sobre a sabatina de Fernando Haddad, candidato à presidência do Partido
dos Trabalhadores, no Jornal nacional na sexta-feira (14). Nassif
comenta também sobre o cenário político atual e as perspectivas das
pesquisas.
Ouça a entrevista de Marilu Cabañas.
Luiz Eduardo Soares
Devo começar declarando minha admiração por Boulos e Ciro. Acredito que
Boulos se tornará uma grande referência política, cujo protagonismo
contribuirá para redesenhar a configuração partidária atual e espero
poder acompanhá-lo no futuro pós-eleitoral. Sua candidatura, entretanto,
foi assumida como oportunidade de politização da sociedade,
particularmente das classes subalternas, sem a pretensão de disputa
efetiva. E aí está o problema, porque as eleições de 2018 são
dramaticamente decisivas para o país.
Ciro Gomes é um dos
políticos mais inteligentes e preparados de nossa história republicana e
propõe ao país uma transformação importante, dispondo-se a enfrentar os
interesses do capital financeiro com o propósito de r)etomar o
desenvolvimento e reduzir as desigualdades, tendo em vista sempre a
defesa da soberania nacional, profundamente ameaçada pelo atual governo
ilegítimo. Considero sua aliança com Katia Abreu -candidata a vice-
compreensível, no esforço de evitar o isolamento, mas não subestimo os
riscos aí envolvidos, uma vez que, mesmo tendo sido contrária à farsa do
impeachment, ela tem um histórico extremamente negativo, no que diz
respeito ao meio ambiente, à preservação das terras indígenas e à luta
contra o trabalho escravo.
Todavia, há uma dificuldade mais
relevante: Ciro é um homem na ventania. Quero dizer o seguinte: o
candidato atua e se situa no mapa político como indivíduo, isto é, como
um agente desprovido de vínculos orgânicos com organizações democráticas
da sociedade civil e movimentos sociais. Seu partido, embora
proveniente de uma origem respeitável, há muito tempo afastou-se da
identidade que Brizola tentou construir. Por isso, Ciro transita entre
zonas distintas do espectro político conforme cálculos táticos, apoiados
em seu projeto pessoal, que por mais generoso que seja é, antes de
tudo, seu próprio projeto. E, como sabemos, as conjunturas, sobretudo
nesse período de constante instabilidade, são centrípetas e agonísticas.
A taxa de imprevisibilidade da candidatura do PDT é elevada. Quando os
críticos lhe cobram pelo temperamento explosivo erram o alvo. O que é
explosivo, incerto e errático é seu destino político, porque condenado a
ser moldado por decisões individuais, sob os constrangimentos das
diferentes conjunturas. Sim, trata-se de um grande homem, mas é um
indivíduo. E o que há lá fora é ventania.
Por fim, Haddad. Vamos
lá. O PT vinha perdendo seus laços com os movimentos sociais porque, a
despeito das enormes conquistas dos governos Lula, os melhores de nossa
história, não estava sendo capaz de realizar sua autocrítica,
publicamente, extraindo daí todas as consequências. Entretanto, o
Partido dos Trabalhadores e os movimentos sociais se reencontraram.
Velhos militantes decepcionados, como eu mesmo, voltaram à trincheira
comum. A aprovação do partido, que caíra vertiginosamente, retornou à
marca de 24%. Críticos contumazes, como eu mesmo, cerraram fileiras com
os antigos companheiros. Desafetos resolveram colocar a gravidade da
situação política acima de desentendimentos, por mais significativos que
fossem. Por que? Eis a resposta -há aqui muito de testemunho pessoal.
Creio que o processo de afastamento foi revertido pela brutalidade com
que as elites passaram a agredir o partido, chegando ao ponto de negar
as conquistas alcançadas, tentando apagar da memória coletiva o fato de
que Lula concluiu o segundo mandato com 85% de aprovação popular e se
recusou a sequer considerar a hipótese de aceitar a mudança das leis
para buscar um terceiro mandato, que lhe cairia nas mãos por gravidade,
mesmo sem campanha. Apesar da grande mídia insinuar que o presidente
terminaria por copiar os passos de Chaves, ele fez o contrário, dando a
maior demonstração possível -não consigo imaginar outra que fosse
comparável- de que, acima de tudo, respeita o Estado democrático de
direito, o qual, paradoxalmente, não o respeitou, desrespeitando-se a si
mesmo, negando sua própria natureza, mergulhando o país no arbítrio de
violações sucessivas.
Por uma questão de honestidade intelectual,
importa assinalar que o presidente FHC não resistiu ao canto da sereia,
ele que, com seu partido, condena o “bolivarianismo”. Mas é claro que a
compra de votos para que se viabilizasse a reeleição e a mudança das
regras de jogo, enquanto o jogo era jogado, não feriram a sensibilidade
moral da mídia conservadora, a qual não apenas calou-se, cúmplice, como
apoiou a candidatura do PSDB à reeleição, cancelando, com o despudor que
lhe é próprio, os debates entre os candidatos, nos quais FHC teria de
responder por seus malfeitos na economia, na política, na ética.
A
campanha pelo impeachment foi tão cínica, venal e repulsiva, que
infiltrou e disseminou na opinião pública o veneno do antipetismo, o
grande mal que nos assola e divide. Desde aquele momento, impunha-se,
para qualquer democrata, resistir com o antídoto: o anti-antipetismo.
Era preciso e urgente denunciar o perigo escandaloso das generalizações,
não apenas aquelas que estendiam para o conjunto dos membros do partido
qualquer acusação que atingisse algum de seus membros, como aquelas que
comprometiam todas as conquistas históricas do partido e de seus
governos ao conectá-las a erros econômicos específicos e recentes. E
ainda aquelas generalizações que conectavam crise econômica a corrupção.
O antipetismo escapou ao controle dos comunicadores que o gestaram,
vestiu o uniforme do fascismo e retirou dos armários em que se
escondiam, envergonhados, o racismo, a sede de vingança, os cavaleiros
da barbárie.
O processo grotesco foi sendo conduzido por
vazamentos seletivos, estrategicamente distribuídos. E por decisões
evidentemente artificiais. Direitos foram violados sob o silêncio de uns
e os aplausos da mídia conservadora. O que era importante e necessário
combate à corrupção, converteu-se em método de desconstituição política,
ideologicamente orientado. A Justiça degradou o direito e a
Constituição corrompeu-se na exceção.
Para quê incendiaram o país
e o contaminaram com esse ingrediente patológico, o ódio feroz ao PT,
transfigurado em signo do mal? Para levar ao poder, em nome da luta
contra a corrupção, os que mais fundo enterraram seus pés no pântano.
Mas é claro que havia uma razão superior para que se perpetrasse tamanha
traição ao que um dia chamaram pátria. Era preciso aproveitar a
oportunidade para impor guela abaixo do povo brasileiro, que jamais o
aceitaria pelo voto, uma agenda neoliberal extremada, liquidando
direitos sociais e o patrimônio nacional, inclusive ambiental. Eis,
enfim, o propósito do golpe. Havia duas metas a cumprir para garantir a
continuação da política ruinosa em curso: (1) excluir Lula das eleições,
a qualquer preço; (2) difundir a versão mais primária da ideologia
liberal nas camadas médias. Segundo essa concepção tosca haveria uma
oposição entre Estado e Sociedade. No âmbito dessa visão de mundo
primitiva, o Estado atuaria como predador, a serviço dos interesses de
seus operadores (governantes, legisladores e funcionários): os
sangue-sugas sorveriam a energia e os frutos do trabalho da sociedade, a
qual seria um saco de batatas, um aglomerado de indivíduos -como
gostava de dizer Margareth Tatcher. Conclusão: para salvar o Brasil,
seria necessário reduzir o Estado ao mínimo e liberar o mercado, porque a
sociedade entregue a si mesmo, livre das garras do Estado e de seus
impostos escorchantes (que só serviriam para alimentar políticos e
funcionários), se desenvolveria a pleno vapor, harmoniosa e feliz.
Como vêem, não há mitologia mais adequada para justificar o darwinismo
social. A pobreza e as desigualdades seriam expressões da distribuição
desigual do mérito. É nesse ponto que a corrupção torna-se central: o
sangue drenado do corpo social alimenta o vampiro imoral, o mal supremo,
a mãe de todos os males: a corrupção. Desse modo, uma ideologia
política, travestida de descrição objetiva e neutra da “realidade”,
ganha a alma que falta ao discurso economicista e suscita o ódio que a
radica nas redes intersubjetivas que formam opiniões coletivas.
Nesse sentido, a corrupção é a linguagem que engata percepções, valores e
afetos, no âmbito da ideologia neoliberal. Corrupção, enquanto tema
midiaticamente associado ao impeachment de natureza golpista, é antes de
tudo o veículo da ideologia anti-Estado, anti-Política, é a dramaturgia
do ódio, a conclamação ao linchamento, a exaltação da vingança, o
combustível do punitivismo e a dupla negação: por um lado, da sociedade
como conjunto de contradições, constelação de classes sociais em
conflito; por outro lado, do Estado, como espaço de luta por hegemonia.
Em síntese, eis aí o resultado: Lula preso e excluído da disputa
eleitoral, que ele venceria no primeiro turno; o neoliberalismo
disseminando-se como o outro lado da moeda da corrupção; a recusa à
Política como apanágio da moralidade popular. Enquanto isso, o país
segue sendo entregue aos interesses internacionais e a grande massa da
população volta a mergulhar na miséria, ouvindo dia e noite a cantilena
anti-Política. Para varrer o PT do mapa, para vetar Lula, foi preciso
tentar ferir de morte a política, como atividade humana imprescindível
na democracia, e a própria República. O lugar do público foi tragado
pelo vórtice do mercado. O coletivo reduzido ao ajuntamento de
indivíduos. As desigualdades acabaram justificadas pelo mérito.
Sabem qual é o nome disso, desse fenômeno monstruoso? Bolsonaro.
Nesse contexto, se vejo assim o país, como eu poderia não apoiar
Haddad? Claro que, além disso, além do que julgo ser meu dever
–confrontar sem medo o anti-petismo, resistir à tentação de capitular
(por exemplo, aceitando que uma vitória do PT produziria muito desgosto
nas hostes opostas e geraria uma atmosfera excessivamente tensa no
país)–, além de tudo isso, há o candidato, Fernando Haddad, um dos
políticos jovens mais talentosos, preparados e inteligentes de sua
geração. Estão mais do que claros seus compromissos com a democracia (e a
urgentíssima democratização da mídia), a soberania nacional e os
direitos humanos, com a luta contra o racismo, as desigualdades, e com a
defesa do meio ambiente, das sociedades indígenas e das minorias. Chega
de violações aos direitos e de manipulação. Está em jogo o futuro do
país.”
Luiz Eduardo Bento de Mello Soares. É um antropólogo, cientista político e escritor brasileiro. Considerado como um dos mais importantes especialistas em segurança pública do Brasil,
É autor ou coautor de dezenas de livros, incluindo os best-sellers Elite da Tropa (com André Batista e Rodrigo Pimentel) e Elite da Tropa 2 (com André Batista, Claudio Ferraz e Rodrigo Pimentel).