Carolina (esq.) e Cida Falabella. Vereadoras em Belo Horizonte, fizeram
de seus mandados centros de articulação política não convencional.
Experiência será replicada nas disputas pelo Legislativo, em todo o país
estruturas? Exame de duas experiências — com avanços, contradições e
perspectivas
2014, partidos tentam superar a descrença popular nos políticos.
Números de pesquisa realizada em 18 países da América Latina
mostram que os brasileiros são quem menos confiam na democracia; além
disso, a pesquisa mostra ínfimos 8% no índice de aprovação do governo e
11% de aprovação do Congresso.
Tal desempenho coloca o Brasil no
penúltimo lugar no ranking geral da região. Porém, há novas propostas
que querem resgatar a confiança e revolucionar a política partidária nas
eleições de 2018: os mandatos coletivos.
no pleito municipal de 2016. Munidas de dispositivos sociais, técnicas
arrojadas de comunicação e de transparência dos mandatos, elas têm um
objetivo ousado: o de mudar a política de dentro para fora.
características típicas da juventude atual: a aversão a lideranças e a
rede distribuída”, afirma o analista político e professor de Direito da
ULBRA (RS), Moysés Pinto Neto.
com setores da população — organizados ou não –, além de dividir a
responsabilidade da gestão pública e democratizar a formulação de
propostas. “A possibilidade de arriscar experimentos envolve aproveitar a
indignação cidadã e, no mesmo lance, ocupar esse espaço, evitando um vazio que leve à vitória da ultra direita”, explica.
na pequena Alto Paraíso de Goiás (GO), na área da Chapada dos
Veadeiros, e outra na capital mineira, Belo Horizonte. Pelo porte das
cidades, há diferenças na abordagem e no modo de trabalho que deixam
lições para quem acredita em novas alternativas.
familiar com cidades pequenas, sabe-se que a gestão pública pode ser
muito morosa. No total, foram 14 projetos de lei colocados na tramitação
da Câmara – e conseguimos a aprovação da maioria”, explica Ivan “Anjo” Diniz, um dos membros do Mandato Coletivo (MC) de Alto Paraíso.
pelo mandato é aplicado de acordo com decisão coletiva dos membros; em
2017, parte da verba já foi investida em materiais para estruturas
públicas de saúde e realização de eventos culturais abertos à
comunidade, por exemplo.
outros 4 membros de diversas áreas, como direito, engenharia, tecnologia
e biodiversidade. “Tem gente mais à esquerda e mais à direita, mas há
um compromisso vinculado com a transparência e com o bem-estar da
comunidade. Isso consegue dar uma força legal pra gente, com diretrizes
éticas que a gente mantém até agora”, detalha Ivan.
advogado especialista em direito legislativo municipal, é o único
membro ligado a um partido — o antigo PTN, atual Podemos. A escolha por
uma sigla de pouca expressividade em âmbito nacional foi motivada pela
liberdade de atuação. “Escolhemos o partido que nos viabilizou por um
motivo claro: a possibilidade de ter autonomia na executiva municipal,
abrindo brechas para liberdade de decisão quanto aos rumos que
seguiríamos”, diz Ivan.
partidos que oferecessem contrapartidas positivas, sem necessariamente
haver um compromisso ideológico ou de diretrizes para o mandato. “A
ideia é claramente ocupar a estrutura. Isso não nos isenta de ter com o
partido quanto ao nosso trabalho, mas nunca nos impediu de tomarmos as
decisões que desejamos e acreditamos. Desde o início, nosso objetivo é
lidar com um status suprapartidário – e o João se filiou apenas porque a
legislação exige”, explica.
– mandato coletivo formado pelas candidaturas eleitas de Áurea Carolina
e Cida Falabella, ambas do PSOL – traz consigo as causas que um típico
partido progressista encampa: questões de gênero, raça e classe com viés
cultural e popular.
pelo e dentro do partido. Somos independentes e mantemos essa posição
inclusive como modo de honrar nossa origem e nossos objetivos”, relata
Áurea Carolina.
de mandato já se depararam com disputas internas de correntes, jogos de
força e interesses com os quais tiveram de dialogar. “É um lugar de
mediações, afinal, e buscamos renovar essa estrutura como podemos,
dentro das nossas possibilidades. Hoje, com a exigência programática que
temos, não vemos outros partidos que poderiam nos abrigar”, detalha.
conta com iniciativas populares para integrar a sociedade no
planejamento das ações do mandato, e há divisão interna da equipe em
núcleos de trabalho – como de comunicação, jurídico, articulação
política, de gestão, de acolhimento e atendimento à população. Esses
núcleos interagem entre si e possuem trabalhos partilhados”
movimento civil de onde Áurea e Cida vieram e pelo qual fizeram campanha
em 2016 – lançaram 12 candidaturas para as eleições de 2018:
seis para a Assembleia de Minas Gerais, e seis para a Câmara dos
Deputados. As candidatas também são filiadas ao PSOL e vêm de Belo
Horizonte, da Região Metropolitana e também do interior do estado. Uma
delas é a própria Áurea, que anunciou pré-candidatura a deputada
federal. “Como em 2016, a campanha será realizada por uma rede de
apoiadoras, de forma colaborativa e praticamente voluntária”, detalha.
partilham algumas práticas e valores. A necessidade de prestação de
contas e transparência quanto às atividades dos mandatos é um dos pontos
em comum. Para Ivan Diniz, os informes mensais do MC para o público
estreitam laços e os diferenciam do restante dos vereadores; já para
Áurea Carolina, manter uma comunicação dinâmica e transparente com a
população ajuda na formulação de projetos de lei e na defesa dos
interesses dos eleitores.
negligenciado o formato coletivo de candidatura. “Em geral, [os
partidos] têm respondido de forma muito negativa, geralmente
subordinando decisões à lógica burocrática tradicional e abrindo pouco
espaço para que novos projetos possam conviver ao lado do programa
partidário”, explica Moysés. O analista político também lembra que há o
risco de o establishment judiciário dificultar a inserção de
coletivos na política. O cenário a ser alcançado envolveria uma abertura
sem “adestrar ou colonizar” os mandatos coletivos à atual lógica
partidária.
alinhados à esquerda e centro, abriram suas portas para candidaturas
avulsas e cidadãs, englobando a possibilidade de mandatos coletivos. Já
pela direita, quem capitaneia uma abertura é o Podemos. Está em trâmite
no Congresso uma proposta de emenda constitucional
para garantir a regularização desse tipo de mandato para cargos
parlamentares. Submetida pela deputada federal Renata Abreu (SP),
presidente nacional do partido, a proposta cita especificamente a
iniciativa goiana como modelo de inovação.
participado de eventos e consultas por grupos interessados em reproduzir
esse tipo de iniciativa em outros pontos do país. Sinal que o Brasil
verá novos modos de fazer política ainda em breve.
Leia também:
sábado, 8 de outubro de 2016
A nova politica em ação. Ou a verdadeira nova politica quando se apresenta.
Um caminho para libertar a política

Crise da democracia abre espaço para o desencanto e o fascismo. É
urgente encontrar alternativas – e o Mandato Cidadanista pode ser uma
delas
mesmo Rubens Alves). A negação da política coloca as sociedades na
antessala da barbárie, do fascismo e da violência.
Mas mesmo quando o
povo nega a política, ela continua a ser exercida, só que nas mãos de
poucos aproveitadores, e praticada por outros meios, inclusive
violentos, fazendo com que a política seja sequestrada da sociedade e
colocada a serviço de interesses escusos. Tem sido esse sequestro da
política que meteu o Brasil no labirinto em que nos encontramos. O
desafio é conseguir sair do labirinto e isso só acontecerá quando o povo
se apropriar da política, daí a necessidade do Cidadanismo.
não há caminho pacífico para a convivência em sociedade que não seja
através da ação política cidadã. Por isso a necessidade de encantar e
ocupar a política para a ideia da refundação o Brasil, com base uma nova
cultura política, em que “caibam todos os mundos”, e não
somente o mundo das castas e das classes privilegiadas.
A questão é que,
enquanto a maior parte da população pensa que abomina a política, esta
mesma população segue sob controle dos profissionais da política; é isso
que torna a gestão da política, das políticas públicas e do Estado,
cada vez mais distante das reais necessidades do povo.
preservação do poder nas mãos dos mesmos de sempre, e reforçando os
mecanismos promíscuos de corrupção da atividade política. Isso acontece
porque os que controlam o processo de Reforma Política são aqueles que
mais se beneficiam das atuais regras.
As mudanças, quando aprovadas, são
cosméticas, ou então criam novas formas de perpetuação dos esquemas
vigentes, como no caso do Fundo Público de Campanha, que destina R$ 1,7
bilhão para financiamento prioritário aos partidos com maiores bancadas
na Câmara e Senado; exatamente os mesmos que colocaram o país nessa
barafunda. Para sair deste labirinto, primeiro é necessário identificar e
compreender quais os principais problemas:
- A atividade política institucional foi sequestrada da dimensão de Bem Comum, transformando-se em Negócio.
Há muitos mecanismos que propiciam a apropriação da política por parte
de negócios privados, o principal é o financiamento de campanhas por
empresas jurídicas, gerando uma promiscuidade entre Mercado e Política.
Felizmente o financiamento empresarial de campanhas eleitorais e
partidos foi abolido. Que se mantenha assim, mas só isso não basta. - Também há a excessiva quantidade de cargos de livre nomeação no serviço
público (mais de 700 mil cargos – sendo 23 mil no executivo federal, 130
mil nos executivos estaduais e aproximadamente 600 mil nos municípios –
no Reino Unido, o primeiro-ministro tem livre nomeação para apenas 300
cargos). Há, igualmente, falta de critérios prévios para ocupação de
cargos gerência e direção no serviço público; e não só os de indicação
política, mas em carreiras de Estado, incluindo a chamada “porta
giratória”, quando representantes de interesses privados ocupam cargos
públicos para servir aos negócios empresariais e vice-versa, e isso tem
sido cada vez mais comum em carreiras jurídicas, de auditoria fiscal ou
agências de regulação; - Perpetuação de castas políticas no Poder por reeleições sucessivas em mandatos parlamentares ou por transmissão hereditária.
Política não é profissão, muito menos privilégio de famílias. Não tem
cabimento o exercício de mandatos por décadas, ou a transmissão de
cargos eletivos de pai para filho, como acontece em verdadeiras
dinastias políticas, algumas seculares. O abuso de poder, que impõe
castas políticas no exercício da representação da sociedade, é um dos
principais responsáveis pela perpetuação do atraso social do país,
impedindo processos de renovação e ossificando comportamentos. - Alto custo da atividade parlamentar. No caso
brasileiro, o Congresso Nacional é o segundo mais caro do mundo. R$ 10,5
bilhões em 2018, ou US$ 3,5 bi – US$ 5,9 milhões por parlamentar,
apenas superado pelo custo parlamentar dos EUA. As Assembleias
Legislativas somam um custo total superior a R$ 11 bilhões e as Câmaras
Municipais outros R$ 11,3 bilhões. No total R$ 33 bilhões. É muito.
Quando escrevi um primeiro estudo sobre o custo da atividade parlamentar no Brasil,
em 2013, esse valor já era exagerado, ultrapassando R$ 20 bilhões. É
chocante perceber que, em apenas cinco anos esse valor, que já era
absurdo, aumentou em mais 50%! Esta soma bilionária, além de drenar
recursos para serviços diretos à população, cria um fosso entre a
atividade política e a sociedade, e tem que ser significativamente
diminuída; - Ausência ou fracos processos de transparência,
acompanhamento e controle cidadão sobre as atividades de formulação de
leis, gestão e fiscalização do Estado e aplicação de Políticas Públicas.
Política nas mãos de poucos e sem controle social resulta em corrupção e
corrompimento do sentido de Bem Comum. Não se trata de uma questão de
virtude individual, mas de desvirtuamento sistêmico. Por isso a
necessidade do espraiamento da Ação Cidadã via mecanismos de controle
cidadão, pois o zelo pelo Bem Comum é responsabilidade de todos, assim
como a democracia, que exige cuidado e vigilância constantes; - Monopólio da mediação da política institucional por parte dos Partidos Políticos.
Os partidos políticos, quando funcionando enquanto tal, são
fundamentais e insubstituíveis, servindo como meio para a organização de
ideias, propostas, pensamentos e ações no processo democrático. Na
ausência dos partidos, o que prevalece é o despotismo e a ditadura. Mas
os partidos também não podem ter exclusividade sobre a mediação política
institucional, cabendo coibir a atuação de cúpulas partidárias, que
sequestram os partidos políticos, transformando-os em propriedade
privada e meio de negócio.
em projetos e leis, buscando consensos políticos para que a cidadania
seja a grande soberana na política, pois só assim haverá democracia real
em nosso país.
II. Uma gestão compartilhada e participativa
política a serviço do Bem Comum pressupõe um conjunto de propostas que
precisam ser transformadas em leis. Não será fácil, isso porque a
maioria delas, se não a totalidade, batem de frente com os interesses do
status quo da Política, em alguns casos com potencial para
implodir o mecanismo de perpetuação no Poder. Exatamente por isso tais
propostas sofrem e sofrerão resistência do Sistema Político dominante. A
saída é a combinação entre ação parlamentar e educação e mobilização
social.
Há que ter um ‘pé dentro e um pé fora’ do parlamento,
apresentando propostas que façam aflorar as contradições do Sistema,
tendo nisso, um sentido pedagógico a alimentar processos de consciência,
organização e ação cidadã. Um Mandato Cidadanista, portanto, tem que
atuar em sentido oposto à acomodação e ao modus operanti do
Sistema Político. Não agindo assim, um Mandato Cidadanista não faz
sentido, reduzindo-se ao habitual conformismo parlamentar, ora
denunciando desmandos, ora buscando pequenas reformas, sem, contudo,
atingir o Sistema em seu cerne.
Não é tarefa fácil, pois
não basta vontade para mudar, há que ter capacidade, experiência e
coragem. E um profundo compromisso ético com outros mundos, formas de
vida e mediação social. O Modo Bom de Governar, do Zapatismo, praticado nas montanhas de Chiapas, no sul do México, aponta relevantes princípios para uma Gestão Compartilhada e Participativa em torno de um Mandato Cidadanista pautado nos princípios do Bem Viver:
- Obedecer e não mandar (ou: Mandar Obedecendo);
- Representar e não suplantar;
- Ir às bases e não às cúpulas (ou: Baixar e não Subir);
- Servir e não servir-se;
- Convencer e não vencer;
- Construir e não destruir;
- Propor e não impor.
Brasil passa pela escrupulosa adoção desses princípios, pois só assim
será possível, algum dia, quem sabe, escrever na frente de cada
repartição pública, na frente de cada câmara legislativa: “Aqui o povo manda, o governo obedece!”.
Historicamente, o
Parlamento é um lugar onde se ‘parla’, onde se fala. Em lugares em que
todos falam, ninguém se escuta; e os que que ‘parlam’ não escutam a
sociedade. Um Mandato Cidadanista necessariamente tem que vir
acompanhado por processos de escuta sensível (escutatórias), através de
círculos escuta e decisão, sejam temáticos ou territoriais, perenes ou
em funcionamento temporal pré-determinado, com propostas e
posicionamentos debatidos em encontros periódicos (incluindo
transmissões ao vivo pela internet, em diálogo direto com o
parlamentar), e processos de consulta e enquetes quanto a votações e
posicionamentos relevantes, sempre observados princípios prévios do
Mandato.
Com os Círculos de Escutatória será possível adotar o
método de consulta, via Micropolítica, com grupos de
opinião/representação, que se debruçariam sobre temas de forma mais
profunda, com objetivo de apresentar parecer para orientação às
consultas públicas.
Escuta, há que funcionar uma equipe de gestão do mandato que seja, ao
mesmo tempo, comprometida com os princípios de construção coletiva e
propostas de transformação, com capacitação técnica e operacional, e que
seja dinâmica e eficiente. Junto a estes, que terão função técnica e
profissional, as Codeputadas e Codeputados.
A ideia dos Codeputados é
uma proposta política, em que o mandato se apresenta como chapa, havendo
a pessoa que, em função do histórico de vida, compromissos e
representatividade, leva o nome na cédula eleitoral e assume formalmente
a responsabilidade. Mas junto dela, de forma voluntária, e em
compromisso político, são apresentados Codeputados, na função de Tuxauas (entre
os diversos povos indígenas no Brasil, o tuxaua tem a função de
representar as aldeias, sem distinção hierárquica e em constante
rodízio), fazendo a ligação do mandato em sua área de atuação, sugerindo
propostas, analisando pautas de votação, etc.
Havendo, ao menos uma vez
por ano, a realização de um Conselho de Visão, com Codeputadas e
Codeputados, além de pessoas de referência, no Brasil e no exterior, em
temas prioritários para o Mandato e a conjuntura do país, e colhendo a
opinião geral dos círculos de escuta.
Emendas individuais de
parlamentares. Por princípio um Mandato Cidadanista deve ser contra
emendas individuais de parlamentares, pois elas distorcem e corrompem a
construção de políticas públicas, tornando direitos em dádivas, gerando
clientelismo e meios para negociações não republicanas. Papel do
Parlamento é aprimorar o orçamento público com emendas coletivas e de
acesso público, não clientelista.
Todavia, enquanto houver esse
mecanismo de emenda parlamentar individual, e obrigatória (em 2017 foi
de R$ 15,3 milhões por deputado federal), o compromisso do Mandato deve
ser a distribuição destes recursos por edital público, a partir de temas
prioritários para o Mandato, em que os projetos devem ser avaliados
através de critérios transparentes e por uma comissão independente.
Por fim. “Uma andorinha só não faz verão”,
assim como a manhã não é anunciada por um galo só. Um Mandato
Cidadanista só pode existir se fruto de um movimento e engajamento
coletivo, não cabendo candidaturas de ‘si mesmo’.
Em 2018 as eleições
serão para o Congresso Nacional, assim como Assembleias Legislativas, e
vão acontecer sob o signo de um Brasil vivendo um contexto de Golpe de
Estado e regressão democrática, com desmonte de políticas e direitos
sociais, manipulação política e instigação ao ódio e à violência.
O
ambiente é de um país dividido entre a Civilização e a Barbárie, entre a
defesa dos interesses nacionais e populares e o ‘entreguismo’, com
submissão aos interesses das grandes corporações transnacionais. É um
tempo de resistência, que exige indignação, coragem e esperança.
A partir da presente
mobilização eleitoral, o objetivo é aglutinar forças para novos
processos de revolução política e social, e para que tenham efetividade é
preciso que eles aconteçam de baixo para cima. O melhor caminho será
formar referências nos municípios, pois é no território que as pessoas
vivem e compartilham suas relações.
Combinando a luta de fora para
dentro, de abaixo até acima, com ética e clareza de princípios,
haveremos de fazer brotar um país como nunca se viu, em que o povo
haverá de mandar, e os governantes haverão de obedecer. Este deve ser o
principal objetivo para um Mandato Cidadanista no momento atual, abrindo
caminho para a Revolução Brasileira, em processos municipalistas de
tomada de poder, com sentido libertário, de busca do Bem Comum, com
generosidade, respeito e coragem.
III. Propostas para uma reforma política a serviço do povo brasileiro
apontado o padrão ético para a sua superação, cabe, de maneira clara e
precisa, organizar as propostas de superação. Não se trata apenas da
superação de indivíduos ou grupos que exercem o poder político, mas da
superação de um bem engendrado Sistema de controle social, político,
econômico e cultural.
Nisso as classes dominantes no Brasil são
realmente competentes, exercendo o mando desde os tempos das Capitanias
Hereditárias. Salvo algumas famílias que exercem o poder diretamente, a
maioria dos políticos, inclusive, não passam de reles empregados das
grandes empresas e castas a ‘cupinzarem’ o Brasil.
Tanto os “políticos”,
quanto a mídia e o Sistema dominante, quando falam de reforma política, a
reduzem a uma simples reforma eleitoral (e sempre com regras que os
beneficiem, registre-se), ora tratando da forma de representação (se
voto aberto, como é hoje, se distrital majoritário ou distrital misto,
ou lista fechada, em que a ordem dos parlamentares é estabelecida pelos
partidos), ora, nem isso. No fundo tudo não passa de ‘distrações’ a
manter tudo como dantes. Para uma reforma política profunda e estrutural
há que adotar as seguintes medidas:
- Redução na quantidade de parlamentares, para 380 Deputados e 54 Senadores.
ao mesmo tempo, ineficiente, caro, não representativo e não responsivo
(capacidade de responder às demandas e necessidades da sociedade). É um
Congresso numeroso mas que, ao mesmo tempo, não representa a sociedade,
ou melhor, representa apenas aos seus patrões, às castas econômicas e
políticas, essas sim, super-representadas por um Congresso que vive de
costas para o Brasil. Neste momento, melhorar a qualidade da
representação política pressupõe diminuir a quantidade da representação,
permitindo um maior controle social sobre a atividade parlamentar e
eficiência no trabalho.
-
Para Deputados. Seriam
distribuídos na seguinte proporção: para o primeiro milhão de eleitores:
4 deputados (mesmo quando a unidade da federação tiver menos que um
milhão de eleitores); depois, para cada 500 mil eleitores, acrescenta-se
uma nova vaga. Em 2018 são aproximadamente 147 milhões de eleitores no
país, distribuídos em 27 unidades da federação (para o primeiro
milhão de eleitores, ou menos, nas 27 unidades da federação x 4 vagas =
108 deputados; para os seguintes 120 milhões, a cada 500.000 x 2 = 240;
mais um máximo de 27 para números quebrados), o que totalizaria um máximo de 375. -
4 Deputados escolhidos pelos povos indígenas.
O Brasil tem uma população originária de aproximadamente um milhão de
pessoas, distribuídas por todas as unidades da federação. Com isso essa
população não consegue alcançar um coeficiente mínimo de representação
em nenhum estado (o último deputado assumidamente indígena, foi o
cacique Juruna, eleito em 1982, pelo estado do Rio de Janeiro, mais com
um voto de adesão e proposto político que propriamente de representação
indígena, até porque ele era Xavante, natural do estado do Mato Grosso).
Não se trata de um privilégio, mas de alteração na forma de votação
para escolha de deputados indígenas, que, para escolha de deputados,
teriam um colégio eleitoral nacional (o que resultaria em 4 vagas, como
nas unidades da federação com menos de um milhão de eleitores). -
Para Senadores. Redução de
Vagas para Senador de 3 para 2 por unidade da federação. A terceira vaga
de senador é resquício do “Pacote de Abril”, da Ditadura Militar, que
instituiu o Senador Biônico.
também tem o efeito de tornar a representação no Congresso mais
proporcional, reduzindo a distorção hoje existente. Atualmente a
diferença de peso do voto entre um eleitor paulista que vota em Roraima –
324 mil eleitores – e um roraimense que vota em São Paulo – 32.715.000
eleitores – é de 11 vezes (uma vaga a cada 40.000 eleitores em Roraima e
uma vaga para cada 467 mil eleitores em SP).
Não se trata de uma
questão regional, que é uniformizada pela representação igualitária no
Senado, mas de uma questão democrática, reduzindo desigualdades na
representação política. Com a nova forma de proporção, a diferença seria
reduzida para 5,7, ainda assim uma diferença, mas ao menos mais próxima
do princípio “um cidadão, um voto!”.
Os EUA, com uma população de 322
milhões de habitantes, tem 435 deputados e 100 senadores, para 50
estados, assim como a França está promovendo sua reforma política para
redução em 1/3 no tamanho de seu Congresso; é inescapável que o Brasil,
com toda sua crise na representação política, trate deste assunto na
próxima legislatura e que ele seja encaminhado para consulta e
deliberação popular, via Plebiscito.
-
Redução em 50% no Custo da Atividade Parlamentar no Brasil.
O custo médio por parlamentar no Brasil é de US$ 4.415 milhões/ano, o
segundo maior do mundo, atrás apenas dos EUA; em países como Alemanha,
França, Argentina ou México é de, respectivamente, US$ 1.191 milhão,
1.079 milhão, 1,917 milhão, 1,777 milhão. Junto ao Plebiscito para
redução da quantidade de parlamentares, deve ser aberta consulta popular
para a redução dos orçamentos para o Congresso, Assembleias
legislativas e Câmaras de Vereadores. A meta deveria ser recolocar o
custo parlamentar no Brasil em equivalência com o custo mundial, o que
significa uma redução de 50% no custo total do Congresso Nacional, que
deveria ser estabelecido em lei. Com isso o custo máximo ficaria em US$ 2
milhões/ano por parlamentar. No projeto de lei para a Consulta
plebiscitária será apresentada a seguinte questão: Congelamento nominal
no orçamento do Congresso, com redução de 10% ao ano até alcançar o
custo médio mundial. Em 2022 esta medida resultaria em uma economia
anual de R$ 7 bilhões. Para Assembleias Legislativas e Câmaras de
Vereadores se adotaria e mesma consulta, no mesmo processo
plebiscitário, acrescentando o veto a que legislativos estaduais e
municipais utilizem recursos de transferências de impostos para o
financiamento de suas atividades, que devem ser custeados exclusivamente
com a arrecadação de Impostos local. Isso resultaria em uma economia de
aproximadamente R$ 5 bilhões em Assembleias legislativas e de 7,6
bilhões em Câmaras de Vereadores. Antes que alguém diga que esta redução
de custos desvaloriza a democracia, ao contrário, ela a valoriza;
primeiro, por tornar a representação mais próxima da realidade do povo,
segundo, por estabelecer um padrão parlamentar com menos excesso e
desperdício, e com isso mais eficiente, terceiro, por aproximar o custo
parlamentar do Brasil ao custo dos demais países civilizados, e ainda
assim a um valor superior a esta média, mas menos absurdo que
atualmente. -
Fim do Fundo Público Eleitoral
(no valor de R$ 1,7 bilhão em 2018), com manutenção da proibição do
impedimento de contribuições de pessoa jurídica, teto para despesas
eleitorais e teto nominal para doações de pessoas físicas para campanhas
eleitorais, incluindo candidatos. O Fundo Partidário já tem valores
elevados para a atividade político-partidária (R$ 800 milhões em 2018) e
o Fundo Eleitoral, criado em 2017, distorce por completo a vontade do
eleitor em renovar o parlamento, isso porque os recursos são
concentrados nos grandes partidos, exatamente os maiores responsáveis
pela degradação da política no Brasil. Na situação atual os brasileiros
são obrigados a financiar exatamente aqueles partidos que o povo mais
rejeita; além de o Fundo eleitoral estimular o mercado de compra e venda
de deputados, como se assiste a olhos vistos. Política ao alcance da
cidadania é política de baixo custo, por isso participativa e
colaborativa. Segue estudo que publiquei a respeito:(https://www.revistaforum.com.br/por-uma-reforma-politica-justa-democratica-e-cidada/ ). -
Fortalecimento de Observatórios da Cidadania
para acompanhamento cidadão sobre licitações, contratações e medições
de serviços públicos. O povo manda e o governo Obedece, esse tem que ser
o princípio, mas isso jamais ocorrerá sem mecanismos de controle
cidadão. A proposta é dar passos adiante nos processos de transparência,
tornado obrigatório o repasse de dados para Observatórios Sociais,
criando um Índice de Custos para contratação de Serviços Públicos (há
dados mais que suficientes para se obter indicadores de custo em todos
os serviços e compras públicas, a exemplo o Índice de Custos da
Construção Civil, tornando mais fácil o acompanhamento e comparação de
custos de contratos públicos). -
Limite para reeleições sucessivas em mesmo cargo parlamentar. Política
não é profissão, é inconcebível que tenhamos parlamentares com 30, 40
anos de mandatos sucessivos. Claro que há exceções, em que alguns
(poucos) parlamentares com sucessivos mandatos o exercem com ética e
compromisso público, mas a regra em mandatos longevos é o corrompimento e
a acomodação. A proposta é estabelecer um limite para duas reeleições
no mesmo cargo. -
Revogatória para Mandatos.
Este é um princípio básico da democracia: o povo é soberano é dele que
emana o poder. Isso está inscrito em nossa Constituição, mas em nossa
democracia sequestrada tal princípio não é aplicado. Há o mecanismo do
impeachment (impedimento), mas que é seguro nas mãos de quem controla o
parlamento, tornando-se fonte de crises e arbitrariedades. Vários países
democráticas adotam o mecanismo da Revogatória, tanto para cargos
executivos como parlamentares. A revogatória seria chamada quando o
eleito descumpre com o programa submetido a eleição (que deveria ser
registrado previamente), ou em caso de desvios no exercício do cargo. Caberia ao legislativo, ou a uma quantidade de assinaturas da população
(ao menos a mesma quantidade de assinaturas que os votos do eleito, para
evitar abusos) convocar Plebiscitos Revogatórios quando se cumprissem
determinados requisitos. Tendo o Brasil adotado o presidencialismo ( e
não o parlamentarismo) como modo de governo, este é o mais eficiente
procedimento para a resolução democrática de impasses políticos,
evitando intermináveis crises (como a que o Brasil vive no presente) e
com solução democrática. -
Prévias Cidadãs e governança democrática em Partidos Políticos. Como
escrito em artigo anterior, os partidos políticos são imprescindíveis
para a democracia, porém, quando os partidos são sequestrados por
castas, tornando-se meio para negócios e negociatas de pequenos grupos,
eles se transformam em obstáculo para a democracia real. Há duas medidas
legais que precisam ser incorporadas à Lei Orgânica dos Partidos: a)
adoção de prévias para escolha de candidaturas ao executivo e ao
legislativo; b) um partido político só poderá lançar candidatos nas
esfera se tiver diretório eleito, não provisório (atualmente há vários
partidos que só funcionam com diretórios provisórios, de modo que o
presidente nacional ou estadual pode trocar direções partidárias por ato
de ofício, sem qualquer consulta às bases). Essa são medidas comuns na
maioria dos partidos democráticos e imprescindíveis para criar um freio à
“Partidocracia”. Junto a isso, o fim do Fundo Eleitoral para
financiamento de campanhas, pois o financiamento de campanhas também é
uma forma de diálogo e compromisso com a cidadania, e deve acontecer de
forma democrática e pulverizada, a partir daqueles que apoiam
determinada ideia. -
Lista Cidadã, com possibilidade de candidaturas independentes. Novamente,
uma medida comum a toda democracia que se pretenda sólida. Pela
legislação brasileira há um monopólio dos Partidos Políticos em relação
ao exercício institucional da política, é isso que torna tão difícil
processos de mudança política no Brasil. Garantindo em lei a
possibilidade de formação de Lista Cidadã, ou candidaturas
independentes, estaríamos criando um saudável contrapeso aos partidos
políticos que, ou se abririam à sociedade, transbordando suas
estruturas, ou estariam condenados ao definhamento.
essas medidas é tornar a política ao alcance da cidadania, mas há também
o efeito da redução no custo público na atividade política, que não
pode ser negligenciado. Como demonstrei nessa série de artigos, o
orçamento público brasileiro despende um valor considerável para a
manutenção da vida política. Isso é necessário, pois democracia custa, e
não ter democracia custa ainda mais caro para a sociedade, mas quando
este custo atinge custos absurdos, ele também é uma ameaça grave à
democracia.
Democracia pressupõe uma vida política sem excessos, com
profundidade na análise dos problemas, ética na condução de suas ações e
coragem e consistência na apresentação de soluções, e isso não está
vinculado a dinheiro e sim a compromisso cidadão; ao contrário, o
dinheiro, quando muito, está associado à distorção do que deveria ser um
compromisso cidadão.
Apenas como resumo em
relação aos custos (pois pretendo retoma-lo em artigo futuro). Em 2018 o
Brasil comprometerá R$ 35,5 bilhão com a atividade política parlamentar
e partidária (R$ 33 bi em custo legislativo nas 3 esferas da federação,
mais R$ 1,7 bi em Financiamento Público de Campanha, mais R$ 800
milhões em Fundo Partidário) -além do custo com a Justiça Eleitoral, que
é de R$ 8 bi-.
Com o conjunto de medidas aqui apresentadas, este custo
total seria reduzido para entre R$ 16/18 bilhões, liberando valor
equivalente para investimentos diretos em saúde, educação e cultura,
segurança e o que mais o povo considere relevante para sua qualidade de
vida. E apontar isso é sim função de um Mandato Cidadanista, que coloca o
povo em primeiro lugar.
Célio Turino
gestor de políticas públicas. Foi idealizador e gestor do programa
Cultura Viva e dos Pontos de Cultura, tendo exercido diversas funções
públicas, entre elas: Secretário de Cultura e Turismo em Campinas/SP
(1990/92), Diretor de Esporte e Lazer em São Paulo/SP (2001/2004) e
Secretário da Cidadania Cultural no Ministério da Cultura (2004/2010).
Autor dos livros: Na Trilha de Macunaíma – ócio e trabalho na cidade
(Ed. SENAC, 2005) e Ponto de Cultura – o Brasil de baixo para cima (Ed.
Anita Garibaldi, 2009), entre outros.
