com 12 filmes, que abordam temas detestáveis pelo governo, como direitos
humanos, meio ambiente e temáticas LGBTs. Nada que agrade a “famiglia”
Bolsonaro
por Flávio Aguiar
publicado
13/02/2019 13h48,
última modificação
13/02/2019 16h09
KARSTEN THIEL
a suspensão do financiamento de cinema e teatro pela empresa, ela que é
(ou era) a maior fomentadora de cultura no país. Compreende-se a
medida. Dou como exemplo o que está acontecendo aqui na Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim, na sua 69ª edição.
O Brasil costuma ter presença marcante no Festival, que integra o
chamado “Trio do Ouro” do cinema europeu, junto com Cannes e Veneza.
Dois filmes brasileiros já ganharam o Urso de Ouro, prêmio máximo da
Berlinale, para o melhor filme: Central do Brasil, em 1999, e Tropa de Elite 1,
em 2010. Filmes brasileiros ganharam o primeiro prêmio em outras
modalidades, ou foram destacados com segundos e terceiros lugares:
prêmio de votação do público, o Teddy (Ursinho) para filme de temática
LGBTI, prêmio da Anistia Internacional, e por aí vai.
Desta vez o Brasil está presente com 12 filmes, entre produções
próprias e co-produções com outros países, como França, Alemanha, Cuba,
além de alguns mais. São 11 longas e um curta.
Obedecendo à classificação temática e estética que prevalece no
governo de Bolsonaro, é tudo “marxismo cultural”, ou seja, lixo. São
filmes que, seguindo a forte tradição do cinema brasileiro, abordam
temas “detestáveis”, como direitos humanos, meio ambiente, “ideologia de
gênero”, temáticas LGBTI, movimento estudantil, situação dos
trabalhadores no capitalismo neoliberal, a dura vida dos peões de
rodeio, tem até filme sobre guerrilheiro assassinado pela repressão
durante a ditadura militar! É o fim da picada!
Como se isso não bastasse, há os protestos durante as sessões: a
gente ouve “Lula Livre”, “Marielle presente”, “Anderson presente”,
condenações à Lava Jato, protestos perante a passividade do STF,
condenações à repressão contra manifestações de estudantes e outras,
louvores ao MST etc..
Já não se ouve “Fora Temer!”, porque ele já saiu, mas vez por outra a
palavra de ordem aparece nas imagens, bem como o “Volta Dilma”. Um
horror, para quem acredita em conspiração do “marxismo cultural” e do
“globalismo”, que veio substituir a conspiração
“comuno-judaico-maçônica” dos anos 30 do século passado.
Nada, absolutamente nada que agrade Bolsonaro e famiglia,
Damares, Araújo, Vélez, Salles, Heleno, Moro ou Onyx “Liquidificador”
Lorenzoni. Nem mesmo (o ano de) 64 escapa dos ataques: não se fala em
“movimento” não. É golpe mesmo, e ditadura.
A coisa é tão grave que a Embaixada do Brasil em Berlim cancelou, sem
qualquer explicação, a tradicional recepção que oferecia a cineastas,
atores, atrizes, produtores, jornalistas brasileiros e locais,
interessados no nosso país, sem maiores nem menores explicações.
Bom, mas deve-se registrar que toda a Berlinale é puro “marxismo
cultural” na veia, segundo esta ótica. São 404 filmes neste ano,
exibidos durante os dez dias do Festival, dispersos pela cidade inteira.
Não dá pra assistir tudo, mas como as sinopses estão disponíveis,
pode-se ver que não há um único que defenda o salvacionismo da
civilização cristã-ocidental pregado por Trump, Orban, Salvini et alii e seguido à risca pela “nova” diplomacia brasileira.
Dentre as inúmeras opções, hoje destaco dois documentários excepcionais na forma e no conteúdo, cada um dentro do seu estilo.
O primeiro é Espero tua (re)volta, dirigido por Eliza Capai,
que faz o levantamento das manifestações estudantis em São Paulo quando
da tentativa de reestrutruração do sistema escolar do estado pelo
governo Alckmin. Com uma linguagem extremamente inovadora, entre vaivéns
no tempo e no espaço, o filme historia o processo que levou à ocupação
de 200 escolas no estado, do Centro Paula Souza e da Assembleia
Legislativa pelos estudantes, bem como a repressão violenta pela polícia
e pelas autoridades.
Um golaço cinematográfico. Estreou no auditório da Casa das Culturas
do Mundo, que abriga 1.250 assentos e estava completamente lotado. O
filme e a equipe presente foram aplaudidos de pé, ao final, numa
consagração ímpar perante o exigente público que comparece às sessões.
O outro é Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar,
de Marcelo Gomes, sobre a cidade de Toritama, no Agreste Pernambucano.
Numa linguagem muito delicada, o documentário mistura uma aura de
memória do diretor, que nasceu na região, com a observação do dia-a-dia
atual na cidade, que se transformou na “capital do jeans” no Brasil, num
processo de 20 anos.
Neste vaivém temporal, o diretor explora as condições de trabalho
reviradas pela introdução das práticas neoliberais na vida dos
trabalhadores. Estes e estas almejam ter seu próprio negócio e, para
tanto, se esfalfam num cotidiano absolutamente estafante.
O ponto máximo desta estafa é demonstrado por uma das senhoras
costureiras, dona de seu negócio (no jargão local chama-se “fração”),
que diz levantar-se às seis da manhã para trabalhar; ao meio dia
interrompe o trabalho para o almoço. Às 13h, volta ao trabalho e vai até
as 6 da tarde, quando volta para casa e faz o jantar. Retorna ao
trabalho até as 10 da noite, quando vai dormir direto.
Esta rotina segue por seis dias da semana. Domingo não é dia de
folga, é dia de ir à feira vender a produção excedente a viajantes e
turistas que ali vêm. O filme tem um autêntico “corifeu”, o Leo, que
define o seu fio narrativo com sua verve de filósofo do sertão.
No debate, o diretor Marcelo Gomes deu uma definição magistral do que
acontece nestas circunstâncias: ao tornar-se “autônomo, mas aprisionado
pela ideologia do mercado, o trabalhador torna-se “o escravo de si
mesmo”, numa inversão dolorosa da conhecida “dialética do senhor e do
escravo”, de Hegel. Amo e escravo se confundem num único corpo que
aliena completamente a percepção do seu tempo de vida, em que o tempo do
descanso torna-se apenas o intervalo entre os momentos de trabalho e
alienação.
Como se vê por estes dois exemplo (outros serão comentados
oportunamente), nada há que possa agradar aos que se pretendem os novos
donos do tempo brasileiro.
registrado em:
europa
ásia
oriente médio
mundo árabe
áfrica
américa latina
américa do sul
estados unidos
berlinale
cinema
-
Mais Blogs
-
13/02/2019
A Berlinale 2019, o Brasil e o ‘marxismo cultural’
-
11/02/2019
Diversidade nos governos neoliberais
-
11/02/2019
Diário, mudaram o remédio de novo. Agora já consigo mentir
-
10/02/2019
Meu mal-estar: por que alguns processos correm e outros não?
-
09/02/2019
Efeito colateral: remédio novo está me fazendo dizer a verdade


