Solidariedade, Luta e Festa. A trindade que cura.

força para resistir


Desânimo, doença senil do neoliberalismo

A tristeza e seus sintomas não
devem levar os indivíduos a abdicar da luta coletiva. Para psicóloga,
preservar a saúde emocional e o desejo de prosseguir requer juntar-se.
“Se a pessoa se isolar, pira”

por Isaías Dalle, da Fundação Perseu Abramo


publicado
31/07/2018 14h04,


última modificação
31/07/2018 14h17

Cláudio Kbene e Ricardo Stuckert

publico do festival lula livre

No sábado nos Arcos da Lapa, ou há mais 100 dias na vigília de Curitiba: gestos compartilhados pela resistência
“Nossos inimigos não nos derrotam quando perdemos. Eles nos derrotam
quando desanimamos”. Estas frases, parte dos textos que foram lidos
durante o Festival Lula Livre, que reuniu mais de 80 mil pessoas nos
Arcos da Lapa, Rio de Janeiro, no último sábado, representam muito mais
do que um mantra de manual de autoajuda. São a decifração do objetivo
premeditado do golpe e dos ataques neoliberais, e a senha para a
necessária resistência.

A melancolia produzida pelo golpe se instalou em primeiro lugar entre
aqueles que identificavam a manobra perversa tão logo seus defensores
exibiram os tridentes, e foi se alastrando até atingir todos os que
tradicionalmente sofrem as injustiças e se aprofundou quando o engodo
das promessas de melhora de vida ficou evidente.

Caso a tristeza e seus mais diferentes sintomas permaneçam e levem os
indivíduos a abdicar da luta coletiva, o golpe e seus arquitetos terão
atingido seu propósito máximo.

O diagnóstico de que a tristeza não é apenas uma consequência natural
ou abstrata de um momento pessoal ou da conjuntura político-econômica,
mas igualmente parte de um projeto elaborado do poder hegemônico, é
compartilhado por diferentes pessoas.

Para essas pessoas, ouvidas pela Fundação Perseu Abramo,
o antídoto à sensação de falta de sentido ou de perspectiva, produzida
de propósito pelo capitalismo que se pretende onipresente, é juntar-se
ao coletivo. Fazer festa, até, como ocorreu no Festival do último
sábado, mesmo em meio ao que parece apenas escombros e dúvidas.

“Para manter a saúde mental e o desejo de prosseguir, o melhor
caminho é juntar-se aos coletivos. Se a pessoa se isolar, adoece mesmo,
pira”, comenta Fernanda Lou Sans Mangano, psicóloga e presidente do
sindicato da categoria no estado de São Paulo.

José Genoino, ex-presidente do PT, destacou esse aspecto em recente
conversa com militantes e dirigentes. “Se desanimarmos, se perdermos a
vontade de resistir, aí eles conseguiram o que queriam”, disse o
ex-deputado, ex-ministro e ex-preso político por duas ocasiões, a
ditadura civil-militar iniciada em 1964 e o pré-golpe de 2016.

Captando esse panorama, o debate “A Luta que Cura: A Função
Terapêutica dos Movimentos Sociais”, realizado em junho na cidade de São
Paulo, tornou pequeno o salão da livraria Tapera Taperá. Dezenas de
pessoas, jovens em sua maioria, sentaram-se no chão dos corredores
externos da galeria para participar.

A psicanalista Maria Rita Kehl, que naquela noite lançava o livro Bovarismo Brasileiro,
sintetizou a proposta do debate usando o ponto de partida defendido por
Freud, o pai da psicanálise. “Ao contrário da medicina, em que o
profissional dá instruções, recomenda práticas de cura, a psicanálise
não tem fórmulas. Seu princípio é dizer ao paciente: ‘Fala. Fala’. E os
movimentos sociais são, para muita gente, o primeiro e o único lugar
onde elas podem falar e ser escutadas”, afirmou Maria Rita.

No mesmo debate, Guilherme Boulos, liderança do MTST, narrou sua
experiência de descoberta do movimento de luta pela moradia. “Senti a
energia renovadora de estar com as pessoas e participar daquele processo
de troca, de solidariedade, de dividir as tarefas na cozinha, no
cuidado com as crianças. É mais forte e transformador do que qualquer
experiência acadêmica”.

O assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes, a prisão de
Lula sem provas, a seletividade da justiça que prende ex-tesoureiros do
PT e nem cita os dos demais partidos, a condenação de 23 ativistas por
uma corte do Rio, o desassombro crescente da defesa de teses repressoras
e preconceituosas, o desemprego, a queda ou sumiço dos salários, o
extermínio de direitos e de políticas públicas, a continuidade da
repressão nas periferias e tantas outras tragédias são aspectos em
relevo de uma dor que se aprofunda em tempos de golpe e, mais
especialmente, da ausência de sinais contrários à crise.

“Essa é a experiência da classe trabalhadora hoje – uma classe
expulsa do trabalho, que é expropriada materialmente mas também
existencialmente. A expropriação do capitalismo funciona também
destruindo nossos vínculos, esgarçando nossas confianças uns nos
outros”, comenta a antropóloga Alana Moraes. Tomando como exemplo os
movimentos de moradia na capital paulista, Alana destaca que “as pessoas
chegam falando que sentem o corpo doído, paralisado”.

“O que é resistir senão ter um corpo que, assumindo sua
vulnerabilidade, é capaz de se unir a outros e se refazer, se engajar em
si próprio outra vez?”, questiona a antropóloga. E propõe uma outra
forma de encarar, como movimento, essa questão: “A esquerda não consegue
compreender ainda hoje que as pessoas se mobilizam porque sentem no
corpo uma transformação, porque o corpo não consegue mais sustentar uma
paralisia quando descobre uma cumplicidade no sofrimento do outro. Elas
não saem de uma situação-limite porque ‘tomaram consciência’, mas porque
foram capazes de sentir de outro modo”.

Na opinião de Alana, é preciso recuperar a ideia de formas de vida
para a superação da melancolia. “Nossas saídas sempre tiveram a ver com
composições de outras relações possíveis: vizinhança, compartilhar
cuidados, saberes, receitas, terapias, medicações, nossas estratégias de
proteção contra a violência doméstica e outras”. Para ela, sem dúvida,
“algo acontece quando as pessoas se juntam, quando percebem que outras
pessoas se importam com aquele desespero que antes era solitário”.

Nessa perspectiva, talvez novas formas de luta possam ser encontradas
em dispositivos antigos ou anteriores à institucionalização de
entidades ou formas de organização havia pouco predominantes. O
movimento sindical, por exemplo. Para Artur Henrique, dirigente da
Fundação Perseu Abramo e ex-presidente da CUT Nacional, é necessária uma
rediscussão das formas de organização. “Em conjunto com movimentos
sociais e partidos de esquerda, para atuar junto com os movimentos de
cultura, de arte, de lazer, nos bairros, nas periferias, para pensar
desenvolvimento local, economia solidária, educação, novas formas de
comunicação e de disputa”, comenta.

O sindicato presente nos bairros, onde as trabalhadoras e os
trabalhadores moram, não é exatamente algo novo, embora pouco cultivado
em períodos recentes. O chamado Novo Sindicalismo, profundamente ligado à
essência do PT e da CUT, apostou muito nisso. No início do século 20, o
movimento sindical, que foi capaz de construir movimentos como a greve
geral de 1917, dedicou muito de sua energia e tempo às atividades
comunitárias organizadas a partir dos bairros. Com teatro, bailes e
portas abertas fora do horário comercial.

Formas diversas de luta pululam em vários espaços. “Quando as pessoas
se mobilizam para não ter um posto de saúde fechado, quando ocupam
escolas, quando denunciam a violência policial numa quebrada, quando
sustentam um cursinho popular, estamos cercados de experiências que
podem indicar novos caminhos para a política institucional se
democratizar”, comenta Alana Moraes. E democratização envolve mais
gente, amplia coletivos, espanta a tristeza e o desânimo.

De qualquer maneira, a solidariedade deve ser a base de tudo, como
força motriz contra a opressão capitalista. Mesmo quando tudo parece
perdido. Um testemunho poderoso vem de Sérgio Silva, o Serginho,
fotógrafo que foi atingido por uma bala de borracha em seu olho esquerdo
pelas forças de repressão enquanto cobria manifestações de rua em junho
de 2013. Serginho perdeu a visão. “O que me deu força para continuar
foi o apoio que eu recebi de pessoas que eu conhecia e daquelas que eu
nem conhecia”, conta ele.

Serginho trabalha atualmente na Fundação Perseu Abramo. Continua
acompanhando os movimentos sociais. Durante a Flipei (Feira Literária de
Paraty – Editoras Independentes), lançou o livro Memória Ocular – Cenas de um Estado que Cega,
junto com Tadeu Breda. Nele, narram a violência das armas oficiais que
atinge os cidadãos e buscam energia renovada para manter a resistência.

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