encontro organizado pelo movimento estudantil em Salvador,
especialistas defendem que setores progressistas priorizem políticas
culturais “paralelas”, como forma de vencer a narrativa conservadora
por Felipe Mascari, da RBA
publicado
10/02/2019 11h05
para difundir diversidade cultural como forma de luta contra retrocessos
das pautas conservadoras
o consequente retrocesso das políticas públicas conquistadas nos
últimos anos, ativistas do setor defendem a cultura como fio condutor da
resistência contra os ataques a direitos da população pelo governo de
Jair Bolsonaro. O tema foi debatido neste sábado (8), em mais um dos
paineis da programação da 11ª Bienal da União Nacional dos Estudantes
(UNE), em Salvador, capital da Bahia.
Ivana Bentes, diretora da Escola de Comunicação da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), ressaltou que o debate sobre as
culturas LBGT, feministas e identitárias devem ser consideradas
importantes para a esquerda renovar o discurso político. Na sua
avaliação, não se deve tratar a ministra de Direitos Humanos, Damares
Alves, como um mero personagem, cujo papel seria o de polemizar a
sociedade acerca de temas comportamentais – como educação sexual nas
escolas, descriminalização do aborto e outras – enquanto as pautas
ultraliberais do governo Bolsonaro avançam no Congresso. “Fala-se que (o
discurso conservador de Damares) é uma ‘cortina de fumaça’, mas a
direita ganhou a eleição no campo comportamental, discutindo valores. A
gente está perdendo o round da guerrilha no campo cultural”, critica
ela.
Ivana, que fez parte da Secretaria de Cidadania e Diversidade
Cultural, do Ministério da Cultura no governo Dilma, afirmou que a meta
dos setores fundamentalistas é criar uma monocultura fomentada pelo
discurso de ódio e conservador. Ela sugeriu ainda a criação de um
“ministério da cultura paralelo ao oficial”. “A gente precisa pensar nas
políticas culturais que pararam no golpe de Temer e agora, com a
eleição de Bolsonaro. Nós não comandamos mais a máquina do Estado, então
vamos articular um ministério paralelo. Eles extinguiram o ministério,
mas não extinguiram a cultura”, declarou.
-
Karla Boughoff/CUCA DA UNE

- O trabalho de Gil, no ministério da Cultura, foi elogiada por Manoel Ranger, ex-presidente da Ancine
Futuro
Juan Leal, produtor cultural e diretor da Escola de Teatro Popular
(ETP) afirmou que a cultura precisa fazer frente ao governo federal.
Para isso, deve romper com a “lógica da indústria cultural” e conversar
direto com a classe de baixa renda.
“É fundamental romper a lógica da indústria cultural, que separa a
arte da política. Tudo que é político é feio para essa indústria e o
capitalismo se apropria dos nossos debates. Não dá para a produção usar a
arte como mercadoria. A mercantilização das artes é a separação dos
nossos valores. Compreender o processo como alvo central para contrapor
ao sistema dado. Ela precisa ser anticapitalista, coletiva e
inteiramente livre”, protestou.
Participante da mesa, a deputada federal reeleita Jandira Feghali
(PCdoB-RJ) celebrou a presença dos dez mil estudantes na bienal e disse
estar revitalizada para combater no Congresso Nacional os retrocessos
propostos pelo atual governo e avaliou o impacto do avanço neoliberal
sobre os movimentos e governos progressistas. “A nossa derrota é
política, ideológica e cultural. Nesse aspecto, não é só da arte, mas do
comportamento. No neoliberalismo, o centro é o indivíduo consumidor e
competidor. Essa competição é levada ao extremo e mercantiliza a vida.
Ou seja, o indivíduo vive numa disputa permanente em qualquer ambiente.
Isso é uma cultura e valores que se estabelece na vida cotidiana.”
Do céu ao inferno
Manoel Rangel lembrou que, durante os mais de 500 anos de Brasil, o país
viveu poucos momentos em que as políticas culturais estiveram sob
comando de uma gestão democrática. De acordo com ele, o principal
período foi durante as gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira, quando
comandaram a pasta da Cultura nos governo Lula e Dilma. “Eles pensaram
no crescimento do Brasil, com um viés democrático, em conjunto com o
povo, abrindo espaço para todas as manifestações. Saíram da lógica da
cultura de mercado e recolheram tudo que havia de criativo no país”,
lembrou Manoel.
O trabalho de Gil, um dos homenageados da Bienal da UNE, foi
celebrado pelo ex-presidente da Ancine. “Foram diretrizes que orientaram
uma ação criadora, ousada e inovadora, que mostrou uma população plural
e diversa. Houve uma política nacional para o cinema e audiovisual, até
museus. Houve uma visão transformadora sobre patrimônio brasileiro,
como (foi o caso da) capoeira”, disse ele, ao citar o registro, em 2008,
da arte marcial afrobrasileira como patrimônio imaterial brasileiro.
O especialista lamentou os retrocessos na liberdade de expressão e
criação dos artistas. “Algo que parecia ter acabado quando derrotamos a
ditadura civil-militar”, lamentou, ao lembrar da censura da exposição
Queermuseu.
“O financiamento à cultura desapareceu. Agora está a a cargo do
marketing e dos incentivo fiscal de empresas privadas. Abandonou-se o
projeto de um Brasil produtor de cultura no mercado interno e
internacional. Os gestores públicos renunciaram à política cultural e
deixaram de valorizar nossas criações”, completou.
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