Livro sobre projeto reculturarte está em fase de pesquisas para ser lançado em 2019.

 

 No ano de 1997  nos  foi
solicitado para publicação na revista Movimento, a produção do artigo, que
demos o titulo de
RECULTURARTE: Experiência comunitária pioneira  de arte -educação popular
em Aracaju
“. 

   Essa revista  foi
uma   iniciativa do Centro Sergipano de EducaçãoPopular (CESEP),  em parceria com o
departamento de Ciências Sociais  da UFS,  lamentavelmente não passou do segundo  número
e portanto, o artigo não foi publicado de forma impressa, sendo disponibilizado
por volta do ano de 2010  no blog da Ação
Cultural. 

   
Após a produção do artigo, conversei
com algumas pessoas sobre  o desejo de
publicar um livro que detalhasse  a
abordagem que fizemos  no artigo em tela,
o que não tivemos possibilidade de fazer até este ano de 2018, quando teve
inicio as nossas entrevistas e pesquisas em arquivo e que culminará com a
entrega do livro para publicação no ano de 2019.
 

A produção desse artigo   colabora,
  tanto
para oferecer um  panorama resumido do
que foi realizado pela Amaba/Projeto Reculturarte,  no período compreendido entre
1989 e 1996,  como para orientar as
pesquisas atuais, em especial o roteiro  de  entrevistas .

O artigo será publicado no livro, como um capitulo
introdutório  e segue disponibilizado
junto com um outro artigo intitulado PROJETO
RECULTURARTE: UM ESPETÁCULO POSSÍVEL AO CAMINHO DO DESAFIO DA INCLUSÃO SOCIAL
NO LAZER”,
o qual foi produzido por Jussara da Silva Rosa e Luiz Carlos Vieira Tavares,  quando  mestrandos do curso de educação física da Universidade
Metodista de Piracicaba (UNIMEP).

Portanto,  para conhecer e
valorizar o trabalho educativo e sociocultural realizado no bairro américa pela
Amaba e aquecer o interesse pelo livro, acreditamos que a leitura valerá a
pena.

Em troca de correspondência
com alguns participantes do projeto Reculturarte, manifestamos algumas opiniões
que vale a pena trazer para cá.  Isso vale como uma boa forma
de conclusão dessa introdução a leitura dos dois artigos abaixo.

 ” O livro sobre o projeto Reculturarte propõe uma viagem ao passado, onde encontraremos contribuições para o presente
e o futuro de uma nação que precisa se reinventar. Em especial, para
àqueles que acreditam na arte e na cultura como um meio de humanização,
desenvolvimento integral e emancipação.

“Por coincidência, um resgate da memória em
tempos tão contrários ao que foi/é proposto pelo projeto  Reculturarte, mas que sem dúvida nenhuma,
ainda mais necessário.”

“Realizar
as pesquisas para o livro sobre o projeto Reculturarte,  está sendo muito
emocionante e prazeroso. Tanto para mim, como para os entrevistados. Estou
surpreendido, pelo fato do quanto estivemos a frente do nosso tempo, inclusive
dos tempos de hoje.”

 RECULTURARTE: Experiência comunitária pioneira  de Arte – Educação Popular em Aracaju



Por
José de Oliveira Santos (Zezito)
Artigo escrito em 1997







O presente artigo tem como objetivo apresentar um resgate histórico –
critico, a partir da vivência pessoal e do reexame da memória escrita
produzida nos 06 (seis) anos de existência do Projeto Reculturarte.







O inicio da experiência em 1989, deu-se a partir do esforço conjunto da
Associação dos Moradores do Bairro América e Adjcências (AMABA), do Centro
Sergipano de Educação Popular (CESEP) cuja sede naquele momento estava
situada no Bairro América, com a participação de membros dos grupos de
jovens da Igreja São Judas Tadeu, e em alguns momentos com a
participação da assistente social do posto de extensão da Fundaçao
Estadual de Bem Estar do Menor (FEBEM) no bairro América.




No início de 1989 foram  promovidas uma série de reuniões, com o intuíto de
engajar um grupo expressivo de jovens num esforço coletivo de
recuperação da dignidade e cidadania das crianças e adolescentes. Após
algumas tentativas de elaboração de estratégias para agrupar,
socializar, reeducar e formar grupos de produção e geração de renda ,
junto ao publico infanto – juvenil , decidiu-se utilizar a arte e
recreação, considerando que devia-se partir daquilo que é mais ligado ao
mundo da criança e que por isso favorece mais a sua grupalizaçao.




Com o objetivo de melhorar a capacidade de intervenção dos jovens, foram
realizadas algumas atividades de formação destacando-se nesse ano a
realização de um Encontro de Jovens do bairro América, que reuniu
representantes de 10 (dez) grupos, incluindo alguns de bairros
adjacentes. O tema do encontro foi “A questão do menor abandonado em
nosso meio”. Esse evento buscou também ampliar a quantidade de pessoas
comprometidas com a proposta de trabalho.




Em termos de ação direta com as crianças, os registros dão conta da
realização de um campeonato de bola de gude em maio, uma quadrilha
junina em junho, e uma tarde de lazer em outubro de 1989. O grupo de
capoeira já existente na AMABA desde 1988 foi incorporado a proposta de
trabalho. Outra experiência inicial foi a turma do teatro, animado por
um jovem do grupo teatral da igreja e a turma da dança, animada por uma
professora, responsável pela organização da quadrilha junina. A formação
da cooperativa dos guardadores de carro difere das outras iniciativas
pela proposta de organizar os meninos que trabalhavam em frente a
igreja, para obterem maiores condições de trabalho e aumento na renda
financeira. Depois de algum tempo, em virtude da falta de experiência
dos jovens educadores no trato das questões ligadas ao mundo do
trabalho, a alfabetização e a recreação foram incorporadas como proposta
de intervenção junto aos guardadores de carros.




Com o íntuito de oferecer condições de compra de material necessário
para a realização das atividades foi solicitado e aprovado o apoio
financeiro da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) de Salvador-Ba.




Em Setembro de 1989 acontece a participação do assessor do Projeto
Reculturarte, José da Guia Marques, e três adolescentes no II Encontro
Nacional de Meninos e Meninas de Rua, que reuniu em Brasília 700
crianças e 200 educadores do Brasil e de alguns países da América Latina
para a discussão de problemas gerais ligados a infância, e para
pressionar os políticos e autoridades visando a aprovação do estatuto da
criança e do adolescente.




Esse encontro contribuiu para o conhecimento de novas linhas de trabalho,
e iniciou o processo de articulação regional e nacional do Projeto
Reculturarte com o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua.




O I Encontro de Crianças e Adolescentes do bairro América e a passeata
contra a violência foram resultados da influencia positiva do Encontro
em Brasília. Esses dois eventos e o I Festival Infantil foram os
momentos de maior destaque no ano de 1990. A passeata contra a
violência, inicialmente prevista para ser realizada no bairro América,
tornou conhecido o Projeto Reculturarte além dos limites da comunidade,
em virtude da revolta de expressivos setores da sociedade aracajuana
contra a ação do grupo de extermínio que assassinou quatro crianças no
bairro Terra Dura.




Inicialmente, a passeata contra a violência faria um protesto contra a
morte de diversas crianças e adolescentes no bairro América que, segundo
versões da policia, eram causadas pelas disputas internas entre os
grupos de viciados e traficantes.




A partir das denuncias de garotos sobreviventes e da comprovação da
participação de policiais na chacina da Terra Dura ficou confirmado que a
famosa “guerra da maconha” era uma invenção de setores da policia e
da imprensa. Diante disso, a AMABA aceitou a proposta de outras entidades
e artistas para a realização de uma mobilização de protesto em
conjunto.




Além da articulação local, a passeata foi vinculada a a campanha
nacional “Não Matem Nossas Crianças” coordenada pelo Centro de Apoio as
Populações Marginalizadas (CEAP) do Rio de Janeiro que enviou a Aracaju
um representante, Ivanir Santos.




De acordo com a entrevista concedida ao Jornal de Sergipe em 27 de
novembro de 1990, Ivanir Santos afirmou que sua presença em Sergipe
tinha por objetivo conhecer com profundidade a real situação dos menores
marginalizados do Estado. “Foi surpreendente para mim, ver o Secretário
de Segurança do Estado afirmar num programa local que o numero de casos
de assassinatos de menores não era tão alto em Sergipe e verificar,
junto aos dados da OAB, o registro de cerca de 140 mortes”, disse.
Ivanir Santos explicou que o CEAP deverá fazer uma investigação própria
sobre a situação em Sergipe para enviar os dados a Anistia
Internacional.




Prosseguindo a experiência bem sucedida de realização dos momentos de
formação, foi realizado em setembro de 1990, o 1º Encontro de Educadores
do bairro América. Nesse momento, foi realizado um levantamento dos
avanços e dos entraves que dificultavam a melhoria da qualidade do
trabalho com as crianças e adolescentes. Nesse mesmo ano foi celebrado o
convênio com a Visão Mundial, que garantiu a remuneração permanente de
alguns educadores e a compra de equipamentos e material de consumo para
as atividades (capoeira, dança, teatro, banda afro, esporte,
alfabetização, jornal e artesanato) e eventos especiais (festival
infantil, retiros, passeios, encontros de educadores e festas)




Com isso, o Projeto Reculturarte passou a distinguir a AMABA em relação
as demais associações de moradores, pelo destaque da ação cultural,
envolvendo crianças e jovens.




Em termos de ação educativa o dia-a-dia do projeto foi realizado através
de uma serie de atividades em dias alternados e por eventos de formação
e momentos de lazer realizados de forma esporádica.




As atividades foram realizadas na AMABA e em espaços cedidos pela
Paroquia São Judas Tadeu (durante os dois primeiros anos de
funcionamento do projeto) e em campos, praças, ruas e etc. Do total de
tempo destinado para cada atividade, a maior parte foi empregada em
ensaios e treinos, o tempo restante para conversas sobre questões
internas da atividade ou assuntos de interesse das crianças e
adolescentes, com destaque para a questão das drogas, da violência e
da sexualidade.



Com o objetivo de ampliar o tempo para abordagem dos diversos temas, foi
realizado em 1995 uma experiência de formação, através dos programas de
reflexão: Afetividade, Zumbi dos Palmares e Solidariedade, que eram
realizados durante os sábados e que passaram a  servir como aprofundamento dos temas  dos retiros
realizados em chácaras, escolas, e espaços da igreja (destinados para
encontros de fins de semana).




Quanto a questão de tempo, as atividades foram realizadas com uma média
de um a três encontros semanais com duração de duas horas por encontro. O
numero de participantes variou de dez (teatro) até cinqüenta (banda).




Algumas atividades estiveram presentes com poucos momentos de
interrupção, desde o inicio do Projeto, como é o caso da banda, da
dança, do esporte e da capoeira.




A capoeira já existia na AMABA antes mesmo da criação do Projeto
Reculturarte, a partir de um projeto do setor de cultura negra da
Secretaria de Cultura do município (atualmente FUNCAJU). O Projeto
denominado Capoeiração, de 1988, durou apenas um ano, tendo o grupo se
constituído a partir da disposição do mestre Alvinho Sucuri e de alguns
alunos interessados. Foi a única atividade que mereceu um estudo mais
completo por parte de Rita Leolinda, estagiária de Serviço Social da
Universidade Federal de Sergipe (UFS), no ano de 1990.




Segundo o relatório de pesquisa o grupo, na época (Maio a Agosto de
1990), contava com dezenove membros assíduos, da faixa etária entre 7 e
14 anos. Já naquele momento a autora apontava alguns limites e
problemas, que também apareceriam em analises e discussões relacionadas a
outras atividades em anos seguintes.




Rita Leolinda destacou uma grande identificação cultural ligada a
capoeira e a mobilização do grupo baseada na própria atividade, embora
não seja este o propósito principal do projeto, conforme percebeu a
estagiária. Quanto a escolarização, “O índice de repetência 60% e mais
de três vezes, é alto” (Rita 1990:16). A autora percebeu também certa
reprovação quanto a participação do sexo feminino nos treinos e a
utilização de apelidos pejorativos a alguns membros de cor negra
acentuada. Quanto a participação de meninas no grupo, essa realidade foi
modificada em 1993, com a entrada de algumas adolescentes no grupo,
embora não tenha havido continuidade dessa participação.




Quanto a questão do preconceito racial, a proposta do programa de
reflexão sobre os 300 anos de Zumbi dos Palmares (1995) incluiu o
racismo como principal tema dos debates.




Para o entendimento da dinâmica do projeto em 1993, visto a partir do
olhar de um grupo de vinte crianças e cinco educadores que se reuniram
na cidade de Propriá, vale a pena transcrevermos a síntese das várias
opiniões acerca do que era bom e do que era ruim naquele momento. As
coisas boas eram: alegria, brincadeira, lazer, arte, amor (que muitas
vezes não encontramos na família), paz, refugio para os problemas,
momento novo agora e sempre, uma forma diferente de ensinar e aprender,
desejo de transformar a sociedade, Jesus presente naquilo que gostamos.
As coisas ruins eram: injustiças, falsidades, engano, confusão, poucos
fazem e muitos criticam, medo do projeto acabar ou dos meninos não
poderem levar a frente.




Quando aquilo que diz respeito as dificuldades do relacionamento
interpessoal, a não superação de muitos desses problemas provocou o
afastamento de muitos educadores(as), meninos(as), assim como de sócios e
dirigentes. Se isso não levou ao fim do projeto, sem duvida nenhuma
quebrou um pouco o encanto inicial, já que a proposta daqueles que
formularam a idéia original ia em sentido contrário as valores
individualistas e competitivos que vigoram na sociedade atual.



Em termos conclusivos, embora até o ano de 1995, já que, a partir do
segundo semestre de 1996, não estamos mais presentes enquanto dirigentes
da AMABA, nem enquanto educadores a constatação que fazemos é que, em
termos de resultados, a experiência do projeto foi feliz quanto a
grupalizaçao, socialização e reforço da auto-estima de um grupo
expressivo de crianças negras e pobres do bairro América.




Vale lembrar o sentimento de satisfação e alegria compartilhados por
muitos daqueles que estiveram presentes, tanto na condição de
realizadores como na condição de convidados, quando da apresentação de
produção cultural em alguns momentos, caso do festival infantil (1990 a
1994) e festa Kizomba (1995). O que se viu foi muita beleza,
originalidade e sentido de cooperação por parte de todos os envolvidos.
No entanto, outras medidas relacionadas a melhoria do padrão
socio-economico-cultural, ou não foram levadas em conta ou as tentativas
de implementá-las foram bastante tímidas. Pelo fato de ter estado
presente no Projeto Reculturarte desde o inicio, confirmo as duas
hipóteses.




O estudo de Rita Leolinda acerca da atividade de capoeira já apontava
para a necessidade, manifestada pelos próprios meninos, do reforço
escolar e cursos profissionalizantes.




Já foi dito que o Movimento Popular está em crise por não ter se
preocupado com a estética e com a mística, tendo se reduzido apenas ao
aspecto do político e do econômico.




As lições da crise da AMABA/ Projeto Reculturarte de 1993, quando a
maior parte dos membros do conselho deliberativo pediu demissão, aponta
em sentido contrário a afirmação anterior. No caso da AMABA/Projeto
Reculturarte, uma das principais razões do “racha” foi a ênfase
excessiva no aspecto cultural (estética). Sobre o assunto, conforme o
relatório do primeiro encontro de avaliação institucional da AMABA, de
Maio de 1993, a opinião do grupo dissidente a respeito dessa questão foi
expressa da seguinte forma: ”Tendência a reduzir o trabalho da AMABA a
atividades culturais. Há dois grupos perseguindo objetivos diferentes”.




Em minha opinião, a concepção inicial acerca da ação cultural foi
pensada de forma integrada, buscando através da arte expressar os
sentimentos da população do bairro América acerca da realidade de
opressão e de abandono, e ao mesmo tempo, organizar e mobilizar as
pessoas diretamente envolvidas, assim como os moradores em geral. Se em
alguns momentos o retrato da miséria e das injustiças foi apresentado
com competência, a organização e a mobilização para as conquista acerca
da melhoria da qualidade de vida ficaram a desejar.

Além dos nomes citados no artigo acima,
merecem ser registrados os seguintes. Sem estas pessoas, a “aventura” do
projeto não teria sido possível.

Edenilson Barbosa, mestre Alvinho
Sucuri, Edna Marques, Paulo Sérgio, Joseanes, Carlos Henrique, Ronaldo do
Grutesfa, Emanuel Rocha, Maria Cléia, Paulo Rogério, Rosângela Souza, Kátia, Valdete,
Acácio, Adriana, Sérgio, Jussara Rosa, Cicera, Dayse Ramos, Evanildo, Zumbarê, Ana
Paula, Márcia , Crécia, Clésia, Rejane e Anderson Charles (educadores); Manoel Soares,
Wanderley, Luís uernando, Antônio Luís e Fátima (dirigentes); Professor Carlos,
assistentes sociais Katiene e Aparecida, Frei Florêncio, Betânia, Márcia Nova e
Avelange (Visão Mundial), Fátima Nascimento e pessoal da CESE, deputado estadual
Renato Brandão – Renatinho, psicóloga Cibele Ramalho, Ronaldo Lima. E mais, em
1994, durante 60 dias, esteve contribuindo com o projeto, Helga, do programa
ASA , programa de intercâmbio internacional da Alemanha.




 

José de Oliveira Santos. “Zezito”  É  sócio
fundador da AMABA e coordenador geral da AMABA(1989/92) e (1994/96); educador
voluntário do projeto Reculturarte (1994/96); sócio fundador do CESEP e
integrante do Conselho Politico (1995/97); graduado em História pela Universidade
Federal de Sergipe.



NOTAS
1 – A Coordenadoria Ecumênica de
Serviço (CESE), nasceu em 1973, como fruto da reflexão sobre o compartir
ecumênico, na busca de uma sociedade mais justa e democrática para os
empobrecidos. É constituída por cinco igrejas evangélicas (Episcopal Anglicana
do Brasil, Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Metodista, Presbiteriana
Independente do Brasil e Presbiteriana Unida) e pela Igreja Católica. Conta com
recursos oriundos de agência internacionais de ajuda e do Conselho Mundial de
Igrejas (CMI).

2 – Organismo internacional de
ajuda, criado por um pastor batista, norte americano, durante a década de 1950
para assistir crianças órfãs na Coréia. Posteriormente, passou a atender
projetos de igrejas evangélicas na área social em diversas partes do mundo. No
Brasil há vinte anos, estabelece convênios com organizações comunitárias. A receita
financeira é obtida através do sistema de apadrinhamento em que uma família ou
empresa se compromete a enviar mensalmente uma certa quantia em dinheiro para
uma criança cadastrada nos projeto conveniados.

3. Os “retiros” do projeto, a
despeito da denominação, teve pouco daquilo que encontramos nos retiros dos
grupos religiosos, tanto pelo aspecto de conteúdo, como pelo aspecto da forma.
Os conteúdos ou temas estavam baseados nas necessidades e problemas mais
comuns. O tema “família” foi abordado a partir do cotidiano dos presentes
relacionando com a história da sociedade, a religião e a cultura. Quanto à
forma os educadores elaboraram uma proposta que possibilitasse a construção
coletiva do conhecimento. A dimensão lúdica (brincadeiras, cânticos), a
dimensão espiritual (celebração e oração), a dimensão afetiva (reforçada
através de técnicas de relaxamento e terapia corporal), a dimensão estética (áudio
visual, desenhos, colagens e dramatizações) estiveram sempre presentes, re
(criando) a partir do que foi apreendido nos seminários e oficinas do Centro
Nordestino de Animação Popular (CENAP/PE) e curso de verão do Centro Ecumênico
de Serviços a Evangelização e Educação Popular (CESEP/SP).

4. A não continuidade da minha presença
e de outras pessoas, deve-se a dificuldade de convivência e divergência
ideológicas com o novo presidente eleito (ex-educador) militante do PC do B.

5. A questão do trabalho e da
geração de renda aparece como um dos itens dos objetivos especificados no
texto-base do projeto, produzido em 1989. Tendo colocado a minha preocupação em
1993,,quanto ao fato dessa questão não estar sendo levado em conta.
Infelizmente , a ausência de uma ação mais efetiva quanto a esse aspecto, se
constitui  no principal motivo de
frustração por parte de muitos adolescentes e pais. O item diz o seguinte: “Motivar
os menores a se engajaram em projetos de produção comunitária, desenvolvidos
pela AMABA, visando afastá-los ou preveni-los da ociosidade, das drogas, da
prática do roubo, da prostituição e mendicância, possibilitando que os mesmos
contribuam efetivamente com a renda de suas famílias(…)”.

Referências  Bibliográficas

Projeto Reculturarte – Centro Sergipano
de Educação Popular, 1989. 8p. (texto-base).

Assassinatos de menores serão
combatidos pelo CEAP, Jornal de Sergipe, Aracaju, 27 de Novembro de 1990.

ANJOS, Rita Leolinda Chaves
Cardoso dos. Estudos e Avaliação do grupo de capoeira, Aracaju Universidade
Federal de Sergipe,1990, 78p. (relatório).

IV Retiro do Projeto
Reculturarte, Propriá – Associação dos Moradores do Bairro América e
Adjacências, 1993, 6p. (relatório)

Primeiro encontro de avaliação da
AMABA – Aracaju –Centro Sergipano de Educação Popular, 1993. 10p (relatório)

Colaboradores
Revisão Maxivel Ferreira
Digitação Irene Smith 

 Leia também:


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019


Amostra grátis do livro sobre a AMABA/Projeto Reculturarte (1). A ser lançado em 2019.

 sábado, 19 de janeiro de 2019

Uma prévia do livro sobre a AMABA/Projeto Reculturarte a ser lançado em 2019.


 
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019


O Reculturarte vai à Bahia. Um recorte do livro sobre a AMABA/Projeto Reculturarte a ser lançado em 2019.(3)

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Um aperitivo do livro sobre a AMABA/Projeto Reculturarte que está em fase de produção para ser lançado até dezembro de 2019. (4)


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019


Um pedaço de memória: AMABA/Projeto Reculturarte. O livro completo está em fase de pesquisa para ser lançado este ano. (5) 


PROJETO RECULTURARTE: UM ESPETÁCULO POSSÍVEL AO CAMINHO DO DESAFIO DA INCLUSÃO SOCIAL NO LAZER
Jussara da Silva Rosa
Luiz Carlos Vieira Tavares
Mestrandos do curso de Educação Física da UNIMEP

RESUMO: No intuito de relatar nossa experiência profissional em um
projeto social desenvolvido por uma associação de moradores, é que
objetivamos com este artigo trazer para a arena das discussões a
possibilidade de diálogo sobre essa prática, divulgando e ampliando
nossas ações, bem como, apontar possibilidades para a experiência
inclusiva do lazer, e aqui no caso específico na dança, por acreditar
que ela permite ao seu participante um verdadeiro sentir, pensar, agir,
perceber e reagir enquanto ser humano histórico e cultural na dinâmica
de suas relações.

INTRODUÇÃO

O Projeto Reculturarte é desenvolvido no Bairro América da cidade de
Aracaju. O Bairro América no seu surgimento era caracterizado como
suburbano, mas com o crescimento da cidade hoje já não é mais possível
caracterizá-lo por este aspecto.

A história desse bairro começa com a instalação do Reformatório Penal do
Estado nesta região, que a partir daí, passou a ser conhecida como
“Caatinga da Penitenciária”.

A maioria dos presos nesta época eram do Estado de Sergipe. As suas
famílias ao se deslocarem para a capital, na intenção de visitá-los
deparavam-se com problemas de acomodação (abrigo) e retorno, visto que
nesta época não tinha transporte diariamente. Diante dessas dificuldades
as famílias dos presidiários começaram armar tendas e barracos nas
redondezas da penitenciária. Porém, estas famílias não foram os
primeiros habitantes, pois, já morava lá, o carroceiro e o enfermeiro da
penitenciária.

O judeu José Zúkema ao observar esta situação começou a lotear estes
terrenos por preços acessíveis para estas famílias e até mesmo para
ex-presidiários. Não se sabe ao certo se José Zúkema era realmente dono
dessas terras ou se foi apenas o loteador. Zúkema viveu muito tempo na
América, mas precisamente nos Estados Unidos, foi por este motivo que
ele deu a “Caatinga da Penitenciária” o nome de América.

Desde o seu início o bairro é constituído por uma população de baixa
renda, onde a maioria dos trabalhadores são absorvidos na construção
civil, no serviço público (servente, vigilante, professor), faxineiras e
desempregados. As famílias são grandes, de estrutura frágil, em que a
figura do esposo é freqüentemente trocada, além de possuírem grande
número de filhos. Estes, por sua vez começam a trabalhar nos primeiros
anos de vida para auxiliarem no orçamento de casa.

O bairro é hoje marcado por uma série de problemas sociais que vão desde
os mais simples de infra-estrutura até os mais complexos e lamentáveis
problemas sociais.
Foi por perceber estes problemas que um grupo de moradores do bairro
sentiu a necessidade de criar uma associação que amenizasse ou até mesmo
superasse tais problemas, e é a partir desta intenção que surge a
Associação de Moradores e Amigos do Bairro América (AMABA).

A AMABA é uma entidade comunitária que foi fundada em 14 de abril de
1983 por um grupo de moradores preocupados com a situação de abandono do
bairro, que só é lembrado pelas autoridades na época de eleições. E
hoje se caracteriza por ser uma entidade profundamente comprometida e
reflexiva com os problemas sociais tais como: violência, saúde,
educação, ecologia e lazer.

Na intenção de obter dos governantes um compromisso mais efetivo com a
população do bairro e também de bairros vizinhos, a diretoria,
coordenadores e moradores se reúnem em comissão para solicitar audiência
ao governador, prefeito e secretários; promove abaixo-assinados;
denuncia à imprensa as irregularidades e quando é necessário promove
atos públicos na intenção de sensibilizar e mobilizar a comunidade para
uma atitude política diante das desigualdades e injustiças sociais.

Diante das reivindicações feitas por esta associação, a conquista de uma
sede própria e a aquisição do Registro da mesma, foi bastante
significativo para que o bairro ganhasse uma nova roupagem.

O bairro hoje dispõe de saneamento básico, ruas pavimentadas, segurança
comunitária, arborização, instalação de espaços físicos para o lazer
(praças, quadras e teatro de arena).
Outras conquistas vieram, um programa denominado “Cinema nos Bairros”,
patrocinado pela Secretaria de Cultura do Município; um outro programa
que consistia em visitas ao Centro de Criatividade, onde as crianças e
adolescentes tinham a oportunidade de participar de oficinas artísticas e
assistir aos espetáculos teatrais gratuitos; a criação de uma “Rádio
Comunitária”, cujos equipamentos foram comprados com o apoio da CESE
(Coordenadoria Ecumênica de Serviço); e por fim, a criação do “Projeto
Reculturarte”.

Este projeto nasceu da reflexão feita por alguns componentes da AMABA em
conjunto com o CESEP (Centro Sergipano de Educação Popular) e com o
posto de extensão da FEBEM (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor), em
cima da necessidade de estar repensando sobre a apropriação dos espaços
destinados ao lazer, bem como o uso de seu conteúdo, visto que as
crianças e adolescentes desse bairro não dispunham de muita opção de
lazer.

Foi por reconhecer uma defasagem nos conteúdos culturais de lazer, com
práticas voltadas quase que exclusivamente para o esporte (futebol) e
com a utilização apenas da quadra como espaço para essa prática, que a
associação investigou junto à população desse bairro de que forma eles
entendiam o lazer e quais as atividades físicas de lazer eles tinham
interesse em participar.

De posse dos resultados desta investigação, a associação com o intuito
de desmistificar o entendimento que os moradores desse bairro e de uma
forma geral a sociedade sergipana, tinham em relação ao lazer, visto
que, compreendiam apenas como uma forma de descanso, divertimento,
válvula de escape e coisa de desocupado ou de quem tem dinheiro, passou a
desenvolver as seguintes atividades: dança, capoeira, música, teatro,
artes plásticas, jogos e brincadeiras populares, esportes.

De acordo com Marcellino (1995, p.70), “é preciso que o lazer, além de
suas funções de descanso, evasão, e entretenimento, atenda também as
necessidades de desenvolvimento cultural”.

Como parte integrante da sociedade brasileira e sergipana, atuando na
vida cultural e sócio-política, a AMABA tem procurado entender os
conflitos sociais existentes em nossa sociedade, analisando-os e
procurando encontrar formas alternativas de solução, é neste sentido que
o Projeto Reculturarte funciona, objetivando por meio das atividades
lúdico-culturais inserir crianças e adolescentes no convívio e na
participação social.

O Projeto Reculturarte contando com o apoio financeiro da CESE e da
Visão Mundial, passou a contratar educadores amadores e profissionais,
para desenvolver suas atividades.

Nesta perspectiva, o projeto vem contribuindo para a ampliação do
entendimento do lazer, por acreditar que este ao mesmo tempo em que
possa estar desenvolvendo uma atividade alienante e conformista, pode
também se apresentar como uma atividade revolucionária e transformadora a
caminho da criticidade e criatividade.
Nos apoiando no pensamento de Marcellino (1998, p.156), ele nos diz que:

Apesar de tudo e embora não de modo exclusivo, é particularmente no
tempo de lazer, que são vivenciadas situações geradoras de valores que
poderiam ser chamados de “revolucionários”. São reivindicadas formas de
relacionamento social mais espontâneas, a afirmação da individualidade, a
consciência com, ao invés do domínio da natureza.

Compromissado com a prática da cidadania, o Projeto Reculturarte inclui o
lazer como uma das dimensões culturais do ser humano, em que este é
estimulado para a vivência de sua existencialidade, numa relação
concreta consigo mesmo, com os outros e com o seu contexto.

Como exercício de cidadania este projeto tem possibilitado aos seus
participantes o conhecimento dos seus direitos e de seus deveres, a
consciência ambiental, a imaginação, a autonomia e a alegria, a
criticidade e criatividade.

Ainda nos apoiando em Marcellino (1998, p. 156), o lazer:

É uma questão de cidadania, de participação cultural. Entendo por
participação cultural a atividade não conformista, mas crítica e
criativa, de sujeitos historicamente situados. Entendo, ainda, a
participação cultural como uma das bases para a renovação democrática e
humanista da cultura e da sociedade, tendo não só a instauração de uma
nova ordem social, mas de uma nova cultura.

A nossa relação direta com esse projeto ocorreu por meio da dança. Em
1993, surge a oportunidade de ministrar aulas de dança nesta associação,
o que nos deixou bastante motivados, bem como inseguros frente as
dúvidas que tínhamos em relação ao conteúdo e ao estilo de dança que
ensinaríamos naquela comunidade.

As crianças e adolescentes que freqüentavam esse projeto manifestavam um
certo fascínio pela dança afro e pela dança de rua como uma forma de
protesto, talvez por conta dos movimentos de luta e resistência contra
as injustiças sociais que esta associação desenvolvia.

Foi então aí a nossa maior escola de dança, aprendemos bastante com
aquelas crianças e adolescentes. Foi lá também que começamos a refletir
sobre o corpo que dança, pois, nos víamos na missão de ensiná-las o que
na verdade não compreendíamos, encontrando-nos completamente
descontextualizados da história daquela comunidade, bem como daqueles
corpos. Corpos que tinham fome e sede de aprender, corpos que desejavam
veemente uma oportunidade de se fazer presente no mundo, corpos que
buscavam a liberdade e autonomia e que acreditavam na felicidade.

Como acreditávamos na dança como uma forma de linguagem da expressão
humana e enquanto tal, uma obra de arte aberta a diversos sentidos e
significados, fizemos a opção de desenvolver nossas ações nesta
perspectiva. Visto que, a dança enquanto obra de arte aberta e inacabada
pode estar representando a possibilidade do movimento constante da
criação e reflexão por meio da experiência vivida. Ela pode ainda
possibilitar ao corpo dançante uma transcendência temporária de sua
cotidianidade, não como forma de fuga, mas como condição de reflexão de
sua realidade.
Assim, a poética do corpo dançante configura-se na vivência da
corporeidade, que é experiência perceptiva da realidade sensível.

Como experiência vivencial, a dança proporciona um perceber-se presente no sentido estético da corporeidade e motricidade.
Para Dantas (1999, p.28):

O movimento do corpo dançante designa um deslocamento, uma transformação
e identificação com impulso corporal, com a capacidade de projeção do
corpo no tempo e no espaço. Um corpo ao dançar, entrega-se ao ímpeto do
movimento, deixando-se deslocar e transformar. Ele atravessa o espaço,
joga com o tempo, brinca com as leis, diverti-se com o seu peso, provoca
dinâmicas inusitadas.

Nesta entrega ao movimento, desenvolvemos uma atmosfera muito agradável.
Utilizamos a improvisação por ser um jogo em que sua principal regra é
estar aberto e sensível as propostas que vão surgindo. Dantas, (1999, p.
102) nos diz que:

Há na improvisação uma predisposição para atuar de acordo com o momento:
o improvisador está pronto para transformar toda circunstância em
ocasião, todo acidente em possibilidade e se dispõe a explorar
constantemente a memória à procura de soluções inusitadas para as
situações criadas pelo jogo.

Neste sentido, as pesquisas e composições coreográficas que
desenvolvíamos neste projeto já não eram mais uma iniciativa só nossa,
mais sim de todo um grupo. Essa construção ocorria na coletividade, o
que nos aproximava cada vez mais por meio do diálogo e do encontro.

Para Pinto (2004), o diálogo deve ser corporificado no sentido de estar
atuando contra as desigualdades de oportunidades e concretizando a
possibilidade de “acesso a melhores condições de vida”.
Ainda para Pinto (2004, p. 200):

O diálogo, aberto, sem preconceitos, sem querer tirar vantagem em tudo,
considerando os sonhos pessoais e coletivos, é o caminho que vejo como
mais promissor nesse sentido. A construção de conhecimento e intervenção
voltadas à qualidade de vida implica, pois, possibilidades de
politização, ou melhor, de conscientização sobre o que é vivido […]
Neste sentido, os problemas surgidos nas nossas intervenções devem ser
tratados como oportunidade de educação lúdica para a autonomia:
escolhas, negociações, tomadas de decisão e participação coletiva.

O ser humano autônomo no contexto do nosso trabalho, é aquele que se
indigna com caminhos já percorridos e pré-estabelecidos, arriscando-se
em novos horizontes e desbravando novos rumos traçados por ele mesmo,
com possibilidades inclusive de superação dos seus limites.

Na dança o ser humano autônomo transcende o corpo oprimido na busca de
sair da acomodação para a transformação, deslocando-se da ingenuidade
para a criticidade e criatividade. É a possibilidade de se estabelecer
redes de conexões para a conservação ou revolução da concretude
histórica do ser humano. “Falar de transcendência do corpo oprimido,
portanto, é o mesmo que falar de desejos, relações e mudanças deste
corpo. […] Transcender é, então, matar a morte para que a vida viva”
(LIMA JR., 1998, p.27).
É exatamente nesta recusa da opressão que a AMABA, vem desenvolvendo o
Projeto Reculturarte, criando novos mecanismos de libertação, para que
crianças e adolescentes continuem expressando de forma intensa e
significativa a sua existência. Desta forma, a dança enquanto uma das
atividades desenvolvidas por este projeto e enquanto uma das
manifestações do ser humano tem representado um desses mecanismos para
sua expressão.

CONCLUSÃO
A inclusão cultural no lazer e aqui no caso específico da dança, só se
constituirá enquanto aprendizagem significativa seja na associação, na
escola, na rua, no barracão ou no palco a partir do momento que
valorizar o corpo dançante enquanto corpo-sujeito, que traz em si as
marcas de sua cultura, que é um corpo que na sensibilidade perceptiva de
sua existencialidade conta, faz e refaz história, na dimensão de seu
próprio tempo e espaço.
Acreditamos que seja nesta perspectiva que a dança possa contribuir com a
inclusão social e cultural no lazer, possibilitando ao corpo dançante
por meio da experiência lúdica e artística, o encontro com corpos que
dançam, com corpos que assistem e com o mundo, rompendo com o silêncio
que esses corpos carregam em si por conta de uma educação autoritária e
alienante, e por conta de um modo de produção que só visa o consumo,
resgatando nos mesmos a imaginação, o prazer, a auto-estima e, a coragem
de desbravar novos caminhos, por meio das experiências vividas,
percebidas e sentidas.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

DANTAS, Mônica. Dança o enigma do movimento. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1999.
LIMA JR., José. Corpoética, cosquinhas filosóficas no umbigo da utopia.São Paulo: Paulinas, 1998.
MARCELLINO, Nelson C. Lazer e humanização. Campinas: Papirus, 1995.
_____________ . Educação Motora e Políticas Públicas. In: I Congresso
Latino-Americano de Educação Motora. II Congresso Brasileiro de Educação
Motora. Foz do Iguaçu. 1998.
PINTO, Leila Mirtes S. M. Educação Física, Corporeidade, Lazer: Diálogos
com Amigos sobre “Riscos a Correr”. In: MOREIRA, Wagner. e SIMÕES,
Regina (Orgs) Educação Física, Intervenção e Conhecimento
Científico.Piracicaba: Editora Unimep, 2004. 

Para conhecer melhor o autor da iniciativa do livro.

Entrevista com José de Oliveira Santos “Zezito” 





Fonte: http://sonsdacidadania.blogspot.com.br/


30 DE ABRIL DE 2009

José de Oliveira Santos é
professor de História e Educador Popular. Em entrevista concedida ao
nosso grupo, falou sobre questões que permeiam o trabalho com crianças e
jovens carentes, fez uma análise dos atuais programas nesse sentido e
traçou perspectivas para o trabalho de inclusão desse público, que
constitui, literalmente, o futuro da nação. O professor acredita nas atividades culturais como sendo um dos melhores mecanismos para o cultivo de valores como amizade, cooperação, respeito, tolerância, entre outros, fatores ligados diretamente à construção da cidadania; e quando questionado sobre o maior desafio na vida
de um profissional que trabalha com crianças e jovens carentes,é
enfático: “é a falta de entendimento por parte da maioria dos adultos,
em especial daqueles que detém maior poder político e/ou econômico, a
respeito da necessidade de se criar mais condições e oportunidades para
que as crianças, adolescentes e
 jovens
brinquem, experimentem as diversas linguagens artísticas, façam festa,
enfim, celebrem a vida!” E é exatamente isso que o professor José tem
feito há vinte anos: celebrado a vida, com todo o encanto que esse tipo
de iniciativa tem a proporcionar.
Confira abaixo a entrevista na íntegra com o professor José de Oliveira Santos*:



Qual foi a motivação que o levou a trabalhar com projetos beneficientes? Vivi
a minha segunda infância, adolescência e inicio da minha juventude  no Rio de Janeiro, de 1969 a 1982, e quando
pensava sobre o meu projeto de vida, uma das questões fundamentais a que
me propus em certo momento foi me somar a pessoas e instituições que
estivessem lutando para construir um mundo mais justo. Esta definição
foi muito importante para mim, porque no período da adolescência somos
convidados a aderir a todo tipo de grupo e para não ficarmos perdidos,
confusos ou por terminar sendo envolvido em situações difíceis, faz-se
necessário descobrirmos um norte. Nas décadas de 70 e 80, parcela
expressiva da igreja católica no Brasil estava comprometida em palavras e
com ações na luta pela democracia e direitos humanos e isso me ajudou
bastante em termos da vivência prática e teórica, participando de grupos
de jovens e mantendo contatos com algumas comunidades eclesiais de base
em São João de Meriti (inicialmente ligadas a Diocese de Nova Iguaçu e
posteriormente sob a jurisdição da Diocese de Duque de Caxias).

A construção da cidadania está intimamente ligada à cultura de modo geral. Fale um pouco sobre essa relação.
Falando
em termos da construção de uma cultura de paz, a qual está bastante
próxima dos ideais que norteiam aqueles que lutam pela construção da
cidadania, está claro que todos querem cultivar valores como amizade,
cooperação, disciplina, respeito, criatividade, tolerância, alegria e
etc. Por esses motivos, a prática de atividades artísticas/culturais,
conforme alguns estudos e pesquisas tem demonstrado, é um dos melhores
mecanismos para o cultivo dos valores pelos quais tanto ansiamos e que
caso continuem neste decadência que aí está, serão motivo de muito mais
infelicidade e sofrimento para toda a sociedade.




Estamos falando de inclusão através
da cultura. O senhor poderia nos falar um pouco sobre o Projeto
Reculturarte? Quais atividades eram desenvolvidas e para que público?
No
ano de 1983, então com 21 anos , recém chegado a Aracaju,
ajudei a organizar a Associação dos Moradores e Amigos do Bairro América
e com poucos recursos assumi a tarefa de agrupar adolescentes e jovens
em torno do teatro. Depois de alguns anos com apoios pontuais da
prefeitura, passamos a contar com oficinas de capoeira, artesanato,
dança e projeção de filmes. Vale ressaltar a permanência da capoeira que
foi o grupo cultural que permaneceu em atividade constante durante mais
de dez anos.Com o acúmulo da experiência e a partir da consolidação da
parceria com professores e estudantes da Universidade Federal de
Sergipe, foi elaborado no ano de 1990 o projeto Reculturarte, que
consistiu na organização de oficinas culturais permanentes de teatro,
dança, capoeira, música, além do reforço escolar e da escolinha de
futebol.Também tivemos momentos especiais de formação, envolvendo
dezenas de adolescentes e os jovens educadores em “retiros” nos dias de
feriados prolongados em escolas, sítios de amigos e/ou espaços ligados a
Igreja Católica. Outro momento bastante especial era a realização do
festival anual, onde se apresentava o resultado dos trabalhos das
oficinas e alguns artistas e grupos culturais convidados. O projeto
Reculturarte existiu até o ano de 1998 e contou com o financiamento das
agências de cooperação internacional – Coordenadoria Ecumênica de
Serviço (CESE) e Visão Mundial, esporadicamente contou com a ajuda do
Unicef/Criança Esperança e Assembléia Legislativa.





Qual
o significado da realização de um projeto cultural em um país que de
certa forma monopoliza apenas um certo tipo de segmento de cultura na
mídia, a cultura do espetáculo?
“O
significado da realização dos projetos culturais é combater a tentativa
de empobrecimento ético e estético que a industria cultural nos impõe”.
 Pelo
fato de visar tão somente o lucro imediato, aqueles que investem nas
redes de televisão, rádio, artistas e bandas estão muito pouco
preocupados com o cultivo dos valores humanos que citei anteriormente e
acabam sendo co-responsáveis da violência que impera em nossa sociedade.
Embora isso não seja tão evidente para a maioria das pessoas.

Qual é o maior retorno que uma pessoa pode ter ao trabalhar com este tipo de projeto?
Em
termos de retorno pessoal e imediato, eu garanto que o tédio, a solidão
e até mesmo depressão estarão bem distantes de quem trabalha com este
tipo de atividade.



Na
sua opinião, o que falta em termos de legislação que poderia aproximar
os investidores, a cultura e o público final, neste caso as crianças e
jovens carentes?
Em
termos de legislação o país está evoluindo, como o município de São
Paulo que criou a lei municipal que instituiu o Programa VAI
(Valorização de Iniciativas Culturais) cujo objetivo é apoiar com um
pequeno subsidio financeiro, atividades culturais de grupos juvenis que
atuam na periferia. Outra ação que merece os mais altos elogios são os
CEUs (Centros Educacionais Unificados), com esta proposta, São Paulo
pode redimir as experiências frustradas de Anisio Teixeira (Escolas
Parque) e Darcy Ribeiro (CIEPS),pois com certeza se estas duas propostas
de educação integral tivessem continuado o Brasil estaria com índices
de miséria e criminalidade bastante reduzidos. Os CEUs são tão
importantes para quem quer educação, arte e esporte caminhando de mãos
dadas, que foram prioridade nos contatos e visitas que realizei por
ocasião das duas últimas viagens que fiz a São Paulo, em julho de 2004
para participar do Fórum Cultural Mundial e em janeiro de 2009 para
participar do curso Arte e Educação Popular. Também deve merecer atenção
especial o Programa Multicultural da Prefeitura do Recife, infelizmente
pouco divulgado e estudado e que valoriza a informação, a formação e a
profissionalização da cultura como construção da cidadania. Outro
programa bastante importante é o Escola da Familia, o qual aqui em
Sergipe recebe o nome de Abrindo Espaços e em outros estados Escolas da
Paz. No âmbito federal temos o Programa Cultura Viva-Pontos de Cultura
que repassa um subsidio financeiro substancial e com destinação
preferencial para projetos culturais que envolvam crianças, adolescentes
e jovens da periferia e cidades do interior. Para garantir que o
Programa Cultura Viva não sofra descontinuidade e/ou descaracterização,
por causa de mudança de governo, está se propondo que os objetivos
programáticos e os recursos financeiros sejam garantidos através de lei
federal. “O que é preciso garantir além de se tornarem políticas
públicas de estado, para não dependerem apenas do interesse e boa
vontade do partido que estiver no governo, é o aumento dos recursos
financeiros destinados a estes programas e a ampliação do controle
social e da transparência no repasse e na utilização deste recursos”.

Quais ferramentas o senhor utiliza
para manter as crianças estimuladas a buscar cultura mesmo quando estão
longe da Instituição beneficiente? Existe algum programa de
aconselhamento aos pais?
Distante
das atividades cotidianas do projeto, a nossa expectativa é que a
criança, o adolescente e o jovem possam escolher outras opções do que
aquelas que são determinadas pelos mass media e que acabam por se
constituir na “preferência” da maioria dos familiares e amigos.
Já conversamos com alguns adolescentes sobre esse assunto e sabemos que
não é fácil, na maioria das vezes a família possui só uma televisão,
principal instrumento de acesso a cultura por parte de parcela
expressiva da sociedade, e em especial no horário noturno é mais difícil
assistir outro canal diferente que não sejam aqueles que tem nas
novelas o carro-chefe da programação.
Por outro lado, quem não possui antena parabólica, mesmo a que permite
acesso gratuito a canais abertos, está com um campo de opções bastante
limitado, entretanto a internet e os aparelhos reprodutores de músicas
(MP… IPod e etc.) oferecem perespectivas mais animadoras para o
futuro.
Quanto ao trabalho de aconselhamento as famílias o assunto está detalhado na resposta abaixo.

Por falar em família, de maneira geral qual a postura dos familiares dessas crianças e jovens?
Em
relação ao trabalho com os pais, no Projeto Reculturarte mantínhamos
reuniões bimestrais com uma parte deles. Infelizmente a maioria não
participava destas reuniões, mesmo que buscássemos realizá-las com
atividades lúdicas e com audiovisual. Os temas das reuniões eram sobre o
desempenho dos filhos em termos de crescimento e limites e, em alguns
momentos, convidamos profissionais ligados as areas da psicologia,
religião, direito e medicina.
Alguns pais, em número bem mais reduzido, assistiam aos ensaios e
treinos e participavam das viagens para os retiros e para apresentações.
Em alguns momentos foram realizadas cursos de alimentação e medicina
alternativa com as mães/pais e passeios recreativos, estas três últimas
atividades contaram com uma frequência maior. Havia também festas
juninas e de Natal e que contavam com a presença de uma parte das
famílias.
O senhor já esteve envolvido com ONGs. Como é desenvolver um trabalho que não conta com subsídios públicos?

O
trabalho com ONGs é difícil e requer muita paciência, perseverança e
estudo. Uma das estratégias que recomendo para quem quer trilhar por
este caminho é estar bem atento em “casar” o seu gosto pessoal com as
necessidades das pessoas com as quais você pretende trabalhar. Por
exemplo, se você gosta de arte e cultura, como é o meu caso, e entende
que isto é necessário para melhorar as pessoas e o mundo, é fundamental
que você se aproxime de pessoas e grupos que compartilhem desta opinião e
que já estejam realizando algo neste sentido. Mesmo que o trabalho
esteja sendo feito no campo individual, por exemplo, mesmo que seja um
grupo de estudantes universitários do curso de comunicação ou do curso
de artes ou que estejam participando de oficinas ou cursos de curta ou
média duração em artes ou comunicação e que nunca tenham ido para o
campo.
É necessário também leituras, seminários e oficinas ligados a assunto de
legislação e gestão do terceiro setor e é recomendável se juntar a ONGs
e/ou pessoas que já tem ou tiveram experiência em atividades de
voluntariado e/ou ativismo social ou cultural para aprender com gente
experiente como se deve atuar e ás vezes até mesmo como não se deve.
“Importante é não esperar,estar pronto para iniciar o trabalho
com o grupo ou comunidade, porque muita coisa é aprendida no dia-a-dia
mesmo e o que importa inicialmente, no caso do exemplo de quem deseja
trabalhar com ação cultural, é perceber se arte e cultura são elementos
que mobilizam quereres, saberes e fazeres de um certo grupo de pessoas
marginalizadas. Caso seja possível a realização do casamento, então mãos
a obra!”

O
que o senhor diria no sentido de tentar conscientizar as pessoas da
importância de desenvolver trabalhos em prol da comunidade carente?
Quem
dera pudesse todo homem e (todas as mulheres) compreender oh! Mãe, Quem
dera! Que o mundo precisa de gente que sejam as mãos, os pés, os olhos e
o coração feminino de Deus que sofre por causa de tanto egoísmo, cobiça
e ódio, fonte de tanta dor e sofrimento e que poderá tornar
irreversível a existência das obra de arte de Deus – a terra, o ser
humano e as outras espécies com as quais compartilhamos o planeta.
Que entendamos, o começo da solução está em nós e o começo passa pelo
nosso coração, mas para isso necessitamos ser alimentados e produzirmos
obras de arte que nos transmitam este amor maternal de Deus e o desejo
dele de recriarmos o paraíso agora e refazermos o mundo como um jardim
de mil delicias.
Quem dera pudesse todo homem e (todas as mulheres) compreender oh! Mãe, Quem dera!
Que para vermos Deus face a face a solução está em nos tornarmos cada
vez mais humanos, porque foi a lição mais importante que seu filho Jesus
nos legou, quando afirmou que ao dar de comer e de beber a quem tem
fome é a Jesus Cristo que estamos saciando. Quando cuidarmos dos doentes
e das crianças e dele que estamos cuidando. Quando visitarmos os presos
é a Jesus Cristo que estamos visitando.
Que mais homens e mulheres possam encontrar Deus através do serviço do
atendimento das necessidades humanas de todas as criaturas, como fez
Jesus Cristo ao operar milagres, considerando que as carências humanas
não são apenas de ordem material e aqueles que tem mais tempo, bens
materiais, conhecimento ás vezes precisam de afeto, carinho, atenção e
estas necessidades são satisfeitas ao abrirem mão de uma parte do seu
tempo, dos seus bens materiais e dos seus conhecimentos.
Um dia vivi a ilusão que o mito do progresso material, ás vezes
manipulando o nome de Deus, tudo me daria. Também vivi a ilusão que
somente a explicação racional e cientifica do mundo é suficiente para
dar conta de tantos segredos e mistérios escondidos dentro do meu ser e
no universo.
O Deus que habita em mim, cumprimenta o Deus que está em você, não
importa em qual nome você o cultua, não importa nem mesmo se você tem
fé, se demonstrares em ações o seu amor pela humanidade, pelos seres
vivos e pelo planeta, Deus habita em você e eu os reconheço através de
suas atitudes “humanas”, para mim e para Deus é o que faz sentido.

Ao escrever este texto lembrei-me das seguintes obras de arte: Guernica
de Picasso, Super-Homem de Gilberto Gil, Sol de Primavera de Beto
Guedes, Canção de Hiroshima de Vinicius de Moraes e Cantico dos Cânticos
e Evangelhos



*Professor
de História e Educador Popular. Com 20 anos de experiência no trabalho
com comunidade, mais conhecido como Zezito, iniciou a sua participação
social, ainda adolescente, no Rio de Janeiro. quando participou de
grupos de jovens e CEBs. No Estado de Sergipe participou da fundação da
Associação dos Moradores do Bairro América (AMABA) e do Centro Sergipano
de Educação Popular. Durante o período que esteve na AMABA coordenou o
Projeto Reculturarte, que foi financiado durante seis anos pela agência
de cooperação Visão Mundial e que se constituiu na primeira ação
cultural permanente de uma entidade ligada ao movimento social. No
período de 2001 até 2006, assessorou de forma voluntária o Projeto
Ecarte ( Estatuto da Criança e do Adolescente com Arte) na área
pedagógica e de gestão, Fez/faz formação em danças circulares. É um dos
fundadores e foi diretor-presidente da ONG Ação Cultural (2004-2007).
Atualmente é diretor do Complexo Cultural “O Gonzagão”, equipamento
cultural pertencente a Secretaria da Cultura do Estado de Sergipe (http://acaoculturalse.blogspot.com/).

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