição para o desenvolvimento do quinto elemento,
conhecimento e sabedoria, foi proposto e
aceito pelos criadores da oficina de rap Identidade Cultural. Sobre a importância
de um cineclube, de acordo com a descrição contida no blog da Cecisp – Associação Centro Cineclubista de São Paulo[4]:
Ponto de Cultura inicialmente não considerava o cineclube, porém, como este
oferece uma importante contribuição para o desenvolvimento do quinto elemento,
conhecimento e sabedoria, foi proposto e
aceito pelos criadores da oficina de rap Identidade Cultural. Sobre a importância
de um cineclube, de acordo com a descrição contida no blog da Cecisp – Associação Centro Cineclubista de São Paulo[4]:
Um cineclube se organiza antes de tudo pela vontade do convívio comunitário, pelo desejo de reunir os
amigos, de participar de alguma atividade diferente da existente, de exercer a
cidadania. Cineclube é antes de tudo uma atitude cidadã!
amigos, de participar de alguma atividade diferente da existente, de exercer a
cidadania. Cineclube é antes de tudo uma atitude cidadã!
Nesse
sentido, trabalhar a questão do conhecimento por meio do cineclube significou o
oferecimento de subsídios e condições para que adolescentes e jovens pudessem acessar
outras fontes de informação e de referências no campo dos valores humanos,
sociais, políticos e culturais, considerando a qualidade duvidosa e pouco
diversa da “ração diária” de informação e cultura fornecida pelo sistema – meios
de comunicação, igrejas, escolas e outros meios de socialização e educação nos
quais se inserem as juventudes das periferias.
sentido, trabalhar a questão do conhecimento por meio do cineclube significou o
oferecimento de subsídios e condições para que adolescentes e jovens pudessem acessar
outras fontes de informação e de referências no campo dos valores humanos,
sociais, políticos e culturais, considerando a qualidade duvidosa e pouco
diversa da “ração diária” de informação e cultura fornecida pelo sistema – meios
de comunicação, igrejas, escolas e outros meios de socialização e educação nos
quais se inserem as juventudes das periferias.
Em termos de números de
participação, na sessão de estreia, em agosto de 2015, a quantidade em horário de pico chegou perto da meta pretendida
de 20 pessoas, considerando que alguns participantes chegaram mais tarde e outros
saíram mais cedo. Em geral, a meta esperada sempre foi essa, porém, poucas
vezes chegamos a esse número. A média de participação ficou em 10 pessoas. Já a
sessão que obteve maior número de participantes abarcou cinquenta pessoas, durante
a exibição do filme Jardim documentário
(2016), evento realizado por uma moradora da comunidade como trabalho de
conclusão do curso de Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Outra
sessão com grande expressividade de participantes reuniu 30 pessoas para
assistir ao filme Quando sinto que já sei (2014).
participação, na sessão de estreia, em agosto de 2015, a quantidade em horário de pico chegou perto da meta pretendida
de 20 pessoas, considerando que alguns participantes chegaram mais tarde e outros
saíram mais cedo. Em geral, a meta esperada sempre foi essa, porém, poucas
vezes chegamos a esse número. A média de participação ficou em 10 pessoas. Já a
sessão que obteve maior número de participantes abarcou cinquenta pessoas, durante
a exibição do filme Jardim documentário
(2016), evento realizado por uma moradora da comunidade como trabalho de
conclusão do curso de Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Outra
sessão com grande expressividade de participantes reuniu 30 pessoas para
assistir ao filme Quando sinto que já sei (2014).
2
METODOLOGIA
Em
termos de princípios filosóficos-metodológicos, a proposta do Cineclube
Realidade está embasada na teoria freiriana. A começar pelo nome realidade,
o qual serviu como tema gerador ou norteador para a escolha dos filmes. As
obras foram escolhidas com base nessa palavra e nas preocupações recorrentes em
nossos diálogos iniciais com os integrantes do grupo de rap.
termos de princípios filosóficos-metodológicos, a proposta do Cineclube
Realidade está embasada na teoria freiriana. A começar pelo nome realidade,
o qual serviu como tema gerador ou norteador para a escolha dos filmes. As
obras foram escolhidas com base nessa palavra e nas preocupações recorrentes em
nossos diálogos iniciais com os integrantes do grupo de rap.
De
acordo com Passos (2008, p. 388), o tema gerador para Paulo Freire
acordo com Passos (2008, p. 388), o tema gerador para Paulo Freire
[…] busca no grupo de cultura resgatar o sentido de unidade e síntese
entre conhecimento e vida que antes fora amordaçada e estilhaçada pela cultura
do capital, procurando no universo de palavras da comunidade temas geradores,
isto é, “lugares” repletos de sentidos de experiências nucleares para a
existência que imantam sentido cotidiano às vivências.
entre conhecimento e vida que antes fora amordaçada e estilhaçada pela cultura
do capital, procurando no universo de palavras da comunidade temas geradores,
isto é, “lugares” repletos de sentidos de experiências nucleares para a
existência que imantam sentido cotidiano às vivências.
A curadoria também foi
realizada de forma dialógica, acatando sugestões de filmes, assim como
submetendo títulos à escolha dos participantes, além de títulos escolhidos pelo
curador, sempre baseados no tema gerador – juventudes residentes nas
periferias, inseridas em situações de vulnerabilidade econômica, social e
cultural –, mas exercitando seu protagonismo crítico e criativo na superação
dessa realidade.
realizada de forma dialógica, acatando sugestões de filmes, assim como
submetendo títulos à escolha dos participantes, além de títulos escolhidos pelo
curador, sempre baseados no tema gerador – juventudes residentes nas
periferias, inseridas em situações de vulnerabilidade econômica, social e
cultural –, mas exercitando seu protagonismo crítico e criativo na superação
dessa realidade.
Da mesma maneira, o
debate final sempre foi organizado como um círculo de cultura, de modo que fosse
conduzido com perguntas problematizadoras, de forma mais aberta, sem formulação
prévia, relacionadas ao(s) filmes(s) em diálogo com a realidade local, tanto a
individual quanto a coletiva.
debate final sempre foi organizado como um círculo de cultura, de modo que fosse
conduzido com perguntas problematizadoras, de forma mais aberta, sem formulação
prévia, relacionadas ao(s) filmes(s) em diálogo com a realidade local, tanto a
individual quanto a coletiva.
Para Brandão (2008), a
proposta do círculo de cultura apresentada por Paulo Freire é
algo que bebe em uma tradição educativa presente em iniciativas práticas
grupais de uso comunitário ou pedagógico, diferente do modelo tradicional, definido como “educação bancária”. No caso do círculo
de cultura, as pessoas são dispostas de modo que ninguém ocupe um lugar de
destaque.
proposta do círculo de cultura apresentada por Paulo Freire é
algo que bebe em uma tradição educativa presente em iniciativas práticas
grupais de uso comunitário ou pedagógico, diferente do modelo tradicional, definido como “educação bancária”. No caso do círculo
de cultura, as pessoas são dispostas de modo que ninguém ocupe um lugar de
destaque.
No circulo de cultura o diálogo deixa de ser uma simples metodologia ou
uma técnica de ação grupal e passa a ser a própria diretriz de uma ação
didática centrada no suposto de que aprender é aprender a “dizer a sua palavra”
Brandão (2008, p.69)
uma técnica de ação grupal e passa a ser a própria diretriz de uma ação
didática centrada no suposto de que aprender é aprender a “dizer a sua palavra”
Brandão (2008, p.69)
A
seleção dos filmes foi realizada com base na temática de abordagem da realidade
das periferias e as sessões foram programadas mensalmente, sem a necessidade de
os filmes estarem ligados ao universo
estrito da cultura hip-hop, mas desde que trouxessem o universo dos territórios onde residem a maioria dos que
se identificam com o movimento hip-hop, filmes que contribuíssem com olhares
críticos, comprometidos e afetuosos ligados ao cotidiano, às necessidades, às
realizações, à potência e aos anseios comuns dos participantes.
seleção dos filmes foi realizada com base na temática de abordagem da realidade
das periferias e as sessões foram programadas mensalmente, sem a necessidade de
os filmes estarem ligados ao universo
estrito da cultura hip-hop, mas desde que trouxessem o universo dos territórios onde residem a maioria dos que
se identificam com o movimento hip-hop, filmes que contribuíssem com olhares
críticos, comprometidos e afetuosos ligados ao cotidiano, às necessidades, às
realizações, à potência e aos anseios comuns dos participantes.
Na
sessão do Cineclube Realidade que exibiu o filme Maré – Nossa História de
Amor
(2008), por exemplo, um dos presentes disse que o nome do filme até poderia ser
mudado para Conjunto Jardim – Nossa História de Amor
sessão do Cineclube Realidade que exibiu o filme Maré – Nossa História de
Amor
(2008), por exemplo, um dos presentes disse que o nome do filme até poderia ser
mudado para Conjunto Jardim – Nossa História de Amor
As
escolhas dos filmes buscaram recair sobre aqueles que pudessem colaborar para
informar e divertir ao mesmo tempo. O que significou evitar filmes
muito intelectualizados, herméticos ou cult. O que dificilmente
aconteceria, porque, como já citado, a curadoria contava com a participação dos
próprios participantes da oficina de rap e/ou do cineclube.
escolhas dos filmes buscaram recair sobre aqueles que pudessem colaborar para
informar e divertir ao mesmo tempo. O que significou evitar filmes
muito intelectualizados, herméticos ou cult. O que dificilmente
aconteceria, porque, como já citado, a curadoria contava com a participação dos
próprios participantes da oficina de rap e/ou do cineclube.
A esse respeito, Maíra
Ramos, jovem secretária do Ponto de Cultura e assistente da oficina de
audiovisual, afirmou em artigo publicado no Informativo da Ação Cultural (2016):
Ramos, jovem secretária do Ponto de Cultura e assistente da oficina de
audiovisual, afirmou em artigo publicado no Informativo da Ação Cultural (2016):
Os filmes apresentados
tem como contexto, a realidade que os jovens de periferia enfrentam no dia
a dia, incluindo a dança, o rap, as rádios comunitárias, e teatro, entre outros
elementos que podem mudar a vida desses jovens. O Cine-Realidade não vem apenas
para mostrar uma coisa óbvia,
ele vem pra gerar um dialogo entre os jovens sobre o valor de um trabalho
educativo e cultural dentro dessas periferias.
tem como contexto, a realidade que os jovens de periferia enfrentam no dia
a dia, incluindo a dança, o rap, as rádios comunitárias, e teatro, entre outros
elementos que podem mudar a vida desses jovens. O Cine-Realidade não vem apenas
para mostrar uma coisa óbvia,
ele vem pra gerar um dialogo entre os jovens sobre o valor de um trabalho
educativo e cultural dentro dessas periferias.
3 RELAÇÃO E
CLASSIFICAÇÃO TEMÁTICA DOS FILMES EXIBIDOS
CLASSIFICAÇÃO TEMÁTICA DOS FILMES EXIBIDOS
Abaixo, uma lista dos filmes
exibidos no Cine Realidade, além de uma classificação por temas principais
abordados. Vale lembrar que, na maioria das vezes, os filmes podem ser
agrupados em duas ou mais classificações. E, às vezes, uma segunda temática
pode ser escolhida como principal. Todavia, a classificação do filme dentro de
uma temática não invalida incluí-lo em outras.
exibidos no Cine Realidade, além de uma classificação por temas principais
abordados. Vale lembrar que, na maioria das vezes, os filmes podem ser
agrupados em duas ou mais classificações. E, às vezes, uma segunda temática
pode ser escolhida como principal. Todavia, a classificação do filme dentro de
uma temática não invalida incluí-lo em outras.
Imagem 1 – Sessão inaugural do Cine Realidade, exibição da obra Uma onda no ar
(2008).
(2008).