Combatida
por segmentos obscurantistas no Brasil, filosofia freiriana é usada em
colégio premiado para proporcionar uma aprendizagem diferenciada e
centrada no aluno, integrando a comunidade escolar
por Glauco Faria, da RBA
publicado
29/01/2019 13h48,
última modificação
29/01/2019 14h16

High School, localizada na cidade de Revere, em Massachusetts, foi
reconhecida pelo National Center for Urban School Transformation (Centro Nacional pela Transformação do Ensino Urbano) como a melhor escola pública de ensino médio do país.
Dois anos depois, recebeu outra premiação, tornando-se uma das oito medalhistas do “Schools of Opportunity” (Escolas de Oportunidade), do National Education Policy Center (Centro Nacional de Educação Política),
por “fazer coisas extraordinárias para os estudantes”. Entre seus 2 mil
alunos, 34% vêm de famílias de baixa renda e 12% são imigrantes que
muitas vezes frequentam a escola falando pouco ou nada da língua
inglesa.
Um dos responsáveis por esse bom desempenho é o diretor de Dados e
Responsabilidade Acadêmica Lourenço Garcia. Nascido em Cabo Verde, ele é
admirador da obra de Paulo Freire, com a qual entrou
em contato durante seu doutorado. Segundo ele, isso o auxiliou na
implantação de iniciativas bem sucedidas na Revere High School.
“Todo o ensino invertido, engajamento do aluno no ambiente acadêmico,
relação entre o professor e o aluno, educação diferenciada e centrada
no aluno, agência de estudos, ensino personalizado etc são práticas e
teorias que emanaram da filosofia freiriana”, conta Garcia, em
entrevista concedida por e-mail. “Todos esses ensinamentos foram
introduzidos e têm sido implementados na escola secundária de Revere com
sucesso.”
As ações promovidas na escola têm como objetivo criar um ambiente de
respeito e acolhimento para toda a comunidade escolar, incluindo uma
“academia” para recém-chegados, onde estudantes com pouca familiaridade
com o inglês (são 27 idiomas falados na escola) ou lacuna educacionais
recebem o apoio de uma equipe multidisciplinar. Há também um programa anti-bullying e os próprios alunos se organizam em pequenos clubes para promover atividades contra o assédio e a discriminação.
Perguntado sobre os movimentos que no
Brasil tentam descaracterizar o legado de Paulo Freire, Garcia é
assertivo. “Bom, acho que tudo isto reflete preconceitos orquestrados
pela ideologia da direita para desacreditar a filosofia freiriana e
manter o status quo na dinâmica do ensino e aprendizagem.”
Confira abaixo a íntegra da entrevista com Lourenço Garcia.
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Divulgação
- Para Garcia, do colégio
Revere, Freire continua a iluminar filosofias e práticas que sustentam o
ensino personalizado e centralizado no aluno
Como você entrou em contato com a obra de Paulo Freire?
Estudei a obra de Paulo Freire enquanto estudante, quando fazia
mestrado e doutorado na Universidade de Massachusetts Boston; confesso,
porém, que já tinha algum conhecimento das linhas orientadoras de
educação de Freire muito antes. Várias obras de Freire (por exemplo, Educação como Prática da Liberdade, Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Esperança, Política e Educação, Pedagogia da Autonomia, Cultura como Instrumento de Libertação etc.) foram usadas na minha dissertação de doutorado.
E de que forma ele influenciou em sua formação?
A filosofia educacional de Paulo Freire é focada no aluno, tendo como
pano de fundo o respeito pelo educando enquanto sujeito ativo no
processo de ensino-aprendizagem; para Freire, o aluno não é uma “tábula
rasa” mas sim alguém que reage à interação social condicionada pelo
próprio aluno e o professor. Freire rejeita a educação vertical que vê o
professor como o único transmissor e guardião da sabedoria (educação
bancária). Como educador, acredito plenamente na relação simbiótica
entre o professor e o aluno defendida por Freire; por conseguinte, todo o
meu conhecimento teórico, incluindo experiência nos campos de
pedagogia, liderança e gestão escolar tem se baseado nos ensinamentos de
Freire. Trata-se de uma filosofia justa e voltada para a justiça
social. Esta é a mesma orientação filosófica que tenho defendido e
implementado.
A Revere High School foi escolhida como a melhor escola de ensino
médio da rede pública dos EUA em 2014. Foram aplicados princípios da
teoria freiriana?
Com certeza. Todo o ensino invertido, engajamento do aluno no
ambiente acadêmico, relação entre o professor e o aluno, educação
diferenciada e centrada no aluno, agência de estudos, ensino
personalizado etc são práticas e teorias que emanaram da filosofia
freiriana. Todos esses ensinamentos foram introduzidos e têm sido
implementados na escola secundária de Revere com sucesso.
Como Paulo Freire é visto entre os especialistas em educação nos Estados Unidos?
Paulo Freire é bem visto e aceito a nível do ensino superior (escolas
superiores, colégios, e universidades). Embora muitos aspectos da
filosofia freiriana sejam aplicados em algumas escolas, Freire é ainda
pouco conhecido e discutido, principalmente no seio das escolas com
práticas de ensino tradicional.
No Brasil há um movimento chamado “Escola sem Partido” que acusa a obra de Paulo Freire de fazer “doutrinação marxista”. Como você vê isso?
Bom, acho que tudo isto reflete preconceitos orquestrados pela
ideologia da direita para desacreditar a filosofia freiriana e manter o status quo na dinâmica do ensino e aprendizagem.
Como o legado de Paulo Freire pode influenciar no futuro da educação? Sua obra se mantém atual?
A obra de Freire já influencia a educação contemporânea e continuará a
iluminar filosofias e práticas que sustentam o ensino personalizado e
centralizado no aluno.
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No Brasil
surreal, Paulo Freire foi subestimado pela esquerda e é superestimado pela extrema
direita.
Paulo Freire é terceiro teórico mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo

é citado 72.359 vezes, atrás somente do filósofo americano Thomas Kuhn
(81.311) e do sociólogo, também americano, Everett Rogers (72.780).


década de 1960, Paulo desenvolveu uma metodologia que realizou o feito
de alfabetizar 300 cortadores de cana no Rio Grande do Norte em 45 dias.
Paulo então foi convidado para preparar o Plano Nacional de
Alfabetização, no governo João Goulart, que previa a formação de
educadores em massa. O Golpe Militar, porém, interrompeu o plano e
expulsou Paulo do país.

Freire é referencia em países diversos pelo mundo, e sua teoria visa
aproximar o conteúdo acadêmico da vida cotidiana dos estudantes,
oferecendo a possibilidade de que estes se apropriassem de suas próprias
educações. Para ele, estudar não era um ato de “consumir ideias, mas sim de cria-las e recria-las”.
necessário] Criticar a arrogância, o autoritarismo de intelectuais de
esquerda ou de direita – no fundo, da mesma forma reacionários – que se
julgam proprietários: os primeiros do saber revolucionário, os segundos
do saber conservador; criticar o comportamento de universitários que
pretendem conscientizar trabalhadores rurais e urbanos sem com eles se
conscientizar também; […] buscam impor a superioridade de seu saber
acadêmico às massas ‘incultas’”. Assim escreve Paulo, em sua obra mais reconhecida, Pedagogia Do Oprimido.

ou mesmo negar a importância, a originalidade e a inovação contida na
obra de Paulo Freire é junto ignorar a necessidade e o potencial de
renovação na educação brasileira – coisa que o resto do .mundo, que não é
bobo nem nada, jamais fez, e segue estudando e se aprofundando no
legado desse que é um dos maiores nomes da história da educação mundial.
