Fonte:
https://urucum.milharal.org/2018/05/11/quando-quebra-queima-coletiva-ocupacao-explosao-levante-politico-artistico-e-revolucao-do-cotidiano/
por: Jean Tible
“quando o parlamento vira um teatro burguês,
todos os teatros burgueses devem se transformar em assembleias”, 1968
de ação revolucionária do teatro, pelos trabalhadores e estudantes
solidários que decidem que o Odéon, Teatro da França, deixa de ser um
teatro por um prazo ilimitado.
tenta conjurar esses acontecimentos (dizendo que já passou, não foi bem
aquilo, não deu em nada, foram derrotados…), pois os temem.
movimento alegre, que surpreende e encanta a todos, na talvez primeira
derrota do tucanistão (o mesmo grupo político predomina nas instituições estaduais “desde sempre”).
máfia da merenda e depois do corte do passe livre. E continua numa
multiplicidade de espaços de luta e vida: em diversas organizações
políticas, na atuação cotidiana nas escolas, universidades e locais de
trabalho e outras ocupações. A ColetivA Ocupação é um dos frutos dessa
faísca.
na qual a peça Rózà, espetáculo criado a partir das cartas de prisão da
revolucionária Rosa Luxemburgo dirigido por Martha Kiss Perrone e Joana
Levi, percorre em 2016 algumas escolas públicas ocupadas no ano
anterior em apresentações seguidas de debates. Na cena final da peça, as
três rózàs-atrizes pulam o muro e tomam as ruas onde são projetadas as
últimas palavras de Rosa: eu fui, eu sou, eu serei. Logo na
primeira escola, um imprevisto que vai se repetir a cada vez: secundas
acompanham as atrizes e pulam o muro na sequência. Peça-ato. Forma-se aí
a ColetivA Ocupação. A partir de 2017, passam a ensaiar todos os
domingos na Casa do Povo.

Vários filmes sobre a luta secundarista foram realizados[2]
e outros virão. São contribuições importantes. Uma característica, no
entanto, fundamental e inovadora de Quando Quebra Queima: a narrativa é
feita, encarnada e encenada pelos próprios protagonistas, que ocuparam
escolas, ETECs e fábricas de cultura. Vozes próprias e polifonia.
simples saber quem é “público” e quem é “ator”, até por que o público
também é em parte secunda e uma outra parte constitui uma rede de apoio e
aliados dessas lutas (professores, pais, artistas, militantes,
comunidade afetiva…). Ícaro diz em certo momento tem muita gente lá fora[3].
Essa distinção existe, mas é tênue e tende a se apagar em vários
momentos (músicas cantadas, jogral, corpos mobilizados…). Atores
esbarram (ou quase) no público em muitos momentos nesse espaço comum.

por-se em movimento
lançar-se? Como se dá o estalo, a decisão de movimentar-se, de enfrentar
as estruturas que nos moem? Como articular os corpos? São perguntas que
percorrem a peça-movimento.
pula catraca, prepara alicate, cadeado, faixas, todo o básico. Gasolina neles!
assume novas funções. A cadeira não mais um lugar para sentar na
sala-cela da escola-prisão. Vira trancaço. Vira barricada (que no
espetáculo se forma, se move e desloca o público). Vira proteção/escudo
contra a violência policial.

vida comumA ocupação centra-se na organização coletiva: fazer a vida fluir,
decidir como garantir a limpeza, comida, segurança, debates e tomada de
decisões. No cuidado coletivo, dos cabelos (escova, pente…) e carinhos
que aparecem em cena e nos vídeos gravados nas ocupações. Na assembleia
pontual e permanente. Nas tensões e brigas retratadas com humor e jogo:
todos querem falar, tomar a palavra, às vezes cortada. Discussões.
Agruras e belezas da vida coletiva. As angústias e festividades da
madrugada.
participar mesmo (ou seja numa construção democrática, autônoma) é
difícil e exigente. Os debates e ideias da assembleia (e palavras do
público) tornam-se a faixa do ato e depois estandarte pendurado na
janela modernista que dá pra rua. Um retrato dos laços entre palavra e
ação numa geração que retoma a ênfase no aqui e agora – não há uma
Revolução, mas revoluções possíveis, novas formas de existência por
descobrir e inventar. habitar novas/nossas vias/vielas/caminhos.
PMs, na violência policial nos atos, na perseguição cotidiana. A peça,
porém, escolhe puxar o fio da alegria espinosiana: os braços cruzados na
nuca dos secundas-atores detidos viram punho esquerdo levantado: a
irresistível resistência.
ajuda a mobilizar, mas é extremamente limitada para constituir novas
relações. O sabotar das velhas estruturas se expressa na força
coletiva do coro e suas coreografias. Coreografia do levante, da
rebelião. Do catracaço. O muro pulado. Na dança permanente, cada uma ao
seu modo. Na incorporação graças aos tambores e que leva todos para a
rua e as últimas cenas.
fotos (boa parte delas feitas por Alicia) de 3 anos atrás. Suas fotos e
de outros secundas. Falam de si e dos outros. Carinho e cuidado. Mulher
bonita é mulher que luta, dizia um cartaz nos atos de 2015. Novos corpos
nasceram, mais bonitos, mais pretos, mais livres. Novos cabelos,
curtos, longos, trançados, coloridos. Um corpo coletiva de múltiplas singularidades. A rebelião cria.

Nos últimos dias, Matheusa ativista negra não binária e estudante de
artes da UERJ foi executada no Rio. 20 anos. Mais um, mais uma. Tragédia
brasileira ininterrupta e naturalizada. Quando Quebra Queima retrata e
encarna um ímpeto criador. Desejos revolucionários. O catártico e apoteótico fim na rua, trancando-a e celebrando a explosão e o cotidiano, teatro e política nos novos corpos – individuais e coletiva. Alicia diz: antes da ocupação, acho que eu tinha não existência. É isso que eles temem: a vida.
estudantes que viveram o processo de ocupações e manifestações do
movimento secundarista em 2015 e 2016. Frutos da primavera secundarista,
14 corpos insurgentes deslocam para a cena a experiência dentro das
escolas ocupadas, criando uma narrativa coletiva e comum a partir da
perspectiva de quem viveu intensamente o cotidiano dentro do movimento.
universo que compõe esse movimento que transformou o corpo e vida de
todos que participaram.
Beatriz Camelo / Gabriela Fernandes / Ícaro Pio / Leticia Karen / Lilith
Cristina /Marcela Jesus / Matheus Maciel / Mel Oliveira / André Dias de
Oliveira / Heitor de Andrade / Martha Kiss Perrone / Mayara Baptista

[1] https://www.youtube.com/watch?v=Ww2ddV0q88M[2]
Conheço três (deve ter muito mais): Acabou a paz – isto aqui vai virar
um Chile (2016), de Carlos Pronzato; Lute como uma menina! (2016), de
Flávio Colombini e Beatriz Alonso; Escola de Luta (2017), de Eduardo
Consonni e Rodrigo Marques e Tiago Tambelli.
tanto à direita, como à esquerda. E/ou regaram e adubaram estas sementes. De um
lado movimentos conservadores de cunho fascista, com destaque para o MBL. De
outro lado, movimentos de cunho alternativos e contraculturais ao sistema neoliberal
predominante, as ocupações de escolas é um destaque.
despretensioso colaborador do movimento das ocupações nas escolas paulistas, por conta
do documentário que realizou na ocasião do movimento de estudantes do Chile ,
utilizado como um dos instrumentos “disparadores” das ocupações em SP, afirmei: “Muito bacana e pertinente o trabalho
que você realiza , tanto o documentário sobre os estudantes do Chile, como dos
estudantes de São Paulo, no calor da hora, como uma espécie de “testemunha ocular da História”. “
acerca do que o movimento das ocupações das escolas mudou na vida dos
estudantes protagonistas , bem como nas escolas ocupadas e nas demais, de uma
maneira em geral.
concordando, embora considerasse que ainda precisávamos de um tempo para termos condições de auscultar e perceber mudanças .
surpresa o trabalho abaixo, produzido em
conjunto por estudantes e artistas que estiveram junto nas ocupações. Isso por intermédio de uma reportagem no programa
Metropolis da TV Cultura.
Carlos Pronzato começou a aparecer.
possam ter lugar, em diversos formatos.
recriação, de solidariedade e politização que esteve presente no movimento das ocupações
de escolas, pode circular e alimentar mentes e corações sedentos de energia e
luzes de transformações em favor da
vida.
Aqui em Aracaju, também colaboramos indiretamente com a produção de um doc. em escola ocupada.
Esperamos brevemente fazer o lançamento.