Nos últimos anos ou desde 2013, sendo mais específico, venho preocupado
com a memória e com uma questão grave (para mim): como o Brasil chegou a
isto que é hoje em termos político, econômico e histórico? Podemos ir a
Machado de Assis ou Raimundo Faoro; ou ainda a Antonio Candido ou
Florestan Fernandes… Ou a bem mais nomes fundamentais que podem ser
chamados de “interpretes do Brasil”.
Mesmo assim acho que ainda é cedo
para fecharmos essa conta trágica. Acabei de ver algo mais modesto e
mais terra-a-terra nesse assunto: uma entrevista com o jornalista Mino
Carta em 2000 no antigo “Roda viva”. Na bancada de perguntadores estão o
velho Ziraldo (redator da antiga e saudosa “Bundas”), Paulo Henrique
Amorim (já limpo daquelas mazelas dos jornalões) e o jovem e ainda
rechonchudo Reinaldo Azevedo (sempre com o ar falso de conhecer as
coisas e sempre pronto a defender patrão todo o tempo da entrevista).
Essas quatro figuras ainda estão ai e sobreviveram aos últimos 18 anos
de Brasil (em transe nos últimos 3 anos). Uma coisa me chama a atenção
em algumas repostas de Mino Carta e na sua coerência de raciocínio
histórico: “os donos do poder” (as classes dominantes) desse Brasil são
capazes de tudo, tudo mesmo para manter seu poder, conforto e
mentalidade escravocrata quando o assunto é povo ou gente pobre de toda a
sorte! São capazes de criar/apoiar/derrubar gente como Janio Quadros;
Severino Cavalcante ou Fernando Collor e ainda uma série de figuras
tristes que tiverem cargos menos importantes nos estados e municípios…
Fazem isto para sempre manter qualquer possibilidade do povo longe de
sua autonomia.
Apoiaram e foram agraciados pelo líder operário Lula
quando lhes interessava e quando não mais o colocaram na cadeia através
de seu (porque é deles mesmo) ministério público, polícia federal ou
STF! Por isto e pelo que diz Mino Carta em 2000, não seria estranho
pensarmos que eles (essa mesma classe dominante e seus filhos atuais!)
poderia muito bem nesse momento apoiar e simpatizar com as “ideias” de
um Bolsonaro e de seu “posto Ipiranga” Paulo Guedes (um embuste de
economista e um posto mesmo!).
Estamos falando de um dos mais
desqualificados políticos de toda a história da república brasileira.
Basta pegar seu currículo político parlamentar e ver (falo
tecnicamente). De um ponto de vista intelectual é um tosco e de clara
demência mental; até para dizer quase nada com sentido tem imensa
dificuldade; agrega a si valores conservadores por puro oportunismo de
plantão (Bolsonaro é um usurpador de ideias conservadoras por saber de
tais ideias cerca de nada!!!) e uma figura violenta na mais pura
gratuidade.
A pergunta que Mino Carta nos ajuda a fazer nesse momento em
que penso entre o “fígado e a alma” é: o que fizeram com esse povo
brasileiro que faz desta triste figura líder em pesquisas de intenção de
voto para o mais importante cargo da república cambaleante brasileira?
Algo foi feito e de maneira exemplar com esse povo e o tornou assim nos
ônibus, praças, taxis, praias, bares, mercados, escolas, postos de
trabalho, espaços culturais, na família ou nas redes sociais (aqui fica
evidente no que se tornou esse povo).
Esse “algo” precisa de um pouco
mais de tempo para ser entendido e incorporado a história política desse
país. Mas foi algo grave, podemos já dizer… E pagaremos todos um
preço muito alto por isto. Por fim, não nos iludamos com uma coisa:
eleição alguma nesse momento ou quem quer que seja eleito/eleita sanará
essa tragédia em curto ou médio prazo. Essas classes dominantes e seu
Bolsonaro de plantão fizeram um corte profundo na cultura política no
Brasil atual.
Romero Venâncio
Assista a entrevista AQUI